Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 46 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Nosso Próximo

O nosso próximo é uma das coisas mais importantes na nossa vida. Ele é nós mesmos, em outra faixa dinâmica da existência. Jesus, quando resumiu os dez mandamentos em apenas dois, Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo, conhecia a razão e o porquê disso. Ele sintetizou a lei, para que essa lei pudesse ser lembrada por nós com mais facilidade. É muito importante valorizar o próximo, incluí-lo em nossa vida, e participar com ele das lutas empreendidas. Como amar a Deus, sem amar ao próximo? E como amar ao próximo, sem amar a Deus? São dois caminhos que se interligam por afinidade intrínseca. Tu, eu e todos nós, da criação de Deus, não podemos viver sem a cooperação dos nossos semelhantes; nós dependemos de todos os nossos irmãos em Cristo.

Fomos feitos para ser livres nos atos e pensamentos e amamos essa liberdade, porém, nunca estamos independentes do próximo. Onde quer que estejamos, em qualquer grau de evolução alcançado, dependemos do próximo, que nos instrui, nos serve e nos ajuda em tudo. Em determinadas circunstâncias, a dependência é eterna entre nós e o nosso semelhante, como é, também, de nós para o nosso Pai Celestial.

A lei de amor nos mostra a constante dependência que temos dos nossos irmãos. Não fazemos nada sozinhos: a alimentação, as vestes, o ambiente em que moramos, a água, tudo onde nos movemos, tem a marca de mãos operantes que nos ajudam no silêncio, em nome da caridade. Por que nos recusarmos em entrelaçar nossos sentimentos em fraternidade com os que comungam conosco das nossas experiências? A Terra é um lar maior. Não existe alguém desconhecido no rebanho do Senhor; todos somos irmãos uns dos outros, com os mesmos deveres e os mesmos direitos de viver.

Existe uma força negativa que nos separa e que se chama egoísmo. Ele nos cega e impede os sentimentos de se aproximarem daqueles que emanaram da mesma fonte que nós. O egoísmo é a ignorância que se petrificou no coração. Quem desconhece o amor, a fraternidade e o desprendimento, sente medo de esquecer o egoísmo e o orgulho, teme perder alguma coisa e não mais encontrá-la, mesmo sem saber o que teme e esse é o grande engano. O amor é dadivoso, a caridade é abundância, o perdão é concórdia, e quanto mais repartimos a alegria, mais felizes nos tornamos. Aquele que ama, enche o coração de harmonia, e é ele mesmo quem desfruta desta paz, pois quanto mais doa, mais recebe das mãos de Deus. Nosso próximo é a nossa meta mais segura na vida e pela vida; quem fugir desta diretriz perde o caminho em direção a Deus e nunca encontra o Cristo.

*

Estive visitando o nosso irmão que trouxemos do umbral, a que eles chamam de Cidade da Justiça. Que maravilha a reação do moço! Estava estendido em uma cama, cuja limpeza nos alegrava a alma. Asseio e simplicidade são muito agradáveis. Comecei a conversar com ele e a sua lucidez me impressionou.

Era um moço culto, mas ligado de certa forma à política no mundo. O seu passado assinalava muitos distúrbios, quando em suas mãos se encontrava o poder. Digo eu: o poder é uma arma perigosa nas mãos de quem desconhece as leis de Deus!

 

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- Ele perseguiu em todas as direções que o seu ódio pudesse atingir, plantou a semente da discórdia e colheu o fruto drástico da perseguição. Estávamos em um bate-papo alegre, sem que ele soubesse que eu estava na caravana que o libertou daquele antro infernal onde se encontrava preso. A certa altura da conversação, foi entrando um moço sorridente, que nos cumprimentou amavelmente. Percebi logo que era um médico. Passei-lhe os olhos: no pescoço não estava o aparelho de auscultação, não tinha nada para escrever, nem conduzia nenhum medicamento.

Sentou-se do lado oposto ao que eu estava e entabulamos conversa. De vez em quando ele fazia perguntas ao enfermo, e eu notava que quando ele conversava com o doente, enfiava a mão esquerda no bolso do blusão branco e a retirava quando conversava comigo. Desconfiei de que algo ali deveria estar registrando alguma coisa. Pude perceber, também, que seus pensamentos atingiam ate a minha mente, que força vigorosa emanava da sua mente e imiscuía-se em minha organização psíquica. Pensei: este deve ser o remédio que usam aqui.

Após alguns minutos se levantou, despediu-se do doente, desejando-lhe melhoras, e quando olhou para mim, desejando-me felicidades, fiz menção de acompanhá-lo, no que ele consentiu, dizendo:

- Vamos! ...

Despedi-me do enfermo e acompanhei o médico, satisfeito. Depois de vários passos, pedi desculpas, mas perguntei ansioso:

- Doutor, eu queria saber por que o senhor não consultou o doente naquele momento em que eu estava ali. Foi por causa da minha presença?

Ele, sorridente, respondeu com domínio do assunto.

- Não, companheiro, a tua presença até ajudou na consulta. Eu fiz um "check-up" perfeito de toda a sua situação espiritual. Nós aqui trabalhamos com esse aparelho eletromagnético (tirou o aparelho do bolso e me mostrou), mas o serviço maior é com a palavra que, bem orientada, é que faz o serviço melhor, para que o aparelho registre a verdade. O ser espiritual é misterioso; quando contrariado, esconde tudo o que a gente quer saber e quando se afina conosco e gosta da nossa presença, não deixa nada encoberto, e é aí que entra o aparelho, registrando tudo. Tu não observaste que enquanto eu conversava com ele, enfiava a mão no bolso? Era quando eu ligava o aparelho. Ele é como um mini-computador, que registra toda anormalidade do corpo espiritual do doente e nos traz os resultados por código, de maneira que, em seguida, no meu gabinete de trabalho fico sabendo de tudo que ocorre com ele. E, ainda mais, temos a intuição, que certos companheiros usam com mais proveito, mas, eu ainda preciso deste instrumento para trabalhar.

Ficou calado uns instantes enquanto andávamos, e disse:

- Na Terra, meu irmão, a medicina perde muito da verdade pelo ambiente de medo do hospital, pela cara fechada dos médicos. E alguns usam o silêncio, o que é muito pior. Qualquer doente, quando vê aqueles aparelhos engenhosos e a demora nos diagnósticos passa a sentir uma certa aflição e piora o seu estado. Tudo isso são pontos negativos para a cura aos enfermos. Aqui, não tratamos de uma doença em separado, mas, da harmonia do todo. No futuro, o médico da Terra vai usar o melhor remédio do mundo, porque vai descobrir os seus efeitos, que é a palavra bem posta na boca dos clínicos. Ela faz milagres em todos os doentes, sem exceção.

 

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Outra coisa negativa para os doentes é a cirurgia. Todos se alteram, quando estão sujeitos a essa violência. A medicina terrena tem que mudar, para não desaparecer, uma vez que ela tomou rumos perigosos, procurando descobertas espetaculares de medicamentos e de transplante de órgãos.

Primeiramente, os governos deveriam se conscientizar das necessidades que o ser humano tem para manter a saúde e se prevenir de adoecer, ajudando a esclarecer a humanidade sobre os efeitos maléficos dos vícios e hábitos negativos, bem como os benefícios trazidos por uma alimentação correta, de acordo com a índole de pessoas e de países. Mesmo que alguém tenha o carma meio pesado, ele certamente teria como aliviá-lo com os cuidados tomados pela nação, referente à sua própria saúde.

Bateu de leve em meu ombro, e terminou com entusiasmo:

- Olha, meu caro, quando a ciência fundir os seus princípios naturais com a fé, os hospitais começarão a fechar as suas portas e o comércio com a dor, que vai morrer!

Agradeci ao doutor e saí andando pelas largas avenidas da Colônia, sozinho, pensando no futuro do planeta e nas modificações que haverão de se processar na Terra.

