Iniciação - Viagem Astral
Consultando Consciências
Nós, verdadeiramente, evoluímos com nossos esforços, contudo, não poderemos nos esquecer das experiências alheias, que nos servem de exemplos. A lição dos outros pode despertar em nós uma força poderosa, a nos mostrar caminhos mais convenientes.
Quem pode negar a força de um místico e a influência de um santo, na nossa renovação interior? Quem já encontrou tais pessoas, ou pelo menos leu determinados livros, sabe que eles têm o poder de condicionar idéias nas mentes que os observam, cuja reação o levará a orientar sua vida cm linha mais segura, combatendo instintos até então danosos ao seu coração.
Moisés, quando deu início à feitura do Livro Sagrado, não tinha idéia exata do que poderia ser esse livro. Assim também os discípulos que registraram o Evangelho não visualizavam a força da sua obra diante da humanidade sofredora e carente de paz.
Quem já começa a despertar a consciência para Cristo deve procurar, por todos os meios lícitos, o seu maior desenvolvimento. Nós, aqui do mundo espiritual, nos dividimos em grupos que partem em todos os rumos, para ajudar onde Deus nos chamar para servir. Trabalhar em favor da coletividade, para nós, não tem nada a ver com caridade em beneficio dos outros; a caridade é em nosso proveito, porque estamos consultando consciências e aprendendo neste labor grandioso do bem. A Doutrina dos Espíritos se firmou no mundo, em colunas altamente iluminadas as colunas do Amor e da Caridade. Elas são indestrutíveis, diante de qualquer situação que venhamos a encontrar. Quem vai contra uma criatura que ama, sem exigir o amor? Quem vai contra uma pessoa que faz caridade, sem condições? Até a própria natureza fica ao nosso lado favorecendo-nos com todos os meios disponíveis.
Em todos os capítulos, conversamos um pouco com o leitor sobre o mesmo assunto, porque é nessa conversa que entendemos com mais facilidade o desenvolver de todo o trabalho na área espiritual e física. Nós concitamos os nossos irmãos encarnados, para que leiam raciocinando e analisando as páginas ofertadas pelas experiências dos irmãos maiores, porque nelas, e por elas, poderão tirar algo que pode lhes ajudar a se libertarem da escravidão da ignorância. Mas, uma coisa é preciso: humildade. Ela abre campo de entendimento, para que possamos compreender nas entrelinhas, as verdades distribuídas nas páginas imortais do autor.
As obras de Allan Kardec devem ser estudadas com todo carinho, pois elas são a base para que se possa entender com profundidade, as que dão prosseguimento à revelação das verdades espirituais.
Vamos consultar as consciências com o devido respeito às criaturas encarnadas e desencarnadas, pois elas são livros que nos enriquecem as experiências, na luta em busca da perfeição. Cada dia que passa é outro dia, nos trazendo meios e nos ofertando condições para um aprendizado mais eficiente.
Se em teus caminhos, sejam materiais ou espirituais, surgirem obstáculos, não queiras apontar os outros como culpados. Tudo isso, se estiveres em condições de analisar, haverás de reconhecer, facilmente, que são reforços para as experiências. Nada se posta em nossos roteiros, da maneira pela qual queremos; tudo vem do modo de que precisamos, para que o bem possa crescer em nós.
Se nos conformarmos com os acontecimentos de natureza inferior, eles criarão campo favorável para outros fatos de mesmo nível, e a nossa situação piorará em todos os sentidos. Convoquemos, pois, o
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bem que existe em nós. Acordemos as nossas próprias forcas, alinhando-as no sentido reto que o bom senso indicar, que Deus nunca faltará com as Suas bênçãos em nosso favor.
Nós estamos consultando, e vamos continuar a consultar, consciências alheias, à medida das oportunidades que tivermos; contudo, tornamos a dizer: sem violentarmos e, sim, cooperando com elas. Juntos guardamos o que vamos aprendendo, em uma seqüência interminável.
Se tens em tua companhia pessoas com as quais não simpatizas, não culpes ninguém. A vida é assim, são delas que necessitas mais. Estuda a ti mesmo, e verás que elas estão no lugar certo, assim como tu também. Procura suportá-las com paciência e exemplos dignificantes, porque há muita gente fazendo um esforço grande para te tolerar também, sem que por vezes tu saibas. Modifica-te por dentro, que a vida te ajudará por fora. A tua vida é uma verdadeira sementeira onde as mãos dos atos e dos pensamentos passam a semear, e tu colherás justamente de acordo com o que plantares. Seja somos conscientes disso, o que devemos fazer? Selecionar as sementes no decorrer do amanhã, porque a felicidade vem também do discernimento.
Procura, meu irmão, encontrar a ti mesmo, antes que se dê o dia da mudança das vestes, porque se começar no corpo físico, o aperfeiçoamento da alma, ficará muito mais fácil o aprendizado, no mundo dos Espíritos. O que ocorre com o peregrino inexperiente que é obrigado a viajar, e não procura os guias adestrados, para as devidas informações? Certamente que terá dificuldades e mais dificuldades. Os Espíritos superiores vêm nos ajudar e dar informações, por misericórdia de Deus, para todos nós, de como deveremos nos preparar para uma vida melhor. Se não quisermos ouvi-las, sofreremos as conseqüências desastrosas.
Aqui no mundo espiritual, na faixa em que habitamos, as oportunidades de trabalho são sobremodo grandiosas, e o próprio trabalho nos mostra a senda do aprendizado, sem nos obrigar a tais funções. Isso é maravilhoso.
*
Estávamos no centro da 2 Colônia do Triunfoonde se ergue, majestoso e soberano, um edifício por nome Lápis de Luz, que se perde nos espaços.
Subimos a uma plataforma, à guisa de elevador, que corria por fora do prédio e que nos levou até onde pretendíamos. Era a biblioteca de proporções descomunais, que ocupava todo um pavimento. Música suave enchia o salão de serenidade espiritual. Movimentavam-se muitos Espíritos que, pelo que notávamos, pesquisavam diversos assuntos, de acordo com seu interesse. Tive a curiosidade de observar os nomes de muitos livros que foram escritos na Terra, por grandes vultos da humanidade. Logo me interessei em saber porque eram transcritos livros do mundo material para o espiritual, se a Terra se encontra em nível bem mais inferior do que essa nossa região.
Mas também pude notar muitos outros livros, ou a maior parte, que eram vindos do mundo espiritual elevado; obras-primas que tivemos a oportunidade de folhear alguns deles, com o maior respeito e admiração.
2 Vide Além do Ódio, de Sinhozinho Cardoso, psicografado por João Nunes Maia, Editora Espírita Cristã Fonte Viva.
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Alguém ao meu lado lia com grande atenção de Shakespeare, O Sonho de uma Noite de Verão, mas, como também eu conhecia bem as suas obras, notei que nesse original havia algumas modificações. Olhei para o lado e o nosso guia veio em meu socorro, dizendo:
- Lancellin! Muitas das obras escritas na Terra, mesmo que o autor não fale ou não perceba, são mediúnicas. Quanto melhor o aparelho, mais perfeita a escrita. Claro que todas elas têm "cochilos", umas mais, outras menos; esse aí é o original.
