Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 43 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Ouvindo Casos

Nunca houve tantos recursos terapêuticos, como neste século vinte. Jamais houve tanto recurso em todos os tipos de medicina, como agora, para refazer o corpo gasto pelas doenças ou pela idade. As bênçãos dos Céus se fazem presentes em todas as religiões e filosofias espiritualistas, que estão dando o seu quinhão de esforços para levantar as criaturas dos leitos de dor.

Nesse fechamento de ciclo do fim dos dois milênios, levantam-se em todo o mundo, sistemas e mais sistemas de conduta alimentar, para assegurar a saúde do corpo, de que todas as civilizações se esqueceram e torturaram pelos desregramentos. Escolas e mais escolas surgem e desaparecem, a fim de ensinar aos homens a disciplina das idéias e a educação dos sentimentos, enquanto a dor, os problemas, os infortúnios e todos os tipos de hábitos e vícios perniciosos invadem a família terrena, como se fosse uma calamidade universal. Por onde passamos, notamos o choro, a impaciência, o ódio e a tristeza.

Cada sistema de cura que se encontra, assegura ser o melhor. E o povo continua sofrendo em todas as linhas de frente. As guerras destroem e as leis terrenas impõem. O poder esmaga e os fracos padecem... Todos os casos que ouvimos, deixam transparecer o império dos desequilíbrios, mantenedores dos infortúnios.

Essa é, pois, a situação do mundo atual. O Evangelho está sendo conhecido em todo o mundo. Entre todas as criaturas de Deus, o homem está entregue ao caos, à espera do Salvador de todos. A humanidade se encontra numa encruzilhada, à espera de decisão, e deve escutar o que o Cristo ouviu, quando estava pregado no lenho de redenção desta mesma humanidade. Eis o que Mateus anotou, no capítulo vinte e sete, versículo quarenta:

"Oh! tu , que destróis o santuário e em três dias o reedificas;

salva-te a ti mesmo; se és filho de Deus, desce da cruz!".

O Cristo já estava salvo e nunca ficou pregado na cruz da ignorância Essa assertiva é para nós outros, encarnados e desencarnados, que ainda carregamos um madeiro enorme formado pelo carma, e estamos pregados em todos os tipos de vícios, que nos fazem sofrer cada vez mais, ignorando as causas desses infortúnios a nos fazer gemer nos caminhos da evolução.

Todos os recursos oferecidos são paliativos e não curas verdadeiras, porque são exteriores. Podemos, por intermédio deles, nos fazer crer numa força poderosa, e somente ela poderá nos salvar: é a força da renovação interna, é Deus dentro da criatura, é Cristo despertando no coração, para libertar o ser humano.

Salva-te a ti mesmo, e desce da cruz. Quem pronunciou estas palavras, sem que o notassem, foi o instrumento divino, não no que se referia ao Mestre, mas para toda a humanidade. Ninguém salva ninguém, é a verdade que deveremos estar preparados para ouvir. Depois de Deus, somente tu podes salvar-te a ti mesmo.

Estão chegando à Terra, para todas as criaturas, os meios que os homens podem usar para o despertar espiritual, para que se cuidem. Observa um pouco as coisas físicas, a fim de entender as leis

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espirituais: a água existe nos rios e no seio da terra, mas se os homens não trabalharem para trazê-la ao lar, do lar à vasilha e daí à boca, morrerão de sede, contemplando esse líquido sagrado. Assim é com a comida, a veste, a comunicação, o transporte, o remédio, a instrução. . .

A nossa parte é, por assim dizer, intransferível. Quase todos se esquecem dessa verdade e esperam que a cura, o bem-estar, a felicidade, venham de fora. Esperam o Cristo exterior que já veio e que eles não conheceram.

A volta do Cristo, meu irmão, é pelas vias internas. O Evangelho em si, não salva ninguém; só a sua prática é portadora da salvação. A felicidade é harmonia de todos os corpos dos quais se serve o Espírito, é a tranqüilidade imperturbável de consciência, e para alcançar este estado d'alma, necessário se faz viver as leis naturais estabelecidas por Deus. E antes que despertemos totalmente para isso, tenhamos paciência com o que vier ao nosso encontro. A dor não sairá do mundo, nem dos homens, enquanto existir ignorância no estatuto universal da criação. Vamos modificar nossa conduta! Trabalhar nisso todos os dias, horas e minutos, condicionando os preceitos mais puros no coração, porque o tempo é o agente da justiça; vamos colher o que plantamos.

Não fiques a pensar que nós que escrevemos, que moramos em esferas mais elevadas, já nos libertamos das provações. Nós estamos em caminho, como tu. Esse trabalho que fazemos, por misericórdia, existe para aliar-se com o teu, tornando-se um todo de esforços no bem comum, a se transmutar em luz pelas mãos operantes do Cristo. Estamos semeando, estamos consultando consciências, para aumentar a nossa experiência, que nos dá forças na nossa educação espiritual.

Cada pessoa deve ser médica de si mesma. E quando atingir esse dia, o Cristo terá chegado nela. Todo esse trabalho descomunal das falanges espirituais entre os homens é para que eles reconheçam o valor que existe dentro deles mesmos, os dons que possuem, os talentos que são seus, e usá-los para a sua própria libertação espiritual.

O santo de hoje, no mundo, é aquele que aprendeu a suportar todos os tipos de ofensa, sem ofender-se; a ouvir todos os tipos de maledicência, sem devolução das mesmas aos outros; a sofrer todos os tipos de dor, sem reclamação; que sabe transformar as injúrias em esperanças; que aprendeu a ser alegre, mesmo em meio à tristeza e, que, acima de tudo, ama, desconhecendo todo tipo de ódio que, porventura, surja ao seu encontro.

