Iniciação - Viagem Astral

João Nunes Maia · Capítulo 35 de 47

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Iniciação - Viagem Astral

Jesus É o Mestre

O Cristo é o nosso Mestre, onde quer que estejamos, na face da Terra ou na sua grandiosa atmosfera.

Esse vagão cósmico viaja pelo espaço juntamente com o cortejo solar, e constitui uma das inúmeras escolas do infinito que pulsa no coração de Deus.

Fechei o capítulo anterior resmungando por dentro, ansioso em saber de certas coisas que a vida apresenta como segredo.

O dia mostrou sua claridade, cheio de afazeres. Era de se notar na nossa colônia de trabalho, a multidão de companheiros chegando e saindo, como se não registrasse o tempo e se esquecesse do espaço. Muitos de nós, neste estágio de vida, ainda carecemos de descanso para refazermos as energias gastas na labuta que abraçamos por amor, como sendo para nós, meios de ganhar o dinheiro divino da paz de consciência.

Há gente que olha a Terra com tristeza, porque somente observa o inferno que nela ainda existe, esquecendo-se de analisar as nesgas dos céus espraiadas por toda parte. Quem tem o mal por dentro, só enxerga o mal exterior. O planeta que habitamos por misericórdia de Deus está se transformando pela força do progresso espiritual, pois ele é arrastado por esta força de Deus que circula por toda a criação e comanda todos os entendimentos.

A Terra é uma lavoura que o saber nos confiou para o bom plantio e a caridade se revela nas mãos dos anjos que nos ajudam na semeadura, dependendo da nossa disposição. Temos liberdade em plantar, mas não em colher; a colheita é conforme o que semeamos no solo da vida. Do ato de plantar surge a justiça de receber.

Ao escrever estas páginas, lembro-me vivamente de um grande poeta brasileiro, nascido num engenho de açúcar da Paraíba. Fui visitar um velho companheiro em Leopoldina, e este, quando lá cheguei, estava folheando os seus alfarrábios, quando pôs as mãos em um exemplar da "Gazeta de Leopoldina", datada de 18 de agosto de 1914, ano do início da Primeira Grande Guerra mundial' e nela vimos estampada uma poesia do grande mestre da rima, e que falava sobre a virtude mais respeitada na Terra e no Céu:

 

CARIDADE

No universo caridade

Em contraste ao vício infando

É como um astro brilhando

Sobre a dor da humanidade.

Nos mais sombrios horrores

Por entre a mágoa nefasta

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A caridade se arrasta

Toda coberta de flores!

Semeadora de carinhos

Ela abre todas as portas

E no horror das horas mortas

Vem beijar os pobrezinhos.

Torna as tormentas mais calmas

Ouve o soluço do mundo

E dentro do amor profundo

Abrange todas as almas.

O céu de estrelas se veste

Em fluido de misticismo

Vibra no nosso organismo

Um sentimento celeste.

A alegria mais acesa

Nossas cabeças invade

Glória, pois, à caridade

No seio da natureza

Pensamos, falamos e escrevemos que Jesus é o nosso Mestre, porque Ele nos ensinou a caridade na sua feição mais pura. Antes d'Ele, éramos iludidos com sentimentos egoístas e excessos de amor próprio.

A caridade iluminada, aquela que não exige, que não se troca nem se vende, a caridade que é feita por amor, foi o Cristo quem a viveu na sua mais alta expressão!

*

Minha cabeça girava em um turbilhão de perguntas, surgidas dos fatos narrados no capítulo anterior. Como eu não consigo ficar muito tempo com a mente conturbada e ansiosa por esclarecer determinados pontos, vamos colocar a luz sobre a mesa, para que a razão se aquiete com a Verdade.

Miramez aproximou-se, e eu já o cumprimentei desfechando-lhe perguntas:

- Deves ter percebido a inquietação da minha mente, resultante dos acontecimentos de ontem à noite, cujas particularidades deixaram-me confuso. Primeiramente, se me permites, gostaria de saber qual é a força usada pela nossa irmã Kahena, ao estender as mãos diante das árvores e colher delas as substâncias usadas como medicamento para os enfermos. Já experimentei, imitando-lhe os gestos, pedindo ajuda aos vegetais, mas nada consegui. Qual é a diferença entre o meu pedido e o dela?

- Lancellin, o que é preciso a um aluno de engenharia, do primeiro ano, para assentar-se diante de uma prancheta de desenho do seu mestre, e traçar um importante edifício, com todos os detalhes e com

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toda a segurança? O projetista deve ter a capacidade que o engenhoso serviço requer. Isso é válido para o astrônomo, o médico, o economista, enfim, para o profissional em geral. Assim, no tocante às coisas do espírito, ninguém passa a saber, apenas porque viu os outros fazerem. Kahena dedicou muitas vidas a essa arte de se comunicar com a vida vegetal e animal e, por vezes, a mineral. Agora, ela estuda na universidade da vida, como se comunicar com os homens, aprofundando-se nos seus desejos e reações, coisa bem mais difícil, porque requer muito amor, aquele amor que se confunde com a justiça, pleno de equilíbrio espiritual. Para aumentar a nossa esperança, Jesus nos ensina: Pedi e obtereis. E nós acrescentamos àqueles que pedem: Aprendei como convém pedir.

Antes que o nosso instrutor terminasse a resposta, eu já estava com outra pergunta na ponta da língua:

- Fiquei muito intrigado com aqueles seres que vieram ter conosco diante daquela árvore, pelo chamado de Kahena. Eles vos festejaram com tanta alegria, mostraram-se desconfiados comigo. Quem são eles e por que procederam assim?

- Meu companheiro, a obra de Deus é cheia de segredos, aos quais vamos tendo acesso à medida que evoluímos. Assim como todos nós, já passaste por vários estágios, ocupando lugares diferentes na criação; no entanto, a escola é a mesma. No futuro, aqueles seres irão ocupar o lugar que tu desfrutas hoje. Somente o tempo tem o segredo desse avanço. Aquelas pequeninas criaturas evoluem e prestam um grande serviço à natureza. Eles agitam, de vez em quando, a seiva das árvores e conhecem a natureza das mesmas na sua profundidade, mas obedecem a um ser maior, como se fosse um deus para eles, tanto que, quando eles admiram qualquer peça que usamos e desejam usá-la, podemos notar que eles desaparecem e, daí a instantes, ressurgem usando o objeto almejado. É que eles vão ao Espírito-deus, e ele cria uma réplica perfeita para eles. São crianças espirituais que querem para si quase tudo o que vêem. Para que possas ser amigo deles, não basta apenas olhar, nem pedir ou ter Espírito de domínio; tens que ir ao Espírito-deus, que os comanda, para que ele promova a ligação afetiva entre ti e aqueles irmãozinhos, por meios que ainda desconhecemos. Para que possas vê-lo, é necessário subir até a sétima freqüência. Tudo o mais, aprenderás com a prática.

