Mas em que mundo tu vive?
Caminho das letras
Minha irmã foi a primeira pessoa a me mostrar que a leitura não era um jogo de adivinhação. Sempre que a gente andava pela rua, de mãos dadas, ela apontava pra alguma placa e dizia:
— E ali? O que tá escrito ali?
Consigo lembrar do tipo de raciocínio que eu fazia nesses tempos remotos. Eu achava que devia dar um palpite; olhar pro desenho das letras e tentar imaginar algo criativo; era isso que eu achava que era a leitura.
— “Céu azul”?
— Não! Ali tá escrito “sapateiro”.
Na mesma época, eu costumava jogar pife com a minha finada vó quando ela ia nos visitar. E eu sabia que, em algum momento do jogo, deveria baixar as cartas e dizer “Bati!”, porque era o que eu via os mais velhos fazendo. Então, eu esperava; ia comprando e descartando, comprando e descartando, até o momento em que, tentando pegar a minha vó de surpresa, simplesmente baixava as cartas de repente e anunciava a batida sem nem mesmo saber o que cada carta significava.
Ela sempre balançava a cabeça e dizia assim:
— Tá bom! Ai, que guri pentelho! Me ganhou de novo!
Vó é vó.
Por causa do carinho infinito da minha vó, eu levaria anos pra realmente aprender a jogar pife. Mas o real aprendizado da leitura veio ligeiro, graças à falta de dó com que a minha irmã revelava o meu desconhecimento do significado das letras. Não que ela não me amasse. Sempre fomos muito ligados; mais do que a maioria dos irmãos. Acontece que a minha irmã é só quatro anos mais velha do que eu; naquela época, portanto, ela própria também era criança e não tinha ainda a capacidade sutil de fingir que eu tava certo só pra evitar me magoar; além disso, ela própria devia ter aprendido a ler pouco tempo antes e acho que brincar de ler coisas comigo era uma forma de ela mesma praticar.
O fato é que comecei a perceber uma coisa estranha e ao mesmo tempo fascinante sobre a vida: havia coisas que eu entendia como funcionavam e havia coisas que eu não entendia como funcionavam. O pife, por exemplo, eu pensava que já entendia como funcionava porque minha vó legitimava as minhas batidas; mas o funcionamento da leitura era um mistério pra mim porque, segundo a minha irmã, os meus palpites nunca tavam certos.
Fui perguntar pra minha mãe como se fazia pra ler as coisas. E a minha mãe, então, começou a me ensinar, sempre de noite, depois que voltava das faxinas. Aprendi rápido. Crianças aprendem rápido. Logo eu tava lendo tudo o que via por aí, e também escrevendo coisas em cada pedaço de papel que achava.
Aí, veio o mistério insolúvel do “G” e do “J”. Aprendi como funcionavam; conseguia ler e escrever coisas tanto com “G” como com “J”. O problema é que, naquela idade, muitos e muitos anos antes de vir a conhecer a palavra “inconsistência”, eu já refletia sobre o que parecia ser exatamente isso: uma inconsistência do mundo das letras.
Por dias a fio, teimei com a coitada da minha mãe que o certo deveria ser “garajem” e não “garagem”. Afinal, como podia o “G” fazer um som no início da palavra e outro som dentro dela? Dei exemplos; mostrei como “janela” se escrevia com “J”; mostrei como “galinha” se escrevia com “G”; insisti, enchi o saco; o “G” devia ou fazer um som, ou fazer outro; não podia fazer dois sons diferentes.
Lembro muito claramente o jeito como essa discussão foi encerrada. Minha mãe incutiu em mim o medo de aprender. Ela disse:
— Meu filho, esquece um pouco isso de ler e escrever e vai brincar. Se tu ficar forçando demais a cabeça, vai ficar doente. Isso faz mal. Tu é muito pequeno pra ficar pensando nisso. Quando tu tiver a idade certa, vai entrar na escola e a professora vai ensinar tudo certinho.
É claro que a minha mãe não tinha más intenções quando me instruiu assim. Provavelmente, ela apenas não aguentava mais os debates intermináveis sobre “G” e “J”. O fato é que tive muito medo de ficar doente e interrompi as investigações sobre as letras. De qualquer forma, o estrago já tava feito: entrei no colégio com tal domínio sobre a escrita e a leitura que a professora chamou meu pai na escola e sugeriu que eu fosse passado direto pro segundo ano do ensino fundamental. Mas isso não aconteceu, porque meu pai achava importante que eu seguisse o caminho integral, sem atalhos.
