Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 9 de 59

Páginas do PDF

Mas em que mundo tu vive?

De volta ao campus

 

Existiu um período da minha vida em que o Campus Vale da UFRGS foi familiar para mim. Durante alguns meses, o matagal ao redor dos prédios ouviu com paciência todas as queixas que desde aquele tempo já iam no meu coração. Durante alguns meses, eu subi aquela triste lomba do campus, e em cada passo eu botava o dobro da força necessária. Porque era com a mais profunda sensação de rancor que eu subia aquela lomba.

Durante alguns meses, eu e o Altair fomos para o campus todo santo dia, bem cedo, quando a cidade estava recém-acordando. Descíamos do ônibus lotado na parada um da Lomba do Pinheiro e fazíamos o restante do caminho a pé. Quinze minutos a gente perdia só na Bento, caminhando desde a entrada do Pinheiro até a entrada do campus: esses quinze minutos eram o tempo exato de fumar um cigarro. Depois, mais um cigarro enquanto subíamos a lomba do campus, sempre tomando o maior cuidado para que o T8 não passasse por cima da gente. Não íamos até o topo: no meio do caminho, saíamos da avenida principal e enveredávamos por uma ruazinha estreita.

Essa ruazinha nos levava mato adentro e terminava em seguida. Não me pergunte a que se destinava o núcleo que existia ali. Para mim, parecia algum tipo de laboratório, embora eu não compreendesse o sentido de um laboratório escondido no meio do mato. Aluno nenhum botava os pés ali. Apenas homens de jaleco branco apareciam, às vezes. Havia tambores enormes de algum produto inflamável: lembro muito bem disso, porque não podíamos fumar depois de chegar ali. Depois de chegar ali, só o que podíamos fazer era trabalhar. O Altair era o pedreiro; eu, o ajudante. A gente construiu uma espécie de galpão.

Conforme sabemos, uma das funções do ajudante de pedreiro é ir comprar o refrigerante do meio-dia. O pedreiro paga e o ajudante vai comprar: desde que o samba é samba é assim. Então, toda manhã, por volta das onze e trinta, eu abandonava a pá e a betoneira e ia comprar uma coca. E eu ia comprar lá em cima, no topo da lomba do campus. Era lá em cima que eu tinha que ir: lá onde ficavam os prédios, lá onde havia manadas de alunos. Era lá que eu tinha que ir comprar o refrigerante: no meio dos universitários.

Durante alguns meses, eu fui o guri todo sujo de argamassa usando um havaianas remendado com prego que aparecia caminhando no meio dos alunos, indo comprar refrigerante. Durante alguns meses, eu fui o intruso que andava encolhido, com vergonha, por entre os prédios da UFRGS. Durante alguns meses, eu fui o pobre-diabo que passava por ali e que imaginava, com razão ou não, ser o alvo de toda e qualquer gargalhada que soasse à sua passagem. Durante alguns meses. Toda manhã. Perto do meio-dia.

Quando o galpão finalmente ficou pronto, eu dei graças a Deus. Creia-me, leitor: não existe ambiente mais hostil para um pé-rapado do que um ambiente acadêmico. É impossível ficar à vontade. Nada ao redor traz sensação de conforto, nada ao redor lembra minimamente as vielas e os barracos que estamos acostumados a ver à nossa volta, ninguém ao redor nos desperta a mínima sensação de identificação ou nos inspira empatia, é todo mundo pálido demais, é todo mundo civilizado demais, é todo mundo bem-vestido demais, é todo mundo sem ginga, é todo mundo sem suingue, é todo mundo tão diferente de nós, e em tantos sentidos! Eu dei graças a Deus quando o galpão finalmente ficou pronto e eu soube que não precisaria mais ir comprar refrigerante no meio dos universitários.

Fiz uma promessa boba para mim mesmo naquele dia: quando eu voltasse àquele ambiente, seria como estudante de letras. Jurei para mim mesmo, tendo como testemunha o matagal que circunda aqueles prédios: em nenhuma circunstância eu voltaria ali, exceto como estudante de letras. Ou bem eu voltava como estudante de letras, ou bem não voltava jamais.

Mas, um dia, anos depois, tive que quebrar essa promessa boba. A Érica Peçanha vinha ministrar naquele campus o seu curso sobre literatura marginal-periférica, e eu não podia perder essa. Era de graça, então cabia direitinho dentro do meu orçamento.