Fiquei pensativo. A resposta de Miramez ativara-me uma curiosidade ainda maior, acerca dos minúsculos seres da natureza. Logo insisti em nova pergunta:

- O Espírito-deus desses seres é somente um?

- Não, Lancellin. Nesse imenso campo da vida, há muitas divisões, nas quais a ordem e a disciplina são muito maiores do que pensas, mais ainda do que entre os homens.

- Eles têm necessidade disso para evoluir, ou têm esse trabalho que ora fazem, como sendo um divertimento?

- Como não? E são seres que habitam corpos fluídicos, se bem observaste. Destaque-se, ainda, a facilidade com que entram nas árvores, deslizam por entre as correntes vitais que sustentam as mesmas e impulsionam as seivas em todas as direções. Alguns são hábeis colhedores de plasma vegetal, e sabem envolvê-lo em camadas de energias para que não se dispersem ao contato com a atmosfera e a luz. Eles aprendem tudo isso com o Espírito-deus, que é uma inteligência lúcida, mestre em várias artes, nessa profunda ciência do conhecimento do reino vegetal.

 

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- O senhor poderia nos dizer algo acerca das rosas, particularmente daquela, tão obediente à mão estendida de Kahena, que ela se encheu de fluidos perfumados, cuja delicadeza sugeria a presença de uma dama da mais alta linhagem a nos festejar?

- No campo das rosas, Lancellin, e, certamente, das flores em geral, a história é outra; no entanto, o fundo é o mesmo. São rios que correm para o mar da evolução. Às criaturas que nós citamos primeiro, é dado o nome de Gnomos; no segundo caso, são as fadinhas, com outra linha de evolução, que depois se encontram, como os que ora se encontram no mundo, na composição dos lares na forma de homens e mulheres. Todos nós já estivemos na posição em que aquelas se encontram, como Gnomos e Fadas. Alguns detalhes ficarão sem explicação, para que possas pensar.

Pela expressão de Celes, notei que ele queria perguntar também, e foi o que ele fez:

- Irmão Miramez, de onde vieram esses seres?

Todos gostamos da pergunta.

Miramez respondeu, com leve sorriso nos lábios:

- Vieram de Deus, meu irmão, como nós outros. Passaram por vários caminhos já trilhados por nós, e vão seguir pelos mesmos roteiros que seguimos em passado longínquo.

Meditou um pouco e continuou:

- Existem, Celes, duas forças poderosas que nos libertam, a nos mostrar o reino da tranqüilidade imperturbável; elas são: conhecer e amar, e uma se confunde com a outra, porque ninguém conhece a Verdade sem amá-la, nem a ama sem conhecer.

Daí, eu disse para mim mesmo: "E ninguém conhece e ama sem perguntar".

Foi nessa filosofia que se seguiu mais uma pergunta.

- Nós queríamos, se fosse possível, que a nossa companheira Kahena nos dissesse quais são aquelas árvores onde se colheu o plasma vegetal que serviu de medicamento para a nossa irmã de caridade.

Kahena, satisfeita, nos respondeu com sua voz meio rouca, mas de esplendente clareza:

- A primeira que tocamos, podemos dizer que é um famoso tubérculo, de nome Bardana (Lapa Officinalis) e medra nos lugares úmidos e sombrios, como pudeste constatar. O seu valor terapêutico é extraordinário, principalmente pelo equilíbrio dos elementos que a compõem; podemos dar uma pequena amostra da sua importância: a Bardana serve para curar abcessos, afecções da pele, bronquite, catarros do estômago e dos intestinos, cálculos nefríticos, cálculos da bexiga, eólicas nefríticas, eólicas hepáticas, comichão, debilidade do estômago, má digestão, enfermidades cardíacas, gastrites, furunculose, herpes, gota, prisão de ventre, hidropisia, queda de cabelos, reumatismos, tumores e sarna. É muito rica em fósforo. Pelo que se pode notar, é uma verdadeira farmácia, esta planta. Também, quando colocada em mãos de alguém como Kahena, se transmuta em outros valores espirituais, enriquecendo sua força energética para sustentação do equilíbrio bio-orgânico.

Fiquei abismado de conhecer tanta variedade curativa em uma só planta. A natureza, pensei, é uma bênção de Deus à nossa procura, basta que procuremos por ela.

Kahena continuou:

- A outra ciclópica árvore, Lancellin, é o tão conhecido Jatobá (Hyménaea Courbaril), da família das leguminosas-cesalpiniáceas, que encontramos por todo esse imenso Brasil. Ele é adstringente peitoral,

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vermífugo, remédio salutar para o estômago, combate a cistite, prostatite, blenorragia, disúria, anúria, bronquite, sendo ainda excelente medicamento no tratamento da anemia e da fraqueza geral.

A humanidade, acrescentou Kahena, haverá, de dentro em breve, passar a usar os medicamentos naturais. O melhor laboratório do mundo é a nossa mãe natureza, por mostrar profunda afinidade com os fluidos espirituais, de sorte a nos ajudar na cura de todas as enfermidades.

Não vi o tempo passar, pelo encanto da conversa de Kahena. Queria que ela continuasse, mas Padre Galeno nos interrompeu:

- Vamos tratar de outros assuntos e em outra oportunidade voltaremos aos encantos do reino da natureza, que está sempre em festa.

Poderíamos tomar todo esse capítulo perguntando e ouvindo, mas o nosso trabalho urgia e tínhamos de continuá-lo, apesar da nossa ânsia de saber para melhor amar.

Quando cheguei ao mundo espiritual, aprendi uma coisa muito simples, porém, na sua profundidade, engenhosa. É uma ciência que, quando aprendemos a dominá-la, abre-nos as portas de todo entendimento: é a oração. A prece, em nosso plano de vida e trabalho, é como que o lanche para os encarnados, todas as manhãs. Ela nos reabastece de todas as forças e nos dá uma visão daquilo que vamos fazer. A súplica nos liga com a realidade maior, cuja voz passa a nos comandar, insuflando-nos o ânimo e a alegria. E é nessa onda de força que vamos iniciar o nosso trabalho.

Miramez nos convidou à oração, e ele mesmo tomou a palavra, no recolhimento que esse gesto requer:

" Senhor de todos os mundos!