Por anos a fio deixei de me preocupar com as letras e fui descobrindo outros amores, como o desenho, a música, a filosofia, a programação de computadores.
Hoje, parando pra pensar, percebo claramente o quanto minha mãe me criou pro sonho. Depois que ela e meu pai se separaram, fui viver com ela, que não mediu esforços pra botar lenha nas fogueiras das minhas esquisitices. Tenho pra mim, com boa dose de convicção, que a vida inteira minha mãe foi, e ainda é, uma artista reprimida. Desenterrando memórias antigas, vejo ela sentada na mesa, desenhando. Fazia desenhos lindos. Eu era capaz de ficar admirando os desenhos da minha mãe por horas e horas seguidas, sem jamais me cansar. Mas pra minha mãe, nunca foi dado o direito de ganhar dinheiro com desenhos. Ela sempre ganhou dinheiro limpando chão. E penso que, consciente ou inconscientemente, tudo o que ela mais desejava era que as coisas fossem diferentes pra mim. Que eu não precisasse trancar no armário aquele desejo ardente de expressar a minha visão de mundo através da arte.
Quando botei na cabeça que seria músico, por exemplo, minha mãe comprou um cavaquinho. E não só comprou o cavaquinho como também trazia, quase todo dia, vários tipos de revistinhas, algumas com cifras, pra que eu pudesse aprender a tocar as músicas, outras contendo teoria musical pura, que na época eu mal podia entender.
Mas o episódio mais emblemático da forma como a minha mãe me criou pro sonho foi o episódio do videogame.
O videogame mais badalado da época era o PS1, mas o superior em tecnologia era o N64. E era este que eu queria. Três dos meus aniversários se resumiram na insistência cruel pra que a minha mãe me desse um N64 de presente. Classifico essa insistência como “cruel” porque minha mãe, na verdade, não tinha dinheiro pra comprar aquilo. Só que, um dia, ela acabou comprando.
Todo pobre sabe bem a felicidade que é, ou pelo menos costumava ser até pouco tempo atrás, uma rescisão trabalhista. Quando um pobre saía de um emprego onde tinha ficado por bastante tempo, o dinheiro proveniente disso era a oportunidade rara de fazer alguma coisa que dificilmente se conseguiria fazer outra vez na vida. Então, quando a minha mãe se libertou do apartamento onde tinha passado anos limpando o chão, teve a oportunidade de comprar o bendito N64. Nunca vou esquecer. Foi o presente mais importante da minha vida. Um presente de Páscoa. Estranhei a minha mãe me dar um N64 como presente de Páscoa. Me perguntei por que ela não me dava o videogame no meu aniversário, ou então no Natal. É que, mantido em alienação total a respeito das dificuldades da vida, naquele momento ainda não fazia a menor ideia de que não se pode planejar uma rescisão trabalhista: ela vem quando o trabalhador já não aguenta mais.
Nessa época, o desenho era a minha maior paixão. Eu fazia histórias em quadrinho. Mangás, pra ser mais preciso. Tudo artesanal, evidentemente: desenhava com lapiseira, em folhas de ofício comuns cortadas ao meio, frente e verso; fazia a arte-final com caneta Bic; coloria as capas com lápis de cor vagabundos saqueados do colégio; por fim, empilhava as páginas e grampeava tudo, no cantinho direito (mangás são lidos ao contrário). Era tudo muito metódico: cada revistinha tinha exatamente oito capítulos e cada capítulo tinha exatamente vinte e cinco páginas, totalizando duzentas páginas por revistinha. A série mais longa que produzi teve vinte e quatro revistinhas dessas. Tenho vergonha de como se chamava: The Universe of Four Gods. Naquela época, não havia forma fácil de tentar descobrir o que palavras em inglês significavam, mas a intenção com esse título era dizer O universo das quatro deusas, porque a história se passava em um mundo fantástico criado por quatro deusas. Tratava-se, basicamente, de uma mistura de Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco e Yu Hakusho; os personagens eram os meus amigos e parentes. Todos gostavam muito de se ver representados ali, nas batalhas e aventuras surreais onde eu botava um pra brigar com o outro, ou um pra ajudar o outro; onde se formavam grupos rivais; onde alianças eram feitas, pra serem desfeitas quatro ou cinco revistinhas mais tarde; onde meus amigos e parentes eram mortos uns pelos outros das formas mais horríveis, pra depois reaparecerem como espíritos ou ressuscitados. Todos vinham bater na porta da minha casa pra saber se o próximo número da série já tava pronto: eu nunca mostrava as páginas antes de ter a revistinha já toda terminada. E, assim, o interesse dos meus amigos e parentes ia me incentivando a continuar produzindo, razão pela qual eu passava dias inteiros e madrugadas inteiras bolando roteiros e desenhando. Bons tempos!
