Mas em que mundo tu vive?
Entre as tripas e a razão
Preta,
Tu lembra da entrevista do Mujica pro Bial? Acho que foi tu que me falou dela, não? E, inclusive, agora me ocorre que boa parte das coisas interessantes que eu conheço, se não todas elas, foi tu quem trouxe pra minha vida.
O Mujica disse algo como: “Às vezes a gente toma uma decisão com as tripas e, depois, usa a razão para justificá-la”. Quando eu vi ele dizendo isso, percebi na hora que essa ideia descreve muito bem o que penso a respeito dos pais e das mães que espancam os filhos. Esses pais e mães têm um discurso pronto: “Se eu não bater, a criança vai crescer achando que pode tudo”. Bom, é claro que esse argumento nunca me convenceu. Mas, à luz do que disse o Mujica, parece muito claro o que acontece. Porque, vem cá, tu já viu a cara dos pais e das mães quando estão espancando os filhos? Existe apenas raiva na cara deles. Sempre estão descontrolados, fora de si quando fazem isso. E eu não consigo imaginar que, nesse estado de espírito de besta, eles estejam realmente fazendo uso da razão e pensando: “Se eu não bater, a criança vai crescer achando que pode tudo”. Duvido! Batem só de raiva. A criança aprontou alguma — afinal, é o que as crianças fazem, não? —, e esses pais e essas mães, sem o menor preparo para serem pais e mães, perdem o controle e partem para a agressão. Me parece pura incapacidade de refrear os instintos. É uma decisão tomada com as tripas. Então, mais tarde, quando alguém reprova o espancamento, só aí é que os pais e as mães, já de cabeça fria, usam a razão pra tentar justificar o que fizeram. Enfim.
Penso muito na necessidade de me policiar pra tentar evitar atitudes imbecis. E isso que o Mujica disse pro Bial me deixou em estado de alerta, sabe? Fiquei pensando: será que eu também tomo certas decisões com as tripas pra depois tentar justificar com a razão? Provavelmente, sim.
Tô te escrevendo isto pra tentar justificar o bendito celular quebrado em mil pedaços. Mas, mal comecei a escrever e uma sirene de alerta soou dentro da minha cabeça: será que, neste exato momento, tô usando a razão pra tentar justificar uma decisão tomada com as tripas? Bom, eu não sei. Realmente, não sei. De qualquer forma, aqui vai a justificativa que eu elaborei, e que é absolutamente sincera (eu sinto mesmo as coisas como vou explicar agora, mas reconheço a possibilidade de todo este meu discurso ser só uma manobra inconsciente pra não admitir que, na verdade, apenas fui estúpido).
Sabe, as condições de funcionamento daquele celular estavam estragando os meus dias. Meus dias vinham sendo todos mais ou menos parecidos: eu acordava bem, disposto, agradecido por mais um dia de existência. Mas tudo isso já começava a mudar quando pegava o celular pra dar uma olhada no Facebook. Depois de checar as notificações, começava a rolar o feed. E o celular parecia que adivinhava: assim que eu batia os olhos em um post legal e me preparava pra curtir, ou comentar, ou clicar no “ver mais”, adivinha o que acontecia? O celular desligava. E isso na mesma hora já fazia o meu estômago se encher de um sentimento ruim. Raiva. Imediatamente, eu me lembrava que o simples direito de usar um celular em paz não me pertencia, e que eu não tinha dinheiro pra sair dessa situação, e que talvez nunca viesse a ter dinheiro pra sair dessa situação… Uma série de pensamentos amargos começavam a ser produzidos dentro da minha cabeça.
Bom, geralmente eu respirava fundo e pensava assim: “Não vou perder a paciência. Calma. Não posso deixar que isso estrague o meu humor”. Fiquei bom nesse exercício, sabia? Aprendi a colocar freio na minha raiva. Só que vou te contar uma coisa: conseguir domar a raiva dessa maneira, no fim das contas, é a mesma coisa que conseguir esquecer, conseguir deixar pra lá. Ou seja, em dois minutos já não estava mais pensando nessa situação de bosta e, por isso, conseguia ficar em paz. O problema é que, assim, tornava a me esquecer completamente do problema do celular.
