Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 46 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Campo minado

 

Para a Dalva, com

amor

 

Dia desses, ali na José do Patrocínio, eu ia indo e um cara vinha vindo quando ele, de repente, para, vira todo o corpo na minha direção, olha dentro dos meus olhos, me aponta um dedo acusador e pergunta, quase afirmando:

— Zé?

— Talvez… Eu não te devo dinheiro, te devo? — brinquei.

— Porra, que bom te ver! Eu sou o Bruno!

Ainda bem que ele falou porque eu nunca teria lembrado. Quer dizer, nunca teria lembrado o nome, porque a figura do cara, sim, consegui reconhecer sem muita demora, apesar do tempão que a gente não se via.

O Bruno foi meu colega por dois anos no Rio de Janeiro. Não o estado do Rio de Janeiro nem a cidade do Rio de Janeiro, claro: me refiro ao colégio que fica aqui em Porto Alegre mesmo, na Lima e Silva. É que morei um tempo na Cidade Baixa antes de o meu pai morrer. Não foi tanto tempo assim, mas foi tempo suficiente para me matricular no Rio de Janeiro e cursar os dois primeiros anos do ensino fundamental, na época chamado ainda de primeiro grau. Então, pelas minhas contas, que admito não serem lá muito confiáveis, eu devia ter oito ou nove anos na última vez que vi o Bruno, antes de dar adeus a ele e a todos os meus coleguinhas da Cidade Baixa e voltar a morar na Lomba do Pinheiro. Agora, ali estávamos nós, dois homens feitos, ambos na casa mal-assombrada dos trinta.

Reencontrar o Bruno me fez pensar no tempo do Rio de Janeiro, e foi com espanto que percebi restarem-me pouquíssimas lembranças daquela época. Lembro que tocava tarol na banda da escola, e que gostava muito de tocar; gostava tanto que até enfrentava toda a minha timidez para poder tocar. Lembro da Paola, a menina que eu amava em segredo, que era mais velha do que eu, que devia estar umas duas ou três séries à frente da minha, que jogava vôlei na quadra, que tinha um sorriso lindo, que nunca sorriu para mim. Lembro do gol decisivo que fiz numa partida do torneio de futebol e de como toda a torcida ao redor vibrou e os meus colegas vieram correndo me abraçar. Inclusive, ao reencontrar o Bruno na José do Patrocínio e vasculhar a memória me perguntando onde diabos eu já tinha visto aquele rosto, foi justamente essa a imagem embaçada que desenterrei: ele e os outros colegas correndo na minha direção, para me abraçar.

É engraçado, e até meio trágico, mas nada do que a escola se propõe a fixar permanentemente no interior da cabeça dos alunos parece ficar ali dentro por muito tempo. Eu, pelo menos, não sou capaz de relembrar uma única lição sequer, de nenhuma disciplina, de nenhuma das escolas pelas quais passei; não resta, na memória, nem o mais vago vestígio dos conteúdos que os professores se esforçaram tanto para ministrar. Do Rio de Janeiro, o que lembro é o prazer de tocar tarol. O que lembro é a frustração de saber que o sorriso da Paola nunca ia ser lançado na minha direção. O que lembro é a epifania dos deuses do futebol com o gol decisivo que fiz.

Depois, no Thereza Noronha de Carvalho, o primeiro colégio em que estudei após voltar a morar na Lomba do Pinheiro, não fui capaz de memorizar o nome de todas as capitais e qual ficava em qual estado conforme a professora desejava. O que memorizei foi a forma como ela estava autorizada a tratar, e de fato tratava, os alunos daquela região da cidade esquecida por Deus e pelo prefeito:

— Calem a boca, seus demônios do inferno! Puta que me pariu! Por que vocês não morrem?

Evidentemente, nunca presenciei tratarem de maneira sequer semelhante os alunos do Rio de Janeiro, porque o Rio de Janeiro fica na Cidade Baixa, e na Cidade Baixa o progresso chega sempre bem antes de chegar na Lomba do Pinheiro. Mas diga-se, em defesa da referida professora, que aqueles eram outros tempos, e que os tempos mudam, como de fato mudaram de lá para cá. Naquela época, da mesma forma que ninguém via nada de mais nos gritos ofensivos com que ela controlava a turma, tampouco havia quem se importasse, por exemplo, com a venda de carne enrolada em jornal num certo armazém da região, não muito longe do colégio, ou ainda com o fato de o senhor idoso, dono desse mesmo armazém, passar o dia inteiro fumando cigarro de palha dentro do seu estabelecimento, bem debaixo do varal onde ficavam pendurados os salames, razão pela qual os vizinhos até faziam brincadeiras dizendo que ele vendia salames defumados. Enfim, tudo isso passou, tudo isso ficou para trás, e hoje em dia a Lomba do Pinheiro já não registra mais casos de carne enrolada em jornal, nem de salames defumados, nem de professores gritando e xingando os alunos. Pelo menos não até onde eu saiba.