Passei adiante. Outro Espírito olhava com interesse um livro que trazia como autor o nome René Descartes, e o título era "Meditações Metafísicas", onde ele deixava transparecer grandes conhecimentos espirituais, cujos segredos somente o futuro poderá desvendar. Também este com muitas modificações, em relação ao que conheci na Terra. E assim vários outros, como Kant, Pitágoras, Platão etc. Fiquei em suspense, e logo tive notícias sobre a realidade; Miramez abeirou-se de mim e disse com bom humor:
- Não te assustes, meu filho. Não é por essa causa que temos grande interesse em divulgar e aprimorar a mediunidade, na Terra? Ela existe, e é exercitada em toda parte e não apenas nos arraiais do espiritismo. Ela surge na ciência, na filosofia, e em todas as religiões. Não fora ela e nada passaria do mundo espiritual para o material com mais acerto, porque a matéria o impede. Além disso, os que reencarnam já vestem a carne com inúmeros problemas, que interrompem e distorcem os assuntos mais elevados. Somente a mediunidade ajuda o progresso em todos os sentidos. Os Espíritos interferem na vida humana, muito mais do que os homens espiritualistas pensam, e ai destes se não fosse isso.
Em tudo na vida existe o intercâmbio, para que a vida flua em toda a criação de Deus. Até na conversação de duas pessoas, em qualquer faixa de existência, poder-se-á notar a intervenção espiritual. De acordo com o clima das idéias, observamos a verdade da sintonia: atraímos o que pensamos e sentimos. Daqui a uns mil anos, a mediunidade na Terra será o dom mais respeitado e bem cuidado, porque por ele vem o comando do mundo espiritual superior.
Compreendi o porquê de muitas coisas na Terra, até as próprias contradições. Mas, ainda restavam algumas dúvidas na minha mente, e pude levá-las a Miramez, na seguinte exposição de idéias:
- Então os médiuns conscientes nesse exercício, como no caso dos médiuns espíritas, filtram as mensagens perfeitamente puras, do nosso mundo para o físico? Concordo que no caso dos escritores comuns exista alguma intervenção, por não terem esse dom desenvolvido, contudo, e no caso primeiro, dos espíritas?
Miramez, com gentileza, respondeu em meigo tom de voz:
- Lancellin, vais ter essa experiência no comando mediúnico, e vais encontrar as dificuldades inerentes ao ser humano. São dois mundos diferentes, que se entrosará por sintonia, mas, não tanto quanto desejamos. É bom que saibas que no nosso próprio intercâmbio, daqui com o mais além, há interferência nossa e as deficiências dos médiuns que residem no nosso plano, interrompem muitas verdades que temos ânsias de conhecer; quanto mais daqui para os encarnados quando os problemas são bem maiores e as dificuldades inúmeras! Não existe, na Terra mensagem alguma que retrate a verdade pura, por não existir pureza no mundo das formas. As deficiências humanas atraem, por lei, um tanto da verdade que os encarnados podem suportar. A Doutrina Espírita não deixa de ser uma bênção maior, por facilitar a passagem da verdade mais acentuada, de maneira que cada um absorva nas páginas, de acordo com a sua evolução.
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Cada vez eu me sentia menor, diante de tanta grandeza espiritual e da ciência da comunicação. Fiquei pensativo e levei outra pergunta, dentro do clima do aprendizado:
- E no caso das aparições de Espíritos de alta estirpe, que fazem conferências em nossa Colônia? Eles são influenciados pelo meio e por aqueles que lhes servem de instrumentos, se assim for o caso?
Miramez assumiu uma postura respeitosa e falou com dignidade:
- Lancellin, eles realmente recebem o impacto do magnetismo ambiente, mas já conhecem de antemão as condições espirituais da coletividade e dominam tudo e todos, pela energia flutuante que os circundam. Eles falam porque sabem e sentem as nossas necessidades, não porque escutam as nossas rogativas. Essas almas que já conquistaram a paz de consciência e a tranqüilidade imperturbável têm os sentidos apurados e sabem selecionar o que devem e podem falar, na escala em que nos encontramos. E acontece um fenômeno dos mais importantes: cada um de nós registra e compreende somente o que nos convém registrar e compreender, na faixa em que vivemos na escala evolutiva. Eles são conscientes disso. Esse é, pois, um dom, por excelência, divino, inerente aos seus Espíritos livres das influências externas, porque já venceram a barreira das trevas e podem ouvir o Cristo interno, na luz do coração, e nas experiências do aprendizado acumulado.
Tive uma sensação de pequenez, e me senti um nada. Pensei no silêncio da meditação: "Meu Deus! Se é assim, o que posso fazer na minha ignorância, em favor dos outros? Nada, nada. .
Miramez, respondeu-me ao pensamento:
- Podes fazer muito, desde quando os teus trabalhos respeitem os direitos traçados pela vida, em favor das vidas. E lembra-te de que a humildade no aprender amplia as condições do aprendizado, abrindo condições no próprio mundo interno, para que despertem outras virtudes imprescindíveis à sabedoria universal.
Senti e notei o quanto tenho de reformar as minhas emoções, modificá-las, para que circulem nas avenidas de minha vida as leis espirituais e naturais criadas por Deus. Passei mais adiante e vi um companheiro folheando algumas coisas com interesse. Ele, olhando para mim, sorriu, e apanhei no ar que o sorriso correspondia a um cumprimento. Como tenho a natureza de conviver com facilidade, abeirei-me dele, recebendo as boas vindas. Ficamos à vontade. Como na Terra, quando fazemos amizade, cada um quer saber algo da história do outro, e, no meu caso, muito me agrada o passado dos outros, e gosto, vendo nisso algum benefício para alguém, de falar do meu; assentamo-nos comodamente em uma ampla sala de estudos, onde havia algumas pessoas pesquisando, talvez como nós. Falei-lhe ao coração:
- Espero que sejamos bons companheiros. Fui vendo-o e brotou em mim simpatia pelo teu modo de ser. Confesso que da minha parte já somos bons amigos.
Ele emudeceu: era emotivo e também gostou de mim. Falou-me com atenção:
- Qual é o teu nome?
Repliquei:
- Lancellin, às tuas ordens.
Ele sorriu e argumentou:
- Boa vibração tens, pelo nome. Gostei!
Sorrimos juntos. Perguntei por minha vez:
- Teu nome?
