Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 21 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Perseguição

 

 

Antes de mais nada, preciso explicar que tive essa infância meio dividida: parte no Pinheiro, parte na Cidade Baixa. Aconteceu que, em algum momento do turbilhão louco que é a vida, meu finado pai foi assumir o cargo de zelador do edifício Francisco Lambert, onde até então trabalhava como porteiro. Sei o endereço de cor até hoje: rua Lima e Silva, 130. Era o mesmo prédio onde morou o jogador de futebol Arílson durante o período que atuou pelo Grêmio, o que naturalmente não tem importância nenhuma.

O novo emprego exigia a presença constante do meu pai no edifício e, por isso, fomos nós quatro morar lá: ele, minha mãe, minha irmã e eu. Habitamos o número 135 do décimo terceiro andar, que era o apartamento reservado ao zelador e sua família. Só tinha esse apartamento naquele andar, além, é claro, do terraço, onde os moradores às vezes iam tomar chimarrão ou olhar o Guaíba.

Uma noite, já bem tarde, interfonaram lá pra casa. Este, inclusive, é um detalhe que meu pai percebeu tarde demais naquele emprego, não sei se com desgosto, mas acredito que sim: a moradia lá no prédio não era pra facilitar a vida dele, não era pra livrar ele de atravessar a cidade duas vezes todos os dias em ônibus precários lotados de outros trabalhadores, mas sim pra garantir que ele estivesse à disposição dos condôminos vinte e quatro horas por dia, quando precisassem de algo. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Lembro que meu pai tinha atribuições fixas, como recolher o lixo em todos os apartamentos, por exemplo, mas de vez em quando alguém tinha a cara de pau de interfonar pra pedir que ele fosse trocar um chuveiro ou fazer algo desse tipo em algum apartamento.

Interfonaram, então, tarde da noite. Meu pai costumava morder a língua no canto da boca quando zangado, e era sempre assim que ele atendia o interfone, especialmente as ligações muito fora do horário de trabalho formalizado no contrato.

— Alô!

Depois que alguém explicou a situação do outro lado da linha, meu pai pareceu ficar meio apressado, com ares de urgência:

— Tá bom, tá bom, eu vou ver isso agora!

Desligou o interfone, jogou o chambre por cima do pijama, abriu a porta do apartamento e saiu correndo. Na verdade, pra ser sincero, não vi nada disso. Absolutamente nada. Tô apenas imaginando que tenha sido mais ou menos assim. O que eu sei é que a minha mãe ficou preocupada. Algo ruim parecia ter acontecido, algo que fez o meu pai sair do apartamento daquele jeito, e era razoável imaginar alguma possibilidade de perigo. Assim, minha mãe também saiu porta afora chamando pelo meu pai, e minha irmã e eu fomos junto, nos calcanhares dela.

Aqui, minha memória começa a ficar mais confiável: lembro, sim, da gente saindo do apartamento, e lembro, também, que não foi difícil concluir mais ou menos o que tava acontecendo. A porta do terraço tinha sido deixada aberta, como se tivessem saído dali com pressa demais pra perder tempo fechando. Deduzi que alguém talvez tivesse interfonado pro meu pai pra avisar sobre algo ruim que estivesse acontecendo lá no terraço, e que o meu pai, ao sair do apartamento, deu de cara com os malfeitores saindo do terraço, se preparando pra ir embora; então, no susto, talvez eles tivessem fugido correndo, deixando pra trás a porta do terraço aberta e descendo o prédio pelas escadas.

Sem falarmos nada entre nós, tive a impressão que minha mãe e minha irmã tinham imaginado a mesma coisa que eu. E lá fomos nós três, descendo as escadas do prédio atrás do meu pai. A preocupação nos dava vontade de correr, mas o medo de esbarrar num delinquente perigoso nos dizia pra ir devagar. Chamávamos pelo meu pai com gritos sussurrados, se é que isso existe, porque queríamos que ele nos ouvisse, mas não queríamos acordar o prédio inteiro.

