Mas em que mundo tu vive?
Anseio e glória
Dê-me a mão.
Meu coração pode
mover o mundo
com uma pulsação…
Eu tenho dentro em
mim anseio e glória
que roubaram a
meus pais.
Oswaldo de
Camargo
Há um lugar conhecido por muitos e desconhecido por outros tantos, onde a realidade se desenvolveu de maneira muito diferente da nossa. Para início de conversa, lá, naquele lugar, as divindades não são mera questão de fé: constam nos mais confiáveis registros históricos, e nem mesmo seria possível enumerar as evidências de sua real existência, espalhadas por todo o planeta. Condição invejável, a do povo de lá: ao contrário de nós, eles não precisam lidar com a problemática de tentar descobrir quais religiões são verdadeiras (se é que alguma é verdadeira) e quais não passam de filosofias baratas, fadadas a se tornarem mitologias mais cedo ou mais tarde. Não. Eles não carregam esse peso por lá. Eles simplesmente desconhecem esse nosso medo, esse nosso pavor de eventualmente precisarmos admitir que todas as civilizações de que temos notícia, entre as dizimadas e as dizimantes, todas foram alicerçadas em fantasias insustentáveis. Lá, todos sabem muito bem, todos se lembram muito como foi que tudo começou: a deusa da coragem, a deusa da sabedoria e a deusa do poder criaram tudo e todos.
Nas profundezas dos rios e dos oceanos, peixes evoluíram, adquiriram consciência, aprenderam a falar e fundaram suas próprias civilizações; desenvolveram a capacidade de sobreviver tanto submersos na água, onde nadam a velocidades altíssimas, como em terra firme, onde caminham sobre duas pernas. No alto das montanhas, porções de matéria antes inanimadas foram agraciadas com o sopro da vida e também evoluíram, adquiriram consciência, aprenderam a falar, fundaram suas próprias civilizações, se tornaram bípedes, dominaram a arte do sumô e desenvolveram uma “personalidade” coletiva um tanto orgulhosa, turrona, dura como o seu corpo, literalmente feito de pedra. No recôndito das florestas, uma espécie curiosa de seres igualmente pensantes, falantes, civilizados e bípedes: criaturas pequeninas, que jamais crescem, que são crianças para todo o sempre, que possuem cada qual uma fada guardiã e que acreditam piamente que irão morrer caso ousem abandonar as suas civilizações ocultas, construídas em meio à paz das árvores e dos arbustos. Isso sem falar na raça de seres também pensantes, falantes, civilizados e bípedes que construíram suas civilizações nos desertos: são criaturas muito majoritariamente femininas, porque entre elas nasce apenas um macho a cada cem anos. Na verdade, há, naquele lugar, muito mais tipos de seres, entre racionais e irracionais, humanoides e não humanoides, vivos e mortos (fantasmas existem de verdade por lá); e há, também, uma série de peculiaridades, como a possibilidade de viajar no tempo ou no espaço tocando-se determinadas músicas em determinados instrumentos, a existência de máscaras mágicas que permitem (entre outras coisas) que um tipo de ser se transforme em outro, e por aí vai.
Estou falando do mundo de The Legend of Zelda, uma série de jogos eletrônicos da Nintendo.
Passei toda a minha adolescência, e também o início da vida adulta, imerso nesse universo de ficção especulativa cujas histórias, diga-se de passagem, nada deixam a desejar a bons filmes, boas séries e até mesmo bons livros. Mas hoje, quando paro para pensar no enorme fascínio que tive pelo TLOZ, os grandes enredos, os grandes objetivos dos personagens, as grandes aventuras, os grandes mistérios, nada disso me parece o suficiente para explicar a forma implacável com que o jogo me seduziu. Na verdade, o que eu suspeito, com boa dose de convicção, é que o que me atraía mesmo no TLOZ era justamente o fato de que eu não tinha qualquer perspectiva de que a minha própria vida pudesse se mostrar tão interessante quanto a vida dos protagonistas do jogo, ou minimamente interessante que fosse. Em outras palavras, a minha imersão fanática no universo de TLOZ era, como a minha irmã sempre me disse, uma fuga da realidade.
Por aquela época, inclusive, eu e minha irmã travávamos uma batalha: ela, sempre que podia, dedicava todas as suas energias no intuito de me arrancar daquele mundo de faz de conta e eu, ao contrário, dedicava todas as minhas energias tentando introduzi-la nele. Bem, verdade seja dita, eu tentava introduzir todo mundo: não havia quem eu conhecesse que eu não tentasse tragar para dentro do universo de TLOZ. Porque eu achava belíssimo. E, como já disse o poeta, a gente não dá conta de ver o que é belo sozinho; a gente precisa convidar mais gente para nos ajudar a olhar.
Foi com esse espírito evangelizador que, na última visita que pude fazer aos meus parentes de Pelotas, levei na mala o inseparável Nintendo 64 e o sagrado cartucho de The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Eu só não contava com um pequeno detalhe: aqui, na capital gaúcha, a voltagem padrão é de 110v, enquanto em Pelotas, de 220v; e a caixinha de alimentação do meu aparelho não era bivolt.
Seguiram-se dias durante os quais aproveitar a deliciosa praia do Laranjal me parecia um prêmio de consolação insuficiente, tamanha era a frustração de não poder mostrar o TLOZ como eu tinha planejado. Mas, de qualquer forma, mesmo sem poder ligar o meu Nintendo 64 para demonstrar como o sol de Hyrule Field brilhava tão forte quanto o sol do Balneário dos Prazeres, mesmo assim arranjei um jeito de encher o saco de todo mundo: no sofá da sala ou na areia da praia, na hora do café da manhã ou na hora da janta, em todos os lugares, em todos os momentos, era só das maravilhas de TLOZ que eu falava.