*

Estávamos ansiosos pelo tocar das doze horas da noite, em nossa Colônia. No salão nobre da nossa cidade espiritual íamos ouvir um mensageiro que, por força da caridade, vinha até nós a nos trazer o que já poderíamos suportar, das verdades espirituais. E o mais interessante para mim, é que ele tinha vivido na França em sua última encarnação, e ainda estou ligado a essa terra que me serviu de berço acolhedor.

Antes do horário estabelecido para a chegada do orador espiritual, entramos e nos sentamos confortavelmente. O salão estava cheio; muitos companheiros que chegaram atrasados ficaram de pé, sem nenhum constrangimento. Nosso salão não tem mistérios, é qual os grandes teatros da Terra, sem muita sofisticação, copiando mais a natureza na sua simplicidade e conforto.

 

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Olhei para a pequena nave onde se postaria o orador, e pensei: "quantas personalidades já não vieram falar neste recinto, sobre tantas coisas nobres!", e conjecturei no imo d'alma: "se pudéssemos fazer uma transmissão de uma fala dessas para a Terra, através do rádio ou da televisão, seria uma beleza.

Convocaríamos a humanidade a um desempenho mais sério na vida que leva e no modo pelo qual deve viver ...

Padre Galeno, ao meu lado, respondeu-me sem que eu perguntasse:

- Lancellin, o pensamento no nosso meio, é como a fala entre os homens é uma voz ainda mais apurada, conforme a dinâmica que é mentalizada e conforme quem o mentaliza.

No tocante ao que pensas, do que poderia ser e de como seria bom que a fala dos Espíritos elevados fosse transmitida para a Terra, afirmo-te que isso não é difícil como se pensa, pelos meios de que dispõem os homens. Não obstante, está sendo feita essa transmissão há muitos anos, por intermédio de aparelhos muito mais engenhosos, que se chama Mediunidade ...

Nunca a humanidade recebeu tanto como agora, em avisos e mensagens sobre vários assuntos. A Doutrina dos Espíritos veio abrir as portas dessas transmissões, e colocar a luz em cima da mesa, sem rodeios, para que todos sejam clareados. O Cristo se faz visível pela disseminação do Evangelho por toda parte. O visual que pensas devesse ser transmitido, para maior segurança dos homens, acerca da vida futura, nem sempre é acertado; os cépticos, mesmo vendo, não acreditam. O maior fenômeno de todos os tempos da humanidade, de toda a Terra, desde que ela existe, se processou na descida de Nosso Senhor Jesus Cristo. E quantos ainda O esperam? E é o próprio Jesus quem fala:

Bem-aventurados os que não vêem e crêem.

O padre silenciou por instantes, e depois continuou:

- A direção espiritual da Terra não força consciências, Lancellin, mas quem se dispõe a aprender encontra todo o aprendizado, estejas certo disso.

As palavras do Padre Galeno confortaram-me o coração. Se naquela noite eu não pudesse ouvir o orador, já me daria por satisfeito, porque fiquei farto verdadeiramente em espírito. Estava saciado, graças a Deus.

Lembrei-me de procurar os companheiros e os vi assentados: Padre Galeno, Celes, Fernando, Kahena, Abílio. E o Miramez? Não iria assistir ao tribuno daquela noite? Fiz menção de perguntar e o sacerdote respondeu-me com delicadeza:

- Miramez encontra-se em outras atividades neste momento. Não te preocupes com a ausência dele. Ouçamos a música que se inicia.

Era uma melodia encantadora, cujo nome é Despertemos. Os sons prendiam as nossas mentes numa concentração sobremodo elevada, e sentíamos um bem-estar indizível.

A prece de início foi a música que levou todos à meditação. Dos lados da nave que iria receber o orador da noite estavam assentados vários Espíritos em perfeita ressonância com o ambiente e, nisto, deu entrada no recinto um senhor de porte elegante e alegre, cumprimentando todos. Subiu à tribuna e iniciou com esta saudação:

- A paz do Senhor esteja conosco.

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- Queridos irmãos em Jesus Cristo, que Deus nos abençoe sempre! Estamos aqui, nesta noite, não com a pretensão de ensinar, por nos encontrar em estado de carência, no mundo da vivência cristã.

Por mais que eu me esforce para mostrar um completo domínio de mim mesmo, sinto, por dentro, vazios que devo preencher com o mecanismo divino do amor - sou um aprendiz que devo aprender sem me queixar de ninguém.

Quando assumimos uma tribuna, damos a entender, principalmente aos que nos ouvem, que somos senhores da palavra e da vivência do que falamos, mas é engano, e por engano somos ouvidos.

Aqui estamos para conviver com todos e por nos sintonizar com o vosso amor, pois trabalhais constantemente em favor dos que sofrem, aqui neste plano e na Terra.

Sei que preciso, e estou trabalhando para isso, voltar ao plano físico. Depois que aqui chegamos, é que notamos e sentimos o quanto é grandioso para nós outros, uma estada na Terra, por pequena que seja. É bom que os que lá estão saibam disso, e que tornem a saber muitas vezes para que possam aproveitar, assim, a oportunidade que receberam, de reencarnar em um corpo físico; isto é um prêmio para o Espírito.

Não trago nada de novo para vos dizer, como podeis pensar. Nada existe de novo de que vós ainda não tenhais conhecimento. Nada existe de mais sublime do que o Amor, com todas as ramificações, que pode sublimar a alma que o praticar.

As mensagens dos Céus, por assim dizer, já estão na Terra, por misericórdia de Deus e bondade do Cristo. Existem livros que retratam os pensamentos mais puros, que têm a capacidade de libertar o Espírito, quando este se entrega às leis divinas. A mensagem nova que um orador pode ofertar aos que o ouvem é a sua presença, a presença com alegria, e o amor que pode irradiar-se com as bênçãos do Mestre.

