Mas em que mundo tu vive?
Linha de risco
Para o Denner, para
o Well,
para o Dudu, para o
Gui
e para tantos outros.
Preto, preto, pobre,
cuidado, socorro!
Edi Rock, “Rapaz
comum”,
Sobrevivendo no
inferno
No final do ano passado, no verso livre do Slam da Voz, na Lomba do Pinheiro, recitei uma crônica minha que chama “Onde filho chora e mãe não vê”. Naquela oportunidade, um sangue bom que tava por lá me ouviu recitando o texto e gostou. Na verdade, gostou muito. Veio me perguntar quem era o autor, porque queria ir atrás de mais trabalhos do mesmo cara e tal. Quase não acreditou quando disse que o autor daquilo era eu próprio. Ficou todo faceiro. Abriu um baita dum sorriso. Apertou a minha mão. Me encheu de elogios. E foi assassinado por engano pouco tempo depois.
Pois é. Não me escapa que aquele mano pertencia à mesma laia que eu. Falava do mesmo jeito que eu falo, gostava de se vestir como eu gosto de me vestir. Empoeirou os pés nas mesmas ruas de terra onde eu empoeiro os meus, se enfiou nos mesmos becos estreitos onde eu me enfio. Jogou bola nos mesmos campos onde eu jogo, tomou um gelo nos mesmos botecos onde eu tomo. Era um produto social da mesma espécie que a minha. Não, isso não me escapa. E tampouco me escapa que também pertencia a essa mesmíssima laia um outro mano da melhor qualidade, que era focado no trampo e nos estudos, que era bem quisto onde quer que chegasse, que não queria saber de bebida alcoólica e curtia o baile só na base do refrigerante e da água mineral, que nunca botou um único cigarro nos beiços, que nunca nem bolou um baseado, que nunca deu um teco sequer, que nunca se envolveu com nada errado e que, mesmo assim, também terminou assassinado por engano. Nada disso me escapa. Não me escapa nenhuma das incontáveis histórias desse tipo que conheço.
E são justamente essas histórias que povoam mais e mais a minha cabeça à medida que a noite vai avançando e a aula vai se encaminhando pro fim. Quando o professor ou a professora libera a turma dizendo algo como “Por hoje era isso”, e os colegas começam a guardar cadernos e canetas, chega a me dar um frio na barriga. Um frio que nada tem a ver com a temperatura. Um frio que não vai embora tão cedo. Um frio que, ao contrário, até aumenta, aos pouquinhos. Um frio que eu sei que só deve desaparecer quando eu já estiver em casa, quando eu já tiver dado um beijo na testa da minha mãe, quando eu já tiver mandado uma mensagem pra minha namorada dizendo que cheguei bem. “Por hoje era isso”, “Estão dispensados”, “Até a próxima aula”. Frases tão simples, né? Frases tão corriqueiras, tão inocentes, né? Pois a mim soam insensíveis, quase violentas. Sinto como se estivessem me atirando aos leões.
É geralmente nessa hora, no fim da aula, que lembro de quando pintei o cabelo de amarelo. Naquela época, um sangue bom que muita gente confundia comigo tava na cadeia, e tinha um fulano na rua que queria ele morto. Daí, esse inimigo invisível, judas incolor, mandou uma mensagem pro celular da mãe do cara dizendo mais ou menos o seguinte: “Já tô sabendo que o teu filho saiu da cadeia, e que até pintou o cabelo de amarelo pra disfarçar”. O frio na minha barriga se intensifica um pouco mais com essa lembrança.
Material guardado, mochila nas costas, saio da sala e avanço pelo corredor do colégio com um péssimo pressentimento. Mas é assim toda noite, é assim todo fim de aula, é sempre o mesmo péssimo pressentimento. Já me acostumei com ele. Afinal, o que posso fazer? Nada. Não posso fazer nada. Se acontecer o pior, então aconteceu. Não terei sido o último nem muito menos o primeiro, e logo na manhã seguinte pode até ser que algum pau no cu por aí, sentado numa cadeira confortável, abra o seu computador e escreva uma porra duma reportagem sobre mim, sobre o modo violento como me mataram por engano numa rua qualquer, fingindo se importar com toda a desgraça que se abate sobre nós, fingindo se importar com o uni-duni-tê macabro que todo santo dia e toda santa noite elege algum coitado, graças a Deus bem longe do apartamento dele.