Somos conscientes das nossas necessidades e carentes de amor no coração. Permite que possamos, na Tua graça, despertar no nosso íntimo, a coragem para aceitar os deveres que nos chamam em inúmeros lugares. Que o desânimo em nossos caminhos seja ficção, para nos mostrar o que deve ser feito na pauta do empreendimento maior. Ajuda-nos, Senhor, a conquistar os valores que existem como fragmentos em nossos corações no sentido de que eles cresçam e se avolumem, nos garantindo a paz e restabelecendo em nossa vida a alegria de viver.

Que o Cristo Se faça em nós, como diz Paulo de Tarso, motivo de glória. Aquela glória que fecunda o amor, para se expressar como caridade.

Nós estamos aqui, Jesus, à Tua disposição, e estamos pensando e sentindo a pureza da Tua doutrina de Amor, para que ela penetre em nós como força da vida, libertando-nos da inferioridade que ainda carregamos do passado distante e da qual ainda não conseguimos nos libertar.

Abençoa, Senhor e Mestre, as casas de repouso e de tratamento espiritual, os enfermos que nelas estagiam e aqueles que ainda estão sem rumo.

Abençoa, Senhor Jesus, as colônias espirituais e aqueles, que nelas trabalham em favor dos que sofrem.

Abençoa a Terra, com todas as suas divisões.

Abençoa a Vida, nas vidas que se movimentam em Deus.

Louvamos-Te na expressão do trabalho que nos ergue a conduta, na forma de moral evangélica e nas linhas do bem que nunca morre.

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Assim Seja.

Depois da oração, fomos tomados por um ânimo que a palavra e a escrita não têm condições de expressar. Somente quem pode sentir tal efeito, traduz para si mesmo a realidade e os valores que encerra uma prece feita com a participação de todos os recursos da alma.

Mesclada com a oração, foi ouvida uma música suave, que aguçava os nossos ouvidos, para percebermos o palpitar da existência universal.

Saímos planando no espaço, movidos pela força da prece e pelo dever que a caridade estimula. A velocidade não era tão alta quanto eu esperava, e quanto mais avançávamos, mais pesado ficava o ar; era como se nos movêssemos n'água, cuja densidade dificultasse o nosso avanço.

A minha mente formigava de vontade de perguntar o que era aquilo, mas, educação pedia silêncio e emprestava forças para manter um bom comportamento. Passavam por baixo de nós, nuvens e mais nuvens de cores esquisitas, como sendo luz que perdeu o poder de clarear, manifestando vida, porém, de forma inquieta e indesejada. Fomos descendo no meio delas, e Miramez nos pediu para nos concentrarmos no dever, sem vacilar. Entretanto, ao penetrarmos naquele caldo de magnetismo mental inferior, senti, por mais que fizesse força para me controlar, um calafrio em todo o corpo, como sendo uma segunda morte. Quase gritei por nosso benfeitor espiritual, mas reagi. Uma coisa eu garanto aos leitores: se eu estivesse sozinho, não suportaria tal agressão das sombras.

Livramo-nos delas, respirando aliviados, mas, ainda constrangidos. Eu buscava o equilíbrio que tinha, antes de sair para o trabalho.

Descemos mais, em uma noite linda, embora cheia de confusão nas grandes cidades: era o "reinado de Momo ", que içou a bandeira do seu domínio por três dias, e noites, nos quais os instintos inferiores se agitam na mente e nos atos de todas as criaturas que pulam desenfreadamente nas ruas e nos salões, embriagados pela maneira extravagante de distrair. Mulheres quase nuas e homens que não mediam o comportamento, deixavam extravasar o que realmente vibrava no recôndito de suas consciências. Certamente que era uma alegria coletiva, mas, inflamada pela corrupção.

O carnaval é um saco de frutas deterioradas; no entanto, tem sementes que podem gerar plantas sadias. É o que devemos esperar, com toda confiança nos céus.

Descemos em uma grande capital e penetramos em uma casa simples, em que sobressaía o asseio. A família pertencia à classe média. O irmão encarnado que estava na condição de chefe da família, estava assentado em uma cadeira de balanço, pensando e formulando ideais elevados. Em torno dele via-se com facilidade uma variação de cores, que lhe garantiam os bons sentimentos. Em dado momento, foram entrando quatro filhos, já com idade que não exigia muitos cuidados por parte dos pais. Alegres, como sói acontecer com os jovens, trocavam abraços dentro da maior fraternidade e logo foram falando ao pai sobre a idéia, já deliberada por eles, de pular naquele último dia de carnaval. Já tinham escolhido as fantasias, cujos preços eles traziam para a sua aquiescência, exigindo também o dinheiro para pagar.

O velho ouviu sem perder a serenidade e esboçando um sorriso respeitoso, falou com doçura aos filhos amados:

- Meus filhos, espero de vocês um entendimento melhor. Venho lendo, há alguns meses, obras onde se alicerça a Doutrina Espírita, uma das quais é esta em minhas mãos, que modificou um pouco a

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minha vida, influindo certamente em meus pensamentos. Eu, como vocês são testemunhas, já gastei muito dinheiro em muitos carnavais. Agora mudei de opinião e o dinheiro que vocês e eu iríamos gastar nestes três dias de loucura, já gastei todo, não com fantasias, mas com a realidade. Mostrarei o que comprei, e estou muito satisfeito porque a consciência aprovou o meu gesto, bem como o coração. Peço a Deus para que vocês me entendam.

E abrindo a porta de um aposento, mostrou vinte sacolas abastecidas com gêneros de variadas espécies, com nomes desconhecidos para eles, escritos em cartões. Dois rapazes e duas moças, antes eufóricos, transformaram-se, no mesmo instante, fecharam as caras, deram respostas mal-educadas e saíram os quatro praguejando contra o velho pai renovado em Cristo. O homem, que não tinha perdido a serenidade antes, começou a se alterar; o seu coração batia descompassado, mas ele não perdeu a confiança, e o pensamento buscou a Deus nas asas do éter. Entretanto, nós já estávamos ao seu lado, atentos ao pedido de socorro, que ele fez com toda humildade.

Kahena ajoelhou-se aos seus pés e beijou as suas mãos, com reverência, diante da sinceridade da sua mudança de atitude. Logo, as mãos do pai aflito se iluminaram. Ele, instintivamente, as colocou sobre o peito, e o coração obedeceu, voltando ao ritmo habitual. Fernando levou as mãos às suas costas e aplicou-lhe longos passes, dispersando energias que o incomodavam. Miramez começou a arfar o peito em uma respiração ordenada e aplicou o sopro magnético em direção ao cérebro do companheiro referido, enquanto os nossos outros companheiros mantinham-se em oração, no silêncio que a paz requer. No mesmo momento, o pai de família sentiu-se reconfortado, olhou para o alto, mas nada disse. Lágrimas escorriam em suas enrugadas faces, conduzindo frases a Deus, no segredo que somente Ele sabe ler. Aquele irmão levantou-se alegre e falou baixinho:

- Tomei a atitude e já está tomada. Não recuo, e peço a Deus e aos Espíritos que me ouvem, para me ajudarem a vencer todos os obstáculos que, porventura apareçam, e que tendam a me fazer recuar. Estou com Deus, e certamente Deus está comigo. Viva Jesus!