O que está faltando na Terra e no nosso plano não é teoria, não são mensagens trazendo coisas espetaculares, mas é a vida de todos nós integrada na vida do Divino Mestre, é a vivência daquilo que o Evangelho vem anunciando em todos os pontos cardeais do Universo em que vivemos.

Há uma idéia errônea de que os anjos vivem adorando a Deus nos planos superiores. A adoração lá, nesses planos, constitui-se de trabalhos incessantes. Isto, porque o Senhor nunca pára de criar. Se Ele o fizesse, haveria o caos na criação. O trabalho, em todos os planos da vida humana e divina, é o próprio Deus na Sua glória.

O orador parou por instantes, para que pudéssemos assimilar o que ouvimos e continuou:

Companheiros de ideal! A mensagem que um ser humano lê no mundo físico é quase a mesma que lemos aqui; a diferença está na assimilação dos valores que lá mesmo ele pode se esforçar para recolhê-los no coração.

A humanidade recebe o que pede, na pauta da sua existência. Pedir não é somente falar ou escrever implorando: é rogar nos sons que Deus ouve, é pedir com os atos que a criatura pratica. A Terra tem passado por dramas dolorosos, e vai passar por piores, pelos pedidos que estão fazendo os homens na voz da conduta. Quando um país entra em guerra, sempre o faz por pressão das massas, e elas sofrem as conseqüências daquilo que pediram. Quem já se libertou dessas ilusões e é consciente da verdade, deve, por dever do coração, ajudar os que ainda a ignoram, para que os homens compreendam o sentido da palavra de Jesus, pela voz dos Seus discípulos.

 

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Nós, que aqui estamos, temos muito, mas muito que aprender acerca do amor, da caridade, do trabalho e da educação da mente. Não é por estarmos aqui, nesta Colônia de Deus, que já conhecemos a verdade. Podemos até conhecê-la, porém, ainda não alcançamos a vivência da mesma, que não pode se afastar do amor um segundo que seja, para ser pura e fiel às leis de Deus, que vieram para nós pelas mãos de Jesus.

Eu necessito mais de vos ter a me ouvir, do que vós de me escutardes. Nós somos Espíritos individuais; cada criatura é um mundo diferente; no entanto, somos todos interligados uns aos outros pela presença de Deus. Há algo que falta em mim e que se completa com o outro, e assim é sucessivamente, até o infinito. Graças a Deus, o Seu plano nunca falhou, porque Ele é, por excelência, a Perfeição. Não temos capacidade para falar de Deus e sobre Deus, porque em qualquer tentativa de o fazermos, estaremos diminuindo-o, pela pobreza dos nossos pensamentos e da nossa palavra.

Concitamos a todos os que nos ouvem, para que possamos trabalhar, na Terra ou no céu, de maneira que o bem se evidencie e que o amor e a caridade se estendam em todos os continentes onde exista a vida.

Vamos organizar caravanas e mais caravanas de fraternidade, para que o amor se consolide em todos os corações, e que a fé nos sustente nas nossas jornadas.

O orador levantou a destra, como que se despedindo. Ficamos todos em pé, por gratidão, e alguns choraram em silêncio. Nova melodia foi entoada. Chamava-se Saudade. Ao ouvi-la, não suportei a emoção, e as lágrimas escorreram em minhas faces. Padre Galeno aproximou-se sorrindo, e falou-me carinhoso:

- Lancellin, chora, porque, nestes casos, as lágrimas são o melhor remédio. Elas suavizam a saudade que temos de alguém e que não sabemos onde está, mas que temos a certeza de estar com Deus, e que nunca ficará desamparada.

Não pude responder ao sacerdote; solucei sem interrupção, e pedi a Deus que abençoasse alguém, onde estivesse.

Saímos do grande recinto, fortificados. Parecia que o ar carregava algo mais, além do perfume que nos embriagava: era uma força nova que assimilávamos com facilidade.

- A presença de Cristo, disse Padre Galeno, se encontra nos mínimos elementos que respiramos nesta casa.

Grupos e mais grupos de Espíritos saíam comentando o bem-estar que garantia seus corações para todas as lutas que viessem. Fernando comentou com domínio de conhecimento:

- Esse irmão que ouvimos, que esconde seu nome por humildade, foi um grande iniciado na Terra. Ele deixou no mundo várias obras de muito valor moral e científico, que ainda se conservam atualizadas. O seu poder maior sobremodo indefinível, não é o arroubo da palavra, mas da experiência de milênios, na arte de atrair para a sua convivência o magnetismo espiritual, que faz questão de doar à humanidade inteira, por meios diversos. O seu poder mental ultrapassa o que podemos raciocinar. Esse salão, quando ele vem aqui falar, ou, como ele disse, conversar com os irmãos, fica impregnado do seu magnetismo, de tal forma que por cerca de muitos dias, ainda resta seu perfume e a sua luz.

Fernando mudou o tom de voz e acentuou:

 

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- Este Espírito, Lancellin, vais ter a oportunidade de conversar com ele, e então notarás na sua fala algo diferente, além dos sons articulados. A gente observa uma luz diferente daquela que conhecemos, sair de sua boca e penetrar em quem ouve. A sua mente tem a capacidade de atrair um acervo enorme de forças sutis da natureza, e depois as dispersa pelos ouvintes, como se fosse um sol, carregando-nos de energia divina.