Voltando à minha teoria de que as escolas nunca conseguem fixar dentro da cabeça dos alunos aquilo que gostariam de fixar, a única lição que presenciei num colégio, e que não só sou capaz de recordar hoje como sei que serei capaz de recordar para todo o sempre, e com todo o prazer, aconteceu depois que saí do Thereza e fui estudar no Rafaela Remião. Mas quem deu essa lição não foi um professor, e sim um aluno: o Ben-Hur, meu colega na sexta série.

O Ben-Hur era dono de uma impressionante presença de espírito, conforme o leitor certamente perceberá com esta história que conto. Mas era, também, um falastrão, e passava o tempo inteiro puxando assunto, conversando, todo animado, como se a presença dos professores em sala de aula simplesmente não importasse. Um dia, a professora de matemática, que tinha passado no quadro uma monstruosa série de expressões a serem copiadas e resolvidas, se aborreceu com o fato de o Ben-Hur não estar nem aí para nada daquilo e ainda por cima ficar atrapalhando os outros, tentando puxar assunto. Daí, ela disparou:

— Olha aqui, Ben-Hur, tu já terminaste as expressões?

E, sem pestanejar, ele respondeu:

— Ih, sora, nem começaste!

Desnecessário comentar o quanto a turma gargalhou com essa resposta, legitimando o Ben-Hur como o vencedor daquele pequeno duelo. Mas põe reparo, leitor. Presta atenção. Para além da piada — sensacional, diga-se de passagem —, há aí, nessa história, uma grande lição. Ainda que refletindo a partir de conceitos absolutamente básicos com a minha mentalidade simplista de criança, aquela foi a primeira vez na vida que tive a oportunidade de atentar para a diferença entre o capital cultural do povo periférico e o capital cultural dos professores que caíam, e ainda caem, de paraquedas na periferia para “nos trazer o conhecimento”, para “nos salvar da nossa própria ignorância”, para “nos ensinar o que é cultura”, para “nos ensinar como devemos nos comportar”, para “nos ensinar como devemos falar”. Só que, naquela ocasião, quem ensinou foi o Ben-Hur, demonstrando, com todo o apoio da turma, que o modo de falar daquela professora, ali, entre aqueles alunos, não tinha valor nenhum nem nunca teria valor nenhum, a não ser como motivo de chacota. Grande Ben-Hur!

Falando em capital cultural, um dia também aconteceu — isto já no Afonso Guerreiro Lima, onde cursei as últimas séries do ensino fundamental — que a professora de artes de lá da época levou a minha turma para a sala de atividades múltiplas, para a gente trabalhar com música. Logo de cara, pediu que alguém cantasse alguma coisa. Eu me voluntariei, levantando a mão, e na mesma hora ela revirou os olhos, imaginando que daquele adolescente revoltado que eu era não poderia vir coisa boa, não poderia vir o que ela classificaria como uma genuína referência artística. Mas permitiu que eu cantasse, e aí eu comecei:

— “Essa porra é um campo minado…”

Pronto. Só esse primeiro verso, simplesmente por haver nele a palavra “porra”, só isso, e a professora já cortou as minhas asinhas. Foi motivo para sermão, puxão pelo braço e expulsão da sala.

Mas também essa professora consigo absolver, repetindo o que já disse acima: aqueles eram outros tempos, e os tempos mudam, como de fato mudaram de lá para cá. Hoje em dia, a música que tentei cantar naquela oportunidade, “Fórmula mágica da paz”, juntamente com todas as outras faixas do álbum Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC's, é leitura obrigatória no vestibular da Unicamp. E eu, que me tornei escritor e venho produzindo textos muitas vezes recheados de gírias e palavrões, fui homenageado pela gestão atual desse mesmo colégio, o Afonso Guerreiro Lima, que colocou a minha palavra lá, estampada no diploma dos formandos do ano passado.