Empenhou-se em carregar as sacolas para o seu carro, que já estava na porta. Daí a instantes, chegou um vizinho e, de boa vontade, passou a ajudá-lo. A caminho do trabalho programado, o bondoso pai narrou para o seu amigo, o motivo que o levou a tomar aquela atitude, naqueles dias.

Tudo tinha começado com um sonho que ele teve com a sua falecida esposa, alma que ele tanto amava, e que lhe fizera o pedido de ajuda aos necessitados. Ele não podia deixar de fazer o que ela desejara. A razão não deixava dúvidas a respeito da veracidade do sonho.

Acompanhamos o carro até uma grande favela onde as sacolas seriam entregues. Bateram à porta de uma casinha humilde, e logo uma mulher abriu a porta; tinha os olhos salientes, cabelos mal cuidados, e notava-se que ela tinha chorado muito. Cinco filhos levantaram para ver quem era, em estado de grande penúria.

- Mãezinha Lena, eu quero comer! Eu quero comer! ... Eu estou com fome!

Ela chorava também, acolhendo o pequerrucho ao colo e dizendo com carinho:

- Dorme, meu filho; amanhã você comerá, se Deus quiser! Os dois homens a serviço da caridade fizeram grande esforço para disfarçar as emoções, e o idealizador do trabalho de assistência falou:

 

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- Minha senhora, não chore mais. Deus ouviu suas lágrimas de mãe aflita. Viemos, em nome d'Ele e de Jesus, trazer esta sacola. Os seus filhos não precisam dormir, para comer amanhã. Eles irão se alimentar agora, em nome do amor!

A última palavra quase não saiu, sua voz estava embargada de emoção. Pediu licença e foi entrando com o seu companheiro de trabalho, colocando tudo em cima de uma pequena mesa. As crianças começaram a saltar de alegria, dizendo:

- Foi o papai quem mandou, não foi mamãe?

Os benfeitores se retiraram para levar auxílio a outras famílias. Aproximei-me do guia da casa, que irradiava de alegria. Ele disse:

- Eu fiz o que estava ao meu alcance em favor de dona Lena, a quem muito amamos. Tiramos várias vezes da sua mente a idéia de suicídio; contudo, esta noite ela ia se suicidar mesmo. Não suportava mais ouvir os filhos chorarem e os recursos se esvanecerem. Ela está doente, sem condições sequer de levá-los à rua para esmolar. Além do mais, o ambiente de festa não favorece a esse gesto de humildade. O povo está cego por influências negativas e os pequenos estariam sujeitos a muitas outras coisas, o que desaconselha a saída de casa. E acrescentou: o marido foi morto meses atrás.

No mesmo momento, lembrei-me do primeiro verso sobre a caridade do Poeta paraibano, que peço licença para repetir:

No universo a caridade

Em contraste ao vício infando

É como um astro brilhando

Sobre a dor da humanidade.

Logo vi Kahena e Celes entrando com fluídos luminosos nas mãos, entregando-os a Miramez, que começou a aplicá-los nas narinas de dona Lena. Ela, sentindo um leve e agradável aroma, monologa no centro d'alma: "Meu Deus tive a impressão de que fui auxiliada por um médico! Que coisa esquisita!... Deus, ser a emoção que me tomou quando vi aqueles homens me ofertando estes alimentos. Ainda não estou acreditando! Foi Deus ouvindo a minha dor". E tornou a chorar, mas, desta vez as lágrimas foram diferentes: de gratidão às alturas imensuráveis dos Céus.

Já que tinha se despedido dos homens bons, começou a trabalhar junto aos filhos, preparando um jantar farto, aquele que Deus enviara. Mas, antes, os meninos já trituravam umas bolachas que acharam embrulhadas, e alguns pães que estavam à vista.

Pelo sinal de Miramez, entendemos que era hora de partir. Partimos e pensei comigo, secretamente, para onde iríamos. Entrementes, atendi o trajeto que o destino nos mostrara, e a direção do nosso guia.

Sem nos darmos conta, demos entrada a um casarão bem cuidado, e logo notei que era residência de irmãs de caridade. Fomos recebidos por um grupo de senhoras desencarnadas, de porte interessante, e que davam a entender que eram Espíritos vigilantes da casa. Elas se aproximaram de nós com amabilidade, nos deixando à vontade para o trabalho que deveríamos fazer. Sentamos em confortáveis poltronas, em uma sala espaçosa, onde se ouvia suave música. Miramez conversou com uma das

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senhoras, a que comandava aquele grupo de irmãs, e saímos em um clima de fraternidade. Tomamos o rumo de um corredor muito comprido, onde as portas enfileiradas mostravam inúmeros quartos. Chegamos ao fim do corredor; o nosso guia parou e começou a nos contar histórias de humor sadio, que alegra e eleva. Fiquei meio inquieto com a demora e desejei perguntar porque não entrávamos. Deparei com o olhar de Miramez, como sendo uma censura, pois ele certamente lera o meu pensamento, e respondeu com ponderação:

- Lancellin!.. A irmã que vamos visitar para a viagem desta noite está trocando de roupa e, mesmo como Espíritos que somos, devemos respeitar a dignidade alheia!

Ainda existe no íntimo das almas, o desejo que desconhece a educação e que desvanece a luz dos sentimentos elevados. Entendi o recado, porém, começou manifestar em mim um interesse desenfreado de entrar no quarto. Miramez notou, talvez pela mudança de minha aura, e, olhando-me com energia, levou-me a mudar a direção dos meus pensamentos. Caminhei lentamente pelo corredor, respirei fundo e pedi proteção a Deus, para que ajudasse o meu coração a sentir somente a luz, abandonando as trevas. Voltei ao grupo, interessado nas palavras ventiladas pelos companheiros.

Daí a pouco, penetramos no quarto simples, mas bem posto, onde se notava a limpeza impecável em todos os pertences. A irmã, com um rosto angélico e já na posição de dormir, soltava seus pensamentos, que voavam em direção ao céu. Lembrou-se do santo da sua devoção e sua aura se iluminou. Passou a mão por baixo do travesseiro, nada encontrando, buscou aqui e ali, nas gavetas do móvel simples ao lado da cabeceira e sorriu: na sua mão se via um livreto sobre a vida de Vicenzo Gioachino Pecci, que foi Papa de 1878 a 1903. Comandou, portanto, a religião católica por vinte e cinco anos e cinco meses. Homem de muita estrutura, pregou a tolerância, era apologista da concórdia em todos os rumos e, ainda mais, salientou que o socialismo cristão era a salvação de todos os costumes.

