Mas em que mundo tu vive?
“Sweet Child O' Mine”: Última parte
Receio haver a possibilidade de eu ter cometido uma injustiça na semana passada. Fiz questão de narrar como me senti excluído e menosprezado pelos roqueiros que o Maickel conheceu no terceiro ano da oficina de música ministrada no falecido Centro Cultural da Lomba do Pinheiro, mas não empreendi qualquer esforço para pôr o leitor a par de duas coisas que certamente teriam acrescentado profundidade ao caso. Tudo o que posso dizer, em autodefesa, é que tais coisas talvez não viessem ao caso naquele momento. Bom, agora, vêm. Eis aqui a primeira delas: se por um lado me parecia que aqueles roqueiros não tinham boa vontade comigo, por outro lado devo confessar que não me sentia lá muito melhor acolhido por outras tribos. Nem mesmo pelo pessoal do samba. Uma coisa que as pessoas tinham em comum naquele tempo, fossem roqueiras ou fossem pagodeiras, fossem funkeiras ou fossem regueiras, fossem o que fossem, era uma inexplicável tendência a me tratar mal. Às vezes, tinha a impressão de que um diabinho invisível ficava açulando todo e qualquer vivente contra mim até o momento em que a criatura, por fim persuadida, me olhava de um jeito diferente, assumindo ares de maldade misturada com deboche, quase como se pensasse “Bom, não tem nada melhor pra fazer, então vou cagar em cima deste aqui”. Mas, enfim, esse tipo de coisa já não acontece há um bom tempo. Hoje em dia, as pessoas já não têm qualquer tendência a me tratar mal. E nem poderiam mesmo ter. Afinal, estou… curado, digamos assim. Parei com isso de ficar supondo que as pessoas têm tendência a me tratar mal. O que me leva à segunda coisa da qual quero pôr o leitor a par: talvez aqueles roqueiros realmente tenham me excluído e me menosprezado, talvez não. Quem pode saber? Não ouso considerar evidente a diferença entre os eventos que de fato ocorrem e os que eu meramente imagino. Tudo me parece possível — e não mais do que possível. É possível, inclusive, que neste momento eu seja um escritor, que neste momento eu escreva para uma revista digital chamada Parêntese, que neste momento eu esteja contando o final de uma certa história. Uma certa história que, sem mais delongas, prossegue — ou não — assim:
Um dia, talvez compadecido do meu isolamento crescente e do meu estado de espírito lamentável, o Maickel me convidou para ir ao show da banda que ele e os outros roqueiros tinham formado havia já alguns meses. A entrada era paga, mas, se eu quisesse, ele podia me conseguir uma cortesia.
— Caralho! Cês têm uma banda!
Desnecessário dizer que aceitei prontamente o convite. Imaginei que aquela talvez fosse a porta de entrada para todo um universo onde as pessoas me convidassem para fazer coisas, onde as pessoas fossem comigo a lugares, onde as pessoas gostassem da minha companhia. E as circunstâncias pareciam mesmo corroborar as minhas previsões: para pegar o ingresso, tive que acompanhar o Maickel até a Serra, onde morava a maioria dos integrantes da banda. Uma expedição que naquele tempo não oferecia qualquer perigo, convém esclarecer, pois a Serra ainda não tinha se tornado a eterna bomba-relógio que é hoje em dia, sempre prestes explodir num dos tiroteios frequentes que quadrilhas rivais promovem pelo controle do tráfico de drogas na região.
Quando chegamos lá, o Maickel me apresentou ao pessoal. Para a minha surpresa — e, por que não dizê-lo?, para o meu alívio também —, nunca tinha visto quase nenhum daqueles caras. Ao contrário do que eu tinha pensado, a banda não era composta pelos roqueiros da oficina de música, e sim por outros, pertencentes a uma enorme rede de amigos que, Deus sabe como, o Maickel havia construído nos últimos três anos enquanto eu perdia tempo sentado na fossa em frente à casa da minha vó vendo a vida passar. O único integrante que de fato eu já tinha visto no Centro Cultural era o Ju. Ele não tinha a mais vaga lembrança de mim; tanto é que, ao me cumprimentar, se apresentou; mas eu lembrava muito claramente dele porque, na época da oficina, ele passava boa parte dos encontros tentando, com muito mais paciência do que sucesso, executar no seu violão vagabundo o solo de uma música completamente desconhecida para mim, e aquela sua tenacidade, aquela sua devoção — maior até do que a minha própria devoção ao cavaquinho —, aquilo tinha me causado grande impressão. No caminho até ali, o Maickel tinha me explicado que a banda contava com dois guitarristas: um fazia a base e o outro solava. Imaginei que o Ju fosse este último. Quem por fim entregou a cortesia na minha mão foi um rapaz de olhos arregalados que deduzi ser o baterista porque todo o tempo ficava agitando os punhos cerrados no ar, munido de baquetas imaginárias.
