Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 19 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Amsterdam

 

Tem coisa na vida que a gente só dá conta de entender depois que gira uma chavezinha dentro da gente, como diz a Dalva. Mas também tem coisa que a gente parece que já nasce sabendo. Claro, pode não ser uma consciência plena, mas se manifesta dentro da gente, de algum jeito. Pode ser que a gente não consiga nomear, mas já era um incômodo antes mesmo de ganhar nome.

Lembro da minha infância. Final dos anos 1980, início dos anos 1990. A casa da minha avó materna era uma das poucas da rua feitas de alvenaria: imensa bondade do patrãozinho dela. Ele tinha pedido, ainda antes de eu nascer, que a minha avó dissesse como queria a sua casa, porque ele mandaria construí-la tal qual o seu desejo. E assim se fez: um quarto, uma cozinha e um banheiro, tudo feito de alvenaria.

Fico pensando nesse tipo de configuração residencial. A coisa mais comum em casa de pobre é não existir uma sala, ou a sala ser ao mesmo tempo cozinha. É como se não precisássemos de um espaço projetado unicamente para podermos apenas estar, sentar, pensar, fazer nada. A própria estrutura da nossa casa sugere o que podemos e o que não podemos fazer. Há o quarto, claro, pois temos o direito de dormir, e imagino que só temos esse direito porque não podemos evitar dormir; há o banheiro, claro, pois temos o direito de cagar e mijar, e imagino que só temos esse direito porque não podemos evitar cagar e mijar; e há a cozinha, claro, pois temos o direito de trabalhar no preparo da nossa própria comida, e imagino que só temos esse direito porque não podemos evitar comer. Mas o ócio, a reflexão, o estar à toa, tudo isso parece não nos caber. Uma sala é um cômodo perfeitamente dispensável em nossa casa.

E a casa da minha avó, fruto da imensa bondade do patrãozinho dela, possuía ainda uma outra particularidade: o banheiro havia sido construído em anexo, do lado de fora, de modo que era preciso passar pela rua para ir até ele. Claro, porque tudo bem cagar e mijar, mas ter um banheiro dentro de casa já seria uma comodidade exagerada.

Lembro que esse banheiro da casa da minha avó era o único para todos os que moravam no pátio. Quatro famílias, cerca de dezesseis pessoas, todas compartilhando aquele mesmo banheiro. A essa altura da vida, eu nem sequer fazia ideia da existência de sabonete ou shampoo. O que usávamos no banho, tanto para lavar a cabeça como para lavar o resto do corpo, era uma barra de sabão grosso, desses que não se usa mais nem para lavar louça. Uma barra de sabão grosso. Uma só. A mesma. Para dezesseis pessoas. E isso nos dizia algo. Isso sempre nos disse algo. Baixinho, bem baixinho, mas sempre nos disse. Esfregar aquele sabão fedorento e seboso em nós mesmos sussurrava em nossos ouvidos uma história sobre injustiças.

Lembro que os mais velhos saíam à cata de babosa para cortar e aplicar a seiva viscosa no cabelo das crianças, à maneira de creme capilar. Lembro das noites em que havia arroz, mas não havia feijão. Lembro do lamaçal em que a rua se transformava quando chovia, intransitável mesmo para pedestres, porque não havia asfalto. Lembro do esgoto a céu aberto. Lembro das famílias indo buscar água em vertentes, formando fila no meio do mato, com baldes debaixo do braço, porque a água encanada desaparecia por muitos dias. Lembro dos primos mais velhos repassando as roupas aos mais novos, que depois repassavam aos ainda mais novos, que depois repassavam aos ainda mais novos.

Lembro da minha adolescência, quase toda gasta assistindo televisão. Lembro da admiração que eu tinha pelas pessoas que apareciam nos programas. Eu pensava: “Nossa, esse cara está no Programa do Jô, então deve ser muito competente e talentoso”. E eu sentia, então, um intenso desejo de um dia ser bom em alguma coisa; bom o bastante para ser entrevistado pelo Jô. Ia roendo pedra dura, sonhando com pão de ló, como diz o poeta.

Aos poucos, percebi uma constante entre as pessoas que iam ao Programa do Jô. Sempre chegava algum momento da entrevista em que o Jô dizia: “Temos aqui umas imagens suas”. E então aparecia, no telão, cenas do entrevistado, ainda criança, sendo filmado em alguma traquinagem. Eu tomava o maior susto! E pensava: “Meu Deus, a família dessa pessoa já tinha câmera filmadora naquele tempo! Como isso é possível? Já existia câmera filmadora naquele tempo? Na minha infância, não existiu sequer sabonete!”.

Aí, o entrevistado normalmente ficava encabulado e explicava: “Pois é, nesse dia estávamos passando as férias em Amsterdam”. E eu me apavorava de vez: “Caraio, véio! Amsterdam! O malandro mal tinha saído das fraldas e já tava sendo filmado nas férias em Amsterdam! Eu, nessa idade, às vezes jantava só arroz!”.

Há uma espécie de versão difusa e anônima da consciência de classe que esbofeteia cada pobre deste país desde cedo. E mesmo sem nunca ler Marx, logo a gente imagina coisas interessantes, como, por exemplo, a possibilidade de não ser por talento ou competência que as pessoas acabam indo parar nos programas de televisão. Talvez, elas acabem indo parar lá por haverem tido a infância filmada em Amsterdam.

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