Mas em que mundo tu vive?
Senhor de todos os músculos
Não posso atestar a veracidade do que vou dizer agora, mas vi por aí que um simples sorriso coloca nada menos do que doze músculos em movimento. A gargalhada, segundo consta, movimenta o dobro: vinte e quatro músculos. E parece que o melhor tipo de conversa — aquela acompanhada de risada — vai ainda mais longe: são, ao todo, inacreditáveis oitenta e quatro músculos movimentando-se.
Porém, quando vi isso, fiquei me perguntando se as pessoas que empreenderam esse estudo — ou que fantasiaram essa história toda — por acaso levaram em consideração o corpo inteiro ou apenas a face. Afinal, engana-se redondamente quem pensa que o sorriso é senhor apenas das bochechas: seus domínios compreendem a cabeça inteira, além dos ombros, dos braços e, na verdade, de todo o resto.
O leitor duvida? Pois bem: tendo em vista que a risada não passa de um sorriso barulhento, e que a gargalhada é apenas um sorriso mais barulhento ainda, não seria ele próprio, o sorriso, o responsável pela agitação total daquele que acaba de ouvir uma boa piada, ou que acaba de testemunhar o inusitado, o cômico, ou ainda que acaba de ser surpreendido com a fabulosa promessa de um futuro pleno, próspero, saudável e feliz? Não seria ele próprio, o sorriso, o responsável pelo chacoalhar de ombros daquela criatura, pelo fechamento de seus olhos, pela dilatação de suas narinas, pela inclinação de sua cabeça, pela dobra de seu corpo sobre si mesmo, pela pulsação de sua barriga, por sua mão esquerda espalmada no umbigo enquanto a direita dá tapas na perna e a sola do pé bate com força e insistência no chão? Qual seria a força por trás de tudo isso senão o sorriso?
A verdade é que o nosso espírito, a nossa alma — ou seja lá o nome que se prefira dar a essa porção imaterial que nos compõe — passa a maior parte do tempo encolhida, borocoxô, submissa a forças externas, refugiada no recôndito de nosso ser. Contudo, à maneira de um sol indeciso, que ameaça nascer e logo torna a recolher-se sem jamais atingir o zênite, assim essa nossa parte, em momentos efêmeros, rebela-se e avoluma-se, ao ponto de não cabermos mais em nós mesmos, e é justamente aí que nos nasce um sorriso. Dessa perspectiva, o sorriso, para além de sua sabida qualidade de expressão máxima da felicidade humana, apresenta-se mesmo como indício de que o mundo material seja insuficiente para a nossa plena existência. Jamais existiremos por completo se não pudermos sorrir.
Sei disso por experiência própria, inclusive. Inibido pelo constrangimento de exibir dentes estragados, sinto o tempo todo — e de maneira tão palpável que quase posso traduzir em números —, sinto o tempo todo que seria capaz de muito mais coisas, que gozaria de uma existência muito mais substancial se conseguisse sorrir sem reservas. Mas, bem, não consigo. Sorrir, para mim, não é tão simples. E foi justamente isso que me permitiu tomar consciência de que o sorriso controla, rege, regula os movimentos do corpo inteiro.
Veja o leitor: um pequeno sorriso há de fazer o risonho estreitar ligeiramente as pálpebras; só um sorriso maior, entretanto, há de fazê-lo fechá-las por completo. Em seguida, maior ainda o sorriso, as narinas do sujeito se dilatam, anunciando a iminência de som. Afinal, quando o sorriso já não tem mais para onde esticar as bochechas, começa a produzir ruídos, e é por ali — pelas narinas, e não pela boca — que escapam as primeiras manifestações sonoras. Só depois é que a boca se escancara e as cordas vocais entram em ação, marcando a transformação do sorriso em risada, e, mais ou menos por essa altura, os ombros começam a ficar livres para balançar. Note que o balanço dos ombros passa de facultativo a obrigatório no exato instante em que o riso se converte em gargalhada; então, a partir daí, as mãos precisam escolher: ou tapam o umbigo, ou tapam os olhos, ou dão tapas na perna, mas alguma coisa devem fazer. E por aí vai até que o corpo inteiro esteja envolvido.
Se boa parte das pessoas — para não dizer a maioria delas — atravessa a vida inteira sem perceber que o sorriso é senhor de todos os músculos, imagino eu que isso se deva ao fato de que normalmente não precisamos pensar em nada disso. É um mecanismo irrefletido por natureza. Contudo, eu — assim como outras pessoas por aí, certamente — rendi-me às cáries e ao desalinho dos dentes, optando por desligar o piloto automático do sorriso. Em outras palavras, sou eu mesmo que calculo cada sorriso meu, sempre tomando cuidado para não mostrar demais os dentes. Não há nada de espontâneo nos meus sorrisos; são todos premeditados; preciso lhes dar forma manualmente, na falta de termo melhor. E esse gerenciamento dos mecanismos do sorriso pode parecer simples, mas não é. É algo mais complexo do que se poderia imaginar. Preciso pensar em como mover a cabeça de acordo com a amplitude de sorriso que me permiti em determinada ocasião, preciso imaginar se emitir som combina com aquele tipo de sorriso em particular, preciso calcular se cabe fechar os olhos, ou agitar os ombros, ou tapar a testa com a mão etc., etc., etc.
Quero aproveitar este texto para confessar o profundo rancor que guardo aos donos de bocas saudáveis e de dentes impecáveis. Sinto-me afrontado por sorrisos perfeitos. De todos os privilégios que esfregam na minha cara diariamente, o de ter bons dentes e poder sorrir sem preocupação é, sem dúvida, o que mais revolve as minhas entranhas. Mas o leitor não confunda isso com inveja. Seria mais correto chamar de “senso de dignidade”, isto é: a consciência de que eu, assim como todo mundo, mereço ter bons dentes e, se não os tenho enquanto outros os têm, a culpa passa longe de mim. Não, não é inveja. Inveja eu sinto é daqueles por aí afora capazes de se entregarem às mais gostosas gargalhadas, pouco se lixando para o fato de não possuírem um dente sequer na boca. Esses, sim, eu invejo!
Enfim.
Tudo isso, leitor, só para contar o seguinte: dia desses, quando fui forçado a furar a quarentena e ir ao correio, tive uma grata surpresa. Acabei encontrando um amigo muito querido e, de repente, enquanto trocávamos saudações, me percebi faceiro, tomado por uma enorme sensação de liberdade. O piloto automático do meu sorriso estava ligado novamente, depois de muito tempo. Ali, conversando com aquele cara em pleno Centro, eu podia sorrir de maneira espontânea e deixar o próprio sorriso gerenciar os movimentos da cabeça, dos ombros, das mãos, do corpo. Mal pude acreditar, mas, sim, eu estava livre para sorrir o quanto quisesse, limitado apenas pela graça que achasse nas coisas.
Eu estava de máscara.
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