Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 40 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Ateu, graças a Deus

 

Às vezes, eu acredito em Deus. Não me leva a mal, mas não é sempre que eu acredito. E pra mim, Deus não é sempre a mesma coisa.

Por exemplo, teve uma vez que eu chego na parada do bonde e ali tá uma senhorinha, acabada já. Vinha vindo o bonde dela, ela fez sinal e tudo, mas o bonde passou reto. Ela até tentou xingar o motorista, mas não tinha força nem pra gritar direito, a coitadinha. Eu me compadeci e comentei: “Que pau no cu, né, vó?”. E ela me respondeu assim: “Não se preocupa, meu filho, que esse motorista bem que vai ter o que merece. Deus tá vendo o que ele faz com os mais velhos”. Dei total razão à senhorinha. E, naquele momento, acreditei, acreditei mesmo, com todas as minhas forças, num Deus terrível, implacável e sem misericórdia nenhuma.

Tem vezes que eu preciso acreditar num Deus justo e simplesmente não consigo me lembrar como se faz pra acreditar num Deus assim. Quando isso acontece, sempre recorro à “Vida loka I”:

Fé em Deus que ele é justo,

ei, irmão, nunca se esqueça

Na guarda, guerreiro,

levanta a cabeça, truta

Onde estiver, seja lá como for

Tenha fé,

porque até

no lixão nasce flor

Numa outra ocasião, vinha eu do colégio seguido por um cachorro encardido e morto de fome. Entrei numa lancheria e comprei um lanche pra ele. Francamente, não me importava que o dinheiro fosse me fazer falta depois. Mesmo que no futuro ficasse eu próprio com fome por causa da atitude daquele momento, ver a felicidade do cachorro fez tudo valer a pena, porque, naquele momento, acreditei, com todas as minhas forças, num Deus benevolente, num Deus que visse valor na bondade.

Mas, na maior parte do tempo, Deus não existe pra mim. Na maior parte do tempo, eu tô disperso, pensando nas estrelas e na quantidade de hidrogênio que elas precisam fundir em hélio pra poder emitir tanta energia e durante tanto tempo e, mesmo assim, com a impressão de que elas existem só pra iluminar o meu caminho enquanto eu respiro. Na maior parte do tempo, eu me sinto sinceramente agradecido pelo canto dos pássaros, como se fossem exclusivamente pra mim, e então nada de tudo o que me faz falta me faz falta. Nem Deus. E, nessas ocasiões em que o meu espírito é todo amenidade, sem rancores e sem felicidades exageradas, sem anseios e sem arrependimentos, nessas ocasiões em que Deus não existe pra mim, pelo simples fato de que não preciso que Ele exista, é então que me sinto mais próximo Dele.

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