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E ele foi dizendo com desembaraço:
- Aristóteles, nome que herdei pela paixão do meu pai por esse grande filósofo, do qual sou, também, admirador incondicional. Aliás, esta obra que estou pesquisando foi escrita por ele. Alimento gratidão por essa grande figura que viveu, como deves saber, mais de trezentos anos antes do Cristo. Na minha predileção também está Manuel Kant, filósofo alemão, esse de época mais recente mas que, em cujas obras também fluem grandes verdades espirituais. Está programada para mim, e eu aceitei com muito entusiasmo, nova reencarnação, e desta vez na perigosa profissão do Direito. Para tanto, temos de nos preparar desde aqui, e principalmente aqui, sobre o direito. E para que possamos ter uma noção do assunto, com mais profundidade, é razoável que estudemos as bases da filosofia. Temos que buscá-las nesses grandes homens, que serviram de médiuns para tais primores, que refletem as leis naturais de Deus. Depois entramos nos grandes juristas, porque esse preparo, ou ante-preparo, facilitar-nos-á os estudos na Terra e, até mesmo, o exercício da profissão.
Virou-se para mim e indagou:
- Gostas de Direito?
Como já estávamos familiarizados, respondi bem humorado:
- Aristóteles, meu amigo filósofo, eu gosto mesmo é das coisas certas. Ele riu muito e contou-me a sua vida; contei-lhe a minha e nos separamos.
Olhei por uma abertura e vi que os companheiros de trabalho me esperavam em uma praça, onde as flores embelezavam o ambiente. Desci apressado e ganhei a avenida que ajudava a embelezar o imponente edifício Desculpei-me pela demora, mas Celes falou-me, complacente:
- Não te preocupes com isso, Lancellin. Aproveitamos o tempo para conversar sobre muitos assuntos, principalmente sobre um que muito me alegra e interessa: é a tranqüilidade imperturbável, que tanto busco dentro e fora de mim, a qual ainda desconheço.
Fiquei interessado pelo assunto, que também almejo com ansiedade. Notei, na praça onde estávamos, grupos de Espíritos que nunca tínhamos visto por ali. Como nós, eles também se sentiam admirados com o visual da Colônia. Supus, com exatidão, que eram todos de fora, que pertenciam a outras paragens, e logo perguntei ao Padre Galeno, que estava próximo de mim:
- Padre Galeno, o que vejo? Estes companheiros, que me parecem estranhos, de onde são eles?
Padre Galeno, em bom tom, respondeu:
- Na Terra não se organizam excursões turísticas ou para participação em congressos, visando ao aprimoramento em certas áreas, ou para confraternização de classes profissionais? Aqui é o mesmo, aliás, lá é cópia daqui. Dos outros planos da vida espiritual vêm grupos e mais grupos que pertencem a outras cidades do Espírito, trocando experiências e computando dados sobre a vida. Isso é muito válido, meu irmão. A vida torna-se mais fácil pela ajuda de experiências trocadas nas bases da fraternidade pura.
Fiquei satisfeito e senti o meu próprio caso. E como me valiam essas experiências! Andamos um pouco e alcançamos uma gigantesca plataforma de embarque e desembarque. Dos lados dela, salões de espera sobremodo encantadores, com muitas atrações mutáveis, de maneira a entreter os passageiros por alguns momentos. Quase sem percebermos, pousou uma enorme nave silenciosa de onde desceu uma multidão de criaturas afogadas em seus deveres. Alcançamos uma escada que deslizava para dentro do aparelho e entramos. Fiquei pasmado pensando: "Por que não vamos pelo processo que tanto usamos, a
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volitação?" Traduzi o pensamento em pergunta, afogado pela curiosidade. Fernando respondeu com interesse:
- Lancellin, esse aparelho é dos viajantes de outras plagas, que o colocam à nossa disposição enquanto estiverem aqui em trabalhos de pesquisa. E nós devemos usá-los para mostrar o nosso interesse pelas coisas que os levam à busca do bem. De fato, isso é para nós outros desta colônia, uma grande distração, como igualmente uma economia pessoal de energias espirituais.
Sentamo-nos confortavelmente e passamos a ouvir música.
Que perfeição esse aparelho! Dali poderíamos nos comunicar com o lugar que desejássemos, com todos os setores de comando de trabalhos da Colônia. Enquanto eu estava olhando tudo, passando em revista as coisas interessantes, alguém tocou em meus ombros e falou ao meu ouvido:
- Lancellin, os outros já desceram. Admirei-me.
- Já chegamos? Perguntei. E não tive, daquela vez, oportunidade de examinar o aparelho demoradamente, todos os seus detalhes, que são muitos. Descemos em outra plataforma e já dava para ver uma grande metrópole da Terra. Quando olhei novamente, com gratidão, para a nave que nos trouxe, ela já tinha desaparecido nas profundezas do infinito. Mesmo assim, lembrei-me de Deus, e falei com o coração:
- Obrigado, Senhor!
Descemos da plataforma espiritual usando os nossos recursos de volitação, e antes de pisarmos no solo humano vimos um casarão cujo esplendor era fascinante. A casa tinha uma aura que a policromia conhecida no mundo não poderia colorir, suas luzes se espargiam em todas as direções da grande cidade.
Era uma organização espiritualista, onde se cultivava a meditação, onde se praticava a caridade, onde havia muitas palestras semanais para o público. A fraternidade era realmente o clima do prédio que se erguia à nossa frente, e que falava de Deus pelos seus aspectos de serenidade. Multidão de criaturas entrando e saindo, livros de todos os tipos que expressam Jesus como Mestre e Senhor e mostrando a variedade de ângulos educativos da Sua majestosa doutrina, revelações espirituais dando seguimento às obras do Codificador, departamentos programando trabalhos para todos os componentes da instituição, conversações em grupos que me punham admirado. Nunca vira tais coisas na Terra. Fiquei impaciente e perguntei a Miramez.
- Será que eu poderia saber algo mais a respeito do que vejo? Muito raramente encontramos tantas luzes de entendimento juntas. Penso que mesmo no mundo espiritual isso não é comum. É aqui na Terra? Desceram todos os anjos dos planos da Vida Maior e pousaram neste quinhão de trabalho?
Engasguei na expectativa e Miramez, com prudência, respondeu amável:
- Também acho uma maravilha. É realmente uma bênção de Deus e misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu, quando passo por aqui, meu filho tenho o ímpeto de ajoelhar-me diante desta casa e beijar o chão com humildade. Isso que vês, essas luzes e cores, formam o conjunto dos ideais em forma de claridades. São, de fato, anjos que se deslocam, dos altiplanos da Vida Maior, que descem até a crosta, supervisionando a obra na Terra e dispensando todos os cuidados à divulgação do Espiritismo, a fim de cumprir as profecias de levar o Evangelho redivivo a todas as criaturas e a todos os países. A luta está travada, entre a treva e a luz, e nós devemos dar graças a Deus de podermos participar deste
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movimento, onde se ergue a bandeira incrustada de estrelas, balouçando sob os ventos da fraternidade cósmica, com o lema em saliência: Deus, Cristo e Caridade.