*

Encontrei Kahena e Celes que já estavam indo para o salão da música. Conversamos um pouco e fomos juntos. Chegando lá, os outros estavam nos esperando. Estava movimentada aquela noite. Procuramos entender o serviço que nos era endereçado, e notamos muito trabalho.

A música que se espraiava no ambiente era de um compositor alemão nascido no princípio do século dezoito, conhecido como o Miguel Ângelo da música, chamado Cristóvão Gluck e que fez um arranjo no mundo espiritual, que sempre ouvimos, intitulado Adeus. No fim da música repete-se várias vezes: depois voltaremos.

A melodia começa com suavidade, depois vai acelerando, até expressar verdadeiramente a saudade.

Ouvimos muitas vezes esse arranjo musical e agradecemos a Deus por tudo o que nos oferta para nossa recuperação espiritual. Muitos dos nossos companheiros choraram e eu também não pude suportar a emoção. Não queria, no fundo, terminar com as nossas experiências e, apesar de saber que não existe separação, acostumamo-nos com os companheiros e com o trabalho. Que Jesus nos abençoe, para que possamos resistir às saudades, sem nenhum desgaste!

Assumimos a posição de viagem e partimos. A volitação ficava cada vez mais fácil e para que o tempo não passasse em vão, aproveitei-o para perguntar ao nosso guia:

- Eu observei, em inúmeras experiências, que cada um de nós escutamos e vemos as coisas diferentemente uns dos outros: pode isso prejudicar nossas comunicações com os homens, em se referindo à Doutrina dos Espíritos?

Miramez respondeu com serenidade:

- Lancellin, essa é uma verdade e, em se falando da mediunidade, a lei não deixa de funcionar da mesma forma. O fato acontece, tu o vês com certas perdas no modo de registrar e, quando escreves, também perde mais um pouco, por faltarem recursos para uma escrita fiel. Quem recebe, ou seja, o médium, deixa escapulir ainda mais, por não ser perfeita a sua assimilação do que dizes, e os leitores também podem não compreender exatamente como foi escrito, perdendo igualmente um pouco de verdade ali revestida com a letra, para chegar ao necessitado de acordo com o seu merecimento e

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evolução ... Não obstante, há leitores de recursos próprios que lêem ou ouvem determinadas frações da verdade e sabem, pela intuição, acrescentar o que está faltando, e por vezes chegam até ao fato em si. Compreendeste?

Compreendi a grandeza de Deus e o valor da alma onde ela pode se encontrar. Vi e senti que nada se perde, pois perda é para aquele que não está preparado para receber. Um livro pode ser interpretado por infinitos modos, dependendo de quem o está lendo. Assim acontece com uma conversa ou mesmo com as idéias. Deus atende a todos os Seus filhos onde quer que estejam na escala evolutiva, com a cota de assistência que lhes cabe por merecimento.

Descemos em uma cidade de Minas Gerais e começamos a perambular pelas ruas estreitas. Eu podia observar com facilidade muitos Espíritos indo e vindo, uns trabalhando, em serviço proveitoso, pelo que as suas auras demonstravam; outros, dava para perceber, eram vadios em busca de satisfação inferior. Algumas casas de bebida estavam cheias de encarnados e desencarnados, que viviam na mesma faixa de vida.

Debaixo de uma marquise, estendida no cimento frio, estava uma pessoa sobre uns papelões, e se resguardava com alguns pedaços de cobertores. Aproximamo-nos dela e pareceu-nos um homem forte, pela compleição do seu corpo. Examinamos direito e vimos que era um mendigo muito conhecido no lugar, que dormia. O sono era assustado. Observando ao clarão das lâmpadas, notamos uma entidade tão materializada, que quase a confundíamos com um encarnado. Muitas pessoas que por ali passavam, a reconheciam como tal, mas era um perseguidor terrível do mendigo. Há dezoito anos fora morto a golpes de peixeira pelo mendigo que o encontrara em seu lar, desonrando a sua família. O assassino fugira do norte para o sul do país, temendo desforra da família. Foi muito pior, porque deixou também os seus familiares em grandes dificuldades. Essa sua vítima estava com o pé direito no pescoço do mendigo e uma espada na mão e, de vez em quando, aplicava golpes na cabeça daquele que fora seu algoz. Quando vivo na carne, era um espiritualista, mas, defendia a liberdade sexual, certamente por não ter família. Ele, por compreender alguma coisa da doutrina esotérica, agora perseguia o mendigo com mais habilidade, dando golpes de espada no cordão fluídico do mesmo, e esse gemia, contorcendo-se no cimento, sem ter a bênção de voltar ao corpo.

Aproximamo-nos deste quadro de vítima e verdugo, quando Fernando começou a conversar mentalmente com o perseguidor desencarnado, sem que ele percebesse quem estava lhe falando ao coração. Pude observar nas ondas mentais que Fernando transmitia, as seguintes palavras:

- Caro companheiro!... Não voltes os teus sentimentos de vingança contra esse homem, que já paga caro pelo que fez, tirando-te a vida física. Lembra-te de Jesus, que ensinou o perdão, mas não somente o ensinou; perdoou, amando a todos os que O perseguiram, e ainda orou por todos eles. Estás abusando das condições que possuis como Espírito. E certo que foram afrontados os teus direitos de viver no mundo das formas; no entanto, Deus não é deus de carência. Se souberes te comportar, ser-te-á dada outra oportunidade e subirás na escala evolutiva pelo bom comportamento espiritual. O perdão cabe em qualquer hora e sempre ajuda na paz de consciência.

Pensa bem, analisa mais profundamente e verás que esta tua perseguição não vai te dar sossego de consciência: ao contrário, acenderá em tua mente a inquietação e o desespero. O irmão, já conhecedor de certas leis espirituais, vai responder pelo gesto de vingança, talvez com a presença do subjugado no

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seu próprio lar. E depois que ele passar a ser teu filho, ou teu pai, na carne, o que irás fazer com ele? Evita, meu filho, piores conseqüências enquanto é tempo, e renuncia a esse gesto nefando do ódio, que gera o ódio renovado. Abençoa quem te feriu, que ele passará a ser teu amigo. E entendendo a invigilância, surgirá o arrependimento, porta aberta para que o amor acenda uma luz em teu coração. Nós te pedimos, em nome de Deus e de Cristo, que perdoes esse irmão que sofre tanto, jogado nas calçadas, e cuja via crucis não sabemos quando terá fim.

Terminando Fernando a transmissão telepática, o Espírito que estava com atitude de vingança, começou a se enfadar na posição antes tomada, e terminou por adormecer recostado ao lado do mendigo. Nisso, Kahena se aproximou dele com Celes e transportaram-no para o primeiro posto de socorro espiritual nas adjacências da cidade.

O mendigo suspirou aliviado e nós aplicamos nesse irmão alguns passes de conforto, inspirando-lhe novas idéias sobre a necessidade de trabalho e renovação. O cordão fluídico do mendigo se encontrava em péssimas condições.

- O reparo, nos disse Miramez, se fará com a sua própria disposição. De agora em diante, ele está livre do inimigo, e só a sua disposição em melhorar o isentará da possibilidade de se unir a outro.

Antes de sairmos dali, aproximou-se de nós uma senhora que demonstrava certa idade, e que nos falou com lágrimas nos olhos:

- Eu vos agradeço a todos por terem ajudado meu neto, que estava ligado a este homem pelo fato de ter ele tirado a sua vida física. Tive permissão de vir localizá-lo e ver o seu estado, levando o relatório para a casa onde trabalho, no mundo espiritual. Não vim até aqui sozinha, comigo vieram mais duas companheiras, mas, elas me deixaram aqui orando por ele e foram visitar alguém da sua família que está em estado de coma; os guias da casa pediram socorro. Mas, graças a Deus, vós aparecestes aqui. Sei que foi a resposta de Deus às minhas orações. Que Deus vos abençoe sempre, e eu beijo as vossas mãos em gratidão ao Senhor.