Então, quando eu e a minha mãe fomos no Centro pra comprar o bendito N64, ela me levou, de propósito, por um caminho que passava em frente a uma loja, que não era uma loja de videogames. Fez eu entrar ali e me mostrou uma coisa.
— Olha, meu filho. É o mesmo preço do videogame.
Minha mãe tentava me convencer a trocar o N64 por aquilo. E aquilo era uma mesa de desenhista profissional, com cadeira de rodinhas e luminária embutida, dessas maleáveis, que se pode ajustar pra cá ou pra lá, pra espalhar luz sobre a mesa inteira, ou focar em um ponto específico. Também acompanhava a mesa algum material de desenho: lápis 2B, 3B, 4B etc.; pastéis, lápis aquarela e pincéis; caneta nanquim 0.5 e 0.7; um pacote grosso de folhas específicas para desenho.
Mãe é mãe.
E adolescente estúpido é adolescente estúpido. Bati o pé que queria o N64.
Só que os nintendistas sabem bem que não foi exatamente uma oportunidade perdida. Em toda minha vida, nunca vi elixir mais eficaz do que o N64 pra estimular a criatividade. Jogar à exaustão títulos como Perfect Dark, Donkey Kong 64, Super Mario 64, os dois Banjo-Kazooie e os dois Zelda, só pra citar alguns, é a aula prática de como pensar fora da caixa mais eficiente que eu poderia recomendar a qualquer um.
Depois da fase musical, da fase desenhista e da fase gamer, viria a fase mais importante de todas: a fase leitor. E, pela segunda vez na vida, seria a minha irmã a me mostrar que leitura não combina com adivinhação.
Minha irmã insistia que eu lesse livros. E eu insistia em recusar. Pra mim, não fazia sentido nenhum ler livros porque eu tinha uma certeza, tão firme e imbecil como toda e qualquer certeza: ler era coisa chata, coisa de estudioso, coisa cansativa. Por meses eu e a minha irmã travamos essa batalha quando ela vinha lá de Monte Negro — onde fazia a graduação, no meio dos livros e das dificuldades financeiras — pra nos visitar aqui no Pinheiro — onde eu também, de certo modo, me graduava no meio dos conselhos das tias e dos assassinatos nas esquinas.
Um dia, minha irmã, mais uma vez, expôs a adivinhação equivocada:
— Como tu pode saber que livro é ruim? Que valor tem a tua opinião? Tu já leu um livro inteiro? Não quero mais falar contigo sobre isso. Não vou falar mais contigo sobre isso. Porque tu nunca nem leu um livro inteiro. Depois que tu ler um livro inteiro, vem me falar o que tu acha. Daí eu vou dar valor pro que tu acha.
Aquilo me pegou. A minha irmã me fazia perceber a possibilidade da transformação. Eu podia achar qualquer coisa, e a minha opinião era sincera, mas existia a possibilidade de a minha opinião ser transformada em outra através da leitura de um livro inteiro, e isso eu não podia negar com sinceridade. Pra poder negar, precisaria, de fato, ler um livro inteiro. Não existia outro jeito de tirar a história a limpo.
Por isso, peguei um livro emprestado. Besta-fera, um romance de terror sobre lobisomem.
Nunca mais parei de ler.
Tinha início, na minha vida, uma fase de intenso consumo, e de nenhuma produção. Se tinha passado vários anos compondo canções e desenhando histórias em quadrinho, agora só o que queria fazer era ler, ler, ler, ler, ler. Com o passar do tempo, fui me ausentando do campo de futebol, dos botecos e das rodas de maconheiros, onde eu e alguns amigos já começávamos a experimentar o pitico (cigarro de maconha misturada com pedras de crack esfareladas). Ninguém mais me via na rua. Passava os dias e as noites recluso, lendo. Lendo de tudo. Lendo sem parar. A minha casa, que sempre foi um dos pontos de reunião mais importantes da turma, aos poucos foi deixando de ser frequentada: meus amigos se cansaram de chegar lá e me pegar lendo alguma coisa, sem dar a menor atenção ao que eles falavam sobre o que tava acontecendo lá fora.
Me vi só. Absolutamente só. E assim permaneci por longo tempo.
