Mas em que mundo tu vive?

José Falero · Capítulo 2 de 59

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Mas em que mundo tu vive?

Uma vitória da tua gente

 

Recém-chegado de lá do fundão da cidade, ali tá tu, a bordo do Bonsucesso, comendo a pipoca doce que tu pegou baratinho na mão dum piá que nasceu chorando, como todo o mundo, mas não no Moinhos de Vento, e sim num lugar que ensinou ele a parar de chorar bem antes do tempo. O bonde atravessa o túnel da Conceição e, aí, olhando pela janela, tu viaja no viaduto. Tu sabe: algum cara completamente diferente do teu pai ganhou uma fortuna pra calcular a quantidade exata de aço que aquele bagulho tinha que ter pro vento não acabar derrubando tudo com o passar dos dia, mas foi uma pá de cara idêntico ao teu pai que ganhou um salário de fome pra virar todo o concreto que foi usado ali. Puta obra de engenharia, tu pensa. Mas, na real, pra ti que mal e porcamente domina as quatro operação básica da aritmética, até os barraco de pau da invasão lá perto da tua casa já são tudo umas puta obra de engenharia.

Tu segue viajando no viaduto. Tu sempre viaja nele quando passa por ali. É um bom viaduto, tu pensa. Não porque cumpre o seu papel há várias década, não porque resiste firme e forte ao aumento do tráfego, não porque é ousadamente curvo. É um bom viaduto porque tu avalia como um bom lar caso a tua vida venha a degringolar. Tu pensa nas vantagem daquele viaduto: por exemplo, a maior parte das pessoa que tu conhece não vem pro Centro por ali, e sim pela João Pessoa, e isso é importante porque, se tu virar morador de rua, tu não vai querer ser visto pelas pessoa que gosta de ti, que te ama; tu prefere perder contato com elas e deixar elas pensando que tu tá bem, em algum lugar digno; tu não quer fofoca sobre a tua desgraça rolando solta lá na tua quebrada, como tu já viu acontecer.

Isso te faz lembrar daquele cara. Aquele, pai do teu bruxo, conhecido pelas bebedeira e pelas confusão. Aquele que, durante a tua infância, morou na tua vila. Aquele que pedia pra tua vó aplicar as injeção que ele tinha que tomar na bunda, e que um dia xingou a tua vó e que, por isso, tomou um rapa dum primo teu. Aquele que, quando bebia, tentava se comunicar com os outro num inglês fajuto pra fazer todo mundo dar risada. Aquele que um dia sumiu sem deixar vestígio. Aquele que anos mais tarde foi visto por alguém, numa avenida qualquer, sentado numa cadeira de roda, pedindo esmola.

Tu também lembra daquela outra figura, aquele cara que era só pouca coisa mais velho que tu e que um dia engravidou uma mina e não quis assumir o filho. Tu lembra de como o pai dele ficou puto por achar que aquilo não era atitude de homem e aí resolveu botar ele pra fora de casa. Ninguém nunca mais soube daquele malandro por bastante tempo. O primeiro da quebrada a voltar a ver ele foi tu, tu mesmo! Tu lembra muito bem como aconteceu: tu era pião de obra e foi trabalhar na construção dum prédio de sete andar ali no Jardim Botânico, perto do shopping. Nos primeiros dia, tudo o que tinha pra fazer era demolir uma casa abandonada. Foi foda demolir aquela casa porque tu sabia que uma pá de morador de rua tinha ido morar ali, e tu tinha chegado pra destruir a casa deles, pra construir no lugar um prédio de sete andar onde só ia morar gente que não tinha problema algum em arranjar moradia em qualquer outro canto da cidade e, pra piorar tudo, um dos cara que tu deixou sem casa era justamente aquele malandro lá da tua quebrada, aquele que o pai tinha expulsado.

Tu sente vontade de chorar. Tem uma pressão fodida dentro da tua cabeça amassando as tuas ideia. Tu sente vontade de gritar, ali mesmo, naquele instante, dentro do bonde. Tu pensa que vai ficar louco, até. Mas tu é igualzinho o piá que te vendeu a pipoca doce, então tu já sabe, tu aprendeu bem cedo como se faz pra não chorar.

Tu tenta esquecer esses barato e segue viajando no viaduto. Outra vantagem dele é que ele fica ali, naquela região central, onde é mais fácil ganhar alguma esmola, onde é mais difícil um playboy filho da puta querer te pegar dormindo e te espancar ou botar fogo em ti. O único problema que mais cedo ou mais tarde tu vai enfrentar se um dia tu morar embaixo daquele viaduto é a inevitável higienização daquela região. Tu se pergunta: quanto tempo será que ainda vai levar até a prefeitura chamar os porco e varrer todo mundo dali, como fez na Borges?

Porra, por que tu pensa nessas coisa, afinal? Será que todo mundo sai por aí olhando os viaduto da cidade e considerando a possibilidade de um dia morar embaixo deles, pensando nas vantagem e desvantagem de morar embaixo dum ou embaixo doutro? Bom, tu sabe. Tu formula a pergunta e na mesma hora lembra da resposta. Esses cara tudo que tá morando na rua não é tão diferente assim de ti. Né? É uma realidade próxima da tua realidade, colada na tua realidade. Um passo em falso e tu vai parar lá. Um dia que Deus teja de mau humor e tu vai parar lá. Tu sabe. Tu conheceu vários cabeça que mais tarde acabou indo parar na rua, e também tem os morador de rua que tu só conheceu depois, quando eles já morava na rua.