Tomei um susto ao olhar o ingresso. A apresentação deles não seria em uma das casas de show semiclandestinas da Lomba do Pinheiro: eles se apresentariam num festival de bandas iniciantes que parecia ter alguma importância, realizado no Opinião.
Na noite da apresentação, desembarquei do ônibus na João Pessoa, em frente à Redenção, e já estava prestes a seguir o meu rumo Cidade Baixa adentro quando fui assaltado por uma pequena dúvida: como eu ia fazer para fumar a maconha que estava no meu bolso? O Opinião não era as casas de show semiclandestinas da Lomba do Pinheiro e dificilmente eu poderia fumar o meu baseado em paz lá dentro. Sair para fumar em alguma rua escura da Cidade Baixa também estava fora de cogitação: aquele já era um território naturalmente hostil a gente como eu, habitado por pessoas especializadas em me associar ao perigo, e enfiar um cigarro de maconha nos beiços não iria me ajudar muito. Refleti por mais alguns instantes e, finalmente, tomei uma decisão: antes de seguir para o bar, fui na direção oposta e adentrei o breu da Redenção.
Sempre me pareceu que a maconha tinha o poder de potencializar o meu estado de espírito, fosse qual fosse. Se eu estava bem, então ficava ainda melhor depois de fumar um baseado; mas se eu estava mal, a onda me jogava diretamente ao fundo do poço. E foi justamente isto que aconteceu naquela vez. Logo após fumar, já sentindo o efeito da droga nas ideias, imerso naquela escuridão deprimente, sentado naquele banco desconfortável, abraçado em mim mesmo naquele vento frio que não cessava nunca, sozinho às margens daquele lago onde famílias irritantemente alegres andavam de pedalinho durante o dia, fui esmagado pela nítida percepção de que eu não poderia ser mais fracassado. Um jovem já na antessala da vida adulta que precisava empreender toda uma guerra interior para conseguir realizar as interações sociais mais singelas e banais: poderia haver algo mais patético? Não tenho dúvida de que aqueles pensamentos teriam me destruído. Eu teria desistido do show e ido direto para casa, para a segurança das quatro paredes do meu quarto, para o aconchego dos quatro cobertores da minha cama. Quem me salvou de tudo isso, pasme o leitor, foi a polícia.
Quando percebi que um carro se aproximava mansamente, as rodas produzindo um leve ruído no atrito com o saibro da rua, olhei para o lado já experimentando um princípio de pavor, apesar de não conseguir enxergar mais do que um volume indistinto se movendo no breu. Um segundo depois, as luzes em cima da viatura foram ligadas. Não havia mais qualquer dúvida: eu estava fodido. Saltei do banco e saí correndo, o coração na ponta da língua, a adrenalina galopando nas veias. Às minhas costas, a sirene primeiro soou uma única vez, “uéu!”, como se dissesse “para!”, ao que eu obviamente reagi tentando correr mais rápido; em seguida, ela soou um par de vezes, “uéu-uéu!”, como se dissesse “mandei parar!”, ao que eu obviamente reagi tentando imprimir ainda mais velocidade; por fim, ela começou a soar ininterruptamente, como se dissesse “pega o ladrão!, pega o ladrão!, pega o ladrão!”, ao que eu reagi rezando para todos os santos.