Leu várias vezes os tópicos das encíclicas e depois se acomodou suavemente. Nada sentiu fisicamente da desconfortável cama, porque a sua mente estava em outra dimensão, a dimensão da fé.

Miramez aproximou-se da irmã, deu alguns passes em sua cabeça, e passamos a observar o seu cérebro. O espírito começava a afrouxar os laços, mas, não estava dormindo nem acordada, naquele estado de meio termo. Miramez passou as mãos com rapidez na cabeça da irmã e nos mostrou, em tamanho bem maior que o natural, o cérebro com as suas circunvoluções, como que assomado por ondas magnéticas que partiam do centro da cabeça. Tudo aquilo se projetava em uma harmonia grandiosa. Notei com grande interesse a pulsação da massa encefálica e a mudança de cores que eram projetadas no centro e, depois, derramadas para a periferia, sugadas por fios quase invisíveis que desciam ao longo da espinha.

Mais abaixo, deu para ver o corpo caloso protegendo os pontos sensíveis, onde a luz era mais intensa, como que filtrando as irradiações que procuravam se libertar. Para o centro, protegidas pelo cérebro, víamos aparecer duas estrelas de primeira grandeza, a cintilar claridade de um azul encantador, mesclado com lilás vivo, com estrias de um verde muito agradável. Eram as glândulas epífise e hipófise, que filtravam um potencial de luzes nascido no centro do córtex cerebral.

Miramez, tirando do bolso um pequeno bastão luminoso e altamente sensível, nos apontou com ele o foco de energia que, partindo desta filtragem, descia em uma cadência harmoniosa pelo pedúnculo cerebral, avançando pela protuberância, bulbo e medula; daí, em dois jatos de força alcançava o cóccix

 

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formando uma flor, introduzindo elementos vitais e favorecendo o clima para despertar da língua de luz que dormia na base da espinha.

Percebíamos, com grande nitidez, os meridianos, como riscos de luz, girando em todo o corpo. Em alguns pontos, a energia se enroscava, coagulando e interrompendo a pulsação da energia cósmica, nas vias que deveriam estar livres, para a boa harmonia do todo.

Nesse momento, começou o parto espiritual, se assim podemos dizer. A irmã já estava flutuando acima do corpo físico, com forte tendência à liberdade. O nosso guia parou de dar explicações, e deixou que a nossa candidata saísse sozinha. Afastamo-nos, e ela começou a se levantar. Vista do nosso lado, ela era mais linda ainda; sorria para nós, nos vendo a todos, e avançou beijando as mãos de Padre Galeno, pedindo a sua bênção.

Ele a abençoou. Estando ajoelhada, ele levou a mão à sua cabeça e falou com bondade:

- Levanta-te, minha filha, pois também faço parte dos humanos e pertenço à Terra, tendo muito a corrigir, diante das virtudes que devo granjear.

Ela, naquele arroubo de concentração, pareceu não ter notado o gesto de humildade do Padre Galeno, que acrescentou:

- Somente Jesus é o nosso Mestre e Guia de todas as horas.

A irmã de caridade levantou-se e a sua primeira preocupação foi a roupa; deu uma olhada rápida nas suas vestes, e logo recompôs os tecidos que desejara. Fiquei observando, ao lado de Celes, e comentamos sobre a grandiosidade da força mental. Eis aí um grande segredo a se desvendar: tudo na criação obedece a essa força divina, na formação das coisas. O duplo da roupa de dormir se transformou em outra que ela desejara, ou melhor, cedeu lugar para a segunda. A velocidade dessa mudança escapou à nossa percepção, tal foi a rapidez.

Vamos passar a chamar a nossa irmã de caridade pelo número Onze. Alguns aprendizes nos acompanhavam e a eles era dada muita atenção, correspondendo às suas necessidades. Todos nós conversávamos um pouco com eles, formando assim um clima de fraternidade invejável.

Eles, em geral, perguntavam muito, no que eram todos atendidos, naquilo que podia ser respondido. Onze estava ao meu lado, mas na hora da partida, ela pediu licença e passou para o lado de Kahena, dando-lhe a mão, e partimos em serviço do Cristo.

Em pleno espaço, eu não tirava os olhos da irmã, no sentido de observar o cordão de prata que partia da base do seu crânio; porém, notei que ela, inquieta com a minha observação, falara algo ao ouvido de Kahena, que, serenamente, respondeu de tal modo que eu pudesse escutar também:

- Irmã!... Lancellin é um nosso companheiro, cujo trabalho é muito espinhoso; ele está anotando tudo o que vê e sente, e pergunta constantemente, porque está formando um livro que irá ser editado no mundo em que vives encarnada. Podes ficar descansada, pois ele é dos nossos. Confia, não há nada demais. Além disso, ele está passando por testes, para ver se consolidou a sua reforma interna, que não pode ficar somente na teoria. Não confias em Deus, em Cristo? Em nós que somos os teus companheiros de muito tempo?

- Ela sorriu balançando a cabeça, tranqüilizou-se. Descemos em uma cidade que muito agradou ao meu coração: Florianópolis. Demos entrada em uma casa espírita. Olhei para os companheiros; faltava a Onze. Tornei a olhar: não estava, também, o Padre Galeno. Voltei e vi os dois conversando na entrada.

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Como já ficara estabelecido que em meu trabalho eu poderia ter participação em todos os assuntos, a não ser quando avisado antes, aproximei-me para ouvir a conversa: a irmã não queria entrar no centro espírita, por causa da sua formação religiosa. Esse era o seu argumento:

- Padre Galeno... O senhor me perdoa. Não quero, e nem posso, censurar a tua entrada nesta casa. O senhor tem condições, mas eu devo me retirar. Eu sou Católica Apostólica Romana, e não fica bem para mim aí entrar, sem as devidas ordens da nossa irmã superiora que, tenho certeza, não vai me conceder essa permissão. Não estou preparada, desculpa-me.

Padre Galeno, meditando sobre o assunto, tomou uma feição de seriedade e falou, ponderando:

- Irmã, a casa de Deus tem muitas moradas. Não te lembras do que disse Jesus? Pois bem, essa é uma das moradas do Senhor. Há diversidade de sentimentos, como existem variadas classes evolutivas, e Deus, sendo todo bondade e amor, não iria deixar de dar assistência em toda parte. Foi como fez o nosso Mestre: conviveu com as mais variadas classes de pessoas, comendo com os publicanos, tomando parte em variadas festas de núpcias, onde os convivas se alegravam com o vinho, chegando a multiplicá-lo, quando faltou, conversou com a mulher adúltera, buscou Maria Madalena no antro da perdição, não deixou de orientar o maior perseguidor do cristianismo, Saulo de Tarso. Como nós vamos nos recusar a ajudar onde a necessidade nos convoca em nome deste mesmo Mestre?

