Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 38 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Quarentena

 

Lembro direitinho do dia em que descobri que possuía pulmões. Foi numa bola esticada.

Pra quem não é boleiro e não faz a menor ideia do que seja uma bola esticada, eu explico. Bola esticada, no futebol, é um passe que tu recebe em profundidade. Ou seja, o teu companheiro de time faz um passe, que é mesmo pra ti, que é mesmo pra que tu pegue a bola, mas ele não joga a bola na tua direção; em vez disso, ele joga a bola em profundidade, lá na tua frente, no lugar apropriadamente chamado de “ponto futuro”, porque é o ponto onde tu vai estar no futuro.

Basicamente, a bola esticada serve pra que não aconteça a perda de tempo do passe normal. Por exemplo, se tu está num determinado ponto do campo e alguém te faz um passe normal, jogando a bola na tua direção, tu vai precisar ficar parado exatamente onde está, esperando a bola chegar em ti; só depois que ela chegar e já estiver nos teus pés é que tu vai poder avançar em direção ao campo adversário, dando continuidade ao ataque do teu time. Por outro lado, se tu está num determinado ponto do campo e alguém faz um passe em profundidade pra ti — a tal bola esticada —, ah!, aí a coisa muda de figura! Não acontece perda de tempo nenhuma: tu vai precisar correr o mais rápido possível pro ponto futuro, porque a bola está indo pra lá e, assim, automaticamente tu já vai estar avançando em direção ao campo adversário, sem ter que esperar nada. Se o passe for bem-feito, tu e a bola devem chegar no ponto futuro ao mesmo tempo.

Pra mim, a bola esticada é a coisa mais bela do futebol. E não estou falando do ponto de vista plástico, estético. Claro que o efeito visual e, até mesmo, o efeito auditivo de uma boa bola esticada são, sim, cheios de beleza: o atacante se projeta à frente o mais rápido possível, o zagueiro tenta chegar no ponto futuro antes dele, o próprio juiz precisa se apressar pra ver o lance de perto, vários jogadores dos dois times se reorganizam em campo em questão de segundos tentando prever o que vai acontecer em seguida; o barulho da torcida se intensifica como se toneladas de batatas fossem despejadas ao mesmo tempo em óleo fervendo, os dois técnicos berram desesperados tentando instruir os jogadores em campo, os próprios jogadores gritam instruções uns aos outros. Sim, sem dúvida, tudo isso é belo, mas não é disso que estou falando. E, pra falar a verdade, não sei muito bem como nomear essa beleza que estou tentando destacar aqui.

A verdade é que, do ponto de vista de quem joga futebol e não apenas assiste, a bola esticada é um lance bastante complexo, que envolve uma série de coisas. Algo meio óbvio pra qualquer pessoa é que um atacante que recebe um passe desse tipo precisa ter a capacidade de correr bem rápido pra poder chegar no ponto futuro a tempo de se encontrar com a bola, mas as virtudes exigidas dele pra que tudo dê certo não terminam por aí, não. Pra início de conversa, nenhum atacante vai receber uma bola esticada se não souber se posicionar em campo; isso porque a oportunidade de fazer a ele um passe desse tipo só se configura se ele souber estar, precisamente, no lugar certo e na hora certa: nem atrasado nem adiantado no tempo ou no espaço. Além disso, o bom posicionamento e a velocidade do atacante não bastarão se, ao longo do caminho até o ponto futuro, ele precisar (e geralmente precisa) disputar espaço com um zagueiro que também está tentando chegar no ponto futuro; nesse caso, além do bom posicionamento e da velocidade, o atacante também precisará saber fazer uso do corpo e do equilíbrio, precisará resistir a encontrões do tipo ombro a ombro (que são perfeitamente válidos), enfim, precisará saber como se faz pra permanecer de pé mesmo com um brutamontes correndo a seu lado e tratando-o como uma porta que ele quer arrombar a ombradas. Outra coisa importante é a inteligência: o atacante que recebe uma bola esticada precisa entender que o caminho mais curto entre dois pontos nem sempre é uma reta, porque através de uma reta, pelo menos no futebol, às vezes nem mesmo dá pra chegar; em outras palavras, o atacante precisa avaliar se vale a pena apostar no vigor físico e disputar espaço com o zagueiro na linha reta até o ponto futuro ou se o melhor seria apostar na velocidade e descrever um arco, contornando o zagueiro pra evitar o choque.

