Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 20 de 59

Páginas do PDF

Mas em que mundo tu vive?

Em construção

 

Pensando bem, o Pinheiro, aqui onde eu moro, é um bairro tão longe de tudo que dificilmente alguém viria parar nestas bandas por engano. Não consigo sequer imaginar uma pessoa dizendo: “Xi, que coisa, acabei no Pinheiro”. Não. Definitivamente, não. Quem vem ao Pinheiro, nunca está perdido.

De qualquer forma, como me preocupo com vocês e lhes tenho imenso apreço, caríssimos leitores, fica aqui o meu alerta. Caso suceda, um dia, de vocês virem parar no fim do mundo, assim, sem querer, e, então, se vejam perambulando pelas ruas da Mapa, ou pelas ruas do Portal, ou pelas ruas da Nova São Carlos, ou pelas ruas da Sapo, ou pelas ruas da Vilinha, ou pelas ruas da Viçosa, ou pelas ruas do Vale, ou pelas ruas da Serra, ou pelas ruas do Mangue, ou pelas ruas da Bonsucesso, enfim, caso isso aconteça, evitem, a todo custo, qualquer contato visual com os moradores. Do contrário, pode ser que eles acabem sorrindo e dando “bom-dia”.

Eu sei, eu sei: coisa mais ultrapassada essa de sorrir e dar “bom-dia” aos outros, mesmo que sejam desconhecidos. Só que por aqui quase tudo é assim mesmo, um tanto ultrapassado. A modernidade até que demonstra algum interesse em vir se esparramar de vez por estas bandas, mas parece ter medo de alguma coisa; vem se achegando bem aos poucos, com excesso de cuidados, como quem entra no rio muito devagarinho, por receio de que a água esteja fria demais. Assim, ainda não deu tempo de o povo daqui perder antigos costumes, como esse do sorriso que se abre sem esforço e do “bom-dia” que se deseja, com sinceridade, a quem quer que seja.

Uma pesquisa certamente terminaria comprovando o que já é suspeita: em relação a outros cantos da cidade, esta região deve apresentar altíssima taxa de beijos e abraços por metro quadrado. Démodé, eu sei, mas é assim: as pessoas por aqui ainda conservam acentuada tendência ao carinho e à empatia. E deve ser essa, inclusive, a explicação para o fato de que, no Pinheiro, todos são “vizinhos”. Sim, porque aqui todos são “vizinhos”. O cara pode morar na Austrália e estar no Pinheiro só de passagem, pode nunca antes ter pisado no Pinheiro, pode nem mesmo falar o nosso idioma; nada disso importa; aqui, as pessoas o chamarão de “vizinho”. Aqui, as pessoas o reconhecerão como um próximo. Aqui, as pessoas não estão muito acostumadas com símbolos de distinção e, portanto, desconhecem meios pelos quais decidir quem é digno e quem não é da sua simpatia, de modo que, na dúvida, acabam sendo simpáticas com todo mundo. Aqui, todos são “vizinhos”.

Sim, sim, por aqui quase tudo é assim mesmo, um tanto ultrapassado. Outro dia, quando fui à casa do poeta e amigo Duan Kissonde, lá no Portal, passei por um bando de crianças brincando de pega-pega, correndo soltas e faceiras pela rua. Dá para acreditar? Isso quando não decidem tomar banho de chuva e fazer guerra de lama. Coisa mais século XX, não? Pois é, por aqui ainda se vê dessas coisas: em plena era digital, crianças que teimam em agitar o corpo no arcaico mundo dos átomos em vez de restringirem a sua existência ao mundo dos bits. Mas, bem, sejamos justos: elas não são as únicas a gozar de antiquada liberdade: há, também, os cachorros. Muitos e muitos cachorros. E não estou falando de cães abandonados; nada disso. Estou falando de cães que têm, à porta de algum barraco, um pote com água, um pote com comida e mãos que não negam afago; cães que possuem um lugar para onde voltar depois de passarem o dia abanando o rabo e latindo por aí, desbravando as redondezas; cães que desconhecem coleiras.