Ele, em tempos idos, foi companheiro inseparável de Pitágoras. Acompanhou Jesus, buscando assimilar as mais puras verdades do querido Rabi. Foi mestre em várias escolas de iniciação espiritual. Conheceu a Grécia, insuflando nos gregos a mais alta filosofia. Não se esqueceu de plasmar nas mentes dos romanos os mais puros conceitos de direito, e sua última estada foi na França deixando páginas imortais de sabedoria que induzem à vivência dos preceitos mais nobres da vida.

Envolvidos pela sublime vibração trazida pelas palavras do orador, deixamos aquele ambiente com renovadas intenções de trabalho.

O salão ficava no centro de um grande jardim, que mais parecia um mundo de encantos, pelas flores e árvores em domesticação natural. Bancos aqui e ali nos ofertavam convites para nos sentarmos e comentarmos os altos conceitos que nos foram expostos. E era o que todos fazíamos. Sentamos e falamos da França, da Itália, da Grécia, do Egito, e da marcha da civilização na Terra. Fomos então avisados de que Miramez estava nos esperando no salão da música e para lá debandamos com entusiasmo.

Fomos apresentados a vários companheiros que estavam em visita à nossa Colônia, e depois partimos, pois a hora nos chamava com urgência para o trabalho a que nos propusemos fazer. A oração deveria ser feita no percurso da viagem para ganharmos tempo, porque qualquer lugar onde estivermos é santuário de oração, é casa de Deus.

*

Descemos numa casa no Nordeste do país, residência simples, sem que demonstrasse conforto. Família grande, onde as primeiras letras da instrução não puderam passar; logo cedo os filhos abraçaram, por necessidade, o serviço rude, para se manterem e ajudar os pais. Era uma família de parcos recursos, cujo chefe estava recolhido em um catre, pois era enfermo de uma doença terrível, que deformava o rosto e deixava alguns membros do corpo em estado lastimável. Já se tinha constatado a lepra, mas nem ele, nem os familiares aceitavam o internamente.

Além da doença de Hansen, ficamos sabendo pelo guia da casa, que aquele irmão era também portador de câncer.

A mulher, magra, mas de uma tempera impressionante, comandava o lar e distribuía o serviço a todos os componentes daquela casa. A distração do pai de família, que não mais podia trabalhar, era uma viola, e nela cantava suas mágoas Era repentista de nascença, e a cena era a mesma de todos os dias - o canto e as rimas que todos assistiam com prazer, comendo beiju adoçado com rapadura.

Aproximei-me daquele irmão e comecei a averiguar o seu estado: a lepra havia destruído toda a engrenagem celular, tornando-o uma ferida viva, e só com muito esforço é que ele podia cantar.

Impacientei-me ao ver tanto sofrimento em uma só pessoa. O seu sorriso, quando acontecia, assombrava a quem o visse pela primeira vez, pelo aspecto que apresentava. Eu estava acostumado a ver muitas deformidades, em vários lugares por onde passara, com a nossa caravana, mas nenhuma se assemelhava àquela. Quis chorar, ajoelhado no chão batido daquele rancho; todavia uma voz interior me

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dizia: "Ajuda, Lancellin! A piedade, nestes casos, piora a situação. Não percas tempo em lamentos que não constroem. Não és tu mesmo quem escreve e fala da justiça de Deus?"

Consegui me refazer... O guia da casa, muito contente com a nossa visita, agradeceu penhoradamente a todos, pedindo para fazermos alguma coisa em favor daquelas criaturas.

Kahena e Celes desapareceram, com certeza em busca de alguns recursos que minorassem os padecimentos daquela criatura de Deus. Abílio, Fernando e Padre Galeno começaram a operação-limpeza, no lar.

Miramez, enquanto esperava que todos estivéssemos reunidos, com os afazeres realizados, passou a narrar a história daquele senhor, que se encontrava naquele catre de sofrimentos:

- Este irmão que ora vemos neste resgate doloroso, viveu uma das suas encarnações na Roma antiga, no século XII, quando foi Sumo Pontífice, que governou a Igreja Católica Apostólica Romana por vinte e um anos, onze meses e vinte e três dias. Ele era um dos agentes mais poderosos das Cruzadas. A sua inteligência para o mal assombrava até o próprio clero romano. Este homem, que inspira piedade, a quem o nosso amor deseja saúde e felicidade, enterrava os hereges nas praias, o corpo todo, deixando somente as cabeças para fora. Mandava, então colocar uma espécie de gaiola, presa na areia por compridos grampos, sobre as cabeças dos indivíduos, e introduzia nessas gaiolas ratos selvagens famintos. Não é preciso explicação do ocorrido. Centenas de homens e mulheres passaram por essa tempestade do seu celerado sentimento de perversidade.

Outros eram estraçalhados nas ruas, amarrados em caudas de animais, ou crucificados de cabeça para baixo, enquanto o fogo ardia e derretia suas gorduras, que escorriam como se fosse o sangue, em um matadouro. No dia seguinte a essas atrocidades, estava ele em palanque, discursando em meio aos aplausos das massas inconscientes, sendo cortejado pelos sacerdotes covardes que agiam como se não pulsasse nos seus peitos uma fração sequer do músculo que se chama coração.

Fiz muita força para não desejar àquele miserável homem, as coisas piores da vida, pois me lembrei do que Jesus nos ensinou e exemplificou: o perdão, sem condições.

Miramez tomou a palavra de novo e disse constrangido:

- Bem, Lancellin, não devemos saber mais nada acerca deste homem. Vamos ajudá-lo, pois o seu fardo é sobremaneira pesado, e a vida lhe representa um jugo incômodo. Deus sabe o que fazer com os alunos que somente aprendem pelo guante da dor.

