Iniciação - Viagem Astral
Educando Sempre
Nós não estamos escrevendo somente por escrever, para deliciar os leitores com narrativas tidas como contos maravilhosos e fábulas que levam o cunho das fantasias.
Recorremos à escrita, por amarmos esta arte maravilhosa que ajuda a nos libertar da peia da ignorância.
Em nossos relatos, a bem da verdade, não existe ficção, como dá a impressão a muitos leitores que desconhecem o mundo dos Espíritos, com a sua vida intensa em labor permanente.
Tudo que escrevemos é por ordem do Plano Maior que nos pede para colocarmos em nossas palavras, algo que eduque sempre. E isso, afirmamos quantas vezes forem necessárias, serve muito mais a nós, do que aos outros; quem doa, é sempre o primeiro beneficiado.
As experiências nos levam a crer que, quanto mais nos aproximamos do bem da coletividade, mais sentimos o céu dentro e fora de nós.
O Espírito foi estruturado pela Inteligência Maior, para a felicidade, tanto que, quem se desvia do caminho reto, sofre conseqüências desastrosas e recua, renovando idéias e mudando atitudes, na afirmação de que o Bem com Deus é a escolha acertada, da alma que já despertou para a luz da Verdade.
A Terra é considerada por nós, na nossa faixa de trabalho, como um lar maior, onde as necessidades são iguais às do lar menor. Se nós não aprendemos a viver bem entre os familiares que estão ligados a nós pelos laços do sangue, como poderemos viver em harmonia com a família maior? Os que se reúnem como pais e filhos, esposos e parentes, estão testando as suas próprias forças e ampliando seus dons de amar e servir, para fazer parte da grande família universal despertando nos corações o amor verdadeiro, que não sofre restrições em nenhum momento da vida.
Há pessoas que dizem que nós, Espíritos, por não estarmos na matéria, não precisamos trabalhar, nem estamos presos aos compromissos familiares; que somos livres e, por isso mesmo, poderíamos ajudar mais aos que estão limitados pela prisão da carne.
Esses irmãos desconhecem ou esquecem a lei natural e a vida além-túmulo. As nossas ocupações são muito mais do que se pensa, por termos muitos compromissos no campo da ajuda à humanidade. Além disso, cada criatura só recebe o que merece; aquele que faz por merecer mais, recebe mais. Não é essa a verdadeira justiça?
Há certos espíritas e espiritualistas em geral, que desconhecem que em todo lugar da natureza estão presentes inteligências, trabalhando em nome de Deus e sob a Sua magnânima assistência. E o que estamos tentando provar neste modesto livro, onde muitas inteligências estão dando a sua colaboração, em forma de experiências, para que possamos ofertar-lhes um fruto nutritivo, de forma a alimentar o leitor sequioso e faminto de conhecimentos espirituais. Estamos trabalhando em tal empreendimento com toda a boa vontade, transmitindo nossas experiências e aprendendo muito com todos, que nos ajudam no aprendizado.
Por Mercê de Deus e sob as bênçãos de Jesus, no Brasil as teorias estão quase chegando ao fim e é hora de acelerarmos a prática do Bem.
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As outras nações do mundo, que muito respeitamos e às quais muito devemos, dão a aparência, pela civilização que apresentam e pelo nível científico e tecnológico que atingiram, de uma evolução maior do que o rebanho que forma o lar do Cruzeiro. Como se engana quem assim pensa! Eles, os Espíritos encarnados nas outras pátrias, estão vivendo sob o perfume das flores de todas as teorias, de todas as filosofias, ciências e religiões até então divulgadas no mundo; no entanto, o fruto irá surgir nesta nova Jerusalém, que é o nosso país. E, como a caridade pulsa no coração do povo do Brasil, ele cederá alimentação espiritual para o resto do mundo, cansado e faminto, oprimido e ansioso por seguir o Cristo. Aí, então, depois das tempestades inevitáveis, todos seguirão as pegadas marcadas pelo Amor, que a caridade deixou salientes, como virtudes vividas passo a passo.
Muitos acham que o mundo será o que os homens fizerem dele. Novo engano! O mundo será, e sempre foi, o que Deus determinou ou determinar. Jesus Cristo é o nosso Pastor em todas as frentes evolutivas.
Nós somos crianças que, por vezes, brincamos com fogo, e esse deverá nos queimar para aprendermos a escolher e agir corretamente, de acordo com as nossas possibilidades.
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Estávamos em uma tarde encantadora, onde tudo traduzia alegria e paz. Era uma grande escola, denominada Educandário Schubert, em homenagem ao compositor alemão, um dos maiores na área dos Clássicos, que viveu na Terra apenas trinta e um anos. Como se explica, sem a reencarnação, um ser humano com essa pouca idade, atingindo e se expressando na mais alta nota de harmonia cósmica? E o seu conhecimento em outras áreas da ciência?
O educandário era uma espécie de sítio, onde a luz e a música eram o instrumento maior de equilíbrio para os enfermos. Ali estávamos nós, fazendo planos para novos trabalhos. Tínhamos a impressão de que a música saía das árvores e das flores que se postavam com abundância naquela oficina bendita, onde tudo expressava alegria.
Se não foi defeito da minha audição, estávamos ouvindo duas músicas conjugadas, que esse mestre da harmonia deixou no mundo, Eram a Harpa Encantada e Rosamunda. Antecedendo essas duas músicas, como prelúdio, ouvimos uma valsa intitulada Avançar, que conduzia magnetismo para nós, os ouvintes, de maneira a nos predispor para o trabalho. A influência era tamanha que, sem percebermos, estávamos acompanhando, solfejando a canção, já com disposição para quaisquer planos de realização. Era um verdadeiro "elixir de bom ânimo".
O progresso é como um veículo motorizado: ele tem a sua marcha natural, com possibilidade de avançar mais depressa, se o seu condutor fizer a sua parte, através da maturidade espiritual que o tempo confere, com as bênçãos do Criador. Avancemos, que mãos benditas aparecerão de todos os lados para nos ajudar!