Aquela senhora, até então, estivera invisível à minha vista espiritual. Como isso ocorria? Fiz menção de perguntar a Miramez, mas, ele respondeu imediatamente:

- Lancellin, essa senhora estava em estado de êxtase. Aceleraram-se as suas vibrações, e além disso, ela já é um Espírito com bastante evolução moral. Quando ela terminou a sua oração, então, tu pudeste vê-la. Os processos espirituais, meu filho, são engenhosos; contudo, não escapam às leis que regulam tudo, para a harmonia de todas as coisas. Compete a nós outros estudar e compreender os segredos de Deus, que vibram em todo lugar.

Esse irmão desencarnado vai ser socorrido, pois ele tem alguma folha de serviço em seu favor; apenas estava cego pelo desejo de vingança. Ele tinha muitos planos para a vida física e essa vida lhe foi cortada. Pela sua própria imprudência, por falta de respeito aos direitos alheios, usou suas forças e, com uma argumentação matreira, conseguiu se impor à mulher visada, algo invigilante. Ele pagou caro a sua imprudência.

E acentuou:

- É por isso que Jesus nos adverte com o vigiar e orar. A vida, companheiro, é uma eterna escola; os erros de um são ensinamentos para outros, e é muito bom quando esses outros assimilam a lição.

 

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A nossa vontade era de ajudar aquele mendigo, de levá-lo a uma casa de assistência, não deixá-lo cair outra vez, e reparar o seu deslize, pelo trabalho e pelo amor, contudo, o nosso próprio coração nos falava de outra maneira, pelo que já presenciamos. A libertação nasce de dentro da criatura; se ela não quiser, a vida espera, porque sabe quando o fruto está maduro. Não cansamos de repetir essa máxima luminosa e muito adequada para esse momento: Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. E essa é a maior verdade. Nós podemos dar alguns toques, qual a galinha faz com o pinto preguiçoso para nascer, sem tirá-lo de dentro do ovo.

Despedimo-nos daquela senhora afetuosa e olhamos mais uma vez o mendigo, que se recolhera a um canto, parecendo-nos bem feliz e já em sono profundo. Olhamos para cima, e a força mental nos ajudou a partir.

Saímos dali convencidos da grande necessidade da dor no ser humano. Quanto à alma nesta faixa evolutiva da humanidade, somente a dor recolhe argumento para levá-la à conscientização da verdadeira vida. A palavra, a presença dos irmãos maiores, os livros, servem muito como convites; todavia, a dor é a dinamite que desloca todas as idéias do Espírito, levando-o a outro modo de ser. Ela fala sem palavras, convence sem argumentos, e ensina sem discussão, provocando uma guerra interna, onde somente ela vence.

Rumamos para uma grande cidade do norte de Minas Gerais. A luz elétrica marcava o contorno da mesma, dando-nos uma idéia do seu mapa. Olhamos com alegria, mas sentimos o quanto de trabalho espiritual ali nos esperava ser feito, o quanto de assistência e de compreensão ali se precisava.

Era como que um hospital, recebendo em todos os momentos, seres para serem internados na carne com desequilíbrios sobremodo variados, no sentido de serem reajustados. Víamos grupos e mais grupos de benfeitores espirituais cortando a atmosfera terrestre em todas as direções, trazendo socorro e ampliando meios de tratamentos para os sofredores. Suspiramos com ansiedade, pensando no despertar das criaturas para as leis naturais, para a conscientização do Amor, porque tudo aquilo que estava sendo feito era recurso paliativo, era como que gotas de água a caírem na imensa lavoura que requeria abundante quantidade de líquido.

Não existem outros caminhos, esses são os melhores. Deus se manifesta através dos Seus próprios filhos, e a criação se processa em seqüência para que uns ajudemos aos outros, e a cooperação se encadeie no universo. Ai dos inferiores, se não fossem os superiores! E o que iriam fazer os superiores, se não existissem os inferiores ou, no modo mais fraterno de dizer, se não existissem os filhos mais novos? Patrões e empregados são necessidades mútuas, pelo menos no regime em que se vive na Terra, por enquanto.

Chegamos a uma residência e logo fomos recebidos por várias entidades que nos abraçaram com amabilidade nos fazendo entrar, e sentimos a tristeza que dominava o ambiente dos vivos.

Ali residia uma família ordeira e de certas posses materiais; no entanto, naquele momento era esquecido o conforto e a posição social, pelo desastre moral e físico por que passava o lar. A princípio, a filha menor debandou para o mundo do tóxico e se engravidou, no meio dos inconscientes do dever. O pai, que furioso, reclamava a cabeça do "celerado", daí a dois dias recebera o aviso de um banco, para pagar o aval de um devedor que tinha morrido sem que deixasse recursos para a família saldar o débito. Não havendo outro jeito, ele vendeu alguns pertences e saldou a dívida. Muitas noites passaram todos em

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claro, pois a inquietação mobilizou todos os familiares. Resolveram partir para uma viagem de repouso, porém, o assunto era sempre o mesmo, como pensamento fixo na mente de todos. Decidiram então, viajar à noite, em busca de uma praia distante.

Dirigindo de madrugada, veio um cochilo, e o carro se engavetou atrás de uma carreta, morrendo alguns dos familiares, inclusive o pai de família. E ali, naquele lar feliz até há poucos dias, estava o espetáculo. A vida deles, antes, era uma verdadeira harmonia; porém quando chegou a hora do resgate, o céu cedeu lugar às sombras.

Nessa hora chamam-se padres, pastores, e até espíritas, pois nem as pílulas, os médicos do corpo, nem os hospitais, trazem consolo. E as orações têm os seus valores. Sejam feitas, por quem quer que sejam, elas são endereçadas ao mesmo Deus de amor e bondade.

Ali estávamos atendendo por ordem superior, segundo a promessa de Jesus, de que os sofredores seriam consolados.

Havia um grupo de Espíritos inferiores acompanhando a família, sem que ainda pudessem se manifestar. Satisfeitos com o ocorrido, achavam pouco, ainda, os infortúnios daquele grupo familiar. Ficaram dois tomando conta da casa, Espíritos de índole perversa, e os outros acompanharam o enterro, afastando outros que dali se aproximavam. Fizeram um cerco em torno dos caixões, e lançavam palavrões, insultos, enquanto cobravam velhos desaforos. Tentavam cuspir nos cadáveres e queriam violentar todos os direitos daqueles que já passaram para o lado espiritual.

Há um provérbio que assinala: O sol se esconde todos os dias, mas sempre aparece no final das noites. Kahena e Celes apareceram para os dois Espíritos que ficaram no lar, vigiando, e os chamaram para conversar. Aqueles, quando tentaram investir contra nossos companheiros, foram contidos pela ação conjugada da mente e da palavra. Disse Kahena:

- Não estamos aqui para expulsá-los. Nós queremos conversar com vocês, como irmãos, que somente lhes desejam o bem. Por que vocês estão nesta fúria contra esses familiares infortunados? Não é melhor ajudá-los, neste momento de dor? Quem ajuda, vive mais feliz.

Um dos mais inquietos, o menor, blasfemou com raiva:

- Nada de bem, para uns canalhas desses! Eles precisam todos morrer e virem para cá, servir-nos de escravos para sempre. Vocês falam assim sobre a piedade, e sobre o ajudar, porque não conhecem essas pessoas que são víboras, que picam mesmo dormindo.

Vamos acabar com eles, enquanto eles não acabam conosco - e apontou para dentro da casa. Essas pestezinhas que sobraram vão morrer. Todos eles!

Kahena, habilmente, argumentou:

- Vocês, com certeza, já fizeram muitas dessas más obras. E até agora já tiraram algum proveito? Eu os vejo, desde a hora em que aqui chegamos, mal humorados, tristes como os familiares, sem demonstrar nenhum ideal. É fácil verificar que estão mais infortunados do que essa família. Vocês sofrem mais do que eles. Pensem bem!