Por sorte, quando cheguei à João Pessoa, o fluxo de carros era pequeno, de modo que consegui atravessar imediatamente, o que o carro não podia fazer, e em questão de minutos eu já corria pelas ruas da Cidade Baixa, virando numa esquina e depois noutra e depois noutra, como um louco, passando tal qual uma flecha em frente aos bares lotados. Mas ainda não estava a salvo. Havia a comunicação por rádio. Àquela altura, o meu porte físico, as minhas roupas e a direção na qual eu corria já não deviam ser segredo para nenhum policial num raio de sabe-se lá quantos quilômetros; quando eu menos esperasse, uma outra viatura poderia surgir bem na minha frente, e estaria tudo acabado.
Só consegui começar a me acalmar um pouco depois de entregar o ingresso na entrada do Opinião e me enfiar lá para dentro, quando já estava tomando uma dose de sei lá o que era aquilo, sentindo o suor escorrer pela testa e a respiração voltar ao normal. E quanto mais eu me acalmava, pior eu ficava. A adrenalina tinha me tirado momentaneamente da crise existencial que eu tinha começado a atravessar no breu da Redenção, mas agora que o susto ia se dissipando, infelizmente eu era obrigado a me haver comigo mesmo, e dessa polícia não seria possível escapar.
Tive vontade de chorar.
Toda aquela gente ao meu redor, toda aquela folia, todos aqueles sorrisos, e eu ali, mais sozinho do que nunca, mais triste do que nunca. Com vontade de chorar, mas com vergonha do que iriam pensar se eu chorasse. Com vontade de ir embora para casa, mas com medo do que a polícia faria comigo se me pegasse. Era ou não era patética a minha situação? Eram ou não eram patéticos os meus esforços para resgatar a capacidade de interagir com as pessoas? Pensei em desistir naquele momento. Desistir de tudo. Deixar-me arrastar pela loucura sem oferecer resistência. Afinal, o que eu ganhava lutando tanto, me esforçando tanto? Depois de tudo, ali estava eu, derrotado, como sempre. Mas a ideia de desistir de tudo me inspirava pavor. Não podia desistir de tudo. Precisava continuar tentando! Precisava acreditar que um dia teria amigos e lugares aonde ir. Precisava continuar acreditando que um dia conseguiria voltar a ser uma pessoa normal. Precisava continuar acreditando que os meus esforços um dia seriam recompensados. Precisava de um sinal! Um sinal! Qualquer sinal que fosse! Um sinal de que tudo valeria a pena, de que nenhuma luta seria em vão!
E não é que o barbudo lá em cima pareceu me escutar?
Interrompendo as minhas súplicas mentais, um solo de guitarra de repente tomou conta de todo o ambiente. Um solo gostoso, mas não foi isso que me chamou a atenção a princípio. O que me seduziu por completo e de imediato foi a nítida impressão de já ter ouvido aquele solo antes. Que solo era aquele? Que música era aquela? Onde eu já tinha ouvido aquilo? Dei meia-volta e fiquei de frente para o palco. Lá estava o Maickel com o microfone na mão, esperando o momento certo de começar a cantar. Atrás dele, o restante da banda, inclusive o Ju, com a guitarra mais linda que eu já tinha visto, finalmente executando à perfeição aquele bendito solo que já tentava aprender desde a época da oficina e que nunca tinha desistido de tentar aprender. A galera foi à loucura. Todo mundo começou a gritar, correndo para mais perto do palco. E eu, sem reconhecer a mim mesmo, me permiti fazer a mesma coisa. Na verdade, acho que não fui eu que corri: talvez seja mais correto afirmar que algo me empurrou para perto do palco. Assim como também não sinto que fui eu que gritei: talvez seja mais correto afirmar que algo extraiu o grito da minha garganta. Algo. Algo capaz de me arrancar da inércia patológica. Algo talvez contido no solo de
“Sweet Child O' Mine”. Algo talvez emanado pela própria consciência de que, assim como eu, o Ju também precisava ser recompensado pelos seus esforços. Algo. Não sei bem o quê. Quem pode saber?
Mas não deixa de ser perfeitamente possível que nada disso tenha acontecido. Não deixa de ser perfeitamente possível que, a esta altura, neste exato momento, eu ainda esteja lá, solitário e triste, sentado na fossa em frente à casa da minha vó, imaginando coisas, mirabolando histórias. Quem pode saber?
Tudo me parece possível — e não mais que possível.
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