Ela ouviu tudo com humildade, e olhando para o Padre Galeno, chorando, falou com meiguice, mas decidida:

- Padre, perdoa-me. Não posso aceitar o teu convite, mesmo sabendo que o senhor é, para mim, um anjo. A minha consciência não aprova o desrespeito às regras da casa de que faço parte. Sei que o teu coração vai me conceder permissão para me retirar, e para tanto, beijo as tuas mãos e peço desculpas.

Eu já estava ali meio agitado, por ouvir aquilo. Não era possível tanta humildade, tanto amor, tanta beleza espiritual, com tamanha ignorância. A minha mente estava inquieta, querendo perguntar.

Naquele momento, Kahena chegou junto a nós, sorridente, o que descontraiu um pouco a situação, e Padre Galeno olhou para ela, que abraçou a irmã e saiu para devolvê-la ao lar. Pensei em ir atrás, mas a curiosidade arrastava-me para o centro espírita. Virei-me para o padre para novas indagações, mas ele se antecipou, esclarecendo:

- Lancellin! A deficiência, meu filho, ronda todos nós. Essa irmã tem ótimas qualidades, tanto que é nossa assistida, e ela está melhorando. Deves saber algo sobre o condicionamento de regras e idéias do meio onde vivemos. Ela sofre desse mal. Essa auto-hipnose pelas regras da vida apaga o raciocínio e esconde os tesouros do coração; no entanto, o progresso é força poderosa e, no momento exato, a represa não comportará a água da Verdade e se quebrará com o empuxo da dor.

Achei maravilhosa aquela fala! Padre Galeno continuou serenamente:

- Olha, Lancellin, isso aí está enquadrado na descoberta do grande fisiologista russo Ivan Petrovich Pavlov, prêmio Nobel da Paz em 1904, que, observando as glândulas de um cão, descobriu uma verdade que age até entre os anjos: o condicionamento das idéias. Condicionamos idéias certas e erradas, dependendo da linha evolutiva a que pertençamos. Nós respeitamos as decisões tomadas por todas as almas, porque somente Deus, o nosso Pai Celestial, pode interferir, por saber a hora de ajudar mais.

 

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Senti agradável bem-estar no coração e na mente, com a conversa do nosso querido sacerdote de Deus. Tive ímpetos de beijar as suas mãos, mas ele desconfiou e me distraiu com outros assuntos. Querendo saber mais, adiantei uma nova pergunta:

- Por que não levar a irmã a um templo católico, ao invés de uma organização espírita?

Padre Galeno, com a serenidade peculiar ao seu ser, respondeu com interesse:

- É justamente para mostrar-lhe situações contrárias às que esta acostumada a viver. A lei de Deus é perfeita!

No que tange à verdade, o condicionamento mesquinho contra a universalidade, contra o amor, a justiça e a caridade, é fácil de ceder lugar; é por isso que as pessoas que estão envolvidas com a mentira temem a verdade.

Uma religião que proíbe aos seus profitentes a freqüência em outras, e mesmo a leitura de livros que não tiverem a chancela do censor da casa, instintivamente percebes, a fraqueza da sua filosofia. Quem está com a verdade nada teme; busca em toda parte o fortalecimento das suas convicções.

A universalidade, meu filho, é, por excelência, o tema de Deus, mas, no mundo, pelo menos no estágio em que se encontra, o egoísmo se veste de amor-próprio, como sendo a virtude maior. A lei da reencarnação nos mostra que hoje essa irmã é católica praticante, respeitando todas as regras que lhe foram impostas; amanhã, ela nascerá no seio de famílias que pensam de modo diferente, como protestante ou espírita. Começando agora a ambientar-se mesmo em desdobramento, ela passará por uma modificação sem sofrimento. Bendito seja aquele que cede ao progresso sem o concurso da dor!

Entramos abraçados no templo espírita, onde era de se notar a grande movimentação de Espíritos de todas as classes, uns beneficiando aos outros e todos ajudando a coletividade. Notei que Kahena ia saindo. Toquei em seu ombro e falei:

- Perdoa a intromissão, mas para onde vais?

Ela olhou para mim com a candura de sempre e falou com bondade.

- Vou, Lancellin, para o reino que tanto amo, buscar alguns recursos da natureza! Vou colher essências das flores e pedir a Jesus a transformação das mesmas em medicamentos, os quais devo colocar nas águas fluidificadas. Os nossos pensamentos devem obedecer ao esquema de somente ajudar, onde quer que seja, para que o progresso com Deus mude em breve a Terra de provação para um mundo melhor, onde o amor se configure com maior amplitude!

Fiquei meditando, e ela se afastou acenando a mão, levando consigo cinco dos trinta e um encarnados que nos acompanhavam em treinamento, naquela noite em estado de desdobramento. Tornei a entrar no salão e comecei a sentir a responsabilidade de uma organização como aquela. Reencarnados, havia uns cento e tantos, mas desencarnados, passavam de oitocentos, cada qual com problemas diferentes.

- Não temos tempo a perder, comentou Miramez. E foi distribuindo serviço para todos nós.

Padre Galeno tomou uma área que requeria mais paciência: iria conversar com os Espíritos que, quando no mundo, foram católicos e que acompanhavam seus parentes ou amigos, em situações difíceis. Quando eles viam o sacerdote, cediam à evidência e, assim, ele foi arrebanhando almas, com a ajuda de Celes, que o fazia mais presente à visão dos Espíritos inferiores.

 

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Kahena encarregou-se da fluidificação das águas. Celes, Fernando Abílio trabalhavam na limpeza psíquica dos encarnados. Miramez e eu estávamos examinando todos os casos, para tomarmos as providências necessárias.

É bom salientar que não invadimos residência alheia. Miramez e Padre Galeno já eram familiares àquela casa espírita, e os dirigentes da mesma nos colocaram à vontade, pedindo-nos a cooperação que estivesse ao nosso alcance. Eles se sentiam felizes com a presença do nosso guia espiritual, por resolver muitos casos emaranhados com muita facilidade, pela sua esticada experiência nas linhas do tempo e do espaço. Nós éramos sete, porém, os trabalhadores da casa, com responsabilidade com a mesma, eram trinta e dois, que logo se juntaram a nós na expansão do bem, em nome do nosso divino Mestre. Alguns dos que nos acompanhavam em desdobramento também trabalhavam, outros ficavam somente aumentando suas teorias nos campos que as suas capacidades lhes permitiam atingir.