Eu sentia tal emoção, ao ouvir aquilo da boca de Miramez, que queria entrar logo no casarão, e contemplar os dirigentes daquela respeitável instituição. Para não perder o fio da meada, na compreensão do assunto, pedi desculpas, e falei animadamente:
- Mas, que beleza o que me dizes! Então, os Espíritos que dirigem essa casa de Deus devem fazer parte da corte dos anjos que dirigem a Terra, não?
Ele olhou-me com melancolia no semblante, e falou com humildade:
- Meu filho, eles, os dirigentes desta instituição que muito respeitamos, fazem parte da falange dos homens, com muitos defeitos a corrigir, como nós outros, mas, de boa vontade, que costumam lutar até o fim, diante de todas as dificuldades que sempre surgem. Porém, são conscientes do plano de Deus estabelecido nesta casa.
O Espiritismo é de ordem divina e não humana. Os homens, até certo ponto, fazem o que desejam; contudo, a direção espiritual intervém quando a conveniência ditar, porque a Verdade é Deus, e por Sua vontade não existe poder humano que não caia. Muitas pessoas na Terra esmorecem com certos fatos que acontecem nas lides da Doutrina Espírita, achando que a sementeira da verdade está fracassando. Como se engana, essa gente! Ela percorre justamente os caminhos idealizados por Deus e executados por Jesus e Seus companheiros mais diretos. Os homens fazem, Lancellin, somente aquilo que a sua evolução permite. Como pedir mais a quem nada mais tem para dar? Seria um contra-senso. E se nós queremos cooperar com o movimento do bem universal dirigido por Cristo, comecemos a renovação dentro de nós, porque é aí que se inicia o caminho para a libertação, cortando arestas e aprimorando atitudes. Quando nós criticamos os nossos companheiros na Terra, lançamos entulho em nossa própria estrada, e certamente nos demoramos na limpeza do caminho para passarmos. Ninguém, meu filho, consegue interromper a obra de Deus. que é o nosso próprio bem.
Fiquei estonteado, mas a lição encaixou bem na minha consciência. Parti para maiores elucidações:
- Mas, o que se ouve aqui, os assuntos, as intenções, os conselhos, é coisa de nos deixar pasmados. Somente os Espíritos evoluídos podem assim proceder!
Miramez, paciente mas interessado respondeu:
Tudo que nós observamos, Lancellin, na área do espiritualismo em geral, está na escala das teorias, umas mais acessíveis à prática, outras menos. A verdadeira integração na vivência do amor e da caridade ainda demora, mas graças a Deus estamos a caminho.
E acrescentou:
- Confiantes na força divina, não devemos perder tempo na execução daquilo a que fomos chamados a fazer.
Pensei comigo mesmo: "a coisa na Terra não é tão ruim assim, como costumamos falar; os recursos de Deus estão em toda parte, esperando, a nossa disposição, e nem sempre atendemos a esse chamado que nos vem através de muitos acontecimentos." Alguma coisa dentro de mim falava alto, e em bom som: "As religiões brigavam antes umas com as outras, e continuam até hoje, em discussões improfícuas, cada uma querendo mostrar a posse da verdade; entretanto, não são as religiões em si, que.
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ainda não descobriram a verdade que as liberta da ignorância. A verdade não tem dono, não é mercadoria comprável, é força de Deus que irradia as leis naturais. A nossa alegria é que os tempos passam e também passam as idéias obsoletas dos homens que esqueceram o progresso". Notei que a voz que me falava era a de Fernando. E era mesmo. Telepaticamente, ele conversava comigo, ajudando a acalmar as minhas interrogações.
Dali saímos e chegamos a um navio da marinha de guerra, grande casa flutuante ao balanço das ondas. Alguns vigias espirituais se postavam inquietos em pontos estratégicos, embora não notássemos perigo visível. O mar cantava a sua canção costumeira, e aquele cheiro característico nos dava uma impressão de outro mundo. Verdadeiramente era o mundo das águas, o mundo das lendas, muitas das quais de fundo verídico. Descemos, na paz do Senhor, e logo fomos recebidos por um Espírito muito alegre que nos convidou a entrar, e tocou imediatamente no assunto:
- Caros companheiros, foram os bons ventos que os trouxeram aqui, e as ondas da paz que os fizeram chegar a esta nossa casa, a casa que serve a todas as causas da justiça. Peço desculpas, se a nossa conversa vos importuna, mas estamos pedindo socorro, e não há melhor coisa do que pedir a quem pode dar como à nossa Colônia, através dos benfeitores que ali vos dirigem com todo afeto e amor. Nós estamos sendo visitados, de vez em quando, por entidades duvidosas as quais nos deixam uma impressão desagradável. O certo é que elas pretendem alojar-se neste navio, o que seria para nós um desastre espiritual, e o meu maior interesse é que nesta casa do mar haja harmonia e que se trabalhe nas linhas da justiça, instruindo os camaradas que vierem em busca de auxílio. Somos muitos os que trabalhamos e vigiamos este navio, contudo, os problemas são inúmeros. Não quero que levais a mal se estamos comentando coisas desagradáveis, porém, preciso de ajuda para que se restabeleça a harmonia e o auxílio que esperamos de vós, é, por assim dizer, um preventivo. Nessas horas eu me lembro de meu pai, que sempre dizia: "Antes que a cobra cresça, corte-lhe a cabeça".
Sorrimos todos.
Miramez, com a tranqüilidade que lhe é peculiar em todos os casos de assistência, falou com bondade:
- Não precisas afligir-te, meu irmão. Nós estamos aqui a pedido da nossa Colônia, e o que estiver ao nosso alcance, nós o faremos com prazer. Não pode existir acanhamento entre os que servem com Jesus. Enquanto o navio físico tem o emblema de guerra, vós vos inspirais na paz. Esse é o nosso dever: ajudar onde estivermos, dando o nosso esforço para que as coisas certas se estabeleçam na Terra e a coloquem na vanguarda dos mundos que buscam a harmonia. Silenciou um pouco e terminou:
- O bem nunca se perde. Seja onde for, e de que tamanho for, ele é sempre luz dentro da luz de Deus.
O comandante espiritual do navio nos entregou, simbolicamente, a chave da cidade flutuante, e falou com alegria:
- Pedi, se fosse possível, a vossa presença, por ter grande confiança nos vossos trabalhos, principalmente, pelos de que tenho notícias. Alegro-me por ver desmanteladas muitas quadrilhas de Espíritos malfeitores que andam por aí, perturbando a vida de muitas pessoas e intranqüilizando ambientes que dispõem de muitos recursos de ajudar. Mas, graças a Deus, a luz é sempre unida, e está sempre presente quando as trevas se aproximam. Eu sei, por experiência pessoal, que somente o amor
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revigora o que está em decadência. Não obstante, esse mesmo amor, quando se trata de Espíritos renitentes no mal, que não respeitam as advertências, transforma-se em justiça e se, no caso, a justiça é pouca, ele se transmuta em energia, que faz lembrar a contra-violência, sem que seus instrumentos se alegrem naquilo que foram chamados a fazer, no que tange à ordem, porque sem ordem não pode haver progresso. E acrescentou:
- Desculpai-me o entusiasmo em defender o nosso navio, em defender aqueles que trabalham para o bem da humanidade. Eu, às vezes, me altero um pouco.