O maior, que até então permanecera calado, falou, desabafando:

- Eu já te falei, Júlio, que o salário nosso é sempre o desespero; a conversa desta mulher vem confirmar o que eu pensava. Não me sinto bem, com essas coisas!

O pequeno, falando alto e blasfemando, retrucou com violência:

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- Você é um covarde, sempre nas horas de decisão amolece. A gente precisa ter fibra! Nós precisamos acabar com essas pestes, coisa ruim tem que desaparecer!

Mas Kahena estava ganhando tempo e os olhos da nossa companheira estavam fixos em Júlio. Ele não resistiu, sentou-se em um banco e começou a dormir. Kahena fez um sinal e logo apareceram os dois homens acostumados a ajudar neste tipo de serviço, que levaram Júlio, ficando o outro que afinou com Celes, mostrando interesse nos trabalhos de ajudar, para ser atendido em época oportuna.

Miramez, no cemitério, nos pediu para orarmos, e foi o que fizemos, em torno dos cadáveres que já estavam descendo à sepultura. Os Espíritos malfeitores esperavam que os recém-desencarnados fossem desligados dos corpos, para que eles, obsessores, se apossassem de suas vítimas. Porém, o nosso guia espiritual deu alguns passes nos mortos, com abundantes fluidos, de sorte a ficarem invisíveis aos malfeitores ali presentes, e foi retirando-os um a um dos corpos mutilados, com todo cuidado e carinho. Foram dispersados os fluidos vitais de todos eles e buscamos certas dependências dentro do próprio campo santo, onde depositamos os nossos irmãos, para a devida recuperação. Posteriormente, eles seriam conduzidos a planos condizentes com o estado de cada um.

Os Espíritos do mal caminhavam de um lado para outro, resmungando, xingando, ameaçando:

-Saiam logo! Para fora! Vocês já morreram! Venham, covardes, venham!

Vamos acertar as nossas contas!

E gritavam impropérios sem conta. Um outro falou:

- Será que fugiram? Ninguém viu para onde foram? O outro disse:

- O medo e a covardia fizeram-nos ficar junto aos corpos. Eles estão lá debaixo. Deixemos que eles apodreçam com os restos mortais.

E gargalharam. Arrematou um terceiro:

- É, mas vamos esperar mais, porque eles devem sair de dentro da tumba. Aí agarraremos os patifes.

Eis aí, meus irmãos, a vingança, até onde chega! É a ignorância das leis de Deus, de amor e de perdão. Eles, os perseguidores, como já falamos, sofrem mais do que os perseguidos. E, vendo esses quadros, é que valorizamos Jesus, e sentimos sem Ele, o Mestre dos mestres, um vazio no coração e uma opressão na alma, porque, sem o Cristo dentro de nós, desconhecemos a harmonia, e quem não conhece a harmonia, nunca ouviu falar da felicidade, nem acredita nela.

*

Partimos para outra etapa dos trabalhos daquela noite; descemos em um hospital, que se nos apresentava muito simples.

Era uma Casa de Saúde para leprosos. Chegamos, demos umas voltas por um pátio logo em frente e testamos o ar, que estava empestado de magnetismo inferior. Uma visão mais apurada podia notar uma espécie de quase invisíveis ramificações de uma energia grossa, mostrando a cor parda, que fazia evoluções no ar com facilidade, e buscava as narinas com incrível atração, envolvendo-se na atmosfera que era respirada.

Miramez nos chamou, subimos mais acima do solo, uns dez metros, ficamos em círculo, e ele concentrou-se, pedindo que nós o acompanhássemos naquela operação. Nós, já acostumados com esse tipo de trabalho, não encontramos dificuldades.

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Miramez cerrou o semblante com serenidade, e sentimos que o nosso guia buscava alguma coisa distante. Ele começou a se iluminar, saía de seu ser um fogo, diferente do fogo comum. Era uma chama sem calor, mas, viva, e que corria em volta do seu corpo espiritual como se fossem serpentes. O azul predominava e o centro era de um vermelho encantador.

Aquelas chamas se avolumavam cada vez mais, e ampliaram-se de tal maneira, que o nosso mentor ficou no centro das chamas que rodopiavam em torno dele. Daí a instantes, ele soltou raios daquela substância em todas as direções e ouvíamos estalidos continuados, como que queimando alguma coisa no ar. Era a eliminação de pensamentos-formas que pairavam por toda a Casa de Saúde, onde estavam aqueles seres infortunados, que ali expurgavam seus carmas, esperando que despertassem os corações ainda paralisados no tempo, pelo desabrochar da flor gerada pela força do amor. Depois de alguns minutos de higienização, apagaram-se as luzes.

Agradecemos a Deus e encaminhamo-nos para uma enfermaria geral, onde fomos recebidos pelos benfeitores da casa com amabilidade. O carinho era o estado natural de todos Espíritos trabalhadores daquele hospital.

Depois, passamos às celas fechadas, que pareciam mesmo prisões. Seus ocupantes eram leprosos, cuja pele estouravam em bolhas, e o odor era insuportável. Dificilmente poderiam manter um asseio conveniente. Passamos a trabalhar. Kahena, Celes, Fernando, Padre Galeno, Abílio, Miramez e eu, cada um percorrendo as celas, e demoradamente, transmitíamos passes reconfortantes. Aquelas criaturas internadas ali, mais como presidiários, estavam insensíveis à nossa presença.

Notamos, ao entrar, que aquele magnetismo pesado que saía para a atmosfera exterior, provinha daquele antro de desequilíbrio espiritual. Emanavam deles ondas de magnetismo insuportável, que afinavam com o ar, e pessoas e coisas respiravam. Aquele lixo mental, desarmonizador, poderia se comparar com o lixo atômico que as usinas expelem e os homens encontram dificuldades em sepultar.

Aqueles seres eram usinas de forças mentais inferiores. Além daquela doença, que a sociedade ainda não aceita, eles tinham alterações mentais, e não poderiam ficar juntos com os mansos. Deformavam-se os rostos, inchavam-se os membros e tardavam-lhes o pleno equilíbrio da mente. Quando aplicávamos os passes, notávamos as nossas mãos grossas, e a nossa estrutura, a superfície dos nossos corpos espirituais, meio pegajosa e ácida. Precisávamos, de vez em quando, balançar as mãos aos lados, ajudando com o pensamento, no sentido de ficarmos livres daquela agressividade magnética que se acomodava em nós pela indução de energia.

Quando eu estava quase terminando a minha parte, olhei para Miramez, que sorriu para mim, e fez-me um sinal para que eu olhasse um doente ao lado. Aproximei-me e verifiquei assombrado que era um homem de cor parda, cabelos enroscados, mas, de feições finas e altivas. Notava-se que o seu porte demonstrava certa educação no trato com o corpo. Esse irmão estava completamente deformado, os dentes já tinham caído, as orelhas cresceram, inflamadas, e ele não tinha propriamente feridas, porém, cresciam-lhe grandes bolhas em todo o corpo, cheias de um líquido. Ao estourarem as bolhas, espalhava-se um cheiro por toda a casa. Tal odor era insuportável até para mim, que ali estava como Espírito desencarnado.

 

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A sua mente parecia mais a de um animal, os seus pensamentos não tinham coordenação, e havia um grande intervalo entre a formação das idéias. As bolhas formavam-se rapidamente e também estouravam com freqüência. Em algumas delas, ele mesmo levava o dedo e furava-as com aflição.

A pele desse homem era fraca, e uma leve fricção por qualquer corpo estranho que surgisse, formavam-se logo manchas violáceas e avermelhadas. Todavia, o organismo deste senhor era um gigante em pronta recuperação dos tecidos, embora a doença desviasse toda a energia de auto-recuperação daquela máquina de carne, que trabalhava sob a supervisão do Espírito imortal.

