Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 33 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Revolução em curso

 

 

Em “Fórmula mágica da paz”, o maior poeta brasileiro de todos os tempos — que, para quem ainda não sabe, é o Mano Brown — fala assim:

Dois de novembro, era Finados

Eu parei em frente ao São Luís do outro lado

E durante uma meia hora olhei um por um

E o que todas as senhoras tinham em comum

A roupa humilde, a pele escura

O rosto abatido pela vida dura

Colocando flores sobre a sepultura

Podia ser a minha mãe,

que loucura

Nunca sou capaz de ler ou de escutar isso sem sentir vontade de chorar. Nunca. Mas agora, enquanto escrevo e tento não derramar lágrimas no teclado, me pergunto se por acaso esses versos podem atingir o leitor assim, tão em cheio, como me atingem. Será que podem? E se não podem, por que não podem?

Na primeira vez em que compareci a um slam, um certo acontecimento me fez lembrar justamente dessa passagem de “Fórmula mágica da paz”. Foi na praça da Matriz, onde acontece o Slam das Minas, no qual apenas poetas mulheres podem competir. Competição vai, competição vem, lá pelas tantas chega o momento do verso livre, que é uma espécie de pausa entre as etapas do slam propriamente dito e permite a participação de qualquer pessoa presente. Então, lá foi uma tiazinha recitar o seu poema. Toda acanhada, mas foi.

Conheço uma pessoa trabalhadora quando vejo uma. E aquela tiazinha, tenho certeza, era uma trabalhadora. Não só era uma trabalhadora, como sou capaz de apostar que acabava de soltar do trabalho naquele momento: com a bolsa no ombro, chegou, esperou o momento do verso livre, sacou o seu poema, recitou-o, tornou a guardá-lo, agradeceu os aplausos entusiasmados e, por fim, foi embora, numa direção diferente da qual tinha vindo. Posso estar enganado, claro, mas o que deduzi foi o seguinte: no caminho entre o trabalho e o ponto de ônibus, talvez ela já tivesse esbarrado em alguma outra edição daquele mesmo slam, naquela mesma praça, naquele mesmo horário e, desde então, devia andar prevenida, com o poema na bolsa, esperando aquela oportunidade: a oportunidade da expressão artística, historicamente negada ao povo deste país — o verdadeiro povo deste país.

Aliás, sabe como era aquela tiazinha? A roupa humilde. A pele escura. O rosto abatido pela vida dura. Podia ser a minha mãe. Felizmente, porém, não era sobre a minha sepultura que ela colocava flores; era sobre a sepultura do cânone literário brasileiro que, inclusive, já vai tarde.

Sim, aquela tiazinha podia ser a minha mãe, do mesmo jeito que Natália Pagot — a poeta integrante do coletivo Poetas Vivos, que venceu aquela edição do Slam das Minas — podia ser a minha irmã. Na verdade, sempre sinto, em qualquer slam que eu vá, que todos os poetas podiam ser familiares meus; não é à toa a frequência com que eles se referem uns aos outros e ao público usando o termo “família”. E isso — introduzir-se numa manifestação cultural tão importante e percebê-la protagonizada por gente como a gente, encantar-se por completo com o talento daquele que podia ser confundido conosco, olhar para os artistas que fazem o slam acontecer e sentir ao mesmo tempo admiração e orgulho pelo fato de nos enxergarmos neles —, isso é bom. Muito bom. É uma injeção de autoestima. Eu e os meus permanecemos tempo demais sem direito a isso. Sem direito a nos identificarmos com as pessoas que fazem arte. Sem direito a entender a arte como possível também para nós. Sem direito a acreditar que a vassoura pode ser trocada pela caneta.

Mas a representatividade encontrada no slam, que inclusive o caracteriza, não se restringe à figura dos poetas, evidentemente: tanto na forma como no conteúdo, os poemas vêm carregados da mais genuína brasilidade, quase inédita na história da literatura deste país. O que me faz recordar de algo: em 2018, Paula Anacaona esteve na Feira do Livro de Porto Alegre lançando o seu romance Tatu, e, antes da sessão de autógrafos, participou de um bate-papo sobre a obra, mediado pela poeta, editora e jornalista Fernanda Bastos. Além de escrever livros, Paula também comanda uma editora em Paris, e tem feito bastante barulho por lá traduzindo para o francês a chamada literatura marginal-periférica produzida aqui no Brasil. Em determinado momento da conversa, Fernanda perguntou sobre o primeiro contato da francesa com o referido nicho literário brasileiro, e eis que a resposta foi mais ou menos assim:

— Não há forma melhor de conhecer o povo de um lugar do que através da sua literatura. Mas, quando cheguei aqui, a princípio deparei com uma literatura pouco representativa: eu não via esse povo que conhecia nas ruas do Brasil representado nos livros brasileiros que lia. E isso só mudou quando descobri a literatura marginal-periférica. Aí, sim, senti que estava tendo contato com a literatura do povo brasileiro.