Aí estávamos, Miramez, Fernando, Kahena, Celes, Galeno, Abílio e eu, todos já esfregando as mãos, ansiosos pelo trabalho.
Respirávamos em longos haustos o ar que era um bálsamo perfumado e que nos fornecia poderoso auxílio magnético, que cada um recebia de acordo com a sua evolução. Senti, então, em minha ânsia de aprender, curiosidade sobre como nosso instrutor Miramez recebia esse benefício. Logo notei que Miramez percebera meus pensamentos. Eu quis, então, desviá-los, sentindo sincera humildade.
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Agindo assim, elevou-se o meu padrão vibratório e eu pude, para minha felicidade, entrar em sintonia com o companheiro maior. Percebi logo a sabedoria da natureza e que significa a cada um, segundo o seu merecimento. Não é possível transformar em palavras o que senti naquele momento; além disso, Miramez, sempre se esquivando de demonstrar superioridade, pediu-me que não o fizesse. Direi apenas que se eu pudesse respirar permanentemente nesse clima, ficaria em êxtase constante tendendo a afastar-me do trabalho. É por isso que não é dado a mim, no estágio em que me encontro, tal estado de felicidade.
O grande proveito que tiramos de uma experiência igual a esta, é a certeza de que elevação espiritual se consegue com a sublimação dos sentimentos. O amor é a fonte da eterna ventura. Ele é de gradação infinita, e aquilo que nós pensamos ser amor puro, na verdade está muito longe da pureza real. Esse sentimento é desfigurado pela inferioridade dos Espíritos que povoam a Terra, que o mesclam de egoísmo, vaidade, orgulho, determinação própria e, o que é lamentável, de abusos do sexo desequilibrado.
O amor só será sublimado quando ouvirmos o chamado do Mestre e nos educarmos nos moldes do seu Evangelho.
Após ligeira oração, demos as mãos, cheios de alegria, e planamos na atmosfera como aves de Deus em busca do trabalho. Subimos vertiginosamente e pudemos contemplar o esplendor da constelação do Cocheiro, onde se via com maior realce os encantos da estrela Beta Aurigae, na sua magnitude 0,09 e que se distancia do nosso sistema solar quase 50 anos-luz. Pulsava no coração daquele mundo distante, pela impressão que nos era dada, uma vida intensa, onde o amor se faz sentir pela própria luz que irradia em todas as direções do universo. Se nos fosse possível levar ao laboratório espiritual, fragmentos da luz desprendida por essa estrela grandiosa, notaríamos na sua composição, certamente, vibrações elevadas daqueles que ali vivem, no esplendor de quem já atingiu um alto grau de escala evolutiva e que trabalham pelo pensamento, a maior força do universo, em benefício de toda a criação.
Alguns dos Espíritos que nos assistem já receberam a bênção de visitar esses mundos iluminados. Eles nos falam alguma coisa a respeito, quando isso pode nos tornar melhores, nunca, porém, por vaidade nem para se destacar entre os outros.
Perguntei ao nosso Miramez, se era possível a ida de um irmão encarnado, em viagem astral, a um desses mundos distantes, como, por exemplo, a estrela Capela, ao que ele nos respondeu com sabedoria e simplicidade:
- Não, meu filho. Mesmo que esse companheiro tenha todas as credenciais para tanto, não seria possível, pois a sua situação como encarnado não permitiria essa viagem sideral. Apesar de toda a evolução que ele pudesse ter, o seu cordão de prata se partiria na extensão da viagem e ele faleceria com essa violência. E, ainda mais, se pudesse, com toda a ciência já alcançada no nosso plano, consubstanciar recursos para a dilatação desse cabo divino que liga o perispírito corpo, esse não suportaria as vibrações assimiladas pelo Espírito no passeio cósmico. Em pouco tempo ele sucumbiria. As leis não permitem violência em nenhum campo de vida.
Outras perguntas fervilhavam em minha mente, o que o nosso companheiro logo percebeu e, pelo seu sorriso acolhedor que dizia mais que as palavras, entendi que poderia perguntar. Encorajado, prossegui:
- Desde quando o nosso assunto maior é viagem astral, o senhor poderia nos dizer mais alguma coisa acerca desse tão falado cordão de prata? Isso, porque muitos pesquisadores, que examinam todos
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os tipos de experiências, notadamente com os viajantes astrais encarnados, nos descrevem posições diferentes do cordão luminoso em sua ligação ao corpo denso. Por que essas contradições?
Miramez parecia distraído, observando as estrelas, que pareciam cachos de flores. No entanto, seus ouvidos estavam atentos, registrando todas as interrogações que eu fazia. Logo as respostas começavam a surgir dos seus lábios, que a inteligência comandava na luz do coração. Deixando transparecer seriedade, ele respondeu serenamente:
- Lancellin, o que observaste em livros e em experiências, não são contradições: é porque ainda não atinaste para a maleabilidade da natureza espiritual. Quando viajamos em experiências com os encarnados, ou os observamos no mundo dos Espíritos durante o sono, certamente que o facho de luz, como que um cordão energizado, está ligado na base do crânio espiritual; contudo, esse cordão poderá parecer estar ligado na cabeça, entre os supercílios, no plexo solar, ou ainda, em certos centros de força. Isso depende muito das condições de cada ser e da orientação dos Espíritos-guias que estão dando assistência ao seu tutelado. Todavia, as amarras do perispírito no corpo físico estão em vários pontos da cabeça e, se fizermos uma observação mais profunda, veremos que ele se ata fortemente no coração e no plexo solar; se desdobrarmos mais nossas observações, vamos encontrar fios tenuíssimos sustentando todas as células do agregado fisiológico.