Padre Galeno olhou para Miramez, conversaram mentalmente e sorriram nas ondas espirituais. O sacerdote tomou a palavra com interesse, dizendo:
- Comandante, nós estamos entre irmãos e nos consideramos partícipes da mesma família. Interessamo-nos por tudo que possa levar essa casa ao equilíbrio.
O comandante, diante das palavras do Padre Galeno, era todo ouvidos, pressentindo que havia alguma coisa errada.
- Nós, ao descermos neste navio, notamos que ele estava apagado espiritualmente, e isso é motivo de alarme para a sua paz. Logo notamos o que está faltando para essa casa de Deus. Deixaram crescer alguma erva aqui dentro, onde podem se ocultar algumas serpentes. Esqueceram-se de arrancá-la, protegendo a casa contra o joio. Há uma locução latina que diz: "Latet anguis in herba". Essa é a verdade: os irmãos desta casa se esqueceram da oração. Não disse o nosso Mestre que deveríamos vigiar e orar? Desculpa-nos a franqueza, mas vós estais somente vigiando e vos esqueceram do complemento divino que, faltando, toma tudo perigoso, abre-se com isso uma brecha de que os invasores se aproveitam para perturbar. A prece, meu filho, é a luz que espanta as trevas de qualquer ordem, e nós todos, no serviço do Senhor, somos obrigados a saber disso. Não sei como te esqueceste desta proteção que Deus nos deu, para que pudéssemos entrar em contato com Ele.
O comandante balançou a cabeça e os seus olhos se molharam. Obrigado, padre, o senhor tem razão. Foi um lapso da nossa parte. Isso deve ser corrigido urgentemente e eu peço o vosso concurso. O Padre Galeno continuou com serenidade:
- Não queremos ferir a tua sensibilidade, já que ora nos ouves com atenção, mas, esse é o mal de quase todos os lugares, onde se alojaram os Espíritos das trevas, porque a escuridão é incompatível com a luz.
Saímos dali para um amplo salão, onde suave música derramava no ambiente um prenuncio de paz. Todos nos acomodamos e Miramez pediu ao comandante que fizesse a oração, e que nós iríamos acompanhá-lo pelos sentimentos. Ele se postou com humildade e falou com a voz embargada de emoção:
Supremo Comandante de todos os mundos!...
Nós rogamos as Tuas bênçãos, com toda a gratidão que o coração assinala, e pedimos desculpas pelas faltas cometidas neste barco que ora nos serve de casa, e que nos empresta a oportunidade no grande aprendizado da vida.
Ajuda-nos, Senhor, para não esquecermos as nossas obrigações espirituais. Na verdade, tratávamos somente da vigilância, onde o raciocínio nos ampara com os meios de defesas compatíveis com as ofensas, mas sabemos que somente a razão não basta para a nossa harmonia.
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Ensina-nos a orar com humildade e não nos esquecermos da prece em todos os dias da nossa vida, principalmente nesta casa, que representa a vigilância de uma nação. Como é bom termos amigos, como é bom sermos visitados por irmãos que nos despertam diante de um perigo iminente, que poderia nos levar ao caos por culpa nossa, que negligenciamos no dever do espírito! Ajuda-nos, Senhor, a entender melhor as Tuas leis. Eu prometo que, de hoje em diante, não Te esquecerei mais, chegando ao Senhor pelos processos que a oração nos faculta. Perdoa-nos pela falta que nunca mais cometeremos. Graças Te damos, pelo alerta que nos destes.
Assim seja.
As nossas mentes entraram em cadeia de modo extraordinário e viam-se no ambiente fluidos intercruzando-se, a sustentar a nossa fé e aumentando a confiança nos poderes celestiais. Essa energia divina, manifestada pelo poder da oração, formava flores que pairavam no salão, impregnando a atmosfera de um perfume agradável. Quando ficamos à vontade, depois da oração, o comandante chorava com os seus companheiros de trabalho, agradecendo a todos nós pelo chamamento à vigilância maior, que é a súplica Aquele que pode mais do que todos, nosso Deus de amor e de bondade.
Conversamos um pouco mais e Miramez deu as ordens. Colocamo-nos em pontos estratégicos para um trabalho necessário, caso viessem de novo os invasores. Miramez ficou bem no alto do navio com o comandante, e nós outros em baixo, ajudando na operação de defesa, caso fosse necessário. Eu quase nada fazia, para que pudesse observar, e assisti a uma maravilha: Miramez concentrou-se por alguns instantes, atraindo para si uma nuvem de fluidos que me pareciam incandescentes, não sei bem o seu estado, e notava-se a sua mente buscar neste agregado de energias uma ponta que obedecia ao seu pensamento. Ela se estendeu em volta do navio, fechando as pontas, em uma rapidez incrível. Depois, como em um passe de mágica, foi tecida uma espécie de rede, arrematando no cabo antes formado, vibrando em uma intensidade muito grande, para não ser vista pelos malfeitores.
E eles surgiram como bandos, de grupos em grupos, cada um carregando uma espécie de saco escuro com algo dentro, para atirarem em cima do navio. Era um barulho infernal e tive um pouco de receio. No mesmo instante em que eles atiravam os sacos em cima do navio, era projetado um fluido em cima deles, que perdiam as forças e caíam juntamente com os sacos arremessados na casa flutuante. Quando os últimos desconfiaram da armadilha, voltaram desesperados. A matéria dos sacos tinha um odor insuportável e tinha ação anestésica. Os marinheiros espirituais já adestrados na operação, enrolaram aquela gigantesca rede, com a ajuda da própria natureza, e voaram levando-a para lugares indeterminados para nós.
Todos ficamos aliviados. O comandante e Miramez desceram e nos encontramos em festa, desejando que aqueles irmãos nunca mais voltassem ali. O comandante espiritual do navio e os seus companheiros nos agradeceram, pedindo a Deus que nos protegesse sempre, e que a casa estava às nossas ordens, para qualquer hora em que desejássemos voltar. Também agradecemos a oportunidade que tivemos, principalmente eu, pelas experiências anotadas e assistidas, e começamos a volitar. Bem de cima, olhamos para baixo e notamos admirados um círculo de luz em torno da cidade flutuante.
Padre Galeno tomou a palavra, eufórico, dizendo:
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- Agora não podemos dizer que ali não se faz oração. Aquele efeito de luz que temos o prazer de ver é efeito da prece feita pelo comandante do navio. Graças a Deus, aquilo vai servir como defesa espiritual dessa grande nave. Que Deus e Cristo abençoem a todos que dirigem essa cidade sobre as águas!
