Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 8 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Eu e os outros cocô tudo

 

 

Falando em trampo, hum!, mano do céu! Teve uma vez que me arrumaram uma bomba lá em cima, no Petrópolis. Deixa eu te dizer: era um caralho voador aquilo de lá!

Véio, pensa em louça pra lavar! Imagina: já é uma porra lavar louça na baia, aí tu vai pro trampo e o teu trampo é lavar louça e lavar louça e lavar louça. Mas eu digo louça! Louça! Tipo, tu tem cinquenta prato sujo pra lavar, aí tu lava trinta e já tá chegando mais setenta prato sujo pra tu lavar, e assim vai indo, e quanto mais tu lava, mais tem prato sujo pra lavar!

E lavar não era nada. Ô, se fosse só lavar! Não, não; não era só lavar. Quem preparava a porra dos lanche tudo era eu também. Na real, era só eu na cozinha, tá ligado? Lavar tudo e fazer os lanche tudo. Uns lanche era no micro, outros era no forno. Tinha coisa feita na fritadeira também. Os ingrediente era tudo porcionado e pá, mas adivinha quem é que porcionava tudo também? Era eu, véio. Claro que era eu. Era só eu na cozinha. Então, se acabasse os saquinho com as exata trinta e duas grama de queijo prato, ou se acabasse os saquinho com as exata vinte e sete grama de queijo lanche, lá tava eu ralando queijo prato ou ralando queijo lanche e usando a balança de precisão pra pesar as porção certinho e embalando tudo nas porra dos saquinho pra poder usar nos lanche depois; e enquanto eu ia fazendo isso, não pensa que parava de chegar louça suja, não pensa que os barman parava de pedir suco de laranja ou limonada pra fazer os drinque lá no bar, não pensa que os garçom parava de chegar trazendo as comanda dos lanche que os cliente tavam pedindo lá no salão. Era difícil não enlouquecer: louça suja que não acabava mais, suco, porção, lanche, sobremesa, tudo ao mesmo tempo, tudo numa correria fodida!

Detalhe: eu tinha que assinar um cartão que dizia o seguinte: “Eu, Fulano, tô entrando pra trampar à meia-noite”. Ali também dizia: “Eu, Fulano, tô parando de trampar às oito da manhã”. Beleza, eu tinha que assinar. Só que na real, o lance é que eu entrava pra trampar às seis da tarde e não à meia-noite. Entendeu? Era pra eles não precisar pagar hora extra pro cara. E sabe que hora eu saía? Tipo, eu só saía quando o último cliente decidia ir embora. Não adiantava chorar: era só quando o último cliente decidia ir embora, e o dono do bar não pedia pros cara sair. Tá entendendo? Então, às vez uns branquinho filho da puta tavam de festa, porque alguém tinha se formado em direito ou alguma coisa assim, e aí eles decidia ficar lá, trovando fiado, bebendo até dez da manhã. E nós, os funcionário? Pica bem dura pra nós e foda-se nós! A gente tinha que esperar os bonitão ir embora, mano. Então pensa: às vez a saga era das seis da tarde até às dez da manhã do outro dia, e esquece as hora extra, por causa do lance do cartão que eu te expliquei. Pra todos os efeito, tu trabalhou da meia-noite até oito da manhã. Beleza, daí tu me pergunta por que eu não reclamava. E eu te respondo: porque se eu reclamo, é pé na minha bunda, e lá fora tá cheio de morto de fome desempregado querendo o meu lugar.

Era difícil não enlouquecer. Mas eu não enlouqueci. Eu dei conta do bagulho, tá ligado? Eu achava até massa, na real. Eu gostava de ver os nego tudo apavorado, pensando que eu não ia dar conta de tanta coisa que tinha que fazer, e eu dando conta dos bagulho tudo, tá ligado? Um furacão indo pra lá e pra cá e fazendo tudo, sem deixar faltar nada! Isso aí é nask pra caralho, os nego te tiram pra fodão e pá. Na real, eu fui parar lá naquela porra daquela cozinha porque ninguém parava lá. Tipo, neguinho aguentava no máximo dois mês e fugia, mas fugia correndo. Eu não! Eu fiquei lá seis mês, mano. E eu teria ficado mais, na real. Eu teria ficado mais, porque eu precisava — eu precisava muito! É só eu e a minha mãe em casa, e ela tava sem trampo nessa época. Entende? Eu tava segurando as ponta dentro de casa com o que eu ganhava lá naquela tortura.