Senti-me agradecido pela resposta, mas não satisfeito de todo, e tentei mais uma pergunta:
- O senhor poderia nos responder sobre a elasticidade desse cordão fluídico? Há pessoas encarnadas que descrevem a morfologia de outros mundos e a aparência dos seus habitantes como se estivessem na própria Terra. O que dizer desses irmãos? É possível distender tanto o cordão sem rompê-lo? Marte, por vezes, se distancia da Terra quatrocentos milhões de quilômetros; esse corda fluídico poderia ser esticado nessa distância? Meu raciocínio não acha explicação para tal fato.
Miramez meditou um instante e respondeu sem se alterar:
- Existem muitas maneiras da alma observar as coisas sem, contudo, estar presente no lugar desejado. A visão espiritual atinge o infinito, quando a pessoa, ou o Espírito, possui o dom da visão à distância, sem carecer da própria viagem. A vidência, quando atinge determinados mundos, nos dá a impressão de estarmos lá, por nos fazermos presentes pela luz espiritual que emitimos em uma velocidade sem paralelo, dependendo da evolução da criatura.
Quanto ao cordão de prata e sua resistência, poucas pessoas encarnadas conseguem viajar por seu próprio país e muito raramente encontramos quem possa visitar outras nações. Milhões de pessoas sonham suas próprias criações mentais grande parte não consegue sair da cidade ou lugarejo onde mora; outros, muitos também, não arredam pé da casa onde moram; finalmente, existem os que adormecem com o corpo. Isso é uma variedade muito grande. Para falar a verdade, são poucos os Espíritos desencarnados que conseguem viajar até outros mundos, assim mesmo, o fazem em companhias adestradas em viagens interplanetárias. Isso é assunto muito sério, do qual nos convém falar pouco, por precisarmos do tempo para outras coisas mais úteis, como a educação, a disciplina e a instrução que o campo evolutivo da Terra exige.
Fizemos uma curva no espaço, de quase cento e oitenta graus, e começamos a descer naquela sensação encantadora de bem-estar. Todos, de mãos dadas, vibrávamos em um hino de gratidão ao Criador, pela oportunidade do trabalho a nós oferecida.
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As estrelas nos davam idéias iluminadas acerca da vida que palpita em toda parte. Com os olhos espirituais podíamos sentir e observar os lençóis etéricos, como ondas sobrepostas, a banhar o infinito. Não há um ponto mínimo na criação de Deus, onde não vibre essa energia estuante portadora de vida, a tudo interligando.
Quando parecia que eu ia explodir em interrogações, Miramez falou com bondade:
- Lancellin, esse hálito divino que ora observamos e no qual respiramos, é uma prova da bondade de Deus, oferecida a todas as criaturas e criações, dentro da harmonia universal. Cada coisa e cada ser empresta o que tem, agregando o seu próprio magnetismo a essa bênção do Senhor e com ela se alimenta. É por isso que, se emites pensamentos negativos, sejam de ódio, de egoísmo, de inveja, de orgulho, endereçados a outra pessoa, as vibrações desse naipe alteram o fluido cósmico que te envolve, e o primeiro a absorvê-lo és tu mesmo. Essa carga ativa atingirá os teus centros de força, passando para o corpo físico, que receberá os choques, criando embaraços imprevisíveis.
Era o que eu queria ouvir; o assunto foi altamente esclarecedor, e eu passei ter mais cuidado com os meus pensamentos.
Os outros que faziam parte do grupo estavam atentos e degustavam o manjar espiritual, emitindo vários comentários, o que enriqueceu mais ainda os assuntos ventilados.
Descemos suavemente em uma grande avenida, mas, ao nos aproximarmos do solo, uma força nos repelia. Sentindo a nossa hesitação, Miramez nos acudiu, explicando:
- Com relação à matéria, quanto mais um corpo se aproxima da Terra, mais ele é atraído por ela. Em se tratando do Espírito, entretanto, já somos influenciados por outra faixa de forças, da mesma dimensão em que vivemos. Essa influência age de acordo com a evolução do Espírito: quanto mais evoluído, maior a repulsão. Estamos em um local onde se agregam pensamentos inferiores e se assemelha, para os Espíritos elevados, a um pantanal, cuja lama revolvida pelos habitantes encarnados dificulta a mobilidade dos companheiros. Eis porque a reencarnação é um sacrifício para o Espírito e não menos difícil para os Espíritos do Bem que trabalham na crosta.
Meditou por instantes e prosseguiu, com um leve sorriso:
- Jesus Cristo, que é o anjo mais puro que conhecemos, desceu de plano em plano, até pisar no solo pesado da Terra, para nos servir, sem nunca reclamar. Por que nós, Espíritos endividados acostumados a sorver esse mingau magnético, vamos recuar diante de um trabalho que nos educa e nos disciplina? Vamos dar graças a Deus, por respirarmos de vez em quando um ar mais puro, como o de onde viemos, e pedir a Ele para que as nossas tarefas sejam aumentadas na face do planeta. Se assim acontecer, seremos agraciados pelos Céus.
Não tive outros argumentos, nem me interessei por perguntas naquele momento, porque, na verdade, não estava me sentindo bem naquela avenida, tão bonita aos olhos dos homens, mas, imunda, na nossa faixa de vida.
Dois homens surgiram à nossa frente, vindos de uma esquina, envolvidos em pesados capotes. Uma chuva fina umedecia toda a cidade. Aproximei-me mais um pouco daqueles dois irmãos, e pude escutar sua conversa quase ao pé do ouvido.
- Escuta aqui, companheiro - falava um deles, o mais escuro - nós vamos pegar o primeiro táxi que passar nessa rua - e apontou uma rua transversal – sentamos no banco de trás. Passados alguns
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instantes, você leva o cano do trinta e oito à base do crânio do "bicho"; se ele reagir, você "puxa"; se não reagir, eu limpo e o deixamos ir embora, tá?
O companheiro, impaciente, não estava concordando em deixar o motorista sair com vida, demonstrando verdadeira sede de sangue.
Duas entidades mal-encaradas acompanhavam os dois homens, falando-lhes telepaticamente. Com planos de vingança, intuíram um chofer, alvo de seu ódio, a passar por aquela rua, onde o esperavam os dois homens mal intencionados.