Quando ouvi Paula Anacaona dizendo aquilo, pensei: “Bingo!”. E fiquei me perguntando se por acaso ela teria frequentado os slams Brasil afora para testemunhar a revolução de perto. Porque é exatamente disso que se trata: há uma revolução em curso no país. A nossa revolução, a revolução do povo. Uma revolução que rompe com as tradições classistas, racistas, machistas e preconceituosas de muitas outras formas, as quais moldaram aquilo que durante muito tempo — tempo demais — foi descaradamente descrito como literatura brasileira. Uma revolução que põe em xeque a literatura produzida pelos brasileiros de classes confortáveis e finalmente aproxima da leitura e da escrita quem realmente importa: o povo. E o slam, sem dúvida nenhuma, é a expressão máxima dessa revolução.

Além de literalmente salvar vidas. Por exemplo, Amanda Micaela Coelho dos Santos, mais conhecida como Mika, poeta jovem que tenho tido o prazer de encontrar nos slams e cujo trabalho admiro bastante, me disse o seguinte:

— O slam fez eu me encontrar. Sabe? Eu tinha depressão. Eu tenho depressão. Mas o slam tá me salvando disso. Eu nunca mais me cortei depois que entrei de vez na roda dos slams. Eu trabalho com isso. Eu vou nas escolas. Esses dias eu fui jurada numa escola na Restinga. E eu vi crianças de onze anos escrevendo, sabe? Então é isso. As pessoas falam que se inspiram em mim, e eu me inspiro nas pessoas. A minha amiga, a Jamile, agora tá lá na competição BR. É isso. Eu me enxergar. Eu ver a minha amiga lá, me representando. Significa muito. É uma família. É onde eu me encontro. É o meu lugar. É onde eu me sinto livre. Porque a gente se identifica. É tudo gente de quebrada se encontrando. Um exemplo: um preto de outra quebrada passa pelas mesmas coisas que eu passo na minha vila. Os mesmos atraques. As vilas podem ser diferentes, mas a guerra do tráfico mata pessoas lá na vila dele assim como mata na minha, tá ligado?

Mika também me contou a história de quando ela foi parar no posto de saúde, com o ouvido infeccionado. Depois da triagem, já com a pulseira de atendimento, aguardando para se consultar com o médico, Mika amargou a longa espera com que todo usuário de SUS já está habituado. Mas, dessa vez, a demora era mais inconveniente do que nunca: a poeta tinha um compromisso importante, um compromisso inadiável, ao qual não podia faltar: a final do Slam RS, que valia vaga para o Slam Conexões. E, percebendo que aguardar o atendimento médico resultaria na perda da oportunidade de competir na final, acabou por desistir da consulta. Foi para casa às pressas porque ainda tinha que escrever os poemas com os quais iria competir dali a pouco. Teve crise de ansiedade. Pois escreveu com crise de ansiedade mesmo. Pediu carona no ônibus, porque não tinha como pagar a passagem. E, por fim, depois de toda essa maratona, lá estava ela, competindo na final do Slam RS, ainda com a pulseira de atendimento do posto de saúde, ainda com o ouvido doendo.

Posso não falar por todos, mas creio que falo pela maioria quando digo o seguinte: é esse tipo de gente que eu quero ver escrevendo. São as histórias que pessoas assim têm para contar que me interessam. É a escrita resultante desse tipo de existência que me bate lá no fundo. São as questões que só uma pessoa como a Mika pode abordar que me encantam e me comovem.

Por uma questão de simetria, vou encerrar este texto da mesma maneira que o iniciei: citando o maior poeta brasileiro de todos os tempos — que, repito, é o Mano Brown. Foi assim que o mestre desvelou a absoluta inaptidão da tradição literária brasileira para tratar dos assuntos realmente pertinentes ao povo deste país:

Jardim Rosana, Três Estrelas e Imbé

Santa Tereza, Valo Velho e Dom José

Parque Chácara, Lídia, Vaz

Fundão, muita treta pra Vinicius de Moraes

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