Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 17 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Leite derramado

 

 

Bah, uma vez eu tava gostando duma mina que tinha grana, e daí caí na asneira de contar prum bruxo meu, nós no bonde, dando um rolê. Mas na mesma hora ele começou a gargalhar, com vontade. Foi imediato. Pareceu até que ele já tava com a gargalhada pronta na garganta, engatilhada, só esperando eu abrir o coração pra vomitar ela em cima de mim.

— Ah, não, Zé!

— Qualé, meu?

— Te liga só, irmão…

O palhaço não conseguia sequer falar. Tentava começar, mas logo se engasgava e já tava gargalhando de novo, com vontade. Fosse lá o que fosse que ele tinha pensado e que tava tentando me dizer, parecia muito engraçado. Eu, claro, não achei graça nenhuma. Pelo menos, não a princípio.

— Que arriada, hein, mano? Se eu soubesse que tu ia ficar nessa aí, nem te contava essa fita, nas que é.

— Não, sério, olha só, olha só, te liga aqui. Imagina tu levando ela pra conhecer o teu chão lá. Daí, aquela pá de cachorro tudo solto pela rua, andando de bandão, vinte, trinta cachorro. Imagina só o desespero da mina, Zé! E quando a cachorrada parece que vê bichinho no cara, então? Tá ligado? Quando eles já vêm cuidando o cara lá de longe, com o olhar venenoso, cheio de maldade, só esperando o cara chegar mais perto pra abrir o bocão a latir: imagina se rola essa cena, tu chegando com a mina! Não, e o pior é que daí é só um deles começar e o resto vai tudinho na onda, já viu? Tudinho louco de fome, querendo comer o cara vivo, e tu “Passa!”, “Passa!”, e “Te some daqui!”, “Te some daqui!”, e não adianta bosta nenhuma. Não sei o que que acontece, os bicho do nada parece que fica tudo louco, como se tu fosse um lobisomem, e é cachorro saindo de baixo dos carro estacionado, é cachorro saindo dos beco, é cachorro saindo de tudo quanto é canto pra te infernizar, e tu apavorado, “Passa!”, “Passa!”, e “Vai te deitar!”, “Vai te deitar!”. Imagina, Zé, o desespero da mina! A mina com os olho deste tamanho, se pendurando no teu pescoço, “Ai, amor!”, e tu sem saber o que fazer, num suador só, pisando forte no chão, se abaixando e ameaçando pegar pedra, fazendo um bolo, e os cachorro sem carinho contigo, latindo sem arrego, e os malandro no boteco tudo vá risada de ti, e a mina querendo largar fincada, e tu “Não corre, amor, que é pior!”. Não, não, e isso aí é só a chegada, isso aí é só a chegada. Imagina depois, vocês dois enfurnados dentro do barraco, mil grau lá dentro, meia hora dando tapa no ventilador pra fazer funcionar, e quando o bagulho finalmente funciona, é ar quente pra todo lado, aquele bafo, parece até um secador de cabelo. A mina acostumada com tela plana, Smart TV, Full HD e o escambau, e aí tu liga aquela tua catorze polegada véia de guerra, que foi até da tua vó, aquela de tubão, da época que os botão era de girar, e na real já até sumiu a pecinha de plástico dos botão tudo e só dá pra trocar de canal e aumentar o volume com o alicate. A imagem toda chuviscada, cheia de fantasma; o som, uma chiadeira só; e tu jogando a antena pra lá, jogando a antena pra cá, tentando sintonizar no Faustão. Enquanto isso, o arzinho da tarde, em vez de te ajudar e ir lá pro outro lado, não, ele vem todinho pro lado da tua baia, trazendo o aroma do valão que passa lá atrás. Ah, mano, te liga! E daí a coitada da mina lavada de suor dentro daquele forno que é o teu barraco, nunca que a coitada da mina suou tanto na vida, e ela pede pra tomar um banho, quase chorando já. Bah, imagina o fiasco! Tu na janela, gritando pra tua tia pra ninguém ligar o chuveiro lá na casa dela porque a mina vai entrar no banho, e se ligar dois chuveiro ao mesmo tempo é brete, dá ruim, cai o disjuntor e desliga tudo, fica todo mundo sem luz, porque é um gato só pra todo mundo e o bagulho não aguenta dois chuveiro ligado ao mesmo tempo. Beleza, daí a mina tá lá, no banho, e chega alguém pra perguntar se tu tem um pouco de pó de café pra emprestar. Sempre tem um, é impressionante! Mentira, tá ligado? Nem quer pó de café coisa nenhuma, quer só fofocar, ficou sabendo que tu tava com a mina ali e quer dar um bico no naipe dela pra depois sair falando, e daí vem com essa de pó de café, na cara dura. E o pior é que o teu banheiro tá lá, escancarado, nem porta tem aquilo de lá, e daí é aquilo: “Entra, entra, tenho pó de café, sim, pode entrar, mas não olha pro banheiro que a fulaninha tá no banho”. Imagina, Zé, que vergonha! Me diz, irmão, onde tu ia te socar de tanta vergonha? Não, e depois do banho da mina, como é que ia ser? Pra se secar, como é que ela ia fazer? A mina com a pele toda macia, pele de pêssego, trabalhada afu no creme hidratante, aquele Monange Flor de Lavanda, e as toalha da tua baia tudo parecendo lixa 40. Bah, que tragédia! A mina ia sair do banheiro todinha em carne viva, dos pé à cabeça. Daí, claro, chega, já era, acabou; ela ia querer ir embora, ia querer se sumir dali o quanto antes, e tu ia querer mais era levar ela embora mesmo, porque não ia aguentar mais de tanta vergonha, mas imagina se, bem nessa hora, o bicho resolve pegar! Já pensou, Zé? Bah, vocês prontinho pra ir embora, tudo certinho, a mina já com a Louis Vuitton no ombro, dando beijinho no rosto da tua coroa, aquela coisa toda e, quando vê, os contra resolve dar um atentado na tua quebrada, e aí a bala começa a comer, tiro pra tudo que é lado, e é aquele “Ai, ai, ai”, aquele “Ui, ui, ui”, aquela correria, todo mundo se trancando dentro dos barraco, e a mina quase morrendo do coração, e tu tentando acalmar ela, dizendo pra ela ir pro banheiro, que é a única peça da baia que é de tijolo e é mais seguro ficar lá. Não, não, não! Sem chance, irmão, sem chance! Vê se tem como dar certo um troço desse! Olha só: resumindo tudo, se a mina conseguisse voltar viva pra casa, a primeira coisa que ela ia fazer era ir na justiça pedir medida protetiva contra ti. Tá ligado esse bagulho, medida protetiva? Tipo, pra tu ficar sempre pelo menos a quinhentos metro de distância dela, e se tu chegar mais perto que isso, tu vai preso. E pronto: acabou o amor, bem ligeirinho.

Quando ele parou de falar, eu já tava com a barriga doendo de tanto que eu ria. E não era só eu que achava graça, porque esse meu bruxo é escandaloso, fala tudo gritando, e ninguém no fundo do bonde ficou sem ouvir a viagem dele, e agora tava todo mundo rindo e balançando a cabeça.

E depois dizem que não temos consciência de classe.

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