Menores em tempo de maioridade
4. Família imaginária
Podemos notar nas entrevistas, que o estado de abandono em que estes jovens se encontram ao sair do internato faz com que, muitas vezes, sintam necessidade imediata de constituir uma família. Com o tempo, o ex-interno descobre que uma família significa muito mais do que ser exclusivamente fonte de afeto. Assim, alguns acabam por se separar implicando no sofrimento de mais uma perda.
– Eu namorei uma menina e no final eu casei. Por isso que eu
digo, eu casei sabe por que? Por causa de carinho. Tudo isso e
depois, logo, uns três; quatro anos eu me separei e outra pedra
por cima. Então, eu digo para você isso, que eu sou um cara
assim até hoje. (Luis Carlos, 24 anos).
Neste estudo, o que se percebe com maior nitidez é que o apoio familiar é representado como muito importante na fase de adaptação ao meio social, logo após o desligamento. Apesar de todos os conflitos, quase todos os jovens anseiam pelo reencontro familiar. Alguns fazem um empenho real nesta busca, outros expressam simplesmente o desejo, sem conseguir equacioná-lo. Outros ainda pretendem realizar esta busca através dos meios de comunicação, porém, somente depois que alcançarem “sucesso profissional”. É interessante observar também, que alguns recriam a família imaginariamente e se referem a ela como existindo de tato.
4. Família imaginária
Como vimos anteriormente, a referência familiar é fundamental para o interno. A busca desta referência persiste de forma silenciosa durante todo o tempo de internação, ou de maneira mais clara quando encontra psicólogos ou assistentes sociais que lhe escutem. No desligamento, esta busca se toma ainda mais importante para muitos – aqueles que ainda não desistiram de encontrar uma família – pois mesmo que a instituição tenha funcionado como uma “segunda família”, no desligamento, ela perde esta função. Percebemos, então, que para aqueles que não têm qualquer referência do grupo familiar, se evidencia uma busca imaginária deste referencial. Isto se expressa através da afirmação da existência dos pais e a volta à casa quando, na verdade, sabem que foram abandonados no internato desde pequenos. A criação da família imaginária nos parece ser um intento de lidar com o sentimento doloroso do abandono, tentando negá-lo.
Um caso significativo que nos chamou atenção, e que poderíamos considerar como uma bem sucedida busca da família imaginária, é o de Claudionor. Este jovem, em sua busca, afirma ter encontrado sua família verdadeira, que foi reconhecida, enquanto tal, através do “sentimento”. Posteriormente ele não se adaptou a esta família e saiu em busca de outra. Acabou por encontrar uma segunda família que o adotou e passou a denominar os seus membros como pai, mãe e irmãos.
A conclusão principal que consideramos importante, é que, através da busca da família, o indivíduo está buscando suas referências, sua origem. ‘Como sabemos, no internato, ele é privado muitas vezes dessas referências familiares, que são consideradas somente do interesse da burocracia – os dados são mantidos inalcançáveis nos prontuários. Se esta reivindicação não tem a atenção dos funcionários do internato e aparentemente se toma de menor importância, percebe-se, entretanto, que ela é preservada e se mostra viva nos indivíduos ao serem desligados.
17 Ser abandonado, não se refere somente àqueles que são órfãos. Rizzini, 1984 p. 17, faz uma reflexão interessante sobre esta questão.