Por todas essas razões, vejo a bola esticada como uma tremenda manifestação de fé no outro, um tremendo elogio a quem irá receber esse tipo de passe, e é justamente aí que entra toda a beleza de que estou falando. No futebol, nada mais belo, nada mais eloquente, nada mais expressivo do que uma bola esticada. E sabe o que ela diz? Sabe o que ela significa? É mais ou menos o seguinte:

— Meu companheiro, que prazer enorme te ver aí, no lugar certo e na hora certa, com toda essa disposição pra contribuir com o time em busca da vitória! Corre! Corre, porque eu acredito que tu vai chegar exatamente onde precisa chegar; eu acredito que, assim como tu está no lugar certo e na hora certa agora mesmo, tu também vai estar no lugar certo e na hora certa pra receber essa bola, lá na frente, lá no ponto futuro, e tu vai fazer o gol! Vai, corre, eu acredito no teu equilíbrio e no teu vigor físico, eu levo muito mais fé em ti do que nesse brutamontes que vai tentar te derrubar no meio do caminho. Corre, não para de correr, vai com tudo, porque eu boto fé na tua inteligência, eu sei que tu vai saber te resguardar quando for preciso, eu sei que tu vai saber evitar conflito desnecessário e perigoso, eu sei que tu vai preferir o caminho mais sábio e não o caminho mais curto! Vai, corre! Eu confio em ti! Eu conto contigo lá na frente, lá no ponto futuro!

E então, leitor? É ou não é um tremendo elogio? Eu, pelo menos, quando estou na pelada com os amigos e recebo uma bola esticada, me sinto absolutamente lisonjeado. E, claro, dou o meu melhor no lance, que é pra fazer jus à fé depositada em mim.

Enfim. Acabei divagando mais do que pretendia. Peço desculpa por isso. Recapitulando: foi numa bola esticada que percebi a existência dos meus pulmões. Pois bem. O caso é o seguinte: naquela época, eu andava fumando demais. Três carteiras de cigarro por dia. E aconteceu que, num jogo bastante disputado no campo aqui perto de casa, quando me esticaram aquela bola, fiz como sempre faço: dei o melhor de mim, corri o mais rápido que pude, disputei espaço com o zagueiro no meio do caminho, trombei, quase caí, consegui chegar no ponto futuro antes dele, me encontrei com a bola, dominei ela e, por fim, chutei pra fora.

Depois de todo o gasto de energia envolvido na explosão desse lance que, como sempre, pareceu durar menos de um segundo, as três carteiras de cigarro diárias vieram cobrar o seu preço. Quase morri. Experimentei algo que nunca desejaria pra ninguém: uma ardência terrível no peito, como se estivesse pegando fogo por dentro. Vertigem, náusea, falta de ar. Eu respirava, mas era como se não tivesse respirado; era como se todo o oxigênio simplesmente tivesse desaparecido da atmosfera. Quanto mais fundo eu puxava o ar, mais a ardência aumentava e se espalhava por todo o meu peito. Sim: eu tinha pulmões. E eles não andavam bem.

Acho que tudo na vida é meio assim. A gente é tão maluco que não costuma sequer perceber a existência daquilo que ainda não perdeu, ou daquilo que ainda não começou a doer. A gente só percebe que tem mindinho no pé quando bate com ele na quina dos móveis. A gente só percebe que tem dente quando ele inflama. A gente só percebe que tem coluna depois de um dia inteiro carregando saco de cimento nas costas. A gente só percebe que tem coração quando alguém muito querido vai embora pra sempre.

E, agora, com essa de quarentena, tá todo mundo percebendo, pela primeiríssima vez, a existência de uma série de coisas. Claro, porque, agora, ou doem ou foram temporariamente perdidas. O abraço despreocupado nos amigos ou mesmo a liberdade de tentar fazer amigos pra poder abraçá-los despreocupadamente algum dia, a tendência a imaginar que os familiares devem estar bem onde quer que estejam ou mesmo a liberdade de visitá-los pra certificar-se de que estão, a tranquilidade pra estudar e trabalhar ou mesmo a liberdade de ir à luta pelo direito à tranquilidade de estudar e trabalhar, a familiaridade com os problemas de sempre que a gente quase já sabe como resolver ou mesmo a singela esperança de que o futuro seja um pouco mais ameno do que o presente. Pois é. Agora, tudo isso dói ou foi temporariamente perdido. Agora, a gente sabe que tudo isso existe.

Precisamos nos preparar pro que vem pela frente. E não digo isso de uma perspectiva pessimista. Pelo contrário: agora que sabemos da existência disso tudo, e do quanto tudo isso nos é caro, precisamos nos preparar é pro momento de sentir toda a dor ir embora, de reaver tudo o que está temporariamente perdido; momento esse que, cedo ou tarde, vai chegar. Estamos em quarentena: penso que estamos no lugar certo e na hora certa. No ponto futuro, teremos de novo o abraço e o carinho, a luta e a esperança. Em algum momento, a bola há de ser esticada: será um tremendo elogio! Então, ao som de toneladas de batatas despejadas ao mesmo tempo em óleo fervendo, nos sentiremos absolutamente lisonjeados. E, claro, daremos o nosso melhor no lance, que é pra fazermos jus à fé depositada em nós.

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