As duas entidades se apossaram quase por completo da mente dos malfeitores, estimulando-lhes a idéia de roubo, de vingança, de sangue e de revolta.
Acompanhamos o carro, que deslizou para determinado local. O motorista já começava a desconfiar das intenções dos passageiros e sentia-se aflito por dentro sem, contudo, deixar transparecer. Com ansiedade, passou a orar mentalmente a determinado santo de sua simpatia, rogando proteção.
Nesse momento, quando já estávamos todos em posição para agir, notamos que um dos obsessores pegara a mão de um dos malfeitores, ordenando-lhe que pegasse a arma. Automaticamente, ele obedeceu.
Rapidamente, Fernando e Celes saíram do carro, tomando certo rumo. Ao mesmo tempo, Miramez olhou para nós com ar grave e compreendemos a seriedade do momento. Ele levou as mãos à cabeça dos assaltantes que, instantaneamente se sentiram sonolentos. Em uma esquina surgiu um carro em alta velocidade, avançando em direção ao táxi. O motorista desviou com rapidez, subindo no passeio, enquanto o outro veículo derrapou, rodopiou no asfalto molhado e parou. Era um carro da polícia que estava em diligência e não percebera o táxi. Agora, os policiais se aproximavam para se desculpar e ver se tudo estava bem. O profissional, quase vítima do assalto, sentiu-se seguro e, aliviado da tensão, pediu socorro aos policiais. Os dois marginais tentaram fugir, mas foram agarrados e reconhecidos como perigosos assaltantes, cujos nomes constavam da lista de "procurados" dos patrulheiros.
Os dois acompanhantes espirituais das sombras, quando viram frustrados os seus planos, saíram a correr, sem rumo. O motorista agradeceu aos policiais e partiu para a sua casa, interrompendo o trabalho daquela noite. Lá chegando, procurou sua esposa para lhe contar o ocorrido e a encontrou ajoelhada diante de um oratório, onde a imagem de Maria, mãe de Jesus, refletia bondade, candura, compreensão e esperança, orando pelo companheiro que, pensava ela, naquela hora da noite estava sujeito a assaltos e desastres. Aquele lar, aquelas crianças que dormiam inocentes, dependiam do trabalho do marido. Ele, ao ver aquele quadro, ajoelhou-se silenciosamente e agradeceu aos céus pelo socorro que se manifestou por intermédio dos patrulheiros.
Sua esposa terminou a oração e, virando-se, assustou-se com sua presença. Emocionado, aquele irmão narrou o acontecido, e a mulher, não menos imantada de emoção, contou-lhe:
- Marido, eu estava na janela, tentando ver as estrelas que tanto admiro, quando, em dado momento, veio-me um pensamento de que estavas em dificuldades. Quis chorar, mas não pude. Senti algo que não sei explicar o que era e procurei a Mãe Santíssima para pedir em teu favor.
Abraçou o seu companheiro, chorando de alegria e dizendo:
- Deus, estás aqui! E estás vivo! Graças a Deus!
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Quando nos achamos livres para seguir o nosso caminho, delineado para aquela noite, a minha mente, e com certeza a dos outros também, fervilhava por saber determinadas coisas, concernentes aos fatos ocorridos. Caminhando pela rua, levantei o assunto:
- Miramez, poderias nos explicar por qual motivo esse chofer de táxi teve essa proteção, quando muitos outros já sucumbiram em emboscadas semelhantes?
Paramos em uma pracinha, onde vários bancos convidavam ao descanso. Assentamo-nos em um deles, como se estivéssemos encarnados, e, passados alguns momentos, nosso instrutor respondeu, prestativo:
- Meus filhos, é bom que nos lembremos das promessas de Jesus, quando Ele nos afirma, no texto evangélico: Pedi e obtereis, buscai e achareis. Porque, quem pede, recebe e quem busca, acha. Na verdade, até o próprio carma se atenua no ambiente da fé, da humildade e da oração. A confiança em Deus, mesmo que seja por vias grosseiras, recebe a luz da assistência, removendo problemas e aliviando situações difíceis. Ainda existem muitos mistérios neste campo, que no amanhã o progresso irá nos revelar com mais segurança. Assistimos duas pessoas em oração e, ainda mais, no cumprimento do dever, e fomos tocados para ajudá-los dentro das nossas possibilidades. Se todos os homens se dedicassem mais à oração sincera e atentassem mais para os seus deveres, desapareceriam, com pouco tempo, da face da Terra, os agentes da sombra e este planeta de sofrimentos começaria a transformar-se em céu. Quem acende uma luz, não fica mais na escuridão.
No intervalo da explanação, entrei com outra pergunta, para que pudesse satisfazer minhas dúvidas:
- Então, esse motorista tem dívidas a saldar com a lei?
- Claro que tem, Lancellin, e não são poucas; entretanto, o modo de vida que escolheu, a fé que alimenta no coração, tanto quanto a sua esposa, lhes favorecem forças necessárias para suportar todos os problemas com paciência Cada infortúnio que encontram lhes deixa um saldo de confiança na bondade de Deus e, ainda mais, quem procura a auto-educação e não se esquece da disciplina afasta ou desfaz o peso do fardo que carrega. Esse homem, que ora nos serve de ensinamento, foi espoliado pelos seus parentes, de grande fortuna que herdara dos seus pais. Dois dos seus irmãos traíram sua confiança e, com uma assinatura que eles lhe haviam pedido para outro objetivo, acabou entregando os seus pertences aos dois desonestos irmãos. Veio para a capital sem uma pedra onde reclinar a cabeça, mas não se desesperou, nem odeia seus irmãos, que hoje estão ricos, em parte às suas custas, e nunca toca em tal assunto. Um antigo patrão, quando o contratou, criava uma moça, pessoa distinta e trabalhadora, que foi seduzida por esse homem selvagem, que não soube respeitá-la como filha. Ela ficou grávida, e o patrão acusou o motorista na polícia, como sendo o pai da criança. Ele tentou negar, a moça o inocentou, mas o delegado é parente do acusador e o casamento foi feito. Essa moça hoje é a sua esposa e companheira de todas as lutas. Mesmo assim, é confiante na bondade do Criador e acha que é muito ajudada pelos anjos. O que foi feito em beneficio deste irmão, hoje, foi muito justo.