Cheguei a me preparar espiritualmente para ir a pé, desde a minha casa. Seriam cerca de duas horas de caminhada, da parada doze da Lomba do Pinheiro até o campus. O curso começava às treze e trinta, então eu teria que sair de casa às dez e trinta, mais ou menos (incluindo aí um tempo extra para imprevistos). Mas não foi necessário ir a pé: na última hora, o primo Pereba apareceu para me emprestar um par de passagens.

O primo Dodô emprestou a companhia: foi comigo para me ajudar a enfrentar toda aquela hostilidade que paira no ar dos ambientes acadêmicos. Foi comigo para me ajudar a segurar essa barra que é gostar do que não parece ser para o nosso bico.

O trajeto que a gente fez foi idêntico ao que eu costumava fazer com o Altair, anos atrás: de ônibus até a parada um da Lomba do Pinheiro e dali a pé até o campus. Eu e o Dodô subimos juntos a triste lomba tomando o maior cuidado para que o T8 não passasse por cima da gente.

Não fazia muito tempo, a Dalva, que ainda não era minha namorada, tinha publicado um texto que falava sobre “como é bom estar junto com os nossos”. Pude experimentar essa verdade assim que eu e o Dodô subimos as escadas e surgimos no meio da manada de universitários.

— Mano, que ambiente mais hostil!

— Porra, pode crê! O cara não fica em paz, não dá pro cara se sentir bem e pá.

— Pode crê!

É uma delícia não ter que dar um monte de explicações. É uma delícia ser compreendido no ato.

Procura daqui, procura dali. Em que prédio se daria o curso? Mandei uma mensagem para a Érica perguntando onde ia ser. Achei que ela talvez não respondesse: devia estar ocupada, preparando o curso. Mandei uma mensagem para a Caroline, minha irmã, perguntando se ela por acaso sabia onde ia ser. A Caroline pertence ao melhor tipo de pessoa: sempre responde às mensagens de pronto. Disse que não sabia exatamente onde seria, mas que ia tentar descobrir; pediu para eu esperar. Decidi esperar perguntando por aí. E, assim, acabei descobrindo que o curso ia ser na sala 205 do prédio de letras. Descobri isso antes de a Caroline responder: mandei uma mensagem para ela avisando que não precisava mais tentar descobrir onde seria. Ela aproveitou para explicar que uma amiga nossa viria também, a Mayura. E a Mayura apareceu em seguida para, juntamente com o Dodô, atenuar a minha sensação de medo, a minha insegurança. Agora, éramos três.

Para o meu desespero, uma das primeiras coisas que a Érica disse, em alto e bom som, logo no início do curso, foi:

— O José Falero conseguiu chegar?

Se ela soubesse o pavor que eu tenho de ouvir o meu nome sendo dito em alto e bom som, não teria falado aquilo. Se ela soubesse o tamanho da minha vontade de desaparecer quando todos os olhos se voltam na minha direção, como aconteceu naquele momento, não teria falado aquilo. Mas ela falou e eu tive que responder. Acompanhado de dois atores — a Mayura e o Dodô —, quem teve que interpretar fui eu. Enquanto a minha autoestima desmoronava dentro de mim, botei na cara o sorriso mais verossímil que me foi possível e respondi:

— Tô aqui, sim, consegui chegar!

Foi só uma pergunta e uma resposta. Cinco segundos que me pareceram um século inteiro.

O curso, por outro lado, passou voando, como costuma acontecer com as coisas magníficas. O assunto me interessava demais. Me defino como um autor marginal-periférico e, portanto, o que eu via ali, como objeto de estudo daquele ambiente acadêmico, não era senão eu próprio e a minha obra representados na figura de outros autores e de outros textos. Pela primeira vez na vida, eu senti certo conforto num ambiente acadêmico, por menor que tenha sido. Eu tinha propriedade para falar de tudo aquilo. Não me atrevi a abrir a boca, mas que eu tinha propriedade, ah, isso eu tinha! E me bastou.

Na parte final do curso, assistimos ao Curta Saraus. Tudo me emocionava demais. E qual não foi a minha surpresa quando surgiu no vídeo a Naruna Costa declamando “Da paz”! Foi difícil segurar as lágrimas. Mas segurei.

Findo o curso, era hora de descer a triste lomba do campus. Era hora de pegar o ônibus lotado e voltar para as profundezas do Pinheiro. Era hora de ir para casa escrever sobre aquele dia fantástico! E era hora, sobretudo, de fazer mais uma promessa boba, tendo como testemunha o matagal em torno dos prédios da UFRGS: jurei que só voltaria ali na condição de palestrante!

OceanofPDF.com