Não era por achar que ler pudesse me fazer algum bem que eu lia. Lia porque tinha me viciado. Lia porque era a maior fonte de prazer que tinha descoberto na vida inteira. Lia tudo o que tinha em casa pra ler. Depois, comecei a pedir livros emprestados, sempre pra pessoas mais velhas, porque quase ninguém da minha idade saberia dizer onde se podia encontrar um livro. Ninguém da minha idade que eu conhecesse queria saber de livro. E como as opções eram limitadas e a vontade de ler era muito forte, tive que ler de tudo: li toda a coleção de Agatha Christie da minha vó, li toda a coleção de Edgar Wallace do tio de um amigo, li algumas coisas do Machado, li livros didáticos de história e geografia inteiros, li a Bíblia inteira, li, li, li, li, li. E quanto mais eu ia lendo, mais coisas eu ia aprendendo, e mais coisas eu queria aprender: de O mundo de Sofia fui parar em Apologia de Sócrates, passando por vários outros textos filosóficos, me tornando cada vez mais apaixonado pela filosofia. Depois, quando já trabalhava e podia escolher o que comprar pra ler, devorei livros sobre ciência da computação.
E, ao longo desse processo todo, desconheci o que fosse vida social. Nada do que as pessoas da minha idade tavam interessadas me interessava. Veio a época de desenvolver interesse pelas baladas: eu só queria entender física quântica. Veio a época de desenvolver interesse pelos namoros sérios: eu só queria entender orientação a objetos. Veio a época de desenvolver interesse pela posse de carros e motos: eu só queria entender marxismo. E assim foi indo. Mas já tava chegando a hora de voltar a produzir em vez de apenas consumir.
Minha mãe, com a criação pro sonho que me deu, tinha preparado o solo. E minha irmã, ao me fazer ler livros, tinha jogado a semente. Havia, agora, um escritor em gestação no terreno da minha existência particular. Escritor que não demorou muito a brotar, porque eu já não aguentava mais consumir tantas obras fascinantes sem produzir, eu mesmo, a minha própria obra escrita.
A infância e a adolescência da minha escrita foram plenas e saudáveis. A experiência que eu já tinha do aprendizado da música e do desenho me deram a paciência necessária: percebia que tudo o que escrevia tinha péssima qualidade, mas também sabia que era apenas questão de tempo pra isso mudar. Então, eu seguia escrevendo e escrevendo, sem parar, quase sem dormir, quase sem comer, horas e horas a fio. Achei que deveria me familiarizar com as ferramentas da escrita e, por isso, me pus a estudar como um louco tudo o que tivesse qualquer relação com a produção de texto, inclusive gramática, coisa que se mostrou extremamente prazerosa pra mim. Outra coisa útil dos meus aprendizados anteriores foi a consciência de que apenas entender, momentaneamente, não bastava: era necessário fundamentar. Então, pra cada conceito que eu aprendia, tratava de escrever contos e mais contos utilizando aquele conceito, pra entender melhor como se usava aquilo, pra que se usava aquilo, e os momentos onde era preferível usar aquilo e onde era preferível não usar aquilo. Depois de um tempo, comecei a gostar das coisas que eu escrevia.
Quando a minha escrita chegou à fase adulta, isto é, quando comecei a pensar que os meus textos já tinham qualidade comparável à de diversos textos que eu via publicados por aí, achei que era hora de tentar empurrar a minha escrita pro mercado de trabalho.