Fiquei impressionado com tanta investida do destino em direção a uma criatura e tornei a perguntar:
- E se ele tivesse outra conduta, se não fosse dado à oração e não tivesse o apoio da sua mulher, no sentido espiritual, o que teria acontecido na investida das trevas, desta noite?
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Miramez passou as mãos na vasta cabeleira cor de ouro velho, fez um ar sorridente, explicando com sabedoria:
- Esse nosso irmão, se não tivesse a conduta que tem, certamente que não teria a proteção que teve, e seria atingido pelas maléficas idéias das trevas. Seria morto pelos dois assaltantes, como já aconteceu a tantos outros, passando a ser apenas mais uma história registrada pela polícia, talvez sem solução. Sei que estás medindo o sofrimento desse homem, e, de certa forma, estás enganado, porque ele tem certa serenidade na consciência. E isso é tudo, para quem vive em um mundo igual a este. Vê novamente o que nos diz o Evangelho do Mestre:
A fé remove montanhas. Muita gente passava pelo local onde estávamos, cada qual com muitas companhias espirituais, muitas delas irreverentes. A sintonia é problema muito sério, e cada pessoa atrai segundo o que verdadeiramente é.
Naquela mesma praça, Miramez olhou para o Padre Galeno, como se estivesse falando, e esse entendeu o convite; ficou de pé e fez uma oração mais ou menos nestes termos:
"Senhor Todo Poderoso! Conversamos aqui acerca dos interesses coletivos, e pedimos ajuda para que sejamos mais atentos nos nossos deveres diante dos outros, principalmente dos que sofrem.
Permite, Senhor, que tenhamos forças para o bom desempenho da nossa missão, sem alardear o que for feito por nós, em todas as direções da assistência. Rogamos as Tuas bênçãos, Pai de bondade, para que possamos encontrar mais recursos em nós mesmos para o perdão das ofensas, de maneira que o amor circule em nosso coração, livre das conveniências. Na escola da vida, por todos os lados a que endereçamos o nosso olhar, encontramos mãos amigas a nos ajudar, estimulando-nos para servir melhor. Pedimos que nos ajude a aproveitar todas as oportunidades de trabalho que se nos apresentem, como sendo o pão do céu descendo à Terra.
Jesus! Guia-nos em todos os roteiros que a vida nos apresentar, e nunca, Senhor, deixes que nos enfademos onde existe carência de fraternidade e fome de compaixão. Pedimos à nossa mãe, Maria Santíssima, que vele por nós dos altiplanos onde reside, e que as suas mãos, que se acham em Deus e trabalham em Cristo, possam nos proteger sempre. Vamos sair para o trabalho e para nós não existe noite, pois estamos vivendo em pleno dia eterno!
Que a eternidade do Bem seja a nossa meta, hoje e sempre. "
A resposta foi maravilhosa; sentimo-nos envolvidos por uma luz espiritual indescritível e fomos assomados por um entusiasmo grandioso para o trabalho. As nossas roupas espirituais pareciam revestidas por uma claridade agradável e sentíamos a influência incomparável da mesma em nosso íntimo, no que se refere à esperança e à alegria.
Miramez, pelo que notamos, fazia muita força mental para desfazer um halo de luz, onde o verde encantador mesclava com um azul sem precedentes, nascidos na explosão de um centro da cor do sol, que o coração fornecia como fonte inesgotável. A vontade que tive ao contemplar aquele espetáculo foi de ajoelhar e chorar de gratidão, mas o nosso instrutor espiritual olhou para todos nós com meiguice e falou com ponderação:
- Vamos trabalhar?
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Com poucos instantes estávamos entrando em uma simples residência de um bairro distante. Ali iríamos convidar um nosso irmão para a saída astral, caso fosse possível. Vamos passar a chamá-lo de Vinte e Dois.
Pilhas de livros eram vistas em todo o seu quarto. Era de se notar que ele gostava do espiritualismo. mais acentuadamente de Esoterismo. Estava lendo um livro que se chama Práticas Esotéricas, cujo autor, após seu desencarne, adotou, no plano espiritual, o pseudônimo de Loester.
Os seus olhos denunciavam cansaço, mas a sua mente pedia mais conhecimento, e o sono esvaiu-se pela tensão que o exagero da leitura exigia dos nervos.
Alguns desencarnados nos acompanhavam em adestramento espiritual Vinte e Dois começou a bocejar; foi até a pia, passou água no rosto, espreguiçou e abriu a janela do quarto, respirando profundamente várias vezes, pois isso fazia parte dos seus esticados exercícios esotéricos. Mentalizou em torno de si um casulo de luz, como se fosse uma corrente prânica, e visualizou-se dentro dessa atmosfera iluminada alimentando-se dela.
Cada um de nós executava um dever específico. Abílio encontrou na cozinha quatro mulheres desencarnadas à espera de Vinte e Dois, para saírem juntos pelo espaço e gozar as delícias que os sentimentos inferiores sustentavam. Abílio pediu a ajuda de Fernando e convidaram as irmãs a se retirarem, com profundo respeito, dizendo que tinham sido convidados por Vinte e Dois para tratarem de certos negócios de grande interesse do mesmo. Elas quiseram discordar, porém, não conseguiram e saíram mal-humoradas.
Vinte e Dois fez mantras, ou afirmações, condicionando pensamentos positivos na mente e acomodou-se no travesseiro. Miramez aproximou-se do seu leito com naturalidade, acenou as mãos para que todos nós pudéssemos observar, colocou as mãos na cabeça de Vinte e Dois e lhe aplicou vários passes horizontais. Retirou com habilidade certa porção de fluidos do tórax e os passou para Kahena, que os recolheu em um frasco maleável. Em seguida, olhou firmemente para o centro das sobrancelhas do candidato à viagem astral, deu algumas ordens mentais e ele relaxou-se, começando a ressonar.
