Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 18 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Passe livre

 

Uma vez, há coisa de mil anos, quando podíamos circular livremente por aí, testemunhei um acontecimento notável. Foi numa viagem de ônibus, onde suspeito ocorrerem todas as coisas dignas de nota. Meu destino, então, já não o recordo, mas embarquei no mesmo lugar de sempre: a parada número doze da Lomba do Pinheiro.

Basta dizer que era dia de passe livre. Levei metade da viagem para vencer os três passos entre a porta e a roleta e não pude deixar de me perguntar quem, afinal de contas, seria o Ulisses na fila do pão. Depois, avancei ainda o quanto pude para dentro da multidão compactada até já não saber mais quais joelhos e quais cotovelos me pertenciam.

Enfrentar o 398 em dia de passe livre talvez seja o melhor curso intensivo de dança que eu poderia recomendar. O sujeito embarca na doze e mais ou menos ali pela igreja São Jorge já deve estar expert em dançar “Stayin' alive”, dos Bee Gees, porque, enquanto o ônibus galopa em direção ao Centro, a única forma de ir achando onde se segurar é justamente por meio de rigorosa obediência aos movimentos daquela coreografia, ora esticando o braço para cá, ora esticando o braço para lá, a perna sempre estendida no sentido oposto. De fato, observando o povo nesse balé, quase dá para escutar o refrão: “Ah! Ah! Ah! Ah!/ Stayin' alive!/ Stayin' alive!”.

Atraindo sobre si uma quantidade incalculável de inveja, vinda de todas as direções, dois malandros que estavam juntos no lugar certo e na hora certa foram agraciados com o milagre pelo qual todos ali orávamos: conseguiram, ao mesmo tempo, lugar para se sentarem, porque uma mãe e uma filha se levantaram exatamente diante deles. Sorriso de orelha a orelha, eis que estavam ambos livres da tortura coreográfica. Reparei melhor na dupla: bonés manchados, como os meus; dentes estragados, como os meus; barbas malfeitas, como a minha; camisetas de clube de futebol falsificadas, como as minhas; bermudas de tamanho impróprio, como as minhas; chinelos gastos, como o meu. O santo que concede assento no ônibus lotado é o único no qual ainda posso depositar um pouco de fé.

Colado na janela, um pequeno cartaz dizia, implacável: “Um fone na sua cabeça é um alívio para a cabeça dos outros”. Mas, ignorando completamente o aviso e tampouco ligando para as caretas de desprezo que se desenhavam aqui e ali, os malandros não só ouviam funk a toda altura numa caixinha de som xexelenta como faziam coro ao cantor, impávidos. Pense o leitor o que quiser, mas eu, de minha parte, estou sempre disposto a perdoar inconveniências desse tipo, porque há poucas coisas no mundo capazes de me despertar tanta admiração quanto um espírito transgressor. Detesto regras. A maioria delas quer me ver morto.

E aconteceu que, a certa altura da viagem, decidiu embarcar naquele inferno uma senhorinha idosa, bastante frágil. Ela sabia muito bem do sufoco no qual estava se metendo. Não podia ser mais evidente que no interior daquele ônibus já não havia espaço sequer para pensar. Tanto que, ao longo do trajeto, o que não faltou foi quem desistisse do embarque tão logo o monstro de aço parava no ponto e abria as portas para oferecer a humilhação, a indignidade, o inaceitável, o absurdo. Se a senhoria decidiu embarcar, portanto, não tenho dúvida alguma de que foi porque não lhe restava alternativa.

A partir daí, o ônibus seguiu seu curso com um acréscimo considerável de desconforto. Pois ninguém que possuísse o mínimo de decência poderia ficar à vontade com aquela senhorinha bem ali, passando aquele perrengue todo, tentando achar onde se segurar, tentando achar uma posição menos desagradável, se esforçando para não voar longe a cada freada, a cada arrancada, a cada curva. O pior era que todos os bancos da parte frontal do coletivo já estavam ocupados por outros idosos, e não havia a menor chance de ela conseguir avançar por entre as pessoas, transpor a roleta e chegar ao outro lado, onde alguém talvez tivesse a bondade de lhe ceder o assento.

Como se tudo isso não bastasse, o cobrador passou a destratá-la.

Isso mesmo: o cobrador passou a destratá-la.

O cobrador passou a destratá-la.

E se o leitor não puder acreditar em tamanha estupidez, tudo bem: mesmo eu, assistindo à cena, não pude acreditar.

Quando o ônibus parava para mais gente subir, havia certa demora no embarque porque a senhorinha estava no meio do caminho, ocupando o único espaço disponível, dificultando a passagem das pessoas. Então, cada vez que isso acontecia, lá ia o cobrador:

— Poxa, a senhora não vê que tá atrapalhando?

— Minha senhora, eu já disse que a senhora tá atrapalhando!

— Assim não dá, minha senhora, assim não dá!

— Meu Deus, por que sobe no ônibus se vê que tá lotado?

Cada frase que saía da boca daquele homem me atingia em cheio. Cada uma delas era uma porrada violenta que eu recebia. Cada uma me fazia tremer por dentro.

Mas apanhei em absoluto silêncio. Não protestei. Não disse coisa alguma. E é com profunda vergonha que admito isso.

Quem nos salvou, claro, foram os funkeiros. Um deles se cansou daquilo e disse, indignado:

— Ô cobrador, vai na manha aí com a vó.

Ao que o cobrador respondeu:

— Ah, tá! Vai querer me ensinar a fazer o meu trabalho?

O outro funkeiro, então, muito mais explosivo do que o primeiro, tratou logo de encerrar a discussão da seguinte maneira:

— Fala mais alguma coisa aí pra vó, então, filho duma puta! Mas fala só mais uma coisinha! Fala, pra tu ver só se eu não vou aí enfiar a tua cara pra dentro a soco, arriado do caralho, pau no cu sem-vergonha!

E esticou o pescoço para lá e para cá tentando contato visual com o cobrador, caçando qualquer motivo para se levantar e ir às vias de fato. Motivo que o cobrador teve o cuidado de não conceder. Sem nem mesmo ousar estalar a língua em resposta, deixou-se cair em completo silêncio, e assim seguiu pelo resto da viagem, sem dizer uma única palavra sequer.

Às vezes, fico me perguntando em que momento da vida me deixei contaminar pela inércia moral que percebi em mim mesmo naquele dia. Porque não tive medo de mandar o cobrador calar a boca, entrar numa discussão cada vez mais inflamada, chegar às vias de fato e terminar apanhando dele. Não, não foi esse o meu medo. O meu medo foi ainda pior, ainda mais vergonhoso. Tive medo de parecer grosseiro aos olhos dos outros. Tive medo da participação no escândalo. Tive medo de “baixar o nível”. Tive medo de atentar contra esse conceito burguês de “elegância”. Tive, naquela oportunidade, o mesmo medo que agora parece paralisar a todos enquanto um canalha destrói o país. E o pior é que, infelizmente, não há funkeiros no jogo político.

São tempos de passe livre para o fascismo.

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