Miramez transmitiu-me instruções para que eu avivasse a minha mente em busca de algo mais na vida daquele homem de Deus. Ajudou-me com certas induções mentais, e ligou, isso eu notei, a minha mente na dele, o enfermo, de maneira espetacular. A mente do hanseniano foi crescendo e se estendendo sem limites, e logo eu me encontrava vendo-o na Itália antiga, no ano de 1311. Ele vinha apressado pela Via Ápia, com alguns capangas ao lado, sem dar uma palavra sequer. Os homens o acompanhavam, também calados, e com uns alforges nas costas em que, notamos logo, levavam apetrechos de agressão.

Passamos a notar que rumaram para os porões de um castelo, onde entravam e saíam muitos nobres. Ele foi chegando e fez uma reverência para alguém que estava ao lado, em um gabinete. Os homens que o acompanhavam ficaram sem entrar, esperando em um grande portão que dava acesso para os porões.

Ele tinha o nome de Gusmão. Gusmão recebeu algumas anotações do comando da casa, passou-lhes a vista e desceu para os porões, com os seus sequazes. Nesses subterrâneos víamos o absurdo dos absurdos, que não devemos relatar totalmente, por respeitarmos as sensibilidades alheias, principalmente no Século Vinte. Tu já entraste em frigorífico? Tais câmaras tinham as mesmas aparências. Homens e mulheres pendurados, mais pareciam animais esquartejados, estando todos nus, em uma seqüência que mostrava a disciplina até nas atrocidades. Ao lado verificamos a existência de grandes panelões que ferviam um óleo fétido. Aqueles monstros, ao chegarem ali, tiraram um pouco das roupas, ficaram seminus, e lia-se bem visível a fúria naqueles rostos malfeitores, sob o comando de Gusmão, que tinha o prazer de seguir todas as ordens do comando central contra os hereges. Ele ainda ampliava as atrocidades, com a sua infernal facilidade de criações mentais.

Ele gritou a um dos carrascos que tirasse certa mulher das correntes onde estava pendurada e a trouxesse para o balcão de mármore ao lado. Logo ela estava, quase agonizante, estendida na pedra fria. Era uma mulher linda, corpo esbelto, traços finos, dentes perfeitos e os olhos, mesmo inchados pelo mau trato, desprendiam uma chama diferente e um magnetismo agradável. À visão da mulher toda despida, um deles, talvez o mais sensual, ficou cego pela força animal, e investiu sobre a infeliz. Dois dos homens, entretanto, aplicaram-lhe um pedaço de corrente na nuca e ele caiu desfalecido, gemendo e se contorcendo. Ele mesmo, Gusmão, olhou o corpo esbelto daquela mulher, sentindo a força do sexo percorrer os seus nervos mais sensíveis, mas, reagiu na fúria de perseguidor aos chamados hereges, e ele mesmo despejou um ácido esverdeado no corpo daquela mulher; no mesmo instante se formavam borbulhas, que depois estouravam a fina pele, deixando escorrer um líquido das células que eram desfeitas pelo corrosivo.

 

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Uma força que desconheço tirou-me daquela visão, e trouxe-me ao meu estado natural, vendo aquele homem a minha frente e compreendendo que não existe injustiça, mas a lei de causa e efeito agindo na mais perfeita conexão com a vida.

Olhei para aquele homem, filho de Deus, naquele sofrimento indizível, ajoelhei-me a seus pés, beijei as suas mãos, e falei, de alma para alma:

Meu irmão, tem paciência! Não existe injustiça na extensão infinita da vida. O que estás passando, meu filho, é puramente uma reação das tuas próprias ações em um passado remoto. Tem paciência, que Deus não esquece ninguém, na Sua bondade sobremaneira infinita. Tem paciência, e espera, que a luz sempre aparece nas trevas dos nossos corações e, como sol de Deus, jamais nos deixará eternamente na escuridão. Espera, que Deus não desampara a ninguém.

Basta que confies na bondade do Senhor, pois, quando estamos lembrando e confiando n'Ele, a Sua magnânima proteção já está a caminho. Sei que de Espírito para Espírito tu estás me ouvindo e que nada do que estou falando se perderá na engrenagem da tua consciência. Tem paciência, meu irmão. Eu também tenho o meu passado, que pode ser pior do que o teu, tanto que ainda não suporto as lembranças que às vezes podem incapacitar-me para os reparos que desejo fazer. Que Deus te abençoe, meu irmão, para que possas levar a tua cruz até o topo do teu calvário. Sê forte e luta! Deus esteja contigo!

Notei que ele abriu os olhos com esforço tremendo, olhou para um lado e para o outro, e começou a chorar.

Miramez aproximou-se de mim, bateu os dedos de leve em meu ombro, sorrindo, e falou, com brandura na palavra:

- Gostei, Lancellin! E assim mesmo que se deve fazer. E nestas horas que a nossa palavra com o Cristo no coração faz milagres. Este irmão começa a despertar no coração uma luz que nunca apagará: é a chama de Deus que sempre vive em nós, mas que somente aparece com a bênção do arrependimento.

Beijei as mãos do antigo carrasco e lhe falei, de alma para alma:

- Deus te abençoe, meu irmão!

Saímos dali renovados em Cristo, por ver e sentir cada vez mais no coração as leis justas de Deus. Nada se perde na extensão infinita do Criador, tudo se renova nas mãos engenhosas do tempo.

Chorei, ali dentro daquela prisão, onde não havia soldados para vigiar, a não ser a presença do grande general, que se chama Lei de Causa e Efeito, funcionando como resposta implacável daquilo que pedimos pelos nossos atos.

Miramez aproximou-se de mim, dizendo com mansuetude:

- Lancellin, sendo Deus perfeito, a razão nos diz que Ele nada faz com imperfeição. Tudo o que fazemos é computado na nossa consciência, esse engenhoso agente de registro. Ela, em toda a sua amplitude, ainda se manifesta sem que a compreendamos de todo. E os nossos atos ficam filmados na luz; tudo que fazemos, as imagens e os sons, nós gravamos no éter, pois ele é o livro de Deus. Uma cópia fica na consciência profunda. É muito sério, meu filho, o que pensamos, falamos e fazemos.

Depois dessas palavras, partimos todos juntos.

Descemos em uma cidade mineira, grande pela sua tradição e engenhosa pelo seu aspecto barroco, alinhando casas, cujo passado inspirava saudades. Examinamos antigas igrejas, como sendo uma

 

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escrita do passado dessa nação e pudemos perceber, pelos recursos de que dispomos, as primeiras vibrações energizadas no éter ambiente, falando de tempos idos.

Notávamos, neste lugar, personagens ainda da Inconfidência Mineira, ligadas em fatos distantes no tempo e presas por suas correntes mentais de ódio e perseguição. A tal da tradição embota o Espírito, quando essa mesma tradição nasceu com a ideação das trevas e dispõe as consciências para feitos reprováveis.

Buscamos analisar o éter ambiente, essa força universal ainda inconcebível para a ciência terrena. Ele, na sua virgindade, é circulante, mas, quando registra os fatos dos homens, se faz estático como escrita e como prova dos feitos aos responsáveis. Assistimos a isso como se fosse a um filme, ideado pelos homens. Quando os dons nos capacitam, podemos ler o que ocorreu no passado de uma cidade ou nação, buscando neste arquivo etérico, o que ali ocorreu, seja há um ou milhares de anos. Entretanto, o mundo espiritual tem recursos, se quiser ou se for para o bem da humanidade, de apagar essas gravações cósmicas, desintegrando os fatos ali estacionados.