A vida muitas vezes imita a arte, e foi o que aconteceu nessa ocasião: como se estivéssemos em um filme de suspense, encontramos, lá pelo décimo ou nono andar do prédio, o chambre do meu pai sem o meu pai dentro. Só o chambre, atirado no corredor, e aquilo, por alguma razão, nos inspirou pavor.

Agora, desculpem cortar bruscamente o clima, se é que consegui construir algum clima até aqui. Simplesmente, não me lembro de nada do que aconteceu depois. Não me lembro se encontramos meu pai nos corredores do prédio, em algum andar, ou se voltamos pra casa e ele retornou em seguida. Só o que eu me lembro é da gente rindo e contando essa história pra todo mundo, dias depois. E contando a história completa, incluindo os pedaços que agora já não posso mais resgatar do esquecimento pra colocar aqui.

Mas, apesar do riso e do gosto com que contamos a história nos dias seguintes, tive pesadelos secretos nas noites que se seguiram. Digo “secretos” porque não contei sobre eles pra ninguém. E não contei porque percebi que todos já tinham espanado qualquer possibilidade de perigo daquele acontecimento; todos já tinham entendido que não existiu perigo real em momento algum; só eu que, talvez por ser muito novo, permaneci impressionado, tendo aqueles pesadelos; pesadelos que guardei pra mim, pra não passar por cagão.

Uma vez li em algum lugar alguém descrevendo certos instintos primitivos dos cachorros. Instintos esses que já não fazem tanto sentido quanto teriam feito lá nos primórdios da civilização, quando começamos a usar os cães na caça. Por exemplo, até hoje os cachorros latem pro carro que passa, como se fosse uma fera a ser perseguida e abocanhada e trazida ao dono pro jantar. Mas, quando o carro para, com toda a indiferença do mundo, eis que o cachorro não sabe muito bem o que fazer. Dá mais umas latidas constrangidas, como quem acaba de cometer uma gafe, e depois vai embora, latir pra outra coisa.

Hoje em dia, penso que o meu pai, naquela noite, tava apenas obedecendo a algum instinto de perseguição: uma vontade inexplicável de perseguir alguém, alguma coisa, por mais tolo que fosse o motivo, ou mesmo não havendo motivo nenhum. Penso que o que levou o meu pai a correr atrás daqueles adolescentes, filhos dos condôminos, não foi realmente o fato de eles estarem fumando maconha no terraço, conforme a denúncia feita pelo interfone; o que fez o meu pai correr atrás deles, imagino, foi esse instinto de perseguir, esse desejo de dedicar energia a alguma empreitada sem precisar de motivos.

Não sei se o meu pai chegou a alcançar os maconheiros. Espero que não. Porque, se alcançou, o coitado deve ter ficado constrangido ao se dar conta de que, afinal, nem tinha nada que ele pudesse fazer a respeito.

P.S.: A memória da minha mãe, que funciona melhor do que a minha, pôde resgatar um pedaço curioso dessa história. Segundo ela, enquanto descíamos o prédio à procura do meu pai, encontramos um apartamento com a porta escancarada, porém mergulhado na mais completa escuridão. Algo um tanto incomum, sem dúvida, e naturalmente imaginamos que o meu pai talvez tivesse se enfiado lá dentro enquanto perseguia os maconheiros. Minha mãe se aproximou da entrada e chamou por ele, mas quem apareceu, em pijamas, foi a mulher que ali morava. Ela se mostrou aborrecida por minha mãe supor a presença do meu pai no apartamento. “O que o seu Zé estaria fazendo aqui, dona Rita?” Ao que minha mãe respondeu dizendo que, enfim, era tarde da noite, a porta do apartamento estava aberta, as luzes estavam desligadas, isso era estranho e, como o meu pai tinha desaparecido… As explicações só deixaram a mulher ainda mais aborrecida. “Ainda assim, dona Rita, o que o seu Zé estaria fazendo aqui?”

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