Saí da casa, no intuito de respirar um ar mais puro e ver as estrelas, que sempre me dão forças para o equilíbrio emocional. Para uma reconciliação por dentro, com aquele homem sofredor, orei a Deus com todos os recursos de sentimentos espirituais que possuía e voltei moderado, já sentindo amor pelo sofredor. Ainda mais, soube pelo guia da casa que o homem não dormia; perdera o sono há muito tempo e apenas cochilava.

Fui observando cuidadosamente, buscando o seu cordão fluídico, e não o encontrei. Examinei o seu cérebro. Parecia uma cidade apagada, que não conhecia a eletricidade e o esgoto. Fiquei estarrecido e a minha mente agitou-se, procurando explicações.

Miramez não se fez de rogado. Chegou de mansinho ao meu lado e disse com sabedoria:

- Lancellin, este nosso irmão está passando por um drama dificilmente comparável. Dado as suas vibrações negativas, em que o egoísmo prepondera, há muito tempo tudo nele se contrai. A maldade neste

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nosso irmão tomou proporções inenarráveis e bloqueou todos os seus sentimentos de fraternidade. O seu corpo astral ficou preso ao físico, por lei de sintonia de alta força de atração gerada pelo egoísmo, e de uns tempos para cá aconteceu o esperado nestes casos: a implosão, causando as variadas enfermidades que ora vemos e que igualmente marcam o seu corpo espiritual.

Tu te abstiveste de examinar todo o seu corpo físico, o que acho louvável. Devemos renunciar a essa especulação, no entanto, há horas em que é necessário falar, para que possamos compreender e sentir as leis de Deus, que nos garantem a colheita conforme o plantio.

E Miramez fez com que eu olhasse, e pude observar com assombro a falta do órgão genital do enfermo, que tinha sido corroído pela doença. Fiquei assustado e perguntei:

- Mas e essas duas criancinhas, que não têm mais de um e três anos de idade? Como pode ser?

Suspirando calmamente, Miramez respondeu com benevolência:

- Essas criaturinhas, que vemos entregues às brincadeiras e sorrisos, são filhos do irmão mais velho com a própria mãe. Estou te falando isso para que possas sentir o drama desta família.

Não quis examinar mais nada. Pedi desculpas a todos, pois queria ajudá-los e que começássemos logo! Reunimo-nos todos, e Padre Galeno proferiu a oração:

"Deus de bondade e entendimento maior!

Permite, Senhor, que possamos ajudar a essas criaturas, que são igualmente Tuas filhas do coração!

Conserva em nossos sentimentos o amor mais puro para com essas almas, a fim de que não mudemos de opinião acerca dos nossos procedimentos. Eles não são maus, como disse Nosso Senhor Jesus Cristo; são ignorantes em relação às leis espirituais.

Tem compaixão destas criaturas, e dá-nos forças para ajudá-las sempre. Essas crianças tão lindas, que ora observamos, que sejam assistidas pelo Teu amor, através dos filhos maiores, e que as Tuas bênçãos sejam favoráveis em seus caminhos. Como condenar mais uma família pelos seus atos desajustados diante das leis naturais, se ela já se encontra condenada pelas provações que não se comparam com todos os infortúnios juntos de muitas outras famílias sofredoras?

Permite, Senhor, que Espíritos do mais alto possam chegar até aqui neste antro de dor, e fazer cumprir o que foi determinado pelo acentuado Amor, trazido a nós pelos lábios do Cristo, quando disse aos homens sofredores: Bem-aventurados os que sofrem, que serão consolados. Eis aqui, meu Deus, um punhado de irmãos que sofrem de forma inacreditável, aos olhos dos que sofrem menos!

Que Deus abençoe a todos. Assim seja. "

No ar, surgiu aos nossos olhos algo como que uma nebulosa de fluidos, que se dividia em filamentos mais ou menos acentuados, de conformidade com as necessidades dos componentes daquela casa. Registramos um ar salutar conveniente ao conforto daquelas criaturas de Deus. Fernando encerrou nossa visita, dizendo com sentimento de caridade:

- Graças a Deus, o Senhor nos atendeu pelas mãos dos anjos! Partimos dali, animados para outras lutas, onde poderíamos conhecer novos casos, para que pudéssemos servir com dignidade e compreender sem julgar. Em plena volitação, Miramez comentou:

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- Temos que copiar o exemplo das estrelas, no modo de nos portar diante de todas as situações que ocorrem no mundo. Elas estão sempre emitindo as suas luzes benfazejas e puras, sem alteração.

Recolhemos nessa noite, vinte e cinco companheiros para os devidos treinamentos. Levamo-los a um parque, e lá os treinamos em volitações, fazendo com que usassem as suas próprias forças. Dali, partimos para um sítio, onde um casal sem filhos passava o fim de semana em descanso e meditação.

Chegamos lá e fomos recebidos amavelmente por um guia espiritual que montava guarda na residência campestre. Havia outros companheiros lotados naquela área de serviço, que atuavam nas estradas, áreas verdes, águas e campos.

Entramos. O casal dormia com tranqüilidade e observei logo o cordão fluídico dos dois. O fio luminoso da mulher brilhava com mais intensidade, e se apresentava mais elástico, dançando no quarto como que dotado de inteligência, enquanto que o do homem se mostrava mais parado e contraído. A mulher se mostrou mais favorável ao desdobramento consciente.

Miramez tocou com a ponta dos dedos o facho de luz da senhora, com os olhos semi-cerrados e disse baixinho:

- Vem, minha irmã, para que possamos trabalhar com Jesus, pelos imensos campos que a grande vinha nos proporciona.

Ela abriu os olhos serenamente, olhou para o marido e pensou:

- Será que foi ele, me chamando? Pode ser, ele sempre faz isso dormindo. Acomodou-se de novo na cama, afrouxou os nervos como aprendera em suas aulas de ioga, para dormir bem e acordar melhor.

