Mas em que mundo tu vive?
Sobre o direito à cidade
No prefácio do meu primogênito, Evanilton, truta meu, disse assim: “O sociólogo francês Henri Lefebvre, em seu livro O direito à cidade, nos lembra que ‘A vida urbana pressupõe encontros, confrontos das diferenças, conhecimentos e reconhecimentos recíprocos (inclusive no confronto ideológico e político) dos modos de viver, dos “padrões” que coexistem na Cidade.' (Lefebvre, 2001, p. 22)”.
Até então, eu não conhecia o sociólogo, muito menos o livro e menos ainda o trecho. Gostei demais, demais, demais! Me tocou. Girou uma chavezinha dentro de mim, como diz a Dalva. E, desde então, a ideia de “direito à cidade” tem me feito refletir.
Há três décadas que ando pelas ruas de Porto Alegre. Frequentei as quebradas mais profundas desta cidade e, ocasionalmente, alguns dos setores mais luxuosos também. Só que eu nunca tive direito a Porto Alegre. E, mais do que isso, nunca tive sequer consciência de não ter direito à cidade.
Os subempregos me fizeram ir para lá e para cá, sacolejando dentro de ônibus lotados. Eu via os prédios do Centro passando pela janela e, durante anos a fio, eles nunca me disseram nada. Era como se nem mesmo fossem de verdade. Era como se fossem só parte de um gigantesco cenário de papelão, morto, sem vida, sem histórias.
Mas, um dia, passado o lançamento do meu livro, quando fui entregar um exemplar à Cátia, os prédios do Centro resolveram falar comigo. Eu tinha comprado um latão no caminho e não queria chegar no escritório da Cátia com o latão debaixo do braço; por isso, me sentei na escadaria da Borges, ali no viaduto Otávio Rocha, e fiquei olhando tudo enquanto bebia.
Vi o prédio da ocupação Utopia e Luta. Nossa, passei tantas e tantas vezes por aquele prédio sem fazer a menor ideia de tudo o que ele significava! Não que eu seja, agora, um grande conhecedor dos movimentos sociais de luta por moradia, longe disso. Mas, agora, eu conheço a Ana, que mora naquele prédio. Ana, extraordinária atriz do extraordinário grupo Levanta Favela, que deu o maior apoio no lançamento do meu livro, cedendo o espaço, ajudando na organização, ajudando na divulgação. Também mora naquele prédio a Suelen, doutoranda em sociologia pela UFRGS , engajada nos movimentos sociais, outra figura ímpar que tive a honra de conhecer e tenho tido o prazer de encontrar nos mais diversos lugares onde são abordados assuntos que dizem respeito à nossa gente. Pensar em Suelen me fez lembrar do dia glorioso em que a gente se conheceu, não muito longe dali. Foi o mesmo dia em que conheci o badalado restaurante Tudo Pelo Social, onde almoçamos eu, ela, Dalva e Silvana. Silvana, esse poço de conhecimento saído da Mapa, vila vizinha à minha, na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre; Dalva, esse outro poço de conhecimento saído de Baldim, interior de Minas, que, mais tarde, recém-chegada de uma palestra no interior do estado, passou uma noite naquele mesmo prédio da ocupação Utopia e Luta.
Com um susto, me dei conta de que, agora, o prédio da ocupação Utopia e Luta tinha coisas a me contar, assim como outros prédios e ruas do Centro, da Cidade Baixa e de outras partes da cidade, também. A rua João Alfredo nunca mais vai me parecer desprovida de significado porque ali almocei com Dalva, Silvana e Suelen, e não foi um acontecimento banal para mim. De ônibus ou a pé, não posso mais passar pelo Campus Central da UFRGS sem lembrar que ali estive para entregar meu livro à Marilisa, ou sem lembrar que ali fui entrevistado pela primeira vez na vida pelo Pedro. De ônibus ou a pé, não posso mais passar na frente do Desidério, ali na Bento, sem lembrar que já estive lá em cima, no alto do morro, no Miguel Dario, a convite do querido Diego, e que lá conheci uma porção de gente boa, e que lá obtive o meu primeiríssimo certificado de palestrante. Já não posso mais esquecer que subi, também, um outro morro, para aparecer na TV pela primeira vez, para conhecer Janice, para conhecer Domício. E assim é com muitos outros lugares.
A cidade me parece um pouco mais viva agora. Um pouco mais real. Não me parece tanto um cenário desprovido de histórias. Isso porque experimentei — e olhe que foi só um tiquinho de nada, mas experimentei — o direito à cidade. O direito de estar nos lugares. O direito de conhecer pessoas. O direito de ser conhecido pelas pessoas. E ali, sentado na escadaria da Borges, no viaduto Otávio Rocha, tomando o meu latão, fiquei pensando nisso tudo. Fiquei pensando no direito à cidade. Fiquei pensando nas pessoas legais que existem em Porto Alegre. Fiquei pensando nos encontros construtivos que são possíveis. Fiquei pensando nas vivências que podemos ter. Fiquei pensando nas histórias que podemos construir. Fiquei pensando nos eventos legais que acontecem — e que às vezes são de graça. E fiquei pensando que, apesar de tudo isso existir, não é direito de todos. Não é direito meu. Não é direito dos meus vizinhos. Não é direito da minha família. Porque, para nós, pagar um par de passagens de ônibus que seja, três ou quatro vezes por semana, seja para conhecer pessoas, seja para frequentar eventos, seja para o que for, está fora de cogitação. É impossível. E não é só uma questão financeira: é, também, uma questão física e psíquica. Os subempregos a que a minha gente se submete para arranjar o sustento deixam qualquer um num estado de esgotamento físico/psíquico tal que, mesmo havendo eventualmente o dinheiro para ir participar de algo legal noutro canto da cidade, faz muito mais sentido ficar em casa, com a família, com os amigos, limitando-se a construir a relação sujeito/cidade apenas nos confins, sempre na mesma quebrada, sempre com as mesmas pessoas.
Não temos o direito à cidade. Temos apenas o direito a trabalhar nela.
Como alguns sabem, estou fazendo EJA no Colégio de Aplicação da UFRGS . E, como alguns também sabem, às vezes vou e volto a pé. Ontem, saí de casa às 15h27 e cheguei no colégio às 17h29. Cheguei com os pés encharcados, porque estava chovendo. A volta foi um pouco mais rápida: saí do colégio às 22 horas e cheguei em casa às 23h32. Nessas idas e vindas, tenho tempo de sobra para pensar no absurdo que é a minha vida, e a vida de outros tantos. Embora o Campus Vale seja geograficamente ao lado da Lomba do Pinheiro, que é o meu bairro, alguém que more lá no Menino Deus está muito mais próximo dele do que eu pelo simples fato de que pode ir com o próprio carro, ou pagar um Uber, ou, pelo menos, pagar uma passagem de ônibus. Para mim, ir à aula é como as jornadas de O Senhor dos Anéis: caminho e caminho e caminho e sempre que olho para a frente ainda falta muito para chegar.
Mas, vejam bem, o problema não é que eu passe por isso. O problema é que dezenas de milhões passem por isso. E até por coisa pior.
Agora, deixa eu ir dar jeito na vida. Hoje tenho que estar no colégio às 15h30. E vou a pé. E vou com o único tênis que tenho, que ainda está
úmido.
Porque acho que vale a pena.
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