Demo-nos as mãos e partimos. A minha mente estava fervilhando para saber porque aquele comandante, sendo já um Espírito de certo desenvolvimento, não era dado à oração, pois esse era o dever primordial, ainda mais pelo posto que ele ocupava. Miramez, sem que eu perguntasse, veio em meu auxílio:
- Lancellin, o Espírito também se esquece das principais coisas a fazer, mormente quando está em zonas inferiores trabalhando, como esse caso a que acabamos de assistir. Esse comandante é muito dedicado. Há muito tempo que não tira férias, por amor ao trabalho a que se dedica, e com isso os seus sentidos passam a ser quase como os sentidos humanos. Neste caso, as férias são corno que um alerta, uma limpeza da alma, quando são aproveitadas nos planos mais elevados. Existem certas regras que não deveremos esquecer, para o nosso próprio bem.
E acrescentou:
- Ele, quando encarnado, não era dado à oração, e quando chegou aqui demorou a se acostumar com esta função divina, que nos ajuda a enxergarmos mais a Deus e a nos livrarmos com mais facilidade do mal que por vezes nos cerca.
Entramos em um palacete e os companheiros espirituais que ali assistem nos receberam com muito calor, embora notássemos nas feições de alguns, certa melancolia. Fomos convidados a passar para um recanto espiritual ao lado da residência, mas antes disso deu para averiguar o ambiente pesado daquela família. Aquelas horas da madrugada, eles, os encarnados, estavam jogando e bebendo muito; muitas mulheres já quase inconscientes, perdiam o pudor que lhes resguarda o moral. Palavrões eram proferidos seguidamente. O padrão era baixo, e dos mais baixos. Entidades inferiores igualmente sorviam as bebidas, pelas emanações dos encarnados, saboreando o álcool como se fosse o mais puro alimento. Eles instigavam os homens e mulheres a olhares que desmereciam a compostura. Os assistentes da casa e os nossos companheiros foram para o recanto espiritual e eu fiquei como que amarrado naquele ambiente, verificando os pormenores para depois escrever.
Mas, afirmo, custei suportar o clima sórdido, onde a miséria moral se manifestava livre de qualquer reprimenda. Pensei comigo: "O lar é uma coisa sagrada na Terra. Como pode um abuso deste tamanho? E os filhos?"
Se esses irmãos escutassem meus pensamentos, iriam dizer:
- Os filhos estão dormindo.
E então responderia:
- Dormindo, mas absorvendo, pelos fios da afinidade espiritual, o magnetismo dissolvido neste ambiente de perdição. No amanhã, as filhas terão maior facilidade de acompanhar os exemplos das mães que não souberam seguir as regras das boas maneiras, principalmente em sua própria casa. Os filhos também são antenas vivas, a absorverem as imagens dos pais, pelos exemplos da vida que levam.
Pés entrelaçados por baixo da mesa falavam mais do que bilhetes, sem reverência. De vez em quando aparecia um empregado de cor, trazendo com humildade um vasilhão cheio de cortados de
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lingüiça frita onde a pimenta e a cebola estimulavam o paladar. Aquele irmão corria a noite toda, sem cansaço pronunciado. Os instintos inferiores comandavam a guerra das paixões. Entidades femininas já se encontravam no ambiente, despidas, e inspiravam as encarnadas a fazerem o mesmo. As mais sensitivas já estavam quase sem roupas. Espíritos do mesmo naipe eram como que médiuns das sombras - a mediunidade funciona mesmo sem os cuidados que requer o bom comportamento, sem disciplina, que esquece o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Um pensamento de Miramez invadiu meu cérebro e convidou-me para ir onde eles estavam. Cortei as observações, talvez sem interesse positivo, e apareci no ambiente deles. Que diferença! ... Pedi desculpas por não ter vindo junto com eles para o recanto, e participei das conversações.
O guia espiritual da casa, de nome Geraldo, falou tristonho:
- Meus irmãos, nós temos passado dias difíceis nesta casa; os componentes deste lar não nos ouvem mais. Eles cortaram as linhas de comunicação conosco, pelo modo de proceder, e até as leituras deles mudaram; os livros e revistas lidos, nesta residência, são puramente de sexo. Eles chegaram até o ponto a que vós assistisses uma calamidade no lar e na formação das crianças que, de qualquer maneira, como vós sabeis, assimilam os acontecimentos ocorridos nesta casa. E nós não podemos fazer quase nada em favor deles, por faltar o processo de sintonia, pois quase todos eles são médiuns das trevas.
São quatro famílias que freqüentam este lar, com as mesmas idéias. Vão se ajuntando pelo processo já dito, em faixa onde todos respiram, e as mentes de todos estão presas em um ponto fixo: sexo, através de vários caminhos disfarçados, como sendo vida social, encobrindo o objetivo principal.
Silenciou um pouco e continuou melancólico:
- Sabemos que este drama está ocorrendo por toda parte do mundo. A Terra está passando por um período de transição e a conduta das criaturas, que antes era escondida e reprimida por vários meios que a sociedade impunha, hoje está saindo do normal, mostrando como as pessoas realmente são por dentro. O melhor remédio para essa doença é o tempo, sabemos disso.
O nosso irmão Geraldo calou-se, esperando ouvir algo de um de nós, palavras que servissem de alívio, com certeza. Todos olhamos para Miramez e ele falou com bondade:
- Meus filhos, que o Mestre nos abençoe a todos. Esses nossos irmãos deste lar ainda têm fome dos impulsos que lhes marcam a evolução.
Nós temos o dever de ajudá-los, como a qualquer outro grupo familiar; no entanto, existe um marco onde a vida nos pede para parar, que pertence, como bem disse o nosso irmão Geraldo, ao tempo. Todavia, somente o tempo não basta para o despertar e a bondade divina envia o anjo da Dor. Este anjo, aonde chega, tudo muda, por sua força de transformação. Ele tem o poder de fazer e refazer muitas coisas, que levam as criaturas a se modificarem. O desejo nosso é que almas se transformem por amor, sem precisar da visita dos sofrimentos; porém, isso é quase impossível. São processos esquematizados pelos maiores da espiritualidade, em nome d'Aquele que tudo dirige. Não sofras com isso, caro amigo, pois eles não são maus; apenas ignoram as leis naturais.
Os Espíritos que aí estão são atraídos por eles mesmos, e obedecem à lei dos iguais, que se reúnem por harmonia mental. Vamos trabalhar em favor de todos, sem com isso sofrer por não saber esperar. O Senhor é muito paciente, não tem pressa e nada na vida se transforma em um passe de mágica.
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Eles, com isso que vedes, que por vezes tortura os Espíritos familiares, estão todos os dias diminuindo o tempo de ignorância. Qualquer hora dessas eles vão despertar, pelos processos que já conversamos.
E que seja em breve, em nome de Jesus Cristo!