Gosto de pensar que pelo menos a minha família, os meus amigos e a minha namorada vão saber como seguir com as suas vidas, porque todos eles já aprenderam, da forma mais sofrida, que não adianta chorar o leite derramado. E, quando penso nisso, sempre me recordo do poema “Linha de risco”, do Miró da Muribeca, pra intensificar ainda mais o frio na minha barriga:
Recife
é o sol saindo
e o Bandeira Dois anunciando seus mortos
foi um tiro lá na Linha do Tiro
três facadas na Bomba do Hemetério
eu passando manteiga no pão
e pensando
quem será o próximo?
mataram a pedradas
lá pras bandas do Coque
encontrado enforcado
nas matas de Apipucos
estupraram mais uma mulher
em Casa Amarela
sangra a periferia bem de manhãzinha
o café esfria de tanta dor
e o pior
é que não adianta chorar
o leite derramado.
(Miró, “Linha de risco”. In: Miró até agora. Recife: Cepe Editora, 2016.)
Tem um colega que eu sempre espero pra gente ir embora junto. Ele também tem medo da volta pra casa. A gente se ajuda: eu diminuo um pouco o medo dele, e ele diminui um pouco o meu. O curioso é que são dois medos diferentes. São medos de duas raças diferentes. Sabe de quais raças eu tô falando, não sabe? Bom, se não sabe, basta dizer que imaginam ele playboy, apesar de ele não ser, e que me imaginam bandido, embora eu não seja. Ele tem medo de algum ladrão pensar que ele tem grana e colocar uma arma na cara dele; eu tenho medo de algum traficante me confundir com um rival e me encher de tiros pelas costas. Assim, indo embora lado a lado pela Bento, conversando sobre a aula e sobre planos pro futuro, um serve de álibi temporário pro outro. Afinal, é um pouco mais difícil concluírem que sou bandido quando tô andando com uma figura como a dele, e é um pouco mais difícil concluírem que ele é playboy quando tá andando com uma figura como a minha.
Mais do que diferentes, os nossos medos são até opostos. Uma prova disso é que ele sente alívio quando passa uma viatura da polícia por nós; eu, ao contrário, me apavoro, porque também os policiais podem me matar por engano. Outra coisa que também deixa muito clara a oposição entre os nossos medos é o que ele pode fazer, e de fato faz, quando a gente se despede, na esquina da Dolores com a Bento. Depois de apertar a minha mão e dizer pra eu me cuidar, ele sai correndo Dolores adentro. Assim: simplesmente sai correndo. Acredite o leitor ou não, ele simplesmente sai correndo. Não para de correr um segundo sequer até chegar em casa, porque acha que são menores as chances de ser assaltado se permanecer na rua o menor tempo possível. E o raciocínio dele até que faz algum sentido. De qualquer modo, eu, ao contrário dele, não posso fazer uma coisa dessas apesar de também querer chegar em casa o quanto antes. Não posso simplesmente sair correndo. Preciso seguir calmamente pela Bento, caminhando devagar pra não despertar a suspeita da polícia e, também, pra que um eventual traficante que passe por mim tenha bastante tempo pra me observar bem, de cima a baixo, e perceber que não sou o rival com quem ele talvez tenha me confundido à distância.
Já dentro do ônibus, a angústia é um pouco menor do que na rua. Na rua, podem me pegar na crocodilagem, pelas costas; no ônibus, tenho como me precaver minimamente. Tudo o que preciso fazer é analisar rosto por rosto com toda atenção enquanto avanço pro fundo do bonde, tentando perceber se algum malandro me lança um olhar estranho, como se me conhecesse de algum lugar e por algum motivo não gostasse de mim. Uma vez lá no fundo, depois de analisar todo mundo, posso relaxar um pouco; só tenho que ficar esperto nos malandros que vão embarcando em cada parada.
