Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 14 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

2. Em construção

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Em construção

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Redundância

 

Há coisas que a gente só consegue entender depois que cresce. Mas, às vezes, penso comigo mesmo que algumas das coisas mais importantes da vida a gente só pode compreender bem durante a infância e, pouco a pouco, o perverso passar do tempo fatalmente tratará de desensiná-las.

O entendimento da beleza do mundo e da vida, por exemplo, me parece reservado à pouca idade. Que o diga o Urso, meu primeiro cachorro. O pulguento, já há muito falecido, testemunhou tudo, tudo, tudo o que já fui capaz de compreender. Costumávamos sentar lado a lado sobre a pilha de tijolos que havia no pátio para, juntos, perdermos o fôlego com a maravilha da existência explodindo ininterruptamente diante dos olhos enquanto lambíamos um sorvete. Claro que o Urso nunca teve um sorvete para repartir comigo; era sempre eu que compartilhava o meu: uma lambida para mim, uma lambida para ele. E nesses momentos fugazes, que nem por isso deixaram de ser eternos, o rabo do pulguento, lembro bem, balançava com mais vontade do que nunca, o que me levava a imaginar que os cachorros deviam ter o coração ali, no rabo.

Naquela época de verões mais exuberantes, cujas noites abrigavam vaga-lumes e cujas tardes distribuíam cigarras, as árvores reservavam segredos a quem enfrentasse o medo dos bichos cabeludos e nelas trepasse. Quanto mais alto se conseguia ir, mais numerosos e mais interessantes eram esses segredos. A certa altura, podia-se ver que, por alguma razão, todas as mães do mundo — cada qual em seu próprio pátio, cada qual com a barriga encostada em seu próprio tanque —, todas elas lavavam a roupa dos filhos num mesmíssimo horário; um pouco mais para cima, descobria-se que o telhado de todas as casas era recoberto de limo e que, de algum jeito, todos os brinquedos perdidos da história tinham ido parar lá, em cima deles; num galho ainda mais alto podia-se, de vez em quando, flagrar abraços estranhos e prolongados que as pessoas só se davam às escondidas, nos quais as mãos de uma não apertavam as costas da outra, mas, sim, a bunda; e uma vez eu consegui subir tanto, mas tanto, que acabei descobrindo a existência de muitas outras casas lá longe, bem para lá do matagal, e elas me lembraram um formigueiro, de tantas que eram e de tão minúsculas que pareciam àquela distância.

Acho que o Urso nunca me perdoou por não conseguir levá-lo para cima das árvores comigo. Sempre que eu subia, ele ficava latindo uma porção de desaforos lá de baixo. Só que quando eu descia de volta, fazia questão de recompensá-lo enchendo as suas orelhas e o seu pescoço de cafuné enquanto lhe contava tudinho o que tinha visto, tudinho o que tinha descoberto. Nessas ocasiões, ele me lambia sem parar, mas aquele não era o seu jeito de retribuir ou agradecer pelo carinho e pelo compartilhamento do meu aprendizado, e sim a sua maneira de implorar que eu desse um jeito de levá-lo junto da próxima vez.

E eis que, de alguma perspectiva, hoje me percebo um completo imbecil. É só com muito esforço, muito esforço mesmo, que consigo resgatar um pouquinho de toda a poesia perdida daqueles tempos. O adulto triste que sou hoje — com o perdão da redundância, já que “adulto” e “triste” não deixam de ser sinônimos —, esse adulto olha para uma pedra e vê pedra mesmo, como diria Adélia Prado. Já não consigo mais supor que o céu imenso e laranja do fim da tarde talvez seja um gigantesco bolo de cenoura feito por Deus, muito menos que a noite derramada por cima dele seja cobertura de chocolate, e menos ainda que as estrelas surgindo aos poucos sejam gotas de merengue. Nada disso. O entardecer, agora, limita-se a entardecer; a noite, agora, é apenas noite; as estrelas, agora, são só estrelas; e eu, adulto triste, não passo de adulto triste.

Com o perdão da redundância.

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