Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 32 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

3. Branco é a vó

3.

 

Branco é a vó

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Onde filho chora e mãe não vê

 

Uma vez, faz tempo já, eu tava vendo um desses documentários estrangeiros mal dublados e acabei descobrindo uma coisa interessante. O programa, na verdade, falava sobre uma determinada espécie de baleia, que não lembro qual era; mas não foi a baleia em si que me chamou a atenção. O que me chamou a atenção foram os ferimentos que cobriam o corpo da baleia e também as explicações do especialista sobre aqueles ferimentos.

Pra começar, parece que esse tipo de baleia tem uma capacidade interessante: consegue sobreviver tanto na superfície do mar como em seus setores mais profundos. Nem todos os animais marinhos podem fazer isso. Muitos só conseguem sobreviver na superfície e em profundidades moderadas; não podem ir lá pro fundão por causa da pressão do mar. É compreensível: nós, seres humanos, mesmo tendo à disposição os materiais mais resistentes da natureza e as tecnologias mais fantásticas, nunca conseguimos fabricar, até hoje, um submarino capaz de mergulhar tão fundo no mar como essa baleia. Existe um limite até onde o nosso melhor submarino pode submergir; passando do ponto, a estrutura do submarino começaria a amassar, como uma lata de refrigerante vazia espremida entre as mãos, por causa da pressão do mar.

Achei a informação interessante, mas o que viria a seguir me chamaria ainda mais a atenção. O especialista seguiu explicando que também existem animais que vivem lá, nas maiores profundezas dos oceanos, mas que simplesmente não conseguem subir para profundidades menores. Ou seja, nos setores mais profundos dos mares, há um mundo inteiro jamais explorado ou sequer visto pelo ser humano, repleto de formas de vida inteiramente desconhecidas! A nós, que não aguentamos a pressão do mar, só resta imaginar como deve ser o vasto mundo e os seres desconhecidos que, sem jamais subir ao nosso alcance, passam a vida inteira mergulhados lá embaixo.

Voltando aos ferimentos da baleia, o especialista explicou que, a julgar pelo tipo, provavelmente foram provocados por alguma espécie de polvo gigantesco que deve habitar as profundezas do mar, cujos tentáculos teriam vários metros de comprimento e seriam capazes de provocar severas queimaduras, a ponto de destruir o tecido do corpo da baleia.

Imaginar isso me assombrou. Um polvo gigantesco, com tentáculos de vários metros, capaz de brigar de igual pra igual com uma baleia enorme e até causar aqueles ferimentos todos no corpo dela, sendo que o corpo dela suporta uma pressão que nem mesmo o nosso melhor submarino de aço aguenta. Uau! Imagina só como deve ser interessante o cotidiano lá embaixo! E o mais louco de tudo é que, com toda a nossa tecnologia, não conhecemos quase nada dessas profundezas, e só podemos supor sobre a maior parte das coisas que devem acontecer por lá.

Fico pensando nessa baleia, capaz de transitar tanto nas maiores profundezas do mar como na superfície. Seria interessante se ela soubesse escrever, pra poder nos trazer, em forma de crônicas, contos, romances e poesias, um pouco sobre o dia a dia desse mundo desconhecido.

Mas, enfim, baleias não sabem escrever. O universo existente nas profundezas dos oceanos permanecerá um inteiro mistério pra nós por um bom tempo ainda, ou talvez até pra sempre.

Ainda bem que os seres humanos sabem escrever. E digo isso porque a nossa civilização não é tão diferente assim do mar. Já parou pra pensar nisso? As nossas grandes cidades também possuem profundezas onde nem todos conseguem ir, porque não aguentariam a pressão. Essas profundezas são conhecidas como “periferias”.

Do mesmo jeito que a baleia volta do fundo do mar com marcas cuja natureza só podemos imaginar, assim também as pessoas da periferia carregam marcas que o pessoal das zonas centrais da cidade não consegue compreender direito. Por exemplo, a gloriosa Hebe Camargo, sempre lembrada pelo suposto carisma e nunca pela efetiva pobreza de espírito, uma vez perguntou em seu programa:

— Por que será que pobre sempre tem o calcanhar rachado?

Muitas são as marcas peculiares das pessoas da periferia: rosto abatido pela vida dura, mãos calejadas, dentes estragados, músculos dos braços mais desenvolvidos do que o cérebro. E o pessoal de pele macia das regiões centrais das cidades simplesmente não consegue imaginar a razão dessas marcas todas. A maioria se precipita a concluir que os cidadãos periféricos devem ser desleixados.

Nem todas as marcas do cidadão de periferia são pra serem vistas; algumas são pra serem ouvidas ou pra serem sentidas ou, ainda, pra serem remoídas na mais fina filosofia. O arsenal de gírias é uma marca. O jeito de andar é uma marca. O jeito de se vestir é uma marca. O desprezo pela polícia é uma marca. O consumo exagerado de drogas e bebidas é uma marca. A falta de perspectiva é uma marca.

E do mesmo jeito que alguns animais ficam o tempo todo lá no fundão do mar, alguns seres humanos também ficam o tempo todo lá no fundão das cidades, sem nunca ir nas regiões centrais. Toda periferia tem aqueles caras que já não saem das redondezas há vários anos e sobrevivem de capinar pátios ou de consertar eletroeletrônicos antigos, ou de vender pó na ponta do beco.

Repito: ainda bem que os seres humanos sabem escrever, incluindo nós, os seres humanos da periferia. Há histórias que só nós sabemos que acontecem, que só nós vimos e que só nós sabemos contar. Histórias do cu da cidade, onde muita gente não aguentaria a pressão. O Brown já dizia:

Hei, senhor de engenho,

eu sei bem quem você é

Sozinho, cê não guenta,

Sozinho, cê não entra a pé

Cê disse que era bom

e as favela ouviu

Lá também tem uísque, Red Bull,

tênis Nike e fuzil

É. E aqui também tem poeta. Tem romancista. Tem músico.

Respeitem as marcas que a gente ganhou nas profundezas da cidade!

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