Miramez nos mostrou como se ajusta o corpo astral ao físico: eles se interligam por feixes de forças às glândulas endócrinas e se unem como se fosse um só cordão luminoso. Nos outros pontos fisiológicos, distanciam-se os filamentos e para cada órgão em particular há uma vibração pulsátil característica, emprestando coloridos diferentes até à última célula do corpo. É um comando total, obedecendo ao comandante no seu quartel-general.
Cabe-nos o dever de dizer que, na verdade há inúmeras modificações neste ajustamento, tanto quanto os corpos existentes na Terra. Estamos estudando apenas um, dos bilhões existentes.
Nós observamos o músculo cardíaco algo acelerado pelos últimos pensamentos, mesclados com as afirmações que o esoterismo lhe emprestava para a sua serenidade. A atmosfera que circundava Vinte e Dois mudava de cor, pela instabilidade dos seus sentimentos. Miramez chamou-o suavemente e ele começou a flutuar; tornou a chamar e ele subiu mais. O seu corpo físico estremeceu e notamos que o perispírito obedecia igualmente ao pensamento do hipnotizador. Miramez o ajudou mentalmente a ficar de pé e ele abriu os olhos, assustado; agarrou as mãos do nosso instrutor espiritual e pediu bênção, beijando-as várias vezes com humildade, solicitando socorro e implorando amparo diante das sua fraquezas. Meio choroso, ele disse:
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- Senhor, eu faço exercícios espirituais todos os dias e nisso ponho toda a minha confiança, como sendo portas abertas para que eu alcance a luz da libertação espiritual. Entretanto, ainda sinto dificuldades em deslocar minha mente dos extremos para o equilíbrio. O que diz o senhor a esse respeito? Para mim, considero uma responsabilidade a presença destes anjos ao meu lado. Não mereço tanto, porque sei das minhas inferioridades. O senhor deve ser o Loester, ou então o nosso patrono, Antônio Olívio Rodrigues, Para mim não é apenas uma felicidade: é o próprio céu que entrou em minha casa!
Miramez, serenamente, respondeu com benevolência;
- Estimado companheiro, estamos longe de ser anjos. Nós também estamos à procura das inspirações desses seres já libertos do fardo da carne. Somos simples companheiros que já despertamos para servir com o Cristo, e viemos aqui convidar-te para um passeio, onde a fraternidade e o amor, a disciplina e a moral sejam os caminhos. O serviço nos chama com voz de trovão, em todas as direções do universo. O que nos falta é o trabalhador que nada exige e que nunca se lembra das feridas do caminho, onde o passado não foi bom. Nós não devemos pensar no passado, nem no presente, e para bem dizer, excluir também o futuro, vivendo o eterno, visando o Bem, onde Deus e Cristo nos chamam. Não somos quem pensas e sim, irmãos comuns, juntos com todos que procuram nas lições da vida, a vida das lições.
Vinte e Dois ficou olhando para nós, emocionado, e eu, comigo mesmo, comecei a analisar o candidato, assim conjeturando: "Esse vai ser um dos melhores no trabalho que estamos fazendo! Ele está consciente de tudo e, ainda mais, é muito humilde; é dado à leitura espiritualista e faz exercícios para fortalecer seus ideais. Está em posição melhor do que muitos desencarnados!"
Padre Galeno percebeu meu pensamento e falou baixinho em meu ouvido:
- Ele é ótimo, Lancellin. Eu também o admiro, não obstante, ainda não o ideal para nós. A sua fraqueza é mulher, é sexo e, vê bem, quando se movimentando na carne, ele é casto: nunca tocou em uma mulher, temendo mesmo a presença delas, mas, a sua mente é poluída, por todos os campos sensuais. A carne ainda o distrai, por vezes, mas, quando está no plano do Espírito, ainda mesmo em sonhos, é um desastre. Não há quem o segure e, já sabendo disto, aquelas que também vibram na faixa do sexo desenfreado o acompanham em verdadeiros bacanais.
Fiquei abismado e monologuei no silêncio do coração: "Meu Deus, como é difícil a perfeição! Onde encontrar almas equilibradas para um bom desempenho?" Aí. comecei, a sentir o mau odor da tristeza, até que o Padre Galeno tocou-me o ombro, tirando-me daquele marasmo mental.
Ele disse com ponderação:
- Lancellin, nós também temos as nossas fraquezas diante do Cristo que nos acolhe a todos. Aproveitemos, pois, as qualidades do Vinte e Dois e estimulemos as suas virtudes, para que elas possam dissipar o que não convém ao seu coração.
Miramez conversava com o Vinte e Dois. Abílio, Kahena, Fernando e Celes aproximaram-se. Eu e o Padre Galeno já tínhamos nos entendido acerca das minhas dúvidas. Estava completamente satisfeito com os argumentos do bondoso padre, que tinha sempre em seus lábios, como magia divina, a palavra certa, reforçada com o amor.
Partimos da casa do companheiro encarnado, alçando-nos ao espaço como aves em busca de algo de maior interesse. As estrelas, como sempre, nos fascinavam. Não despregávamos os olhos dos astros faiscantes, sem que com isso nos distraíssemos do objetivo. A direita eu observava duas estrelas da minha
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predileção, quando eu estava na carne: Polux e Castor. A primeira, que se afigura muito maior, distancia da Terra trinta e cinco anos-luz, ostentando uma engenhosa posição no espaço, como mundo de ordem superior; a segunda, em relação à primeira, poderemos considerar uma faísca de luz a brilhar no infinito. Quando eu quis embeber-me em mais observações no universo de Deus, percebi que estávamos chegando a um casarão antigo, onde se notava a serenidade e o ambiente acolhedor.