Claro, nós, do Pinheiro, já estamos bastante habituados a vestir brim e nos plantar no ponto de ônibus para aguardar o biarticulado movido a diesel com suspensão a ar e câmbio automático, mas até hoje acontece de aparecerem galinhas e cavalos vagando a esmo pelas nossas ruas, sem muito respeito pelos pátios alheios, para que não nos esqueçamos de que por aqui quase tudo é assim mesmo, um tanto ultrapassado. É verdade que já conseguimos nos livrar dos vaga-lumes e das cigarras, abundantes lá nos meus tempos de infância, mas ainda não estamos livres dos pássaros, que são muitos. Também, com toda essa quantidade de árvores que ainda existe por aqui! Só podia mesmo dar nisso: um montão de pássaros que passam o dia inteiro cantando e voando para lá e para cá, nos fazendo perceber toda essa beleza que, um dia, há de cair no poço do completo esquecimento, substituída pelo concreto e pelo aço de um Pinheiro moderno.

Outra consequência de todo o verde destas bandas é o bendito ar puro. Ar que, às vezes, acaba nos faltando. Isso mesmo: volta e meia ficamos sem ar por aqui, absolutamente deslumbrados com o céu, porque ainda não há edifícios altos e numerosos o bastante para nos impedir de reparar na imensidão e na profundidade da sua nudez azul. Apenas o céu. Simplesmente o céu. O céu sem adereço. O céu bruto. O céu que, de tão real, quase ofende. E, além das faltas de ar, há também as faltas de luz, que são, inclusive, mais frequentes e mais duradouras. Só que como por aqui quase tudo é assim mesmo, um tanto ultrapassado, até hoje sabemos como proceder quando o diabo fica sem combustível. Os adultos ainda lembram como é fácil e gostoso se reunir para contar histórias de antigamente no breu das noites sem energia elétrica; as crianças ainda lembram como se faz para imaginar empolgantes aventuras quando a televisão não está disponível para lhes narrar tudo.

Sim, sim, por aqui quase tudo é assim mesmo, um tanto ultrapassado, e a palavra ainda possui bastante valor para nós. Se o fulano disse que comparecerá à nossa festa de aniversário, então esperamos mesmo que compareça, de modo que ficaremos magoados com a sua ausência; se o sicrano disse que uma hora dessas jogaria sinuca conosco no boteco da esquina, então esperamos mesmo que isso aconteça, de modo que o relembraremos da sua promessa todo santo dia. E sem assinar qualquer papel ou apresentar qualquer documento, é com a palavra, e só com ela, que se consegue crédito no mercadinho, ou no bazar, ou no salão do cara que corta cabelo.

O cara que corta cabelo, inclusive, pode nos jogar os búzios, caso desejemos; pode, também, colocar a cerâmica da nossa casa, caso precisemos; e pode, ainda, pegar um cavaquinho e um microfone para nos mostrar o samba de verdade, caso o desconheçamos. É que ele sabe fazer muitas coisas na vida, e está sempre a aprender coisas novas, não por boniteza, mas por precisão, como diria Guimarães Rosa. Ele está em construção, assim como eu, que tento concluir o ensino médio aos trinta e dois anos, também estou em construção. Na verdade, todos por aqui estão em construção. Não só todos, como tudo. Por todo lado, o que mais se vê são casas de alvenaria erguidas até a metade, ou menos da metade. Mesmo paredes completas esperam reboco. Mesmo paredes rebocadas esperam pintura. Nada nunca está pronto. Ninguém nunca está pronto.

Mas, como por aqui quase tudo é assim mesmo, um tanto ultrapassado, ainda sabemos, ainda lembramos do respeito e do carinho com que se deve tratar as pessoas. Temos consciência da nossa humanidade, por mais que ela seja negada diariamente nos jornais. E, convivendo um pouco com as pessoas daqui, os desumanos de verdade certamente conseguiriam reestabelecer a paz no coração e promover o tão esperado reencontro consigo próprios. Afinal, como eu disse antes, quem vem ao Pinheiro, nunca está perdido.

OceanofPDF.com