Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 11 de 33

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Menores em tempo de maioridade

III. Representação do ex-interno sobre o internato

III. Representação do ex-interno sobre

o internato

 

1. Interpretação positiva do internato

Os ex-internos valorizam sua passagem pelo internato, sobretudo, quando consideram que foi importante ter um local que os acolhesse, uma vez que seus pais passavam por dificuldades financeiras, ou por serem órfãos. Ter moradia, roupa e alimentação é considerado importante para que não ficassem perdidos pela rua e virassem” marginal”. A enorme gratidão e a representação da FUNABEM como sua família está especialmente referida a estes aspectos.

Sempre que os ex-internos falam do internato como tendo lhes oferecido “coisas boas” se referem particularmente ao estudo, lazer e brincadeiras com colegas. A possibilidade do lazer – jogar bola, tomar banho de piscina, ver filme, ir ao Maracanã e outros passeios – é a referência mais clara que positivisa a passagem pelo internato, uma vez assegurado a alimentação, casa e roupa. As recordações de brincadeiras entre colegas, traquinagens, e “escamar”, para viver pequenas aventuras, são sempre referências positivas que se revelam, sobretudo, quando o entrevistador pergunta a respeito. A oferta de lazer e a brincadeira são situações consideradas típicas da experiência de internato em contraposição com a vida dos pais na qual estas situações são consideradas impossíveis.

O estudo e o ensino profissionalizante são valorizados por todos. São, entretanto, alvos de inúmeras críticas, salvo por aqueles que tiveram a experiência de passar por uma escola modelo da FUNABEM. Estas escolas são percebidas como oferecendo uma qualidade de ensino semelhante às de crianças de “classe rica”. Em consonância com a fala sobre o estudo, essas pessoas tiveram aparentemente uma maior facilidade de trabalho e se encontram empregadas no momento. Entretanto, o que se observa é que entre os entrevistados são raros aqueles que trabalham em profissões aprendidas no ensino profissionalizante. A especialização em artes gráficas parece ser a que mais favorece o emprego. Apesar do ensino escolar e profissionalizante serem considerados “fracos” ou inadequados, podemos considerar que é um dos aspectos valorizados da vida no internato, mesmo que seja evidente que, uma vez desligados, a baixa escolaridade e/ou formação profissional precária não lhes favorece a entrada no mercado do trabalho.

O internato também é visto como o lugar de vida boa, de “mordomias” e “regalias”. Isto se refere, sobretudo, à qualidade de vida material que desfrutam. Há também uma idealização da escola – em particular da escola modelo – onde a uniformidade da instituição total é percebida como lugar de igualdade – “todos são iguais perante a lei”. Neste sentido a vida aqui fora é percebida como “uma selva”, como o reino da diferença e da desigualdade.

Lá dentro do colégio é tudo igual, entendeu? (Chora) (...) A

gente fica doida para sair, mas quando a gente sai, vai

compreendendo mais e aí a gente vê que aqui fora é horrível. É

uma selva mesmo! – Só tem bicho querendo comer a gente e lá

não é nada disso. Lá todo mundo é igual, sabe? É bom por

causa disso. Todo mundo é igual. (Maria, 31 anos).

O afastamento da família “desestruturada”, “alcoólatra” e que passa por enormes dificuldades financeiras também positivisa o internato. Internas não tiveram que conviver com esta realidade e puderam, inclusive, encaminhar suas vidas de forma diferente da de suas mães. Esta representação se refere especialmente às mulheres que tiveram a oportunidade de permanecerem num mesmo internato durante todo o tempo, estudar em escola pública, se profissionalizarem e logo conseguirem emprego após o desligamento.

Um outro aspecto positivo da experiência de internação se refere às orientações, conselhos, atenção e carinho recebidos de um funcionário que ficou seu amigo, ou como muita das vezes denominam” seu padrinho”. Ter um “padrinho” parece transformar toda a experiência da vida nas Escolas da FUNABEM. Esses, como também aqueles que mantinham um apoio familiar, são os que nos parecem poder situar e organizar melhor sua experiência de vida no internato. Eles conseguem ter mais discernimento sobre seus sentimentos contraditórios em relação ao internato.