Enquanto conversávamos assuntos referentes ao trabalho espiritual, Celes, Fernando e Abílio fizeram a limpeza no lar. Os Espíritos malfeitores se retiraram e os encarnados começaram a bocejar, com sono. Perderam aquela alegria que lhes dava o jogo e a bebida. As famílias que ali se reuniam despediram-se e foram embora. O dono da casa, embriagado, após fechar a porta com o servidor, tomou um banho para reagir aos efeitos da bebida e buscou a esposa que já estava na cama deitada de bruços. Ele virou a bela companheira com todo carinho, na força do sexo. Logo começou a gritar por socorro: um filete de sangue escapava pelos cantos da boca da esposa; as emoções prolongadas, e a bebida em excesso cooperaram para o rompimento de uma veia que irrigava os pulmões, já frágil desde o nascimento. Chamaram a ambulância, e a irmã em Cristo foi internada.
Os guias espirituais da casa, querendo prestar o maior socorro possível, pediram a Miramez que os ajudasse naquele momento. Ela tinha filhos pequenos para criar e o marido estava desesperado, bem como todos os demais familiares.
Miramez, ponderado, respondeu com tranqüilidade:
Vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para a recuperação da nossa irmã; contudo, essa doença não somente vai ajudar aos seus filhos, como a todos os seus familiares. É o remédio maior quem vai tomar é ela mesma. Eis que veio a advertência, de forma dolorosa, mas, o que vamos fazer? Quando é desconhecido o amor, nos deparamos com o sofrimento. E não é motivo de muita preocupação, pois todos nós já passamos por isso, no processo das vidas sucessivas. Tudo no mundo pode ser usado, desde quando tenhamos critério. O abuso destrói a nós mesmos. Se a nossa irmã melhorar rapidamente, voltará aos mesmos excessos; porém, se a cura for demorada, a advertência fixar-se-á mais na sua consciência.
Nós garantimos aos irmãos que naquela noite mesmo a visitaríamos, com o propósito de ajudá-la, na paz de Deus.
Pedimos licença a todos vós, orientadores deste lar, porque hoje, agora, vamos tirar nossa irmã, servidora desta casa, do corpo físico, para os devidos treinamentos em viagem astral, como já ocorreu algumas vezes.
Todos sorriram e desejaram "bom trabalho". Nosso irmão Geraldo comentou com alegria:
- Se não fosse ela nesta casa, não sei o que seria deste lar. Ela nos é muito cara!
Descemos para o quarto dos fundos, onde estava dormindo a nossa irmã, que chamamos Nove. Já estavam conosco muitos dos irmãos encarnados em processos de adestramento, que todas as noites reuníamos para o aprendizado em conjunto.
Chegamos ao pequeno apartamento de Nove. Ela estava ressonando. Padre Galeno levou a mão, na suavidade do seu amor, rente ao cordão fluídico da nossa irmã, e ela acordou assustada. Olhou para os lados, pensando, "Uai! Alguém me chamou! Quem foi, por Deus?"
Pude verificar a junção do cordão de prata e o seu recolhimento em uma velocidade incrível, como se fossem infinitas camadas luminosas se ajustando em um tubo. Duas entidades ao seu lado sorriram para nós e nos desejaram bons resultados.
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A nossa irmã Nove tomou um copo de água que estava ao seu lado, e acomodou-se novamente na cama. Fernando, olhando no encaixe do seu nariz, disse- lhe:
- Dorme, minha irmã, novamente. Estamos te esperando para um passeio, cujo resultado será benéfico para o teu coração. Dorme!. . .Não receies.
E ela cedeu aos braços de Morfeu! ...
Nove demorou a sair do físico. O Padre Galeno aproximou-se mais do leito da servidora humilde e começou a dar passes longitudinais, no sentido de desembaraçar a junção dos dois corpos. Passados mais alguns instantes, ela começou a flutuar acima do físico, afastada cerca de uns dez centímetros, mas, tinha a propensão de voltar novamente ao mesmo.
Fernando tornou a falar com segurança, como se estivesse visando um ponto dentro da sua cabeça:
- Irmã, descontrai, cede ao relax e vem para o nosso meio! Não precisas temer, isso é natural em todos os estudantes da Verdade... Entrega-te com confiança e deixa em repouso tua veste física.
Passou, então, a subir com mais desembaraço, o corpo astral da nossa companheira. Nove subiu e foi se verticalizando, ficando em pé no meio do quarto.
Apenas via Fernando. Espantou-se um pouco e foi dizendo com certo acanhamento:
- O que o senhor quer comigo? Parece-me estranho, não? Fernando, habilidoso, falou-lhe com proveito:
- Não, minha irmã, não sou estranho. Estamos aqui para levar-te em nossa companhia, e não estou sozinho. Temos ao nosso lado, sem que tu vejas o nosso Miramez, Padre Galeno, Celes, Abílio, Lancellin, e mais outros em aprendizado, o que muito nos alegra.
Ela sorriu e acrescentou:
- Eles já chegaram? Por que não os vejo?
Fernando, com cuidado, replicou com carinho:
- Não sabes que quando acordamos, a visão vai chegando aos poucos?
- Ah!. . . Sim, sim, é mesmo! Então, logo vou vê-los todos?
- Como não?
Padre Galeno impôs as mãos na cabeça de Nove, para acalmar o sistema nervoso da moça, algo agitado, e ela passou a ver todos os componentes do grupo, em trabalho com Jesus. Ajoelhou-se aos pés do sacerdote e beijou as suas mãos, que sempre abençoam.
- Padre Galeno, graças a Deus, o senhor está aqui. Esta casa precisa do senhor. Peça a Deus para que a paz se estenda até este lar! Eu amo as criaturas que formam essa família, embora elas ainda não respeitem a vida.
Padre Galeno acalmou-a, e com palavras de ânimo prometeu ajudá-la, para a paz de todos. Nove era a servidora daquele lar, já havia muito tempo. Ela, antes era a serviçal da mãe da sua atual patroa, a qual, depois que se casou, levou-a para o seu lar, pelos cuidados que ela tem com crianças e as pessoas em geral. Ainda mais, é pessoa de confiança e a honestidade é o ponto alto da sua vida.
Enquanto ela conversava animadamente com o Padre Galeno, Miramez observava o seu cordão de prata, que não se apresentava normal; estava um pouco contraído e se comprimia em todas as suas fibras, como que obedecendo a um ímã central.
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- Essas contrações - disse Miramez - são oriundas de abalo dos nervos, e isso é muito comum nas criaturas que sofrem vendo os outros sofrerem. É o perigo da piedade que esqueceu o equilíbrio!
Miramez nos convidou a sair, acrescentando:
- Ela tem necessidade urgente de ar puro e de um visual agradável. Busquemos uma campina mais próxima para o refazer necessário, e nós também vamos ser beneficiados. Saímos todos e, com poucos segundos, estávamos onde queríamos, passeando ao clarão da lua e das estrelas, admirando a natureza e refazendo forças no grande suprimento da vida.