Partimos para uma simples paróquia, onde dormia um padre de pouca idade física, mas velho em espírito, com idéias renovadas no que tange ao Espírito imortal. Entramos em uma casa simples e velha, onde o asseio mostrava o ambiente agradável dos moradores. O guia da casa veio nos receber, manifestando grande alegria, e nos apresentou duas irmãs de caridade que serviam naquela região, dando assistência à velhice. O guia chamava-se Padre Adílio, velho pároco daquela redondeza, que desencarnou muito idoso, e que fez da vida uma verdadeira renúncia, computando no dia-a-dia e esforçando-se para consolidar no coração as bênçãos da tranqüilidade imperturbável. Ele mesmo, como padre, e na época em que viveu, já tinha no próximo a continuação da sua própria personalidade. Conversamos um pouco e Padre Adílio nos falou com tranqüilidade:

- Bem, meus irmãos, podeis ficar à vontade. O nosso Quarenta está pronto. Basta acordar para, de novo, dormir!

Rimos, satisfeitos com o jeito do Padre Adílio falar. Pedimos licença e entramos no apartamento de Quarenta. Ele dormia tranqüilamente; era um moço de mais ou menos trinta anos de idade. Miramez abeirou-se da cama do padre, que já estamos chamando de Quarenta, olhou com firmeza para o volumoso cordão de prata do irmão em questão, e balbuciou algumas palavras. O irmão imediatamente acordou, serenamente. Olhou para os lados, e pensou: "Alguém me chamou! Escutei uma voz firme e cheia de ternura. Lembrei-me da minha mãe. Deve ser sonho".

Olhou para a parede onde estava pendurado um retrato de Maria, mãe de Jesus, e pediu a ela com meiguice:

- Mãe Santíssima, abençoa o meu sono, abençoa meu coração. E orou com fervor.

Miramez tocou com a ponta dos dedos magnetizados a fronte de Quarenta, e disse com serenidade:

- Dorme, padre, novamente, que vamos dar um passeio ao mundo dos Espíritos, de forma diferente do sono. Poderás sentir com maior lucidez o ambiente aqui fora da carne.

Esse cerrou os olhos, com a mente em Cristo e Maria, e sentiu-se meio tonto. Ao abrir os olhos, voltou-lhe a lucidez. Fechou os olhos e novamente sentiu vertigem. Teve a intuição de que algo diferente ocorreria naquela noite. Confiou em Deus e entregou-se ao sono.

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Começou a sair do corpo com a ajuda de Miramez. Daí a instantes se encontrava ao nosso lado, e viu em primeiro plano o Padre Galeno; tomou suas mãos e beijou-as com ternura, pedindo-lhe as bênçãos. Padre Galeno, humildemente, disse:

- Deus te abençoe, meu filho. Deves saber o motivo da nossa presença aqui, esta noite, não?

Ele ficou meio calado, tropeçando na fala, e o velho pároco continuou com contentamento.

- Viemos aqui, meu filho, para fazermos uma viagem contigo, mas, ela é diferente do sono comum. Ficarás junto conosco, consciente, vendo o teu corpo e estudando os fenômenos que escapam à ideação humana, pois, esta é uma ciência divina.

Quarenta, então, respondeu com humildade:

- Sei, padre, sei o que o senhor quer dizer. Eu confio em Deus e no senhor, que poderei fazer o que está programado para mim, na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo e com as bênçãos da Nossa Mãe Santíssima.

Quis ajoelhar aos pés de Padre Galeno, mas este não consentiu, dizendo:

- Não, meu filho, essas regras são somente para a Terra; aqui, dispensamos essas normas. Pede a Deus o conforto para que te sintas como nós.

Quarenta, investido na humildade cristã, deixou os joelhos descerem em um velho tapete e orou ao Senhor, como sói acontecer com os místicos:

"Pai Nosso que estás nos Céus, comandante supremo de todos os mundos e de toda a vida! Somos todos Teus filhos, e estamos ansiosos para Te conhecer mais de perto, sabendo que sempre falas aos Teus filhos pela porta do coração. O nosso, Senhor, a Ti está entregue, faça-se a Tua vontade e não a nossa.

Queremos comungar Contigo, nesta amplitude de vida cujo fim conhecemos. Já senti algumas horas de felicidade na Terra, e Te peço para que essas horas se multipliquem cada vez mais, dotando-nos, Senhor, daquela certeza absoluta da vida depois do túmulo. Sei, e não duvido, da Tua bondade e do Teu interesse pelo nosso bem e que o Teu maior ideal é que amemos aos nossos semelhantes como a nós mesmos. Sei bem disso; como poderemos viver sem o nosso próximo? É o impossível dos impossíveis.

Abençoa, Senhor, nossos corações, para que nos sintamos nós mesmos em contado com as outras criaturas, e que esta noite eu possa fazer a Tua vontade e não a minha.

Amém."

Quando Quarenta abriu os olhos, lágrimas os festejavam, como se fossem estrelas caindo ao chão. E eis que ele sentiu uma grande emoção, por ter a oração elevado seu "tônus" de vitalidade, acionando seu mundo vibratório, e ele pôde ver todos nós em torno dele. Abraçamo-nos com alegria, somente sentindo o ambiente emocional.

Verifiquei o cordão fluídico do novo sacerdote, que estava em plena harmonia, e nele vibrava uma luz azul, com um dourado solar, e com uma circunferência maior do que uma tampa de uma garrafa de cerveja. Fiquei deslumbrado, e ele movimentou-se em torno de nós com facilidade, pedindo-nos amparo para que pudesse desempenhar bem o seu papel, na saída consciente daquela noite . . . Todos sorrimos.

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Nesta última etapa de trabalho, os companheiros eram poucos; os aprendizes de saída consciente do corpo físico eram somente quatro e já estávamos reunidos. Lançamo-nos ao espaço, todos de mãos dadas, e depois de alguns segundos, estávamos sobre uma pequena cidade do oeste brasileiro, na qual uma luz mortiça iluminava as ruas. Em sua quietude, parecia-nos um deserto. Descemos em uma das suas ruas e passamos a caminhar. Paramos à entrada de uma casa velha, construção que denunciava a época imperial, com portas pesadas e portais que não se usam mais. Vieram nos receber, logo à porta, dois Espíritos alegres, convidando-nos para entrar, e festejavam a nossa chegada. Miramez e Padre Galeno já eram conhecidos da família espiritual. Entramos, em um clima de muita paz e fraternidade, e verificamos que ali moravam duas mulheres de mais de oitenta anos. As duas senhoras, pudemos notar que eram gêmeas; estavam deitadas, sem que pudessem conciliar o sono. Estavam enfermas, olhando uma para a outra, qual se se vissem no espelho. Um dos guias da casa nos falou com interesse:

- Meus irmãos, aqui está um caso interessante e ao mesmo tempo comum no mundo: são duas gêmeas, geradas em uma mesma placenta e um só cordão umbilical.

Até aí não notei diferença nenhuma; era verdadeiramente caso comum, no entanto, continuou o guia:

- Essas duas irmãs, quando uma cai doente, a outra também o fica; a dor que uma sente a outra também a tem, uma ficando nervosa, a outra fica igualmente. É, pois, uma só sensibilidade na estrutura psíquica delas, de tudo que uma sente, a outra participa, e vice-versa.

Vede as duas na cama, sofrendo os mesmos males. Mesmo que elas estivessem distantes uma da outra, o fenômeno seria o mesmo. Fiquei interessado pelo fato.

- Elas - continuou o Espírito - não se casaram e - sorriu em um clima de humor sadio - de certa forma, quando uma arranjou um namorado, logo que a outra o viu, sentiu também amor por ele, e foi uma confusão muito grande. Resolveram, então, ficar sem contrair matrimônio e aí estão as duas enfermas de uma só doença.

E acrescentou:

- Conheço muitos casos parecidos mas, nenhum igual a este.