Então, fiquei lá seis mês. E eu só saí por causa da treta… Deixa eu te explicar a treta.

É assim: quem me arranjou a bomba lá foi um bruxo meu, que era segurança lá, e que se dava bem com o gerente. Foi por isso que eu consegui o trampo. Beleza. Um dia, rolou um boato que o dono do bar vendeu o bar pra mesma mulher que tinha vendido o bar pra ele antes. E tava todo mundo dizendo que a véia era o terror. “Terror tem nome!”, os nego dizia. E aí, te liga só: o gerente, que me contratou, tinha bronca com ela, bronca da antiga. Ele disse que se ela tivesse mesmo comprado o bar de volta, ele ia vazar. E assim se fez, mano: a véia tinha mesmo comprado o bar de volta, e o gerente vazou mesmo. Beleza. Daí um dia, a mulher apareceu no bagulho. Todo mundo lambendo bem lambido o cu dela. E ela lá, cumprimentando os nego tudo, porque ela conhecia vários funcionário da antiga, do tempo dela. Daí, te liga só: ela perguntou assim prum dos garçom:

— E aquele magrinho ali, na cozinha?

Ela perguntou isso aí sem fazer a menor questão de se esconder de mim, tá ligado? Ela perguntou dum jeito que eu pude ouvir bem e pá.

— Aquele ali foi o Alexandro que contratou.

Pronto: ali o garçom assinou a minha sentença de morte. Porque o Alexandro que ele falou era o gerente que já tinha até ido embora por causa das bronca dele com a véia. E como ele já não tava mais ali, tinha sobrado eu pra véia pisotear, tinha sobrado eu pra véia descarregar toda a raiva que ela tinha do tal Alexandro.

Vou te contar uma coisa pra tu, pobre fodido que me lê: olha, tu nunca pensa que um inferno não pode ficar pior. Porque pode, sim. Essa gente em cima de nós, esses branco fodido que a gente leva nas costa, eles são sempre capaz de coisa que tu nem imagina, que tu nem sequer sonha.

A véia me aprontou várias. Me aprontou tantas que se eu for contar tudo aqui, este texto ia fazer a Bíblia parecer um microconto. Mas eu não vou contar tudo o que a véia me aprontou. Eu vou contar só o recorde que ela me fez atingir.

Um dia ela me disse:

— Que tal a gente fazer uma faxina nessa cozinha?

E eu:

— Demorô: faxina na cozinha.

E ela:

— Perfeito. Amanhã, então, tu vem mais cedo. Vem meio-dia.

E, no dia seguinte, eu apareci meio-dia. Foi uma tarde perversa. Uma tarde perversa. Tive que arrastar as coisa pra limpar atrás: fogão, fritadeira, armário. Tive que esvaziar todos os armário e as geladeira, limpar por dentro e colocar tudo de volta. Tudo sozinho. Uma limpeza sem fim. Esfreguei os azulejo da parede e do piso. Enfim. A véia na minha volta. Apontando aqui e ali.

— Zé, meu filho, ali não tá bem limpo.

— Zé, meu filho, limpa melhor ali.

— Zé, meu filho, esfrega melhor aquilo lá.

— Zé, meu filho, parece que tu não enxerga a sujeira. Não tá vendo ali?

Eu era gurizão. Eu era inexperiente. Se não me falha a memória, era recém meu segundo emprego com o gibi assinado. Então, eu era ingênuo. Eu tinha pensado que, por chegar meio-dia nesse dia, eu sairia mais cedo. Mas depois eu fiquei pensando… Quem é que ia ficar na cozinha no meu lugar quando o bar abrisse?

Pica bem dura pra mim e foda-se eu! Segue o baile, toca a ficha, o bar abriu, e é tudo comigo! Tu acredita? Pois é, mano!