Desnecessário dizer que a finada tia Íris, a finada vó Helena, as primas Isabel e Juliana e o tio Barriga não ficavam lá muito empolgados. A exceção foi o Lucas, menino um pouco mais novo do que eu que, embora não fosse da família, estava passando as férias por ali: os olhos dele brilhavam toda vez que eu falava sobre as batalhas contra monstros gigantescos, sobre as aventuras em labirintos perigosos, sobre as viagens no tempo. E foi dele a ideia que me salvou da frustração absoluta: podíamos comprar um transformador 220v/110v.
Lá fomos nós dois nos despencarmos do Laranjal para o Centro de Pelotas em busca do tal transformador: o artefato mágico que havia de dar vida a todas as coisas das quais eu tanto falava desde que tinha chegado. O que eu não sabia, claro, era que aquela nossa minúscula aventura no interior do Rio Grande do Sul estava prestes a provocar em mim um lampejo de lucidez tão potente que nunca mais, depois daquilo, eu conseguiria ser indiferente ao mundo real; tão potente que a imersão no faz de conta de TLOZ já não faria mais tanto sentido assim.
O Lucas morava ali mesmo, no Centro de Pelotas, e, depois de comprarmos o transformador, decidimos dar um pulinho na casa dele. Ele me apresentou à sua mãe, dona Neiva, que nos serviu bolo e café. Conversa vai, conversa vem, ela me perguntou:
— Então tu és neto da Helena?
— Isso mesmo, sou, sim.
— Mas tu és filho de quem? Do Barriga? És irmão da Isabel e da Juliana?
— Não. Sou primo delas e sobrinho do tio Barriga. O meu pai já morreu. Ele era irmão do tio Barriga. O nome dele era José.
Não tenho, agora, e penso que nunca vou ter, palavras para descrever a emoção que tomou conta daquela mulher quando falei do meu pai. Os olhos dela se encheram d'água imediatamente. Cheguei a pensar que ela estivesse passando mal, fiquei assustado. E só depois de algum tempo foi que ela conseguiu falar de novo e explicar tudo. Ela tinha sido amiga de infância do meu pai. Eles tinham se criado juntos. Tinham crescido juntos. Tinham vivido milhões de coisas juntos, e ela até contou algumas histórias. Depois, o meu pai tinha se casado, tinha ido embora de Pelotas, e nunca mais ela tinha ouvido falar dele.
Pode parecer estranho isto que vou dizer agora, mas, naquele dia, precisamente naquele dia, eu descobri que o meu pai tinha sido uma pessoa real. Uma pessoa que tinha tido infância, que tinha tido amigos. Uma pessoa que tinha tido sonhos, que tinha tido alegrias, que tinha tido frustrações. Uma pessoa que certamente levava algo na mente e no coração quando partiu de Pelotas e veio morar em Porto Alegre. E eu fiquei tentando me colocar no lugar do meu pai. E senti — senti de verdade, não foi só imaginação —, senti todo o medo que ele sentiu ao encarar aquela mudança, senti toda a tristeza que ele sentiu de ter que abandonar tudo para fugir da miséria. Senti. Naquele momento, eu era o meu próprio pai.
Depois daquilo, nunca mais pude ficar em paz sem considerar a existência de todos os que vieram antes de mim. Minha mãe, minhas tias, meus tios, minhas avós, meus avôs, minhas bisavós, meus bisavôs. Todos. São todos pessoas reais, e ainda estão todos vivos, estão vivos dentro de mim, gritando pela minha garganta, chorando pelos meus olhos, sorrindo pela minha boca. Sinto uma saudade quase insuportável de todos, inclusive daqueles que foram parar em Pelotas muito antes de eu nascer, aqueles que conheceram o lugar que negro nenhum queria conhecer, aqueles que foram enviados para as cruéis charqueadas de Pelotas por castigo, aqueles que não resistiram ao frio e à fome, aqueles que foram torturados e estuprados e assassinados e humilhados de todas as formas imagináveis, aqueles aos quais foram negados os direitos de sonhar e de ser feliz e de viver em paz, aqueles que nadaram na praia do Laranjal tendo que puxar uma corda pela boca e, assim, trazendo de arrasto um barquinho, chamado pelota, no qual eram carregados os homens brancos e as mulheres brancas.
Sinto saudade de toda essa gente porque eu sou toda essa gente. Eu sou o negro que morreu na mão dos brancos, mas eu sou também o negro que os brancos não conseguiram matar. Eu sou o portador de toda a revolta e de toda a tristeza, mas também carrego dentro de mim a certeza de que dias melhores virão, e de que poderemos finalmente experimentar a liberdade e a paz todos juntos, eu e o meu povo, eu e os que vieram antes, eu e os que virão depois, todos existindo para sempre uns nos outros. Eu não preciso de TLOZ . O que eu e o meu povo somos juntos me basta. Eu e o meu povo somos heróis, somos sobreviventes do plano de extermínio em prática contra nós há séculos, somos os lendários homens e as lendárias mulheres que apesar de tudo não enlouqueceram, que apesar de tudo deram um jeito de alimentar as suas crianças. A grande aventura é a minha aventura e a aventura do meu povo, a grande história é a minha história e a história do meu povo, o grande objetivo é o meu objetivo e o objetivo do meu povo. E, a exemplo de Exu, que matou um pássaro ontem com a pedra que arremessou hoje, assim também nós, eu e o meu povo, reinauguraremos o nosso passado, impediremos a tempo todo o mal que já nos foi feito, e seremos livres e felizes, não apenas no amanhã, não apenas no hoje, mas também no ontem.
Sempre.
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