Descer do bonde é que é foda, e então o frio na barriga intensifica ainda mais. Pode ter alguém de campana, esperando pra metralhar algum fulano que talvez às vezes chegue naquele mesmo ônibus e, pro meu azar, talvez costume vestir um casaco igualzinho ao meu. Nessa hora, não tem jeito: é descer do bonde e rezar. Mas faço sempre tudo o que tá ao meu alcance pra tornar o meu desembarque o mais seguro possível. Evito descer na doze à noite, por exemplo. Não faz muito tempo que os malandros da doze tavam de guerra com o pessoal da Serra, e quem é que garante que eles não vão me confundir com alguém de lá, ou até me pegar pra exemplo, de propósito mesmo, já que sou parente dum cara que chegou a ser gerente na boca de lá? Não. Se é noite, desembarco sempre na onze, apesar de assim ter que caminhar um pouco mais e ainda por cima subir aquela lomba fodida do início da Guaíba.
Desço; o ônibus fecha as portas e vai embora, indiferente à minha preocupação. Tô novamente sozinho na rua, onde a crocodilagem é sempre possível, e mais uma vez me sinto atirado aos leões. Avanço em direção à entrada da Guaíba, mas dou uma boa olhada ao redor. Percebo que tem dois malandros desconhecidos atrás de mim, a uns vinte ou trinta metros, do outro lado da estrada. E o pior: não demora muito, eles atravessam pro mesmo lado que eu.
Finjo não perceber a movimentação e sigo em frente, sem apertar o passo. Mas, assim que entro na Guaíba e saio do campo de visão deles por causa do muro que tem naquela esquina, subo a lomba correndo. Então, lá em cima, paro de correr e volto a caminhar, olhando pra trás. Quero ver qual vai ser a reação deles ao virar a esquina e perceber que a distância entre nós aumentou por causa da minha corrida. Se eles tão mesmo querendo me pegar, se tão prestando atenção em mim, vão transparecer isso assim que entrarem na Guaíba e me verem mais longe do que esperavam e aí, com certeza, a surpresa vai dar um empurrão neles e eles vão correr pra tentar se aproximar de mim, e aí eu sei que devo largar fincado, fugir; mas se eles não tiverem nem aí pra mim, vão virar a esquina e continuar caminhando normalmente, do mesmo jeito, sem qualquer alteração no passo.
Sereno: eles entram na Guaíba e continuam andando igual enquanto conversam distraidamente e gesticulam. Não querem nada comigo. Tão falando sobre futebol: mesmo à distância, pego no ar silencioso da noite a palavra “buchaço”.
A rua tá deserta. Os cachorros latem à minha passagem. Nos pontos onde as lâmpadas dos postes já não funcionam mais, tudo é escuridão, e seria muito difícil perceber a tempo a presença de algum malandro à espreita, de tocaia, esperando pra meter a faca ou sentar o dedo num fulano desconhecido que dizem que ajudou a matar um parente seu e cuja descrição mal e porcamente lhe fizeram, mas que lhe garantiram que passa por ali toda noite, sem falta.
Quando tô quase chegando em casa, ouço som de moto às minhas costas. O frio na minha barriga atinge o auge. Puta que pariu! Nessa hora, nunca sei se o melhor é olhar pra trás ou não olhar. Se olho, e se o cara na moto tá mesmo caçando alguém e não tem certeza se esse alguém não é eu, pode ser que ele conclua que olhei pra trás justamente porque tô devendo, porque tenho bronca, e essa pode ser a minha sentença de morte; mas se não olho, posso perder a chance de me precaver contra um possível ataque, posso perder a chance de ver a arma em punho apontada pra mim, posso perder a chance de sair correndo.
Dessa vez, decidi não olhar. E dei graças a Deus quando a moto passou direto por mim. Era só um entregador de lanche.
Chego em casa. O frio na minha barriga começa a abrandar. Dou um beijo na testa da minha mãe. Mando uma mensagem pra minha namorada dizendo que cheguei bem. Tomo banho. Janto. Leio um pouco. Me enfio debaixo das cobertas. Estou a salvo.
Estou?
No meio da noite, acordo com os cachorros do pátio latindo. E agora? O que será isso? Será que tem gente estranha no pátio? Será que confundiram a minha casa com alguma outra? Será que a polícia ou algum outro tipo de facção criminosa vai meter o pé na porta do meu barraco agora mesmo e me matar na minha própria cama?
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