Descemos e caminhamos, sentindo as pedrinhas espalhadas na relva macia. As flores avivavam-nos os sentidos. Toquei uma delas de leve, uma rosa, cujo vermelho denunciava força e notei que os pistilos entreabriram-se como por encanto, despejando em nós um perfume inebriante, mas saudável. Aspirei aquele aroma profundamente e os outros fizeram o mesmo, admirados todos, com a grande oficina da natureza.
Entramos. Era um convento de irmãs de caridade e, na portaria, fomos recebidos por várias entidades que nos acolheram com simpatia e dedicação.
Adentramos e saímos em um pátio interno, onde pequenas alamedas eram ladeadas por vários apartamentos, com inscrições que indicavam seus objetivos. Fomos levados a um aposento onde se encontrava uma irmã doente, com o corpo alterado pela hemiplegia; entretanto, o seu rosto parecia aquela flor que nos ofertara a fragrância incomparável. O perfume daquelas pétalas era semelhante ao da sua aura. "É uma flor humana, morrendo", pensei.
Quem primeiro se ajoelhou rente ao leito da enferma, foi Vinte e Dois; buscou a mão da irmã, cobrindo-a de beijos e em lágrimas. Emocionado diante daquele quadro, chorei também.
O coração da irmã, pela análise cuidadosa de Miramez, pulsava como uma bomba defeituosa. O sangue já encontrava dificuldades inúmeras para a irrigação das células. Os intestinos apresentavam-se atrofiados, assim como estava comprometido o funcionamento do estômago, do fígado, baço e pâncreas; os rins é que trabalhavam com menos dificuldades, como uma vela de filtro. Mesmo assim, dentre seus micro-canais, cerca de dois milhões, centenas deles obstruídos pelo ácido úrico, que formava pequenas saliências; os gânglios, como esponjas, estavam abafados por resíduos de variadas cores. O sistema nervoso não apresentava alteração quase nenhuma, segundo Miramez, por se alimentar do fluxo energético emanado do Espírito, deixando o campo consciencial tranqüilo, à espera da libertação do cárcere da carne.
Dois padres desencarnados, preocupados em executar gestos desnecessários, mostravam a intenção de encomendar o corpo, na sua linguagem extravagante, em latim. Notava-se que a irmã de caridade percebia a presença dos dois sacerdotes embora não desejasse tal manifestação, a humildade não deixara a sua inteligência pedir aos céus que afastassem aqueles dois Espíritos. Não era o meu caso: quando observei que aquelas entidades estavam prejudicando a nossa irmã em Cristo, a minha reação foi diferente. Tentei me aproximar dos dois reverendos, que poderia chamar de irreverentes, mas, lembrei-me de que por intermédio do Padre Galeno seria melhor. Olhei para trás e o vi sorrindo, ao lado de Miramez, observando-me. Senti-me constrangido e quis falar ao querido padre, mas ele não deixou, dizendo:
- Já entendi o que queres que eu faça. Vou tentar, na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Celes aproximou-se do Padre Galeno e passou a fornecer-lhe elementos para que ele se tornasse visível à nossa irmã e aos dois sacerdotes. Eles ficaram espantados quando Galeno surgiu dentro do apartamento, a lhes dizer:
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- A paz do Senhor esteja com todos!
Da sua boca e de suas mãos irradiavam-se uma claridade que impedia a observação do seu próprio rosto. Aquilo era para que os padres ali presentes percebessem qual era a categoria espiritual do nosso companheiro. Eles entenderam e se afastaram sem especulações.
Miramez olhou para Kahena e ela entendeu a fala dos seus olhos. Saíram do apartamento, momento em que senti forte vontade de acompanhá-los. E foi o que fiz. Eles já estavam à minha espera do lado de fora e Kahena, com toda simplicidade, disse sorrindo:
- Vamos, Lancellin, em busca da mãe Natureza. Ela guarda no seu seio, com abundância, certos recursos indispensáveis à nossa irmã enferma, e no-los ofertará com amor.
A curiosidade me aguçou os sentidos, por saber que Kahena era verdadeira mestra no trato com o reino vegetal.
Descemos em um pequeno pântano, que nos agraciava com o coaxar dos batráquios. Em dado momento, Kahena esticou as mãos em direção a uma vegetação de mais ou menos um metro de altura, com raiz tuberosa. A planta acionou suas folhas como se estivesse entendendo e passou às mãos da nossa companheira, iluminadas pelas claridades das estrelas, uma espécie de plasma branco com raias de roxo.
Agradecemos e partimos. Chegamos até debaixo de uma árvore frondosa, em cujo tronco Kahena encostou a cabeça, parecendo conversar com a sua irmã vegetal; afastou-se uns dois metros e, na primeira bifurcação dos galhos, parecia abrir-se, com uma facilidade incrível, uma espécie de boca, de que se desprendia uma fumaça esbranquiçada, mas brilhante, que vinha na direção da nossa irmã e que ela foi recolhendo com todo carinho, enrolando-a como se fosse uma gaze, juntamente com o primeiro plasma recolhido.
Notei, então, certos movimentos no ar. A lua cheia estava alta no céu e os braços verdes da árvores não interrompiam seus raios, que iluminavam o chão. Tornei a observar, no silêncio que nos emprestava meios de melhor análise, e vi seres pequeninos, como se fosse chuva, dando-me a impressão de que saíam do interior da árvore em questão. Pulavam em cima de Kahena, brincando com seus cabelos, montavam cavalinho em seus ombros e em seu nariz. Ela, sorrindo, os abençoava a todos, em uma gratidão indescritível. As encantadoras criaturinhas passaram a festejar Miramez, subindo em sua cabeça e descendo em seus cabelos como se estivessem em um parque de diversões. Tornavam a subir e a descer, beijando as suas faces, pendurando-se em suas mãos, entrando e saindo em seus bolsos, naquela ventura de estarem gozando as maiores delícias da vida. Miramez suspirou fundo, dizendo a Kahena, com tranqüilidade: - Louvado seja nosso Pai! Em toda a sua criação existe quem vele por ela. Nós devemos fazer o mesmo, por onde andarmos. Que Deus abençoe sempre estes irmãozinhos!