Fiquei meio confuso, diante daquele fato. Como seria isso? Busquei Miramez, na sua larga experiência espiritual, para nos dar uma explicação sobre o fenômeno que, sem dúvida não se restringia apenas ao aspecto físico. Ante nossa indagação, Miramez, serenamente, nos respondeu:

- Lancellin, o mundo está cheio de fenômenos como esse, em todos os reinos da natureza, que por vezes escapam à sensibilidade dos homens. Quanto mais avança o Espírito, mais ele indaga sobre os fenômenos transcendentais. Basta que prestemos atenção, sem o espírito de negação nem de ofensa, procurando compreender os segredos da natureza humana e divina ao mesmo tempo, que os véus se rasgarão diante de nós. O problema mais profundo deste fato, a base de todas as explicações deste fenômeno, é a sintonia: são duas almas muito afins, e isso se passa até em pessoas que são de famílias diferentes, desde que tenham as mesmas idéias e ideais. É, pois, uma corrente de fluidos que parte de um em direção ao outro, na mesma freqüência espiritual. Uma transmite para a outra tudo o que a sua sensibilidade capta, por estarem na mesma faixa vibratória.

Entretanto, no caso dessas irmãs geradas de um mesmo óvulo, há outros fatores que as unem com mais intensidade: são os corpos vitais interligados, que transmitem um para o outro as mesmas

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sensações. No reino vegetal também existe esse fenômeno que os homens do campo bem o sabem: quando duas árvores crescem juntas, e que a necessidade pede que se corte uma, a outra, por vezes, morre igualmente; contudo, nem sempre ocorre esse fato. Isso é conforme o entrelaçamento psíquico, fato que acontece em todos os reinos da natureza, dependendo de estar ligado ou não, um a outro, por leis que escapam às vistas dos homens, e mesmo aos complicados aparelhos da Terra. Não podemos generalizar essa idéia, mas, é como já dissemos: tudo é de acordo com a sintonia. A afinidade plasma um corpo fluídico no outro e eles se confundem. Miramez pensou por instantes, e continuou:

- É necessário que compreendamos que, acima destas afinidades, paira a educação, pois o Espírito elevado isola todas as influências que lhe possam causar distúrbios, mas, compreende a necessidade do outro que por ele se interessou e ajuda-o sem, contudo, sofrer. Auxilia-o por prazer de ajudar. Enfim, é movido, em todos os sentidos, pelo amor.

Este assunto é muito complexo, requer tempo e espaço, para ser explicado com maior segurança, de maneira que todos possam entendê-lo com facilidade. Porém, o fundo da questão é apenas a sintonia, que se esqueceu da educação ou não se lembrou, pelo menos, da disciplina.

Fiquei meditando no caso, e pensei: "Aí está a chave de muita coisa como, por exemplo, aquele médico novo, que encontrei quando fui visitar o doente que trouxemos daquela cidade das sombras. Ele me disse que existiam médicos que não precisavam de aparelhos, como aquele que ele conduzia no bolso, pois eles compreendem e fazem diagnósticos por intuição. Será que o Espírito evoluído não poderia entrar em sintonia profunda com o enfermo, sentir as suas enfermidades, e inteirar-se perfeitamente dos seus problemas? O assunto é sobremaneira elástico e, se deixarmos o cavalo da curiosidade correr sem o bridão da disciplina, o livro fica maçante. O bom senso nos pede que encurtemos as rédeas, deixando que o leitor deduza o resto, dando a ele trabalho de pesquisar.

Enquanto Miramez e eu estávamos conversando animadamente sobre este assunto, os outros estavam em pleno trabalho, de que Padre Galeno tomou a frente. Kahena e Celes iam chegando com alguns medicamentos, acompanhados de um preto velho que, quando na Terra, suportou um corpo de carne, com todas as opressões, por cento e poucos anos, sem que caísse de cama um dia sequer, pela força de doença. Ele desencarnou sentado à beira de uma cacimba, apanhando água, quase sem problemas. Até aquela data nunca tinha ofendido ninguém, nem mesmo os seus ofensores; jamais saíram da sua boca palavras de ofensa, de desagrado ou blasfêmia. No fim da sua vida, curava os outros pela palavra ou pelo sopro. Esse preto velho chamava-se Zabelê e foi, no passado, uma personagem de grande relevância na arte de pensar, escrever e executar.

Zabelê foi convidado para vir àquele encontro para nos mostrar o meio engenhoso de cura pelo sopro, e chegou até nós na mesma forma do velho Zabelê, para que pudéssemos sentir o valor de uma reencarnação onde o amor e a humildade se expressaram sem barreiras. Quanto vale uma voz que, desde a sua formação, nunca pronunciou uma palavra que desmerecesse a moral da alma! Quando conversávamos com ele, sentíamos uma corrente de fluidos magnéticos de alta procedência se ajustar em nosso corpo espiritual, comandados por sua mente e norteados pelo seu santo coração.

Tive a oportunidade de conversar com ele demoradamente, dando impulso ao meu desejo irresistível de saciar a minha curiosidade que, por vezes, impacienta os outros. Ele, no entanto, ouvia-me

 

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com um sorriso nos lábios, respondendo a tudo sem dar mostra de impaciência. Pude notar uma sabedoria nascida de um amor muito puro. Pedi-lhe licença e beijei as suas mãos.

As duas velhinhas passavam por uma madorna, e viam-se em suas pernas as mesmas erisipelas degeneradas, além de edemas que deixavam escorrer um líquido fétido. Entendemos que as paredes das veias estavam saturadas de um magnetismo grosseiro afinizado com proteínas animais. Os corações estavam cansados e, de vez em quando, descompassavam, entrecortando a respiração, que era ofegante e curta. Os aparelhos respiratório e digestivo, bem como os rins, também apresentavam funcionamento deficiente.

Zabelê nada disse, mas buscou analisar, e sentiu a falta de harmonia nos organismos, oriunda da falta de paz nas mentes das enfermas. Reunimo-nos todos em torno das doentes e logo uma corrente de energia nos interligou em um só ideal: o de ajudar.

Zabelê ajoelhou-se entre os dois catres das senhoras, meditou alguns instantes e deu início à operação, insuflando o sopro curador primeiro em uma, depois em outra. Notei que ele rodeou-se, em todos os seus contornos, por uma luz, brilhante, que se estendeu como por encanto no seu corpo espiritual, predominando o verde encantador. Ele respirava profundamente e projetava o sopro nas pernas da irmã estendida na cama. Lembrei-me das histórias que ouvia quando criança, dos dragões que punham fogo pela boca; ali eu presenciava luz, como se fosse um raio grosso que saía manchetado de variadas cores, onde a cor solar sobressaía com algumas estrias de verde brilhante. Aquela luz acomodava-se nas pernas das doentes, dando-lhes novo caráter. Eu procurei observar as células onde a erisipela se mostrava em ferida, e vi que começavam ai dar lugar a novas partículas vivas e tudo se foi transformando. Depois, ele levava as mãos dando passes reconfortantes, cobrindo tudo com uma espécie de gaze, quase da cor da pele das enfermas.

Em seguida, vi Zabelê meditar mais um pouco, naquele clima de serenidade encantadora, e injetar uma espécie de líquido, também esverdeado, nas veias das doentes, com muito cuidado. Acompanhei esse líquido e ele começou a desobstruir as paredes dos vasos, desfazendo o magnetismo inferior, bipartindo as moléculas de proteínas que se encontravam unidas às paredes internas das veias.

Deu-me a entender que os engenheiros da Terra copiaram os encanamentos das ruas, de água e esgoto, da corpo humano. Fizeram uma cópia mal feita, mas, fizeram.

As veias de pessoas idosas, além de se contraírem pelo processo que todos conhecem de envelhecimento, as proteínas, principalmente a animal, aderem-se às sensibilidades íntimas das veias, diminuindo a passagem do sangue e empobrecendo a vitalidade do mesmo por um sistema de aglutinação da energia, gasta na própria estrutura das veias e dificultando a irrigação do sangue em todo o corpo. E passa a mostrar as variadas enfermidades. As veias ficam igualzinhas aos canos velhos de esgotos de uma residência, quando os detritos da casa vão aderindo nas suas paredes, que às vezes chegam a se entupir ou a estourar em toda a casa, tornando-a insuportável para a moradia. Assim é o corpo humano e por vezes, o espiritual.