O aprendizado da disciplina também é valorizado como que facilitando sua vida na sociedade. Esses tendem a fazer esta positivação após o desligamento, como tendo ajudado-os a passar de “criança” a “adulto”.

– Olha. A gente apanhava muito, sabe. A gente tinha um

castigo severo. Tinha uma coisa assim chamada é ... Eles eram

muito severo, muito ... Hoje já não tem mais disciplina. Em vista

do que era antigamente. Acordava cinco horas da manhã prá

sete horas poder estudar. Entendeu? Então, era a maior

dificuldade, a maior barra. Fora de série. Eu apanhava muito.

Eu também era muito arteiro, muito bagunceiro. Não só eu

como os 450 alunos que tinha lá dentro dessa unidade.

– Ah! Se você fazia muita bagunça, se você fosse suspeito,

você apanhava. Não é como se apanhasse de um garoto, mas

como se apanhasse de um homem. Eu lembro de fatos assim,

de inspetores chegar prá mim e bater sabe. Às vezes com

razão. Mas dentro da razão dele, eu não aceitava, porque eu

era garoto não aceitava apanhar. Quem vai aceitar apanhar?

Mas hoje, eu tiro aquilo como uma escola-disciplina para mim,

sabe. Me ajudou muito também. Mas em si, eu olhava, eu, quer

dizer, no período da adaptação, eu não via aquilo. Sei, era

minha casa. Eu bebia, comia, dormia, estudava. Estava fazendo

uma profissão. Mas não tinha contato real com a vida daqui de

fora, né! (Fernando, 25 anos).

Apesar das críticas (como veremos mais adiante), que os ex-internos tecem à vida no internato, eles tendem a valorizar o tempo passado ali como uma etapa necessária para viver.

Dou graças a Deus por ter passado pela FUN ABEM. Eu

aprendi muito. Se tenho uma cabeça boa é porque eu vi muita

coisa. A minha maior faculdade é a vida. Foi ter vivido todas

essas coisas. E eu acredito que é nas horas mais tristes, nas

experiências mais amargas que se tem condição de se tirar as

melhores coisas, as melhores avaliações. Eu por ter passado

pela FUNABEM ... eu não tenho nada contra a FUNABEM, só

tenho a agradecer. (João, 31 anos).

A experiência vivida parece não gerar uma ambivalência de sentimentos, mas, na fala dos entrevistados, a contradição acompanha os depoimentos que contêm uma interpretação positiva. É como se as críticas fossem dicotomizadas da gratidão. Parece não haver conflito – ao mesmo tempo que tecem críticas duras, se referem à experiência de internato como tendo sido “boa”. A mágoa ou o ressentimento, em geral, se refere a uma situação específica, aos castigos, à violência física.

Se por um lado consideram a experiência vivida como uma etapa necessária, todos os entrevistados observaram que não permitiriam a internação de seus próprios filhos. Nos parece que esta forma de considerar a questão expressa uma crítica severa à vivência no internato. Neste momento não se considera as coisas boas mas, sim, se reprova a experiência como um todo. É uma reprovação que está além dos motivos, das palavras. É uma reprovação global da experiência.

W – Eu gostei. Eu tinha que passar por aquilo. Eu não sabia

que eu ia passar por essa vida. Eu acho que tudo que a gente

passa nessa vida é porque a gente tem que passar.

E – E se você tivesse opção, você passaria novamente?

W – Não. E também não deixaria meu filho passar. Não, pelo

menos pro meu filho, não. Eu acho que foi mais um desespero

da minha mãe. (Walter, 20 anos).

O que nos parece importante é que na representação positiva do internato, os ex-internos, apesar das críticas contundentes que fazem ao funcionamento do internato, eles mantêm uma imagem, como que idealizada, da mesma forma como nos parece manterem preservada a imagem da mãe ou da farm1ia, mesmo quando já perderam todos os laços com ela. Representar a FUNABEM como algo positivo, parece-nos, sobretudo, uma necessidade de preservar uma instituição que lhes permitiu a sobrevivência frente ao abandono ao qual foram relegados.