Kahena fez um gesto, e dos seus lábios saiu determinado som. Eles se recolheram, mas, antes me olharam desconfiados, sem me tocar; observaram uma corrente que eu trazia pendurada no pescoço, cuja efígie era de Santa Blandina, mártir gaulesa cristã, que viveu no segundo século do Cristianismo. Minha mãe era sua devota e me entregou a ela como afilhado, por me salvar de uma febre maligna, em um arrojo de fé e promessa que ela fizera. Eles ficaram encantados com a pequena medalha, que deixei mais exposta, em vista do interesse que eu notara por parte deles.
O meu pensamento fervilhava; a curiosidade, ainda mais. Queria perguntar, não obstante, os sentimentos me pediam paciência. Haveria tempo para tudo e eu esperaria, mas, fazendo muito esforço.
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O tempo nos pedia pressa. A irmã de caridade estava sofrendo, e partimos para lá. Antes de entrar no apartamento, Kahena abeirou-se de alguns canteiros e achou o que procurava. Esse, eu reconheci: era alecrim-do-campo. Passou os dedos suavemente nas suas folhas, que pareciam talos, pela sua textura; parou por instantes, retirou a mão, que estava cheia de uma espécie de fluido esverdeado, mas vivo, e misturou-o com os outros, entregando tudo ao nosso Miramez, com todo amor.
Miramez recebeu aquilo como se fosse um tesouro, transportando-o imediatamente para o apartamento da irmã de caridade. Ela já estava livre da companhia dos dois sacerdotes e eu, inquieto, quis perguntar ao Padre Galeno o que foi feito deles, mas ele, notando que deveríamos cooperar com Miramez, fez um gesto pedindo silêncio.
Vinte e Dois cercava a doente de todo o carinho que o seu coração sensível podia oferecer. Os outros companheiros oravam em silêncio, e eu, com a minha curiosidade, aguçava cada vez mais o interesse por determinadas situações, para as devidas anotações.
A irmã de caridade, com a saída dos padres (presumo que foi), levantou o tônus vital e pôde enxergar Miramez na sua operação de ajuda.
Dos lábios da irmã, baixinho, escutamos, em sua voz hesitante:
- Jesus?
Miramez reativou a sua mente com passes, descendo nessa operação por toda a coluna espinhal, fazendo limpezas em determinados plexos. Na respiração feita pelos poros, ele deitou uma camada do plasma fluídico da natureza, que o corpo absorveu com facilidade, como, também, nas narinas, visto que a irmã respirava com dificuldade. Depois, ele meditou um pouco, buscou algo no ar e com as suas luminosas e trêmulas mãos passou certos elementos que desconheço para a medula alongada.
A irmã suspirou aliviada. As suas faces coraram e os olhos brilharam de emoção. Quis gritar às companheiras para segredar o que estava observando, não obstante, a educação espiritual que aprendera na escola da vida fê-la calar-se, mas, as lágrimas denunciavam o seu estado emotivo, e o coração pulsava com mais entusiasmo para viver.
Miramez descansou do árduo trabalho e sorriu, mostrando vitória na feição. Nesse ínterim, entrou no aposento uma outra irmã, na flor da juventude. Quando ela notou um leve sorriso nos lábios da irmã doente, irradiou mais beleza, mais parecendo um anjo.
Vinte e Dois, logo que viu a moça, começou a entrar em êxtase sensual. Eu quis interferir, mas ele não atendia, auto-hipnotizado pela visão da jovem religiosa. A sua mente se intumesceu com pensamentos negativos, apropriados a lupanares. Toquei em seus ombros várias vezes, chamei-o pelo nome, entretanto, eleja estava em outro mundo mental, onde só via a irmã.
Miramez já o conhecia bastante e olhou para Fernando, dizendo paternalmente:
- Fernando, leva-o para o corpo físico. Ele, de agora em diante, não pode trabalhar mais; está afetado pela febre do sexo. O corpo o protegerá contra certas vibrações do espaço. Ele não ouve mais ninguém; é a mesma coisa que conversares com uma imagem de televisão. Está dominado por essa força terrível, que é o sensualismo.
O ambiente começou a turvar-se, porém, Fernando apoderou-se do candidato à viagem astral consciente e partiu. Fiquei interessado em conversar sobre Vinte e Dois, com Fernando, depois que ele regressasse.
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A jovem irmã de caridade era realmente uma linda moça. Ela não tencionava vestir o hábito, mas, morrendo o seu noivo, e aconselhada pela mãe durante a fase de desespero, cedeu à sua influência e ali estava, encontrando um certo consolo, principalmente junto à irmã presa ao leito já há muitos anos.
A nossa doente melhorou rapidamente, e a alegria era geral no convento, Apareceram muitas companheiras da irmã, com terços nas mãos, rezando em gratidão a Deus e a Cristo, pelo restabelecimento da companheira. Era um milagre, pois nenhum remédio tomara, e, de uma hora para a outra melhorara, comentavam todas elas com alegria. O perfume de rosas recendia no ambiente, aroma este já conhecido de todas as suas colegas de hábito.
Miramez passou as suas mãos delicadas no rosto da enferma, beijou as suas faces, respeitosamente, e falou ao seu coração.
- Que Deus te abençoe, minha filha. Que Jesus norteie os teus passos, hoje e sempre.
Retiramo-nos satisfeitos e rumamos para a casa de Vinte e Dois, onde encontramos Fernando conversando mentalmente com ele, mas a sua mente ainda estava alimentando pensamentos fixos em outras paragens.
De mãos dadas, saímos cantando um hino-prece de gratidão ao Senhor da Vida, por nos ter ofertado a oportunidade de servir e de estudar, porque, por onde passamos naquela noite, notamos que estávamos nos educando sempre.
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