Depois do Guerreiro, veio o ensino médio, que comecei a enfrentar no Inácio Montanha. Foi apenas um ano nesse colégio — um ano no qual fui reprovado por abandonar as aulas antes mesmo do fim do primeiro semestre. E dou a minha palavra de que a única coisa que consigo recordar desse período é justamente o que me levou à evasão: fome. Era a primeira vez que eu estudava tão longe de casa, era a primeira vez que eu precisava carregar algum dinheiro comigo para poder comer na rua, e a minha mãe não tinha esse dinheiro para me dar.

Fome. Ainda hoje, quando passo de ônibus na frente do Inácio, a primeira e única coisa que me vem à cabeça é isso: fome. Vontade de comprar um lanche no intervalo e nunca ter dinheiro. Ver outros alunos comendo e nunca poder comer também. Sair das aulas ao meio-dia, com o estômago roncando, sentir no ar o cheiro dos lanches e das refeições das lanchonetes e dos restaurantes da Azenha e nunca poder comprar uma porra dum pastel sequer!

Só Deus sabe como me revolto com essa lembrança. Só Deus sabe o que me dá vontade de fazer toda vez que penso nisso. Quando penso nisso, e agora mesmo estou pensando, só Deus sabe o tamanho do esforço que tenho que fazer para que não se esvaia de mim toda e qualquer alegria, para que não se evapore o meu sorriso, para que eu possa conservar em mim alguma doçura.

No ano seguinte, tornei a enfrentar o ensino médio, dessa vez no Júlio de Castilhos, o Julinho. Se entrei duas ou três vezes na sala de aula, foi muito. Isso porque, naquela época, para a minha felicidade, o pátio do colégio ensinava algo infinitamente mais interessante do que os assuntos abordados pelos professores: samba. Todo santo dia os alunos faziam roda de samba no pátio, regada a refrigerante e, às vezes, até a vinho, bebido às escondidas; todo santo dia a roda de samba durava a tarde inteira, abrangendo todas as aulas do turno; todo santo dia era difícil saber se havia mais alunos divertindo-se na roda de samba ou torturando-se nas salas de aula.

E também aqui cabe Pierre Bourdieu: eu, com a bagagem que trazia de casa, com a herança do samba no seio da minha família, me sentia muitíssimo mais acolhido pelos solos dos cavaquinhos, pelas repicadas dos banjos, pelos bordões dos violões, pelas batidas dos pandeiros, pelos versos improvisados daquela rapaziada parecida comigo, me sentia muitíssimo mais acolhido por tudo isso do que poderia me sentir pelos pronomes oblíquos da professora de português ou pelos quadrados dos catetos da professora de matemática. Resultado? Só o que aprendi em dois anos de Julinho foi a tocar cavaquinho, a tocar banjo e a fazer versos de improviso no partido-alto. Mas, francamente, em comparação aos que preferiram amargar a tristeza das salas de aula em busca do diploma do ensino médio, tenho para mim que, de alguma perspectiva, saí no lucro.

Não que eu despreze os estudos, não é nada disso. Aliás, que fique claro que jamais abandonei os estudos. Adoro estudar. O que abandonei foi a escola: há diferença. Tudo o que aprendi na vida, e aprendi um bocado de coisas, aprendi bem longe das instituições de ensino, e por conta própria. Foi assim que aprofundei meus conhecimentos musicais e acrescentei o violão à lista de instrumentos que domino; foi assim que aprendi a desenhar e a fazer programas de computador; foi assim que criei intimidade com a gramática e com a produção de texto; foi assim que desenvolvi noções razoáveis sobre filosofia e sobre sociologia. Não precisei da escola para nada disso. Na verdade, às vezes penso comigo mesmo que as instituições de ensino, tal como estão estruturadas, talvez tivessem até me impedido de aprender tudo o que aprendi.

Mas, enfim, são essas benditas instituições de ensino que concedem os benditos diplomas que são exigidos para as benditas profissões que possibilitam a bendita dignidade neste bendito país. E é só por isso, pelo diploma e pelo que ele pode proporcionar, que hoje em dia faço EJA. É só por isso, pelo diploma e pelo que ele pode proporcionar, que hoje em dia aconselho os moleques da quebrada a estudar.

Porque, se a ideia for aprender mesmo as coisas, penso que o melhor seria passar bem longe da escola, aquele campo minado.

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