Miramez se aproximou mais da nossa irmã, que vamos passar a chamar de Vinte e Cinco, aplicou-lhe passes da cabeça aos pés, descarregando seu organismo de fluidos gastos e estimulando sua sensibilidade, para maior proveito no trabalho a ser feito.

Vinte e Cinco sofreu uma leve tontura e sentiu medo, esforçando-se para não dormir. Miramez renovou os passes calmantes e falou com bondade:

- Dorme, minha filha, dorme descontraída e vem para cá com calma, para o trabalho de caridade que todos precisamos realizar, mesmo descansando o corpo físico. O dever do cristão é aproveitar o tempo em espírito e fazer algo em favor dos que sofrem e choram.

Ela dormiu de novo, e logo o seu corpo astral pairava acima do físico, trêmulo. Ela continuava com medo, com forte impressão de que iria morrer. Quis voltar de novo à casa de carne, mas não conseguiu. Notamos uma coisa interessante: examinei o físico conjuntamente com o perispírito, e deu para perceber filamentos tenuíssimos ligando as glândulas endócrinas aos centros de força, implantados no corpo espiritual.

Admirado, falei comigo mesmo: "Meu Deus! Como é engenhosa essa organização humana e divina, e como se entrelaçam as duas em uma seqüência que escapa às deduções, até mesmo dos estudiosos espiritualistas! ..."

Aproximei-me mais dos corpos em operação, concentrei-me com todas as minhas forças espirituais, e fiquei maravilhado: os filamentos quase invisíveis serviam de canais sublimados, por onde deslizava a energia cósmica, ou, como podem dizer alguns iniciados, o éter cósmico, ou ainda, o prâna dos orientais. Fiquei aturdido com tanta ciência, com a sabedoria do Criador, e pensei em como podem existir criaturas que não acreditam numa força superior que engendra tudo isso numa harmonia

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sobremodo sem par. Se a inteligência humana não pode fazer o que aí está , quem o fez? Somente Deus criou esta maravilha!

Miramez estava por perto, e diante do meu olhar inquiridor, ele passou a dizer com satisfação:

- Lancellin, o que observas não é nada, diante do que está fora de tua visão. Somente percebes aquilo que podes suportar. O que admiras hoje, já foi admirado pelos que passaram pelo mesmo aprendizado por que passas atualmente, e estão, agora, admirando em outras faixas de vida, assim sendo até o infinito.

Essas ocorrências energéticas que percorrem, como vês, esses micro-canais, desembocam como rios no mar, em órgãos computadores e redistribuidores de energias, banhando todo o sistema celular, e ainda operam no metabolismo como agente de equilíbrio e como bênção de Deus, para manter a saúde.

Essa faixa de filamentos que impressionam os teus sentidos são como um facho de luz que se divide no corpo, como acabas de verificar, e se sintetiza num só volume, a esticar-se em milhares de quilômetros em viagem astral. As distâncias que percorre variam de acordo com a evolução da alma, como já tiveste a ocasião de observar. Há irmãos que dormem e não arredam pé do próprio quarto de dormir.

Balancei a cabeça, em êxtase, e falei sem perceber:

- Como pode, como pode! ...

A nossa irmã Vinte e Cinco já se encontrava de pé e admirada. Verifiquei o cordão de prata dela e vi que já estava unificado em um todo de luz, como uma cauda luminosa. Percebi ainda que ela mesma não notava a existência dele e surgiu-me uma perturbação na mente. Avancei um pouco ao lado de Miramez e perguntei-lhe:

- Ela não vê o próprio fio que lhe assegura a vida no corpo físico? O nosso guia espiritual respondeu-me, com ênfase:

- Lancellin, a visão do cordão fluídico nem sempre é conveniente. Ele, para o estudante ou candidato a viagens astrais, torna-se um empecilho. A impressão que dá é a de que vai partir, pela sua maleabilidade, e o encarnado, mesmo ouvindo os mais experientes garantirem e lhe transmitirem confiança, ainda duvida, e essa dúvida é instintiva; é o instinto de conservação em evidência. Em vista disso, necessário se faz que cuidemos de torná-lo invisível, por simples processos de impregnação de determinado fluido, que o confunde com o próprio ambiente espiritual.

Pensei um pouco e tornei a perguntar:

- E no processo de sono natural? Acrescentou Miramez, com habilidade:

- Mesmo no sono natural, que é bem diferente dos processos de viagem astral consciente, que não deixa de ser um afastamento do perispírito, o fio de prata fica invisível ao encarnado, e disso cuidam os guias espirituais de cada um, que têm os devidos cuidados que o caso requer. No entanto, não estamos generalizando o assunto: há Espíritos que podem ver o seu próprio cordão de prata e cooperarem para que ele possa se manter na mais elevada ordem. Ele é uma peça de mais alta sensibilidade, pois qualquer emoção que a alma sente é transmitida para o corpo, com as devidas irrigações de energia em alteração, para todos os órgãos.

Acontecem muitas desencarnações, quando a pessoa está dormindo, e, quase todas, em conseqüência de emoções desregradas. O corpo físico, estando alterado por enfermidades, e que registra

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determinadas alterações psíquicas, falece. No mais das vezes é falta de educação emocional, e é neste sentido que insistimos, que trabalhamos informando a todos os encarnados, para começarem hoje mesmo a auto-educação espiritual. A alma educada conserva serenidade e sempre se sai bem em qualquer acontecimento.

Gostei muito do que ouvi e analisei os recursos que temos em mãos no mundo espiritual. Como o trabalho nos esperava, reunimo-nos do lado de fora da casa e volitamos, de mãos entrelaçadas, cantando um hino de gratidão Àquele que tudo fez, àquele Sol que aquece a todos com o mesmo amor, e pedindo ao Cristo para nos ajudar a ajudar mais.