De vez em quando, vinha à minha mente o caso da irmã de caridade que tinha voltado. Era realmente, uma história curiosa. Comecei, mesmo no trabalho, a aproximar-me de Kahena, e lhe perguntei ao pé do ouvido:

- Kahena!. . . Por que levaste a Onze para a sua casa? Por que ela não foi sozinha para o lar, ou então ficou por aí, em estado de sonho, como sói acontecer com os que dormem?

Kahena ocupada na sua química benfeitora, sorriu sem prejuízo para o seu trabalho de enriquecimento da água, e falou com bondade.

- Irmão Lancellin, a saída astral consciente, ou no exercício para a consciência, é um pouco diferente da libertação pelo sono comum. O encarnado não pode sair sozinho, nem voltar sem um guia desencarnado com experiência em tal assunto. Levei nossa irmã com todo o carinho que ela merece e a fiz acordar, para que depois pudesse dormir no estado natural e descansasse na paz de Deus.

Veio-me outra pergunta:

- E o que ela sentiu ao acordar? Quais os primeiros pensamentos? Lembrou-se de tudo o que se passou na viagem?

Nem sempre as pessoas se lembram de todo o ocorrido, Lancellin. Nossa irmã lembrou-se vivamente que encontrou um padre bondoso e que beijou as suas mãos, pedindo suas bênçãos. Recordou-se de que, em certa hora, chegaram a uma casa, em cuja entrada ela parou, duvidosa, que o mesmo sacerdote não entrara, mas ficou do lado de fora, esperando os que ali estavam para as devidas advertências, que ela não teve a coragem de assistir às lutas ideológicas, pedindo para se retirar, o que ele logo concedeu.

Por fim, sorriu, agradecendo a Deus, porque no momento do seu medo, apareceu um anjo e a levou para acordar.

Kahena sorriu com mais fulgor e disse-me:

Que anjo que a levou! ...

E terminou com bom humor:

- Se os anjos soubessem disso! ...

Ali, dentro daquele templo, era um festival de luzes e cores. Os encarnados que comandavam a sessão espírita liam os livros e os comentavam em seguida. Música suave despejava no ambiente uma paz que nos confortava a todos. Pensei no quanto seria bom se pudéssemos usar recursos científicos para

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tornar visíveis essas cenas aos encarnados. Seria um deslumbramento e encerraria de vez a discussão acerca da sobrevivência da alma, e da possibilidade da sua comunicação com os homens. A razão não pode negar os fatos.

Tentei mais uma pergunta:

Então, ninguém pode sair sozinho em corpo astral, precisando sempre da assistência dos guias espirituais!?

Lancellin, em quase tudo existe exceção; claro que os Espíritos de alto porte espiritual podem sair, quando encarnados, em viagens astrais conscientes, sem que haja ajuda de outros, pois eles já dominam por completo todas as suas faculdades! Como no caso de reencarnação, grandes missionários, ao voltarem à Terra, por vezes não precisam de quem os ajude na difícil operação de atar os primeiros laços na hora da concepção. Eles mesmos o fazem, sem maiores dificuldades. Porém, esses casos não são comuns, entendeste?

Agradeci a Kahena a sua cooperação, aliviando a minha ânsia no aprendizado, e logo entreguei as mãos à obra, onde todos já tinham começado a trabalhar. Três médiuns trabalhavam em psicografia, com grande serenidade, e vi que até nas pontas dos lápis chegavam brilho e cores, da luz emanada da fusão mediúnica. Eles estavam em treinamento, mas já tinham granjeado certos valores.

Miramez percebeu os meus pensamentos e me acudiu com seus límpidos argumentos:

- Lancellin, Deus sabe a hora de agir com meios infalíveis. Na Terra, já existem condições para que possamos nos manifestar visivelmente para as massas, mas isso depende de ordem do Alto, onde as grandes inteligências são conscientes do momento decisivo de agir.

Entendi logo que era por intermédio da televisão. Meu coração voltou ao ritmo normal e me senti feliz, pensando neste momento, que poderia ser logo, com a vibração que os meus pensamentos faziam irradiar. O instrutor veio novamente em meu socorro:

- Meu filho... Se os céus usassem os meios de que dispõem, para impor a Verdade sem curvas aos corações sem preparo, seria pior, pois o fanatismo dominaria e a direção da Doutrina perderia o equilíbrio. As sombras apagariam a luz. Não temos trabalhadores na Terra com o devido preparo para orientar as massas que iriam abandonar as suas crenças. O rebanho que compreende bem a Jesus ainda não granjeou forças para viver a realidade, e isso seria uma calamidade. Do jeito que está, Lancellin, é a melhor forma escolhida. Não nos precipitemos, pois tudo tem seu tempo e todos estão sendo preparados para o grande amanhã.

Notando que estava na hora de encerrarmos nossos trabalhos, nada mais perguntei.

Recendeu um perfume agradável no ambiente da reunião, e muitos dos encarnados sentiram naquela noite um bem-estar diferente. Os dirigentes desencarnados da casa nos agradeceram efusivamente, colocando a saudade como linha de lembrança para breve regresso.

E partimos.

Miramez meditou por instantes e nós esperamos sua decisão. Ele nos convidou amavelmente:

-Vamos visitar a nave de repouso da nossa irmã de caridade? Talvez possamos colher novos ensinamentos. Exultei de satisfação. Verdadeiramente, era o que eu queria mesmo, mas sem os pensamentos que tive ao conhecê-la. Volitamos pela natureza, respirando profundamente o ar mais puro e elementos mais nobres, verdadeiros segredos da vida. Kahena foi a primeira a entrar no quarto de Onze,

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seguida por nós. Ela dormia serenamente, o sono que todos desfrutam como bênção de Deus. O cordão luminoso dançava em cima do corpo físico e em torno dele fragmentos ajustavam-se como se ele fosse um ímã e eles a limalha de ferro. Miramez, vendo aquilo, chegou mais perto do corpo estendido na cama e falou:

- A nossa irmã em Cristo deve estar em aflição em algum lugar no espaço, pois pensamentos de horror descem como relâmpagos pelos micro-canais que compõem a ligação entre o físico e o espiritual. Advertiu-nos para o padrão mais elevado de pensamentos, e fomos em sua busca, acompanhando a fiação luminosa desenhada no espaço pelos recursos do cordão de prata, tão decantado em várias escolas espiritualistas. Em fração de segundos chegamos a um lugar sem nenhuma expressão de beleza. Logo percebi onde estávamos e pensei imediatamente: "como poderia essa irmã, tão religiosa, tão boa e dedicada ao amor, à oração, estar aqui neste antro de perdição!?"

