Mas em que mundo tu vive?
Gre-Gre para dizer Gregório
Como qualquer criatura apreciadora de oxigênio, também eu já tive verdadeiro horror a fumaças e fumantes, claro. Houve tempos, inclusive, nos quais minha mãe, coitada, não podia sequer acender um cigarro às escondidas na boca do fogão enquanto cozinhava porque, mesmo com a bunda no quarto e a cabeça ainda mais longe, eu precisava de apenas dois ou três segundos para sentir o cheiro e, ato contínuo, escancarar a boca.
— Pô, mãe, vai empestear a casa toda, mesmo? Fuma lá fora!
Devo observar que, em comparação a todas as mães num raio de muitos quilômetros, a minha me tratava com notável paciência apesar das línguas empenhadas em incitá-la contra mim, que não eram poucas. Frases venenosas como “Ah, se fosse meu filho!” ou “Isso é falta de laço!” conheciam muito bem o rumo dos ouvidos de minha mãe; melhor até do que os piores mosquitos das piores noites de verão. Mas, em defesa dos que orbitavam nossa relação com a boca cheia de maus conselhos, digo que, a exemplo de outros costumes terríveis, também a pedagogia da surra há de encontrar explicação nas configurações sociais. Para mim, não são surpresas o império da cinta e a taxa de uma criança espancada por metro quadrado onde tudo é estresse, onde não há descanso, onde não há lazer, onde não há paz; surpreende-me — isto, sim — a enorme tolerância que minha mãe foi capaz de cultivar em tão adverso ambiente.
Tudo, porém, tem limite. Filho drogado, por exemplo, é algo que minha mãe jamais se mostrou disposta a aturar. Nem de longe saborosas, nossas conversas a respeito de drogas seguiam sempre, e a rigor, uma mesmíssima receita: iniciavam ralas, logo após assistirmos a alguma reportagem sobre o assunto na televisão; engrossavam aos poucos, conforme íamos discordando e interrompendo um ao outro; atingiam o ponto em que eu fazia uso de todas as minhas reservas de coragem para murmurar timidamente que maconha não chegava a ser um bicho de sete cabeças; e ficavam prontas quando minha mãe punha as mãos na cintura para dizer:
— Junior, Junior, Junior! Ai, ai, ai! Se tu for fumar essas porcarias, cuida pra eu nunca sentir o cheiro delas em ti. Porque se eu sentir, não tem Gre-Gre pra dizer Gregório: te faço sair desta casa pela janela.
Nunca a decepcionei. Isto é: sempre tomei todas as precauções para que ela não sentisse o cheiro de maconha em mim. Contudo, alto lá! Antes de correr a execrar-me, reflita o leitor que, conforme dito, tudo tem limite, e a isso não havia de compor exceção a obediência de um adolescente, muito menos seu apreço por oxigênio. Àquela altura, portanto, confesso que já encontrara — e transpusera — o limite de ambas as coisas, tendo me bastado, para tanto, uma explicação clandestina, sussurrada nos corredores da escola à hora do recreio: o efeito da maconha assemelhava-se ao do vinho, tirando a parte do enjoo e da ressaca.
Não vem ao caso minha descoberta de que, na verdade, era muito melhor. O que convém contar é que quanto mais passava o tempo, tanto maior tornava-se minha preguiça de empreender esforços para esconder de minha mãe o novo hábito. Então, uma tarde, farto de bater coxas para ocultar-me em matagais distantes, decidi fazer como todo mundo e, cercado de amigos, acendi a paz pertinho de casa, no fundo daquilo que, por alguma razão, chamavam de “praça”. Ocorre, porém — e isto não há quem me tire da cabeça —, que a habilidade de pecar debaixo de um nariz sem que um olho repare é talento inadquirível, com o qual se precisa nascer. E posto que não tivera eu tamanha sorte, já aquela primeira ousadia expôs-me ao mais indesejado flagrante.
Contudo, não devo me queixar do acaso, uma vez que teve ao menos a gentileza de livrar-me do vexame em público. À distância, mas com os próprios olhos, minha mãe vira, sim, o filho a soltar fumaça tal qual chaminé; se aproximava, entretanto, o ônibus, e, em favor do embarque, ela guardou para depois a bronca e o que mais fosse cabível.
Que eu me lembrasse, as horas, os minutos e os segundos entre a ida de minha mãe ao trabalho e seu retorno ao lar nunca haviam transcorrido tão tensas. E tampouco podia eu recordar de qualquer ocasião anterior em que meu espírito tivesse apresentado tanta disposição aos afazeres domésticos. Lavei louça. Varri chão. Dobrei roupa. Não que nutrisse esperança de, com isso, escapar ao castigo; muito mais modesto, meu objetivo era abrandá-lo, ainda que minimamente: já me daria por satisfeitíssimo caso houvesse Gre-Gre para dizer Gregório.
Tão fã das alegorias chinesas como das alegorias atribuídas aos chineses, aprendi com uma delas que a sorte pode parecer azar e o azar pode parecer sorte. Foi exatamente o que aconteceu. Ao chegar em casa, minha mãe lançou-me de pronto um olhar grave, mas não punha fogo pelas ventas.
— Vem cá. Vamos conversar.
Eis que, para minha alegria imediata, tudo terminava em sermão. Desde o início, no entanto, perturbava-me o pressentimento de algum mal-entendido por trás da inesperada brandura. E não demorei a decifrá-lo por completo: minha mãe, entendi ao longo da reprimenda, pensava que tinha me visto fumando cigarro, e não maconha.
Teve início, então, um de meus infernos particulares. Embora detestasse cigarro com todas as minhas forças, passei a comprá-los e a fumá-los na presença de minha mãe como forma de sustentar o mal-entendido que salvara minha pele. E seria cômico, se não fosse trágico, o fato de que, passado algum tempo, parei de fumar maconha sem qualquer dificuldade, mas vi meu vício pelo cigarro aumentar de tal maneira que hoje me parece impossível largá-lo. O desespero tornou-se meu companheiro para todas as horas: não há nada que eu faça sem ter vontade de fumar, nem há cigarro que eu fume sem ter vontade de chorar. Não há noite em que eu vá dormir sem prometer a mim mesmo que a bagana recém-espremida no cinzeiro terá sido a última, nem há manhã em que eu desperte sem precipitar-me a quebrar a promessa. E, às vezes, quando me dói o pulmão e me assalta o medo de enfisema, ou quando me dói a cabeça e me assalta o medo de AVC, não posso deixar de pensar que teria sido infinitamente melhor abrir o jogo com minha mãe, mesmo que isso tivesse me rendido a maior surra da história.
Antes não tivesse havido Gre-Gre para dizer Gregório.
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