E foi uma daquelas noite como a que eu expliquei: tinha uma playboyzada comemorando os dezoito ano de alguém no bar. A função foi até às onze da manhã do outro dia. Então faz as conta aí, sangue bom; não é difícil. Eu trabalhei do meio-dia às onze da manhã do dia seguinte. Foi vinte e três hora rebolando. Vinte e três hora! Mas eu não quero ser injusto: não foi exatamente vinte e três hora seguida. Como de costume, ali pelas três da manhã, eu tive direito a um intervalo de quinze minuto pra engolir um pão. Um pão que eu não precisei comprar porque eles me davam de graça. Enfim. Quase vinte e três hora. Sem receber hora extra. Vinte e três hora recebendo por oito. Esse foi o recorde que a véia fez eu atingir. Eu devo ser o cidadão que trabalhou mais hora numa mesma jornada em toda a história de Porto Alegre. E se não for eu, eu devo tá pelo menos no top três.

A escravidão acabou, né? Claro que acabou. Afinal, é o que diz o cartão que eu assinava: “Eu, Fulano, tô entrando pra trampar à meia-noite” e “Eu, Fulano, tô parando de trampar às oito da manhã”. Ou seja, oito hora de trabalho. Tá tudo certo. O mundo é massa. Viva a meritocracia. Iurru! Eba! Manda mais, Senhor! Multiplica, Senhor! No meio disso tudo, se eu quiser, e se eu me esforçar bastante, eu posso até achar tempo pra tentar fazer uma facul!

A véia seguiu comendo o meu cu, todo santo dia. Sem passar cuspe. Até o dia que eu não aguentei mais.

Aqui eu vou pedir um pouco de paciência pra tu que me lê. Porque eu preciso descrever bem o dilema que eu tava. É importante pra mim explicar isso.

Bom, aquilo de lá era um inferno. Acho que isso já ficou claro. Mas, saindo de lá, outro inferno me aguardava. Era um inferno que eu já conhecia: eu e a minha mãe dentro de casa, olhando um pro outro, loucos de fome e sem ter o que comer. Esse era o meu dilema. Eu fiquei tentando pesar os dois inferno na minha mente pra saber qual deles era mais pesado. Por isso não foi fácil pra mim sair daquele inferno. Ficando lá, no inferno-bar, tinha a véia que, entre outras coisa, aparecia na cozinha pra me xingar de incompetente pra baixo quando eu errava um lanche ou mandava o lanche um pouco queimadinho; e além de me xingar, ela também atirava o prato com lanche e tudo na pia e me gritava pra fazer outro correndo que o cliente tava esperando. Mas, se eu saísse de lá, eu ia pro inferno-minha-casa, e nesse outro inferno tinha a minha mãe com fome, me olhando, e eu também com fome, olhando pra ela, e tinha também a vergonha de pedir alguma coisa de comer pros parente. Então, não era uma escolha fácil. Fiquei horas pensando nisso enquanto trabalhava. De repente, eu decidia abandonar o trampo e dava um passo pra sair da cozinha; de repente, eu lembrava da fome da minha mãe e voltava a lavar os prato. Eu ia e voltava o tempo todo. Ameaçava ir embora e não tinha coragem. Foi assim. Foi uma indecisão terrível. Eu ia e voltava. Eu ia e voltava. Eu decidia ir, e depois eu decidia ficar.

Pronto: agora que eu já vomitei o dilema que eu tava, vou seguir com a história. Eu acabei decidindo definitivamente ir embora mesmo. Vazar daquele bar. Mas eu não fui embora simplesmente, tá ligado? Eu me vinguei. Eu me permiti me vingar. Eu achei que eu merecia me vingar.

Cruzei os braço na cozinha. Não fiz mais nada. Mas eu deixei todo mundo pensar que eu tava trabalhando normalmente. Os garçom seguiram trazendo prato sujo pra eu lavar. Mas eu não lavei mais nenhum. Uma hora, um deles disse:

— Aí, Zé, tá acabando os prato, mano!

E eu respondi:

— Segura aí! Segura que eu já, já tô te mandando uns prato limpo!

Os barman também começaram a pedir as coisa.

— Não tenho mais suco de laranja!

— Já vai!

— Não tenho mais limonada!