O velho Zabelê fez a operação nas duas senhoras com toda amabilidade. Quarenta, quando viu o milagre operado pelas mãos e boca daquele velho, ajoelhou-se, chorando de emoção, e entrou também em transe de doação de energias, de maneira a transformar o ambiente e enriquecer a atmosfera espiritual de fluidos salutares.

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Nesse momento, Miramez estava retirando as duas irmãs do corpo físico e entregando-as a Kahena para um passeio, facilitando assim o tratamento feito por Zabelê. Olhei os cordões fluídicos que ligavam as duas senhoras: eram também iguais, e se apresentavam como que mortos, sem certa atividade psíquica. Examinei-os mais de perto, e notei que as mesmas dificuldades que tinha o sangue de circular nas suas veias, tinha a vitalidade de circular no coração fluídico. Perguntei a Miramez:

- Como podem as coisas serem assim idênticas, apresentarem as mesmas dificuldades?

Miramez, solícito, respondeu com sua amplitude de conhecimentos:

- Lancellin, o corpo físico é a cópia do Universo; ele precisa de harmonia para viver bem. Faltou harmonia, vem o desarranjo. Vê bem: em uma melodia que se executa, se uma nota apenas faltar no momento exato, toda a canção se mostra em desajuste. Além disso, um corpo se reflete no outro, até ao infinito, tanto para o bem como para o mal. As doenças passam do corpo espiritual para o físico, e vice-versa. Quarenta estava atento, ajudando na limpeza da casa, com os nossos companheiros espirituais, bem como os candidatos às viagens astrais que ali se encontravam. Daí a instantes, entraram Kahena e Celes com as duas irmãs, que, tagarelando sobre assuntos familiares, entraram mas não viram nenhum de nós, nem mesmo Kahena e Celes, que as levaram para o passeio.

O cordão de prata, novamente observei, tinha alguma vitalidade, no entanto estava algo "encorreiado", como o pescoço de uma pessoa idosa. Entraram no corpo, sem noção de que estavam fora dele, acordaram e uma disse para a outra:

- Eu tive um sonho, mas que beleza! Eu tive um sonho que um anjo estava soprando minhas pernas, enquanto outros me assistiam. Uns carregando umas coisas, como sendo remédios, outros me acariciando. Por fim, eu sarei.

A outra estava ansiosa para dizer que também sonhara, falou, emotiva:

- Também sonhei! Não vou lhe contar, porque foi o mesmo sonho que você teve.

E riu dizendo:

- Nós duas somos iguais até nos sonhos. E terminou, satisfeita:

- Será que vamos morrer no mesmo dia?

Levantaram as cobertas, para verem como estava a erisipela, e começaram a chorar de alegria.

Zabelê despediu-se de todos nós com alegria, e Kahena e Celes foram levá-lo até o lado de fora, agradecendo a sua cooperação. Miramez nos disse com sabedoria e gratidão a Deus:

- Vede, meus filhos, o quanto vale o amor! Esse Espírito que nos apareceu com a forma de um preto velho, cultiva o amor no coração há muitos milênios, de maneira que esse amor sai com facilidade pelos canais do seu verbo e restabelece os enfermos, aumentando a esperança nas criaturas que sentem o calor do seu sopro. Ele trabalha no anonimato, e trabalha por amor às criaturas.

As pernas das senhoras estavam completamente restabelecidas e já o sangue circulava nas veias sem impedimento; o coração trabalhava como uma bomba e podíamos notar a harmonia das batidas cardíacas. Os guias da casa estavam cheios de satisfação, pela cura das suas tuteladas, como também pela presença de todos nós naquela residência.

Despedimo-nos deles, carregando um fardo de gratidão daqueles Espíritos feitos vigilantes de um lar, por amor ao próximo. Partimos, entregando, de casa em casa, como sempre o fazemos, os

 

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aprendizes. Por último, levamos Quarenta, e ele se despediu de todos, demorando-se junto ao Padre Galeno, que o abençoou, dizendo:

- Vai, meu filho, cuidar dos teus deveres na religião que abraçou, mas, deixa que fique viva em tua mente, jovem na carne mas velha em Espírito, a certeza de que o próximo, em qualquer dimensão que existir, é teu irmão em Cristo. Quem ama somente a religião que escolheu e aos irmãos que seguem as mesmas idéias, não pode dizer que é cristão, porque Cristo é uma força universal.

Quarenta abriu os olhos, já na carne, e começou a rememorar o que ocorreu durante o transe fora do corpo, entregando-se a várias deduções. E nós, ali finalizando o trabalho daquela noite, sentimos todos a mesma ansiedade em agradecer a Deus por toda a oportunidade que recebemos das Suas mãos. E, sem nenhum constrangimento, nos ajoelhamos, todos de uma só vez, e ouvimos a fala de Miramez, embargada de emoção:

"Pai de infinito amor, de justiça e de perdão! Sabemos das nossas necessidades de compreendermos as leis que nos sustentam, e que se expressam de acordo com a classe a que pertencemos, na escala evolutiva. Cada vez que estudamos e trabalhamos, encontramos novos recursos de servir e ajudar, recursos que nos vêm de todos os rumos da natureza. Como gratidão, Te ofertamos a sinceridade nos nossos trabalhos e o amor nas nossas lides de cada dia.

Pedimos, Senhor, para nos ajudar a servir com mais eficiência e entender melhor o nosso próximo, porque já sabemos que nós somos eles, e eles são nós, em um intercâmbio divino na divina seqüência de todas as vidas que a Tua misericórdia nos proporcionou. Eu peço para esses companheiros que estão comigo nesta junção fraternal, que nasça para eles a motivação onde o amor é a base, e a caridade, a segurança de todas as vidas em todos os mundos.

Sempre escutamos a Tua voz a ressoar nas nossas consciências, mostrando-nos o respeito que deveremos ter diante das outras almas em evolução. Nós Te pedimos por todos aqueles que saíram conosco a semear todas as noites, para aqueles que se reuniram na forma de aprendizado mais urgente. Somos os grandes beneficiados, pois todos esses trabalhos foram para nós, e principalmente para mim, motivo de alegria e sustentação da confiança.

Mestre Jesus, abençoa todos os que sofrem, e ampara os que estão dormindo na grande noite dos milênios. Estamos esperando que eles acordem, para andarem conosco nos caminhos por onde Tu passaste, deixando as sementes do trigo divino no solo humano. Mestre, que a Tua paz seja a nossa paz que o Teu amor seja o nosso amor, e que o Teu perdão seja o nosso perdão!

E já que estamos vivos em Cristo, podemos dar glória a Deus sobre todas as coisas, glória a Jesus sobre toda a humanidade e aos anjos que ajudam e sustentam a todos nós, com o amor de Deus!

Estávamos no templo da natureza; as estrelas, brilhando com intensidade, parecia que respondiam aos nossos apelos e agradecimentos. Descia sobre todos os que ali se reuniam chuva de flores espirituais que recendiam perfume embriagador. Sentimo-nos verdadeiramente renovados no ânimo.

Miramez, nimbado de luz, quando abriu a boca, parecia um sol que nos bafejava uma doação espontânea de luzes indescritíveis. Notávamos que ele fazia uma força incomum para apagar-se por humildade mas, uma força maior não consentia: deixou que ele fosse o que é, para expressar o que já conquistou na presença dos séculos incontáveis ...

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Pedimos desculpas ao leitor se não conseguimos transmitir aquilo que desejávamos, pois é a primeira vez, no Brasil que tanto amamos, que tivemos essa alegria, por convite do nosso querido Miramez, para exercitar, o intercâmbio através de um médium. Somente temos a dizer, como últimas palavras deste livro, que estamos vivos no coração desta pátria!

Adeus!

 

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