Notei que por ali passavam, de vez em quando, grupos e mais grupos de entidades, que certamente buscavam a mesma coisa que nós: a tranqüilidade do ambiente dos campos. Respiramos ali em longos haustos, e a alegria não se fez de rogada: fomos invadidos por ela, e logo perguntei a Miramez o porquê daquele fenômeno nos campos.
- Lancellin, os campos são livres do magnetismo inferior que os homens expelem pelos pensamentos desajustados, e do miasma dos animais, nos seus rudimentos mentais. Aqui, os ventos circulam sem interrupção, purificando tudo, enquanto Espíritos de alta estirpe descem, periodicamente, magnetizando a atmosfera, bem como, também, as nascentes dos rios, em benefício dos que aqui vêm. Deus não Se esquece de nada e também nos grandes centros civilizados existe essa operação; contudo, os homens mesclam essa bênção de Deus com os seus próprios sentimentos, e turvam o ambiente antes salutar.
O próprio sol, neste meio em que nos encontramos, é mais benfeitor, por não ter os seus raios interrompidos, de certa forma, pelas nuvens da poluição. E se não fosse o sol, que desintegra os pensamentos-formas, o ambiente humano seria insuportável. Isso é a ciência divina. Deus não é deus dos mortos, porque dá a vida a tudo e a todos.
Notei que a Nove estava mudada com poucos minutos. Todos os que nos acompanhavam se alegravam com a vida dentre a natureza pródiga em energias compensadoras. Olhei para as estrelas e agradeci a Deus por Sua bondade para conosco. Os Seus mais variados recursos estavam em favor do nosso equilíbrio. Demos as mãos e volitamos.
Descemos em um hospital, onde estava a patroa de Nove, e fomos recebidos afavelmente por muitos cooperadores daquela Casa de Saúde. Perguntamos pela senhora ali socorrida naquela noite e nos disseram que ela estava em observação, para ver se o seu caso não evoluía. Ela sofrera o rompimento de uma veia irrigadora da árvore pulmonar e agora dormia sob o efeito de sedativos. Passamos para o seu apartamento e Nove quis se emocionar quando viu a patroa. Chamamos-lhe a atenção e ela se controlou. Explicamos-lhe o ocorrido, pois ela ignorava os acontecimentos daquela noite, porque dormira cedo.
Kahena e Celes se abeiraram da senhora enquanto Abílio e Fernando faziam o tratamento no ambiente, renovando a atmosfera espiritual. Verifiquei o cordão fluídico da patroa de Nove, e fiz-me consciente de que se tratava de um caso sério, sob o aspecto espiritual. O laço luminoso que liga um corpo ao outro, se mostrava meio torcido e com uma cor semelhante à da terra, com algumas luminosidades. Ele se comprimia, de vez em quando, dada a emoção instintiva da criatura em questão, e os órgãos físicos, com a compressão, pareciam levar um pequeno choque, interrompendo a corrente divina que circula no organismo. Ao observar esses dados, Miramez abeirou-se de mim e falou com sabedoria:
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- Lancellin, isso que acabas de observar é muito sério. Essa nossa irmã está com um desgaste exagerado de força vital. A cota que ela recebe está sendo pouca para o seu gasto. E como se fosse uma energia elétrica que estivesse entrando em uma residência para um determinado consumo e os donos da casa gastassem o dobro. O baço da nossa irmã cresceu de forma assustadora, perturbando a força divina nele acumulada, e dois dos seus centro de força quase não funcionam; entretanto, vamos fazer o que estiver em nosso alcance. Essa doença é a doença-salvação. A família vai mudar o modo de pensar e sentir a vida com esse abalo dos sentimentos, pois ela é uma pessoa muito querida no meio dos seus parentes. O próprio marido é fascinado por ela e isso é bom para o começo da sua educação espiritual.
Kahena entregava a Miramez algo meio cinzento, meio aveludado, que ele pegou com todo carinho, peculiar ao seu estado espiritual. Levou-o aos lábios e beijou com sentimento de gratidão, dizendo:
- Que Deus te abençoe, minha filha! Que Maria Santíssima tenha compaixão da tua vida e te ajude a viver.
No silêncio que o ambiente emprestava, levou dois fios às narinas da patroa da Nove, ligou com cuidado no tesouro que recebera de Kahena e deixou aquele plasma marinho passar sem embaraço. Terminando, desligou os fios, aplicou alguns passes sedativos, e ela dormiu profundamente, sem nenhuma convulsão, qual antes apresentava. Nove parecia que ia desmaiar, pelo que fornecera de fluidos animais para a patroa que ela tanto amava.
Padre Galeno aproveitou a ida àquele hospital para visitar pessoas queridas que ali estavam internadas; por isso não pôde participar dos trabalhos naquele apartamento onde se encontrava a senhora do palacete.
Miramez, alegre, comentou:
- Está tudo bem, graças a Deus. Amanhã ou depois ela vai ter alta, mas com certas advertências médicas. E isso é bom.
Partimos dali, entregando os candidatos aos seus corpos, com algum proveito no trabalho, e levamos Nove para sua casa. Chegando lá, ela agradeceu a todos, pedindo ao Padre Galeno que a abençoasse e que não se esquecesse da sua patroa.
O cordão fluídico da nossa irmã parecia uma cauda luminosa, que se ia contraindo à medida que ela se aproximava do corpo - existe algo no corpo físico que atrai, magneticamente, o espírito - e com poucos segundos ela acordava. Surgiu em sua mente a patroa enferma, e ela pensou: "Será possível? A patroa doente? Mas, isso deve ser um sonho. Que Deus a abençoe sempre, com todos da casa."
Mesmo já aparecendo as barras do dia, Fernando a fez dormir de novo para depois acordar. Ali mesmo, naquele singelo quarto, Miramez elevou seu pensamento a Deus, juntamente conosco, e oramos com gratidão:
"Pai nosso que estás nos Céus!
Agradecemos por tudo o que nos destes nesta noite de trabalho e de paz, de compreensão e de entendimento, quando consultamos consciências, e pelos fatos ocorridos. Nós Te pedimos que nos ajudes, Senhor, a compreender melhor o que fazer em todas as direções que a vida nos chamar, mas que se faça,
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Senhor, acima de tudo, a Tua vontade e não a nossa, pois o Senhor sabe mais do que nós o que deveremos fazer em favor dos outros e para o nosso próprio bem.
Deus de bondade, de amor, rogamos Tuas bênçãos para todos os lugares onde passamos nesta noite, quando nos fizemos instrumentos de ajuda, e estamos ao inteiro dispor do Teu coração, à hora em que aprouver à Tua sabedoria. Dá-nos forças, Senhor, em todas as horas, para o trabalho que nos leva ao amor, e que semeia a paz em todos os caminhos. Não nos deixes cair em tentações, por esquecermos as advertências do Evangelho e desperta os nossos sentidos para a vida na Luz.
Prepara-nos para novas etapas, de modo a não reclamarmos, nem pensarmos em receber pelo que fazemos, pois a bênção do Senhor dar-nos-á a serenidade.
Assim seja."
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