Descemos em um lugarejo, onde a fumaça e o pó pareciam cobrir todas as casas. A poluição era o aviso da morte, que se aproximava cada vez mais. Alta madrugada. Alguém teve a idéia de andarmos nas ruas como se fossemos encarnados e assim fizemos. Algumas pessoas cruzavam conosco, uns bêbados, outros vindos do serviço noturno.

Era de se notar caravanas de Espíritos que passavam com urgência, certamente em trabalhos idênticos aos nossos. Uns acenavam as mãos de longe para nós, pelo que conheciam dos processos comuns que cercam as atividades no bem. Outros grupos de almas inconscientes passavam também em algazarra, gritando e falando palavrões, sem esconder o que estavam fazendo e para onde iam.

O último grupo de Espíritos trevosos que passou por nós estava em silêncio, ou trocava idéias em voz baixa para que ninguém percebesse. Aproximamo-nos deles e os acompanhamos um pouco, por indução do nosso guia espiritual. Um deles falou com cuidado:

- Olha, gente, o trabalho está feito. O rapaz não passa de hoje. Esta noite, antes que o dia dê sinal de vida, ele vai suicidar-se. Está tudo arrumado e dessa ele não escapa. Agora vamos receber o que nos prometeram. Vamos deitar e rolar na "birita", na pimenta e, enfim, em tudo o que pedimos, por uma semana inteira.

Paramos, sem que eles percebessem a nossa presença, e Miramez assinalou:

- É à casa deste rapaz que vamos, em nome do Cristo, ajudá-lo a sair desta armadilha das trevas. Infelizmente ainda existem irmãos encarnados, que se dizem espíritas e médiuns, para fazer essas coisas. Eles estão ganhando dinheiro para matar esse rapaz inofensivo, mas que desfez um casamento com grosseria. A moça está quase louca de paixão por ele.

Esses tipos de médiuns estão acumulando na consciência espiritual dívidas para o futuro. Eles estão plantando as sementes do ódio e da vingança, e talvez nessa mesma encarnação começarão a colher seus desastrosos frutos. Dessa ordem existem milhares de milhões em todo o mundo, principalmente nos hospícios, porque suas vitimas estão exigindo reparo à custa de perturbação e dor. E o que fazer neste caso? E aconselharmos o perdão, quando conscientes, o amor e a caridade. Esses meios poderão aliviá-los dos fardos pesados que eles mesmos escolheram.

Jesus, por amor a todas as criaturas, trouxe a receita da mais alta importância para a cura de todos esses males - o Evangelho.

A Terra nunca teve tantos doentes e perturbados mentais, tantos desequilibrados emocionais, como agora, e nunca houve no mundo tantos recursos juntos, como agora, porém, a dor campeia com a mesma freqüência, com o mesmo reparo nas suas profundas atividades. Uma cura moral não pode ser

 

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feita através de drogas, nem de xaropes; deve ser feita pela educação dos sentimentos, pela disciplina dos hábitos perniciosos e dos vícios que desarmonizam os corpos físicos e espirituais.

Balancei a cabeça, como que guardando tudo no fichário da mente, e penetramos em uma residência de certo conforto. Entramos em silêncio e ouvimos um arrastar de pés em um dos corredores da casa. Olhamos. Era o rapaz. Ele não dormira naquela noite. Os cabelos estavam em desalinho, e ele repetia frases sem que a razão as analisasse. Já estava condicionado a determinadas frases, senão a idéias fixas de suicídio. Um seu irmão já desencarnado estava do lado de fora da casa, sem poder entrar, diante dos vigias do bando inimigo, que os deixaram orientados para não recuarem diante de quaisquer investidas dos familiares desencarnados. O guia espiritual da casa estava anulado pelas idéias do obsediado.

Vinte e Cinco, depois de estimulada ao trabalho a fazer, e de ter seus pensamentos firmes no ideal do bem mais puro e no amor, passou a enxergar todos os nossos companheiros, e se alegrou com essa bênção. Dispôs-se ao serviço e comentou com Padre Galeno, neste tom de prosa:

- Reverendo, o senhor notou que quando entramos havia dois Espíritos montando guarda na entrada, mal encarados, conversando sobre assuntos bem inferiores?

Padre Galeno, tranqüilamente, acentuou:

-Vinte e Cinco, esses Espíritos são atraídos pelo ambiente de perturbação. Esse rapaz está atuado por vibrações negativas, que encontraram ressonância em seu mundo de sentimentos. Quando é assim, elas crescem e prosperam. Mas, eles não nos viram, e nem têm essa capacidade, graças a Deus, e por isso poderemos ajudar o nosso irmão sem que eles percebam. O bem em silêncio é mais útil às criaturas e mais agradável a quem o faz.

Os dois Espíritos malfeitores procuraram assentar num banco do jardim e era lá que estava o nosso guia espiritual. Enquanto os dois trocavam idéias referentes ao rapaz que se aproximava da loucura, Miramez colocou as mãos nas suas cabeças espirituais, e, com grande força magnética desprendida da sua mente adestrada, eles dormiram profundamente.

Ao passar de alguns minutos, chegaram Kahena e Celes, tendo ao lado dois companheiros muito conhecidos do nosso grupo, que pegaram os dois fardos levando-os para lugares que desconhecemos.

Kahena comentou comigo, brandamente:

Quando eles acordarem, irão ficar furiosos, mas ficarão presos por alguns dias, para que tomem outros rumos, depois desta lição.

Passamos todos para o corredor e Fernando aproximou-se do rapaz, intuindo-o a tomar um banho frio, que o sono viria e ele descansaria em paz. E foi o que o jovem fez.