Então, depois de um tempão tentando fazer o bichinho ligar novamente, ele liga. E decido deixar o Facebook pra depois: quero dar “bom-dia” pra ti no zap. É um ritual que considero importante. E, além de considerar um ritual importante, quero o afeto que tu me dá, quero também te dar afeto, quero produzir conhecimento contigo, quero te chamar pra gente botar logo a nossa máquina de amor a funcionar. E bem na hora de digitar o “b”, de “bom-dia”, o que acontece? O celular desliga sozinho de novo.
Nesse segundo apagão, a raiva dentro de mim já vem com mais força. Já dou um tapa na perna. Já faço a casa tremer com um grito: “Mas que porra!”. E, agora, é mais difícil conter a raiva. Preciso dedicar mais energia e tempo no exercício de tentar ficar em paz. Geralmente, consigo também nesse segundo apagão.
Mais alguns minutos tentando fazer o celular reiniciar. Já passou meia hora desde que acordei e o que consegui fazer da vida? Quase interagi num post de Facebook e quase te dei “bom-dia” no zap.
O celular finalmente liga. Vou direto no zap. Clico no rosto da mulher mais linda do mundo. Digito “bom dia”. Envio. Está indo… foi! Alguns segundos depois, aparece escrito que tu entrou on-line. Mais alguns segundos. O meu “bom-dia” foi visualizado. Agora aparece escrito que tu tá digitando. E então, adivinha o que acontece? O celular morre.
Geralmente sinto primeiro a vibração do celular na mão antes mesmo de ter tempo de perceber que a tela mais uma vez se apaga. E nesse pequeno instante, durante uma pequena fração de segundo, fico desconcertado, sabia? Eu penso: “Ué?”. Mas, logo em seguida, entendo: “Ah, sim, de novo!”.
Já é a terceira vez, a raiva vem ainda mais forte, mais tempo se passou. E assim vai indo. Chega um ponto que já não é mais possível pra mim controlar a raiva. Atiro o celular na cama. Vou lavar o rosto. O cachorro late lá fora. Eu lato de volta: “Cala essa boca, cachorro dos infernos!”. Pronto. O meu dia já está irremediavelmente estragado.
Entende o que eu tô querendo te dizer? Ficar sem falar contigo é um inferno, Preta. Mas, olha, toda vez que, pelo hábito, penso em olhar o Facebook ou em te dar um “oi” no zap e me lembro que já não tenho mais celular, que já não há alternativa a tentar, que não existe forma de fazer funcionar o aparelho que quebrei em mil pedaços, que não há dinheiro pra comprar um aparelho novo, que os meus primos não estão em casa e, portanto, não posso ir lá pedir pra usar o computador deles por uns instantes, francamente, dou graças às deusas. Repito: ficar sem falar contigo é um inferno. Mas não me escapa que, por outro lado, estou livre de dois outros infernos: o inferno de passar raiva e o inferno de perder tempo com um celular que funcionava quando queria. Tô livre pra esquecer um pouco o quanto sou fodido, pra respirar sem fazer barulho, pra tentar escrever alguma coisa, pra trocar uma ideia com a minha mãe, pra ir conversar afetuosamente com o cachorro que fica latindo o tempo todo. Eu apareço na porta e digo assim pra ele: “Psiu! Que é isso? Tá brabão? Que fofo, tu brabão, rapaz!”.
Enfim. É isso, Preta. Sinto muito a tua falta. Mas não sinto falta nenhuma do celular. Estou arrependido de ter quebrado o nosso meio de comunicação, mas não tô arrependido de ter quebrado aquela fonte de raiva e perda de tempo. É isso.
Quer dizer: talvez não seja isso. Pode ser que eu esteja só usando a razão pra tentar justificar uma atitude tomada com as tripas. De qualquer forma, aqui, bem aqui, no meio do caminho entre as tripas e a razão, aqui tem um coração e, sabe, ele anda faceiro, fazendo festa toda vez que penso em ti.
Com amor e saudade,
Preto.
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