— Já vai!

— Não tenho mais morango picado!

— Já vai!

Os prato sujo era tanto, mano do céu, que não cabia mais na pia. Eu tive que deixar umas pilha de prato sujo tudo espalhada pela cozinha, em cima do micro, em cima do forno, dentro dos armário. Eu deixei acabar todos os suco, todas as fruta picada, todas as porção de ingrediente de todos os lanche. Eu joguei fora todos os molho que eu tinha preparado. Eu deixei tudo o mais caótico que eu podia. E aí, sim, eu fui lá falar com a véia pra dizer que eu ia embora. Pra dizer que eu não ia mais trabalhar ali.

Uma coisa importante que eu descobri nesse dia: um grito de liberdade não se guarda na garganta. Não se guarda de jeito nenhum. Mesmo que esse grito traga a fome depois. Mesmo que esse grito traga até a morte depois. Não se guarda na garganta.

Foi a minha vez de gritar com aquela véia. Foi a minha vez de falar de cabeça erguida. Eu olhei dentro dos olho dela. Eu não precisava mais me encolher. Eu chorei. Eu chorei de o ranho escorrer. Eu mal conseguia falar. Ela disse pra eu voltar pra cozinha. Ela disse que eu podia pedir as conta amanhã, depois do expediente. Mas eu disse que não. Não! Não, porra, vai se foder! Não e não! Mas o que é isso?

— Não, porra! Vai tomá no cu! Vai tu praquela porra daquela cozinha, mulher maldita! Mulher do inferno! Eu nem sei por que não te espanco agora mesmo! Eu nem sei por que não te corto a cabeça fora agora mesmo! Véia filha da puta!

Tu, pobre-diabo que me lê, precisa experimentar, se ainda não experimentou: virar bicho, bem na frente do inimigo. Essa meia-liberdade que nós temo nos garante uns pequeno prazer como esse. Levantar a cabeça e mostrar que tu é capaz de tudo. É uma delícia ver como o inimigo fica com medo. É uma delícia ver como o inimigo olha ao redor, procurando pra onde fugir, procurando onde se esconder, procurando a quem pedir ajuda enquanto a gente bota fogo pelas venta. É uma delícia.

Bom, o bar é (ou era) lá em cima, no Petrópolis, como eu disse antes. E os filho da puta me davam só uma passagem de ônibus de ida e uma de volta, e não duas de ida e duas de volta como seria o ideal pra mim. Então, pra ir trampar, eu tinha que subir toda a Barão a pé, da Bento até a Protásio, e depois de trampar tinha que fazer o caminho de volta. Na noite que eu soltei os cachorro na véia, não foi diferente: lá tava eu descendo a Barão, quatro da manhã.

Na Ipiranga, eu tive que parar pra pensar na vida. Os meus pensamento tavam me engolindo já. Me escorei de frente no corrimão de ferro da pontezinha que passa por cima do arroio. E fiquei ali, tá ligado? Vendo passar a água do arroio, pensando se eu tinha feito certo e me preparando espiritualmente pro que tava por vir: a cara de fome da minha mãe, a minha cara de fome, a gente se olhando com fome, como tantas vez aconteceu e vem acontecendo nesta vida maldita. Tudo sumiu. Sumiu os carro, sumiu os prédio, sumiu as rua, sumiu as estrela. Eu fiquei pensando na vida e tudo sumiu. Agora, só tinha eu. Eu e os outros cocô tudo, boiando na água do arroio. Porque eu me sentia um cocô, como os cocô boiando na água do arroio. É tudo uma questão de poder. E dinheiro é poder. E quem tem dinheiro, pode. E quanto mais dinheiro, mais pode. E eu não tinha dinheiro. É tudo uma questão de poder, e eu tinha tanto poder quanto os outros cocô tudo, boiando na água do arroio lá embaixo.

Depois dessa madrugada triste e fria, eu levei bastante tempo, bastante tempo mesmo, pra conseguir deixar de me sentir um cocô.

P.S.: Um tempo depois, o segurança que tinha me conseguido o trampo lá me contou: tiveram que colocar todos os garçons na cozinha pra dar conta do caos que eu tinha deixado lá.

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