No banho, Abílio descarregou todo o seu magnetismo espiritual no moço, e este já saiu do asseio comum, abrindo a boca, aliviado. Vinte e Cinco ficou rente à cama, fornecendo para o irmão fluidos calmantes e este adormeceu como que por encanto. Demorou um pouco mas saiu do corpo meio perturbado. Não via ninguém, porém ouvia com facilidade.

Padre Galeno começou a conversar com ele e com a ajuda de Celes e Kahena, o padre tornou-se visível ao moço. Ele se espantou, mas, alegre, argumentou satisfeito:

- Padre, foi Deus quem mandou o senhor aqui, ao meu encontro. Peça a Maria Santíssima por mim, padre, pelo amor de Deus. Eu estou com umas idéias esquisitas!

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Vinte e Cinco também ficou visível, com facilidade, para o rapaz, que não interrompeu sua narrativa, comentando:

- Eu, padre, quero confessar para o senhor o que fiz; eu estava namorando uma moça e a estimava muito. Eu gostava dos seus gestos, dos seus carinhos e do modo como vivíamos.

Com o passar do tempo, eu notei algumas diferenças no seu modo de me tratar e descobri que ela tinha um amante, que me parece, estava em sua vida antes de mim, e que, certamente que essa situação iria continuar depois que nos casássemos. Isso é um absurdo, uma covardia, é uma traição que eu não posso nem devo suportar. Ela, parece, gosta de mim; no entanto, está presa a esse indivíduo.

Eu cheguei ao ponto de maltratá-la. Perdi as "estribeiras" e a ofendi com todos os argumentos de que dispunha; estava ferido e ainda mais com esse tipo de procedimento, perdi a cabeça. Traição, Padre, eu não suporto.

Vinte e Cinco, antes muito alegre e animada no trabalho de recuperação do rapaz, quando ouviu a narração do moço, falando em traição, começou a empalidecer. A sua mente fixou-se em pensamentos inferiores, a sua aura escureceu, e ela já não via os companheiros que ali estavam. Parecia que até o rapaz se escondera sob o véu da incompreensão.

Fernando sacudiu a irmã várias vezes, chamou-a à razão, mas foi tarde Miramez falou com experiência:

- Kahena, vai com o Celes e Abílio levá-la até sua casa. Isso é a intervenção do monstro chamado Ciúme, que ainda mora no coração de Vinte e Cinco. Ela quando ouviu falar em traição, palavra que sempre pronuncia, por achar que seu marido lhe é infiel, se dispôs a ir em busca dele, com medo de ser traída, na sua própria concepção. Ela perdeu mais uma vez a oportunidade de se educar, para servir com mais eficiência. A sua tesoura ainda está cega para cortar as arestas do ciúme. Ela esquece sempre a confiança naquele que é seu companheiro.

Virou-se para mim e acentuou:

- Vai também, Lancellin; talvez dê para anotares alguma coisa interessante. Fui observando, no percurso da viagem de volta, o seu coração fluídico; este se encontrava arroxeado, com pulsações desordenadas e se comprimia com dificuldade. Em um segundo ela avançou para o corpo, acordando assustada e pálida, e, depois de uns instantes falou consigo mesma:

- Meu Deus, graças ao Senhor foi um sonho! Mas que sonho horrível! Sonhei que meu marido estava me traindo. Meu Deus do céu!

Olhou de lado, não viu o marido e pulou da cama, saindo a procurá-lo pela casa. Foi ao banheiro, onde estava o companheiro e o fez abrir a porta em polvorosa, procurando atrás da porta. Nada viu. Cansada e perturbada, tornou a falar:

- Foi só um sonho, e contou ao marido, que queria saber do ocorrido. Ele ficou muito triste, por mais uma manifestação de desconfiança à sua conduta.

Deixamos Vinte e Cinco em sua casa, com seu marido, e voltamos às pressas para ver o moço, onde ficaram Miramez, Padre Galeno e Fernando. Chegando lá, já o encontramos conversando normalmente. Como ele estava em estado de sono, iria entender aquela convivência quando acordasse, como um sonho, mas um sonho benfazejo.

 

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Ali mesmo, Miramez agradeceu aos Céus por tudo que tivemos a oportunidade de fazer e de receber das mãos de Deus.

Naquele momento, chegou uma entidade muito delicada e prestativa; era uma tia do moço, já desencarnada, que nos agradeceu com gentileza e saiu com seu sobrinho em franca conversação.

Nós, já sentindo o raiar do sol, rumamos para a nossa cidade, onde nos esperavam outras etapas de trabalho.

Em volitação, agucei meu pensamento para saber algo do nosso rapaz depois que acordasse. Aproveitei a oportunidade, perguntando:

- Miramez, qual será a situação do moço quando acordar?

O nosso guia espiritual, sem pensar muito na resposta, falou com tranqüilidade:

- O rapaz, Lancellin, vai acordar melhor, bem disposto, porque o fermento pior foi retirado. Aqueles dois Espíritos que foram levados e o passeio que vai fazer, lhe servirão de terapia espiritual. Ele acordará por volta do meio dia, sentindo-se outro homem. No entanto, é preciso que ele assegure o seu próprio equilíbrio com o trabalho e com o esquecimento das coisas inúteis, e, para tanto, receberá certos convites, que lhe servirão como defesa da alma: serão os convites do bem, feitos por irmãos que já sentiram o amor pelo próximo.

- E a moça? Indaguei.

- A moça, continuou Miramez, já está no aprendizado com a mestra mais eficiente que conhecemos, para a evolução que a Terra alcançou; o anjo da dor. Roguemos a Jesus por todos, para que as lições sejam assimiladas com eficiência.

 

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