Mas em que mundo tu vive?
As caixinhas
Na primeira vez em que tentei parar de fumar, fiquei mais de seis meses sem colocar um único cigarro na boca. Depois, na segunda tentativa, o período de abstinência caiu pela metade. Na terceira, nem sei: um mês sem fumar, talvez. Hoje em dia, tento largar o cigarro praticamente toda semana: o máximo que consigo é três ou quatro horas sem fumar, se tanto.
É engraçado pensar nisso. Os números não mentem: com o passar do tempo, as tentativas de me livrar do vício se tornaram mais e mais frequentes, e não é necessário um curso de estatística para perceber que isso indica um genuíno desejo de parar de fumar. Por outro lado, sou forçado a admitir, cada novo período de abstinência ao longo desse processo acabou sendo sempre substancialmente menor do que o anterior, e isso também deve significar alguma coisa.
Detesto quando alguém vem me contar sobre algum parente que fumou por anos, ou décadas, ou séculos, ou milênios e, um dia, sem mais nem meio mais, decidiu parar, e parou, assim, com a maior facilidade do mundo. Detesto mesmo essa história. Detesto com força. Às vezes, não satisfeita em me atazanar com isso, a criatura ainda acrescenta que “Vai da força de vontade de cada um”. Deus me livre ter uma faca comigo numa hora dessas.
Talvez, eu pudesse me esconder atrás do argumento de que o vício é uma doença e, portanto, uma condição que pode acometer alguns e não outros. Predisposição genética: uma expressão elegante e muito em voga ultimamente. Acontece que eu não tenho propriedade nenhuma para falar disso. Não sou médico, não tenho intimidade intelectual com esse tipo de conceito, não me sinto à vontade para abrir a boca e dizer “predisposição genética”, como se soubesse do que estou falando. O que posso dizer é que, para mim, parar de fumar não é fácil. Sei que o cigarro vai me matar algum dia. Não raro, inclusive, tenho mais clareza desse destino do que o chato que vem me encher o saco falando sobre os malefícios do tabagismo. E me espanta que isso — o fato de eu saber que o cigarro vai me matar e mesmo assim não largá-lo —, me espanta que isso não seja o suficiente para convencer as pessoas quando digo que, para mim, parar de fumar não é fácil.
A fissura já me levou a cometer loucuras. Como na vez em que eu era porteiro noturno e achei que a profissão poderia contribuir para que eu largasse o cigarro de vez. O plano parecia infalível: bastava ir trabalhar sem cigarros, sem fósforos e sem moedas. Não poderia fumar meus cigarros se não estivessem comigo, não poderia acender um cigarro que eventualmente encontrasse pelo caminho se os meus fósforos não estivessem comigo, não poderia comprar nem cigarros nem fósforos se não tivesse moedas comigo. Tudo o que eu precisava fazer, logo após vestir o uniforme e assumir meu posto, era aguentar sem fumar até o início da madrugada. Depois disso, por maior que fosse minha fissura, simplesmente não haveria o que eu pudesse fazer, porque toda a cidade estaria dormindo, inclusive os moradores do prédio onde eu trabalhava, de modo que não me restaria sequer o recurso humilhante de mendigar um cigarro quando algum condômino fumante estivesse de passagem pela portaria.
Pus o plano em prática. E, por volta das três da manhã, até os cabelos da minha bunda estavam arrependidos. Era como se cada célula do meu corpo pedisse uma tragada. Era como se minha vida dependesse de um cigarro. Não aguentei. Chutei o balde, como dizem. Abandonei meu posto e saí vagando pelas ruas da Bela Vista até encontrar algum outro porteiro de algum outro prédio que fumasse e estivesse disposto a me dar um cigarro. No condomínio onde eu trabalhava, as visitas no meio da madrugada eram raras, mas aconteciam. Fiquei com medo. Com muito medo. Se chegasse alguém e eu não estivesse lá, na portaria, e se ainda por cima o visitante, depois de gastar o dedo no botão do interfone, me visse virando a esquina e voltando a meu posto para, enfim, atendê-lo, seria questão de tempo, e pouco tempo, até meu chefe ficar sabendo do ocorrido, e eu estaria fodido, porque ele sem dúvida me mandaria embora com uma mão na frente e a outra atrás, e eu precisava daquele trabalho.
Felizmente, nada disso aconteceu. Arranjei o cigarro, voltei a meu posto, tornei a me sentar na cadeira e, ao que tudo indicava, minha ausência não tinha sido percebida por nenhuma viva alma. Mas a adrenalina tinha sido tanta, meu coração ainda batia tão desesperado, que jurei a mim mesmo, com todas as forças, jamais, em hipótese alguma, voltar a fazer aquilo. Uma promessa posta à prova logo em seguida, quando me dei conta de que minha aventura talvez tivesse sido em vão, já que eu tinha deixado meus fósforos em casa e agora não via jeito de acender o maldito cigarro que estava em meu bolso.
Gastei alguns minutos blasfemando contra mim mesmo, dando tapas na testa e me perguntando como tinha conseguido ser estúpido o bastante para arriscar o emprego indo em busca de um cigarro sem que me ocorresse de aproveitar a saída para dar um jeito de acendê-lo também. Depois, gastei mais alguns minutos considerando seriamente a possibilidade de quebrar minha promessa recém-feita e repetir a aventura, dessa vez indo em busca de fogo. Mas o medo foi mais forte. No fim das contas, o que fiz foi o seguinte: revirei o lixo da guarita até encontrar a marmita descartável que eu tinha jogado fora depois de jantar; com ela, fiz uma pequena bola de papel-alumínio; em seguida, fui ao banheiro e peguei uma boa quantidade de papel higiênico; por fim, envolvi a bola de papel-alumínio com o papel higiênico, coloquei tudo dentro do micro-ondas, fechei a porta e apertei o botão de ligar. Vários clarões e estalos dentro do aparelho. Parecia uma tempestade em miniatura. Assustado, recuei um pouco, e fiquei com medo de chegar perto para apertar o botão de desligar. A saída foi arrancar o plugue da tomada.
Passado o susto, abri a porta do micro-ondas e contemplei, orgulhoso, meu feito: o papel higiênico estava pegando fogo. Acendi o cigarro e fiquei tranquilo. Mais um minuto sem fumar e eu teria morrido. Ou pelo menos assim me parecia.
Lembrei dessa história hoje enquanto olhava para estas duas caixinhas que trouxe comigo para Belo Horizonte. Quem me convenceu a comprá-las foi ninguém mais, ninguém menos do que o editor desta revista Parêntese, o Fischer. E será que o leitor consegue adivinhar onde as comprei? Sim, foi numa farmácia, mas não qualquer farmácia: foi onde trabalha ninguém mais, ninguém menos do que outra contribuidora desta mesma revista Parêntese, a Nathallia. Ela me deu todas as dicas de como utilizar corretamente o conteúdo de ambas as caixinhas. Era mais complicado do que eu imaginava.
Uma dessas caixinhas contém chicletes de nicotina; a outra, adesivos de nicotina. Há vários meses que as comprei. Olho para elas quase todos os dias e penso em muitas coisas. Mas ainda não fui capaz de abri-las.
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