Mas em que mundo tu vive?
Nascido pra cantar e sambar
É como uma flor que, impulsionada pela necessidade de nascer, rompe a dureza do concreto, delicada, espontânea, tamborim. É uma espécie de afronta à tristeza e à melancolia, é a teimosia de um espírito inquieto e feliz por natureza, todo cuíca. É um sorriso aberto a enfrentar a desgraça, é um convite pandeiro para dançar na chuva. É eterno, é ancestral, é pós-moderno, é a encruzilhada onde se encontram todas as gerações, é tambor, é violão, é banjo, é cavaquinho. Como quem não quer nada, a melodia vai sambando miudinho pelo terreiro, de pés descalços, sob a luz da poesia. E quando tu menos espera, tu está seduzido, tu está em transe, tu já não é mais tu, a tua noção individual de ti mesmo se evaporou, tu é o que tudo e todos ali são juntos, tu faz parte daquilo, o samba te pegou. As mãos querem porque querem batucar na superfície mais próxima, os pés querem porque querem acompanhar o compasso, as cadeiras querem porque querem remexer, o corpo inteiro adquire vontade própria, livre para sonhar após quatrocentos anos de grilhões. Por fim, todo aquele embalo te conduz a uma explosão puramente melódica, onde a poesia é mínima e o seu efeito é máximo, onde a razão não tem vez e a alma é senhora: “laiá-laiá”.
Gastei muitas horas da minha vida refletindo sobre o “laiá-laiá” apesar de saber que me faltava nutriente histórico para tecer ideias conclusivas a respeito dele. Reparei, claro, na sua característica democrática: qualquer um pode cantar a parte do “laiá-laiá”, mesmo que nunca tenha ouvido o samba na vida. Também considerei a sua proeza de atingir o impensável e o seu favor de traduzir o indizível. Mas, conforme sabemos todos, a poesia é uma ferramenta intelectual superior à filosofia, e eu, que nada tenho de filósofo e menos ainda de poeta, jamais poderia conseguir o que conseguiu um certo cidadão chamado Mário Sérgio Ferreira Brochado ao pensar o “laiá-laiá” como alicerce da madrugada:
Vejo que o Sol já vai raiar
A nossa vida é mesmo assim
A gente só “laiá-laiá”
Pra madrugada não ter fim
Para início de conversa, devo dizer que muito antes de tornar-me devoto do Mário Sérgio poeta, já era devoto do Mário Sérgio músico, em linhas gerais, e do Mário Sérgio cavaquinista, em linhas particulares. Como compositor, encontrou soluções harmônicas e melódicas capazes de pôr em dúvida a sua origem, tanto no tempo como no espaço. A prova disso é que, sem qualquer forçação de barra, pode-se fazer à produção musical do Mário Sérgio um par de elogios, os quais, inclusive, alguns se adiantaram e fizeram antes de mim: suas harmonias têm gosto de primeira metade do século XX e suas melodias cheiram a Rio de Janeiro, coisas incompatíveis com o seu nascimento a 1958 em São Paulo. Sua elegância com o cavaquinho foi ímpar. Ouvidos atentos certamente não deixam de perceber que mesmo os sambas dolentes, mais lentos e mais propícios a floreios, mesmo esses, Mário Sérgio costumava conduzir com a palhetada econômica de partido-alto, sem intrometer-se no espaço dos outros instrumentos. Uma postura humilde e generosa, sem dúvida, mas vai muito além disso: é a evidência de que ele assimilou como poucos a natureza coletiva do samba, que se enriquece uma vez que mais gente possa participar dele.
Voltando ao Mário Sérgio poeta, não são poucas as suas características que me agradam. Gosto da sua profundidade:
Quem me diz que a paz tem cor de não
Não me diz que o coração sofreu sem par
Se não sofreu doeu demais
E pra que a pressa de errar
Se o mundo não é de uma só manhã
Gosto do seu olhar atento à gente simples:
Na manhã seguinte, ao raiar do dia
Lá vai a Maria com outro gingado
E nem mais parece aquela Maria
Que ainda há pouco sambou um bocado
Na hora ela assume uma outra postura
Jura que é a Maria do Asfalto
E quando ela volta lá da sua lida
Se esquece da vida no partido-alto
Gosto do seu realismo:
Tanto tempo a luz acesa
Mas sem que ninguém perceba
De repente a luz se apagará
Tanto tempo o céu de estrelas
Aproveite para vê-las
Num piscar o céu desabará
Gosto da forma como ele me pega de surpresa:
Quando o galo cantar
Também vou cantar pra subir
A cidade vai se levantar
Na hora de eu partir
Mas acontece que a cidade não se levantou quando Mário Sérgio partiu. No dia 29 de maio, completaram-se cinco anos do seu falecimento, e a triste verdade é que existe uma chance injustamente grande de o leitor jamais ter ouvido falar dele antes de botar os olhos neste texto. Afinal, vivemos num país que só Fanon poderia explicar; um país que viu nascer o Cartola e chama o Roberto Carlos de “rei”.
Alguém escreveu que a vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, e que ninguém nunca consegue trilhá-lo por inteiro antes de morrer. Discordo da segunda afirmação. Para mim, alguns conseguem, sim, trilhar todo o caminho, e penso que o Mário Sérgio foi um desses poucos. Isso me serve de consolo. Se por um lado o mestre nunca teve o devido reconhecimento, por outro gozou, antes de partir, do grande encontro consigo próprio:
O que fazer o que falar
Eu nasci pra cantar e sambar
Fica em paz, meu poeta!
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