Acho que foi aquele filósofo de nome difícil de escrever que disse: “Leva o tempo que for necessário pra decidir o que fazer da vida, e, quando decidir, não recua ante nem um obstáculo, porque o mundo tentará te dissuadir”. Acho que ele tinha razão. Foi assim que eu senti. Levei muito tempo, e precisei experimentar bastante coisa, pra descobrir que o que eu queria fazer da vida era realmente escrever. E, de fato, o mundo parece que entrou numa espécie de tentativa fanática pra me fazer desistir. Era como se a razão de ser de cada grão de areia do universo, de cada canto de pássaro, de cada nuvem no céu, de cada dente de cada boca, era como se a razão de ser de tudo isso e de todas as outras coisas fosse unicamente me fazer desistir e me adequar ao modelo de “gente normal”. Conciliar os subempregos com a escrita foi um inferno. Aturar os amigos e familiares me ridicularizando pelas costas e pelas frentes foi ainda pior. Mas o pior mesmo, o pior de tudo, tava dentro de mim. Eram os meus demônios. Eu olhava pra frente e não via perspectiva alguma de ser chamado de “escritor” por alguém, muito menos de publicar qualquer coisa um dia. Isso era terrível. Isso me levava à beira da loucura. As madrugadas sabem o quanto derramei de lágrimas pensando nisso. Pra mim, essa coisa que chamam “vida” só fazia sentido se eu pudesse escrever. Do meu ponto de vista, a vida servia era pra isso: pra poder escrever. Era a serventia da vida. Tem coisas que a gente faz pra poder viver, mas a gente também precisa viver por algum motivo e não apenas pelo medo da morte. E eu, pra viver, vestia uniformes amarrotados e empunhava pás, mas, se vivia, era única e exclusivamente pela esperança de um dia poder ficar nu e empunhar a caneta. Eu precisava dessa esperança. E nas vezes em que duvidei, nas vezes em que não confiei em mim mesmo, nas vezes em que a fome me torturou, nas vezes em que senti a esperança minguar, nas vezes em que me senti culpado e tive ódio de mim mesmo por desejar o impossível, ninguém sabe o que sofri, e ninguém nunca vai saber. Nenhum outro sofrimento foi tão brutal e devastador.
Eu precisava de companhia. Eu precisava de carinho. Eu precisava de compreensão. E com um texto despretensioso que escrevi e postei no Facebook, acabei descobrindo, por acaso, uma legião de pessoas como eu. E não tô falando de escritores e escritoras. Pode não parecer, mas “escritor” e “escritora” são termos vagos demais. Eu tô falando de escritor e escritora que sabem o que é fome. Eu tô falando de escritor e escritora que sabem o que é desespero. Eu tô falando de escritor e escritora que sabem o que é discriminação. Eu tô falando de escritor e escritora que sabem o que é injustiça. Eu tô falando de escritor e escritora da minha laia. Eu tô falando de escritor e escritora que vivem no mundo real.
A minha escrita renasceu. E, com ela, eu também renasci.
Tinha conhecido a Silvana através da minha irmã, e conheci a Dalva através de Silvana, quando a primeira marcou a segunda no texto despretensioso que postei.
Ninguém neste planeta compreendeu a minha relação com a escrita como Dalva compreendeu. Nem mesmo eu. Por incrível que pareça, foi necessário que Dalva viesse pra dentro da minha tempestade pra me ajudar a entender o que tava acontecendo. Eu nunca teria entendido sozinho. E sou grato a Dalva por isso. Mais do que gratidão, sinto amor por Dalva. Amor. Nunca amei tanto uma pessoa, a não ser minha mãe, minha irmã e meu pai.
Depois, conheci Karine através de Dalva. E Karine moveu céus e terras pra fazer de mim um escritor publicado.
Os brancos deveriam entender que não sabem do que um preto é capaz mesmo nas circunstâncias mais desfavoráveis. E os pretos deveriam entender que as pretas são capazes de ainda mais mesmo em circunstâncias ainda mais desfavoráveis.
O que Karine fez por mim ao publicar a primeira edição do Vila Sapo pela Venas Abiertas, não poderei recompensar nunca. Não há dinheiro que eu possa dar a Karine nem favor que eu possa fazer que nos deixe quites. Mais do que me botar no mercado, mais do que fazer as pessoas me chamarem de “escritor” e tratarem o meu trabalho literário com respeito, mais do que isso, Karine me devolveu a esperança e o orgulho.
De lá pra cá, o Vila Sapo me rendeu muitas alegrias. Inesperadas alegrias. Foi lançado na Usina das Artes; teve novo lançamento no Centro Cultural da UFRGS; acumulou resenhas elogiosas; caiu no gosto de personalidades da literatura; agradou professores; despertou o interesse de crianças e adolescentes da periferia; chamou a atenção de uma pesquisadora nos Estados Unidos.
E hoje, dia 15 de fevereiro de 2020, o meu primogênito me proporciona mais uma grande alegria. Até aqui, a maior alegria de todas. Eu diria até que hoje talvez seja o dia da minha máxima consagração. Porque é o dia em que finalmente realizo o sonho de lançar o Vila Sapo aqui, no meu chão, no meio da minha gente, na própria vila Sapo. É o dia em que a minha palavra volta pra casa depois de virar notícia por aí afora, impulsionada pelos amigos e pelas pessoas que se veem representadas no que eu escrevo. Hoje é o dia em que finalmente posso prestar o meu mais profundo agradecimento ao meu povo, à minha família, à minha quebrada.
Obrigado.
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