Como aquele senhor de idade, lembra? Tu pechava com ele no caminho de volta do teu trampo toda santa noite e vocês sempre tomava um latão junto, trocando uma ideia. Ele era moderado: só tomava um. Nunca aceitava o segundo quando tu convidava pra tomar mais. Às vez, tu tomava dois, três, quatro; ele sempre tomava só um e dizia que tava satisfeito. Hoje tu sente saudade dele e se pergunta como ele deve tá. Tu gostava das história que ele te contava. Tu gostava muito. Uma vez ele te contou que, quando era jovem e morava na Lomba do Pinheiro, ajudou a construir alguns dos prédio do Campus Vale da UFRGS. Lembra do que tu sentiu quando ele te falou aquilo? Foi um soco na boca do teu estômago. Tu quer fazer letras na UFRGS um dia, não quer? Mas a verdade é que tu conhece mais morador de rua igual a ti do que gente formada em letras igual a ti. A verdade é que tu mora no mesmo bairro que aquele senhor já tinha morado um dia e tu já foi peão de obra exatamente como ele já tinha sido um dia e tu inclusive já trabalhou na construção dum galpão no Campus Vale também. E foi assim, naquela noite, ouvindo aquela história, que tu sentiu surgir dentro de ti esse medo que não te deixa em paz até hoje, essa tristeza que nunca mais foi embora, essa revolta eterna. Naquela noite, aos vinte e poucos anos, tu nasceu.

Hoje tá mais foda que o normal. A princípio, tu tinha planejado dar a volta no Centro e descer lá no Parobé, mas vai ser impossível. Se tu descer lá, vai tá perto demais da Escola Porto Alegre, que é onde tu tá indo, e assim não vai dar tempo de beber nada, e tu precisa tomar pelo menos um latão. É o calor? É a saudade da ignorância absoluta? É o medo do futuro? Ou será que tu é um alcoólatra? Não importa. Tu não quer ficar pensando nas possível explicação pra tua vontade de beber. Tudo o que tu quer é tomar pelo menos um latão, e é por isso que tu desce no Centro, no fim da linha do bonde, pra ir a pé dali até a Escola Porto Alegre, pra dar tempo de beber.

Tu fica feliz de já ter acertado a terapia. Talvez seja importante discutir com a psicóloga a tua relação com a bebida.

Já empinando o teu gelo, tu dá um bico na multidão do Centro e mais uma vez se assusta com a percepção de que ninguém tá nem aí pra porra nenhuma. Nem mesmo tu, com todo esse teu sofrimento que até pode ser sincero, mas que de qualquer forma não te leva a fazer nada, não te bota em movimento nenhum, não é útil pra ninguém. Tu tá indo na Escola Porto Alegre, e depois tu quer escrever uma crônica sobre este dia, mas e daí? Tu te sente ridículo, porque o que tu escreve não muda a vida de ninguém, nem mesmo a tua própria.

Como é que tudo pode ser assim? Tu lembra daquilo que tu pensou, uma vez, sobre um acidente de avião imaginário. Tu imaginou um avião caindo bem no meio do Mercado Público, e tu ficou pensando que ninguém ia conseguir passar por ali com indiferença, fingindo que nada de mais tava acontecendo. Ninguém. Todo mundo ia tentar ajudar como pudesse ou, no mínimo, ia parar pra ficar olhando o fogo e a destruição, com espanto e tristeza. E tu acha que tinha que ser justamente esse o comportamento das pessoa por causa da tragédia de existir gente morando na rua. O trânsito devia parar, tinha que chamar toda a polícia, tinha que chamar os bombeiro, tinha que chamar as ambulância tudo, tinha que chamar prefeito, governador, presidente, tinha que pedir ajuda internacional, tinha que acionar a ONU, tinha que arranjar dinheiro, milhões e milhões, o que fosse necessário, tinha que acabar com o problema o mais rápido possível!

Mas a preocupação com os morador de rua não é desse tamanho. A preocupação com os morador de rua se mede pelo fato de eles continuar a morar na rua.

Tu fica feliz de já ter acertado a terapia. Tu não entende lhufas de como funciona uma terapia, tu não faz ideia de como a psicóloga vai trabalhar, mas, por causa do que tu viu nos filme, tu imagina que em algum momento ela vai te aconselhar a não ser tão duro contigo mesmo. E essa te parece uma boa ideia, inclusive. Não seja tão duro contigo mesmo, tu pensa, respirando fundo e olhando pro céu. É o conselho que tu acha que um dia vai vir da psicóloga, mas que tu já precisa dele hoje, e que por isso tu te antecipa e dá ele pra ti mesmo hoje. Não seja tão duro contigo mesmo. E nem com os outros, tu acrescenta. Afinal, tem um monte de gente se esforçando, ajudando como pode. Tem gente trabalhando todo santo dia pra pelo menos tornar o mundo menos terrível, pra pelo menos possibilitar um pingo de dignidade e de alegria a alguém. Gente como o pessoal da própria Escola Porto Alegre, onde tu acaba de chegar.

E pronto: ali tá tu, prestes a assistir à formatura no Ensino Fundamental de vários aluno e aluna em situação de vulnerabilidade social, a maioria deles adulto morador de rua. Olha eles feliz. Olha eles contente. Fica feliz e contente com eles. Comemora com eles. Experimenta o mesmo orgulho que eles tão sentindo. Por enquanto, esquece todos os motivo que tu tem pra reclamar da vida e agradece por este momento.

É uma vitória da tua gente.

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