O lugar assemelhava-se a uma grande igreja, com todos os aparatos e formas de santos pendurados em todas as paredes. Havia diversos confessionários, e ela estava presa em um desses, gesticulando e querendo livrar-se de um padre desencarnado que estava quase dominando a situação. O confessionário tinha os recursos de um bordel, dos muitos que existem na Terra. Nós, que estávamos todos invisíveis, fomos advertidos para não entrarmos na faixa vibratória dos inquisidores sensuais, porque qualquer revolta que tivéssemos nos faria visíveis a eles, e o trabalho ficaria mais difícil de ser feito, em favor da irmã de caridade. Se fosse eu sozinho, certamente, com o meu temperamento, que não deixei na Terra com o velho corpo, agarraria o pescoço daquele "monstro" e procuraria estrangulá-lo.

Graças a Deus, eu estava com uma equipe que me ajudava a bem comportar. Ficamos em atitude de oração e Miramez avançou para dentro do compartimento nefando. Lá dentro, conseguiu transformar-se em um sol, que assustou até a mim, que não conseguia encará-lo. O agente das trevas, que fora sacerdote do clero na Terra, caiu para trás desacordado. A irmã, desesperada, consertou as roupas em aflição indescritível, repetindo.

- Graças a Deus! Graças a Deus!

Diante de Miramez, ainda envolto em luz, ela se ajoelhou chorando e falou, como se as lágrimas se transformassem em sons:

- Jesus!... eu sabia que não me abandonarias. Livra-me, Senhor, deste monstro que quer me escravizar. Satanás me persegue. Peço a Tua magnânima bênção para que eu possa sair livre deste antro de perdição, disfarçado em casa da Santa Igreja.

Padre Galeno, aproximando-se, pegou a irmã pela mão e falou bondoso:

- Vem, minha filha, que vamos levá-la para a tua casa de carne. Confia e espera.

Saímos sob uma colcha de luz estelar, e entramos no quarto da nossa companheira. Ela acordou assustada e aflita, sentindo-se perseguida. Tomou um copo de água e acalmou-se. Em seguida, pegou um breviário, e passou a folheá-lo, já bem mais tranqüila.

Quando tomávamos posição para nos retirarmos, dei por falta de alguém, e perguntei ao Padre Galeno onde estava Miramez. Ele sorriu, e respondeu batendo de leve em minhas costas:

- Ele está conosco, só que não o estás vendo. Quando ele ficou visível "aquele antro de perdição, subiram as suas vibrações de sorte a atingir o inconcebível para nós. Para voltar ao normal, há certa demora. Vamos esperar.

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Volitamos e Padre Galeno, ao meu lado, favoreceu-me para algumas perguntas a mais.

- Padre Galeno... não posso aceitar que nossa irmã de caridade, aprendiz em viagens astrais, possuindo grandes virtudes, como o senhor o sabe, seja atraída para um lugar daquele onde nós a encontramos!. . . Não posso crer! Por Deus, isso foge às minhas análises!

Padre Galeno, entusiasmado por todos os assuntos dominados pela lei natural de Deus, respondeu:

- Lancellin, perfeição é conjunto de virtudes na sua mais alta expressão de vivência; é bom que não a confundas com certas aparências. Em tudo o que observaste, deves buscar a profundidade, para que encontres o tesouro da Verdade que liberta.

Aquela irmã tem inúmeras virtudes, mas ainda existem muitas a serem adquiridas. Como elas não são doadas, nem vêm através de bênçãos, a sua aparição é demorada. Elas são filhas da conquista, da dor, do sacrifício interno e do calvário da própria vida.

Ela tem bons sentimentos, é uma alma cândida, com a expressão de criança com os passos ainda vacilantes e que até o momento não aprendeu a decidir por si mesma. Ela precisa de quem a guie nas mais simples atitudes. E é em busca de guia que cai nas mãos de lobos que vestem a pele de ovelha para enganar os simples, para mistificar onde a fé desconhece a razão. Nós estamos tentando ajudá-la. Os nossos esforços são sementes que germinarão amanhã em seu coração. Ela, nesta existência, vai sofrer muito para se libertar, pois vive em um emaranhado de regras, dirigidas por companheiras que nada sentem de Cristo no coração, e que são autômatos nas mãos dos sacerdotes menos avisados.

A verdade que liberta, Lancellin, é composta de milhões de leis menores que edificam. Se o organismo físico precisa de variados alimentos para o seu equilíbrio, a necessidade do Espírito é muito maior, por ser mais engenhosa a sua estrutura. O amor carece do saber, como a conquista do intelecto nunca é perfeita sem a luz do coração, para que surja o equilíbrio.

Fiquei admirado; gostei da conversa de Padre Galeno, mas aquela irmã e seu drama, ficaram gravados em minha mente. Por que não esquecer?

Quando estava em pensamento o sacerdote amigo veio em meu socorro:

- Meu filho, isso ainda é força do sexo em ti. Ela é poderosa, domina a carne e acompanha a alma por onde ela vai; recebe a educação, mas de vez em quando, aparece em horas inoportunas.

Senti que o padre tinha razão e que devia tomar providências urgentes dentro de mim. "E devo começar hoje mesmo", pensei.

Padre Galeno, enlevado com a viagem, falou com mais calor à minha consciência:

- Olha, meu filho, tenho um segredo para contar: a nossa irmã Onze sofre muito. Antes de reencarnar, ela pediu esse tipo de provas, por ter abusado do sexo em outra vida, Com aquela beleza que encanta a todos, sofre de câncer nas vias do sexo, e que está destruindo os tecidos sem piedade. O mau odor afasta as pessoas, e ela sofre de astenia profunda. Vive, mesmo assim, alegre e com o rosto de anjo. Sua Superiora sabe disso, mas lhe impõe serviço como se ela estivesse sã. E ela tudo faz, com dedicação e paciência.

Padre Galeno ia continuar, mas, pedi por caridade, não falar mais, pois estava começando a sentir revolta pela natureza, pelos processos que a vida pede para atingirmos a evolução. Mudei completamente os meus sentimentos em relação à nossa irmã. Senti por dentro, uma voz me dizendo:

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Conhecereis a verdade e ela vos libertará.

De longe, já avistávamos a colônia, toda iluminada e atraente. Espíritos cruzavam as ruas, cada um em diligência ou aprendizados. O sol, que é o mesmo da Terra, espraiava luzes em todas as direções, a nos convidar para outras caminhadas em serviço, onde Jesus é o Mestre.

 

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