Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 15 de 33

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Menores em tempo de maioridade

– Violência Sexual

– Seu espaço é esse aqui, sabe? Se você passar dali, daquele

portão, você já estava cometendo um ato de indisciplina,

entendeu? Você já está cometendo. O que você está fazendo

aí? Ele perguntava. ‘Eu estou vendo a paisagem’. ‘Seu lugar é

aqui, vem embora’. Aí, se você respondesse, você já estava,

sabe ... Lá era um local cercado de morro. Um lugar muito

bonito, mas cercado de morro. Se você estivesse em cima de

morro, você já estava - gente usava muita gíria – escamado.

Escamado era estar longe, distante do local, dentro de sua

localidade. Se eu tivesse ali, já estava escamado, era como a

gente usava. (Fernando, 25 anos).

– Violência Sexual

Desde a entrada no internato o “menor” sofre diversos tipos de violência, seja por parte dos rituais institucionais (perda de objetos pessoais, roupas, etc.), seja por parte dos colegas com quem é obrigado a compartilhar seu espaço e tempo. Vamos considerar aqui, particularmente, a violência que eles vivem realizada pelos próprios colegas que já estão internados há mais tempo e têm mais idade. Ser roubado nos poucos objetos pessoais que lhe restaram no ritual de entrada é algo comum e frequente. A outra violência a qual são submetidos, e que os ex-internos deram relevância como expressão de uma vivência negativa do internato, foi a “violência sexual” ou a ameaça de, na “ronda à cama” de quem dorme. Sentem-se desprotegidos pelos esquemas de proteção dos agentes institucionais e, em geral, falam da questão fazendo a ressalva de que eles próprios nunca foram vítimas dessa violência. Parece-nos, entretanto, que esta negação ocorre com o objetivo de assegurar ao

entrevistador que eles “são sujeito macho”9.

– ... é questão de eu ter passado lá e ver como é tratada uma

pessoa, um colega. Entrar de primeira assim, as pessoas

gostam de aproveitar, entendeu? Gostam de experimentar,

achar que a pessoa vai dar mole e tal. É violência sexual,

roubo. Fazer a cabeça do cara, fazer o cara virar viado, fazer o

que o cara quer. Nunca passei por isto não. Nunca deixei

ninguém entrar numa comigo, sempre respeitei todo mundo e

todo mundo me respeitou. (Ricardo, 18 anos).

– Eu, quando era pequeno, tinha muito medo de alguém fazer

alguma coisa comigo. Por nunca, eu nunca fiz o ... sexo com o

mesmo sexo. Então eu ficava com medo de alguém fazer em

mim. Até no ato de dormir, sabe. Ou se você estivesse no mato,

caçando passarinho, se você encontrasse dois rapazes

grandes. Se ele não fosse uma pessoa humana, assim humano

em termo de sentimento, ele ia fazer uma maldade com você.

Então, a gente quando é menor, tava sempre com medo,

entendeu? Era uma barreira que a gente tinha. Você dormindo,

uma pessoa era capaz de fazer uma maldade com você. Eu até

meu período de 15 anos, eu tacava faca, pegava pau, tacava

num colega que quisesse fazer maldade comigo. Então, eu

brigava assim ... pra me defender por causa de uma maldade,

sabe. Porque a gente estava sujeito à tudo. Depois que você

vai crescendo, vai tomando um corpo, você dialogava mais,

encarava mais os grandes, você já tinha um respeito. Mas fora

isso, era uma situação muito chata .. Eu apanhava muito na

briga. Mas também eu não dava o braço a torcer. (Fernando, 25

anos).

– Eu ainda tenho um pouco de lembrança que eu gostei na

minha infância, e um pouco de desavença, em vista que você

não podia dormir direito. Eu não sei; quando eu era pequeno o

pessoal me achava muito bonito. Então, lá o pessoal é assim,

só criado no meio de homem você sabe, né! Tem as

professoras, mas não é a liberdade que a gente tem com a

professora, não é a liberdade que nós temos com um homem.

Então aquele lance, né! O pessoa me achava ... pelo menos eu

penso assim, como muitas pessoas já falaram que eu sou

bonito, então, o pessoal me achava bonito, sabe, quando eu era

pequeno. Então queria fazer assim ... eu não podia dormir de

bruços, não podia dormir assim, se um dormisse de bruço de

noite alguém ia me fazer saliência sabe – a gente falava

saliência. Então a noite alguém ia querer fazer coisas erradas

comigo né? Então eu tinha que dormir de rosto para cima. Os

próprios alunos, os mais fortes, geralmente os que não têm

nada na mente pra fazer. Eu acho que achavam que aquilo era

o divertimento, sei lá. Então, você não conseguia dormir, tinha

que dormir reto, de vez em quanto dormia legal, porque tinha

um inspetor, uma ronda, porque lá sempre botam três rondas

pra não haver essas coisas que vinham acontecendo. A pessoa

chega ir na cama do outro pra fazer safadeza, não deixar o

outro dormir. Então eu não dormia direito e até o último colégio

que eu fui, eu não conseguia dormir direito. Sabe você tem que

dormir de rosto coberto pro pessoal não botar o pênis em teu

rosto entendeu? Essas coisas assim, num ficar fazendo essas

besteiras com você. No último colégio que eu passei, o pessoal

cortava até a calça do pijama pra poder fazer sacanagem, você

dormindo você não tá nem ligado nisso, você tá com sono, né?

Então muita coisa, isso aí, eu guardo assim com ódio sabe,

mas às vezes eu acho que o culpado não é o aluno é a própria

disciplina do inspetor, porque podia dar mais liberdade ao

aluno, porque lá era assim: só podia sair de 15 em 15 dias ...

(João Carlos, 20 anos).

A violência sexual é um assunto pouco considerado nos estudos sobre os internatos. Nesses estabelecimentos, as autoridades consideram este tipo de violência como um desvio do comportamento do interno e a questão é tratada somente pelo ângulo de punir o indivíduo desviante (Altoé, 1990). Raros são os internos ou ex-internos que percebem que a dinâmica institucional favorece a existência da prática de violência sexual.

A experiência homossexual, vivida como uma violência sexual, certamente marca os indivíduos de diversas maneiras. Um relato muito significativo de um dos informantes nos fala, não só das relações sexuais entre os colegas, entre colegas e funcionários, como da prostituição masculina. No caso, como podemos ver no seu relato a seguir, a prática de “prostituição” se iniciou quando ainda estava internado e continuou após o desligamento.

– Olha, as lembranças marcantes que eu tenho (do internato) ...

nenhum sabe. É ... só o ... quer dizer, aqui fora existe o

homossexualismo, o tóxico, estupro, a bandidagem ... A única

coisa que me atingiu foi o homossexualismo, sabe? (...) Eu

comecei a frequentar a Quinta da Boa Vista, eu gostava de ir de

dia. De noite eu ia para lá com outros homens, contatos, às

vezes por dinheiro, entendeu? Foi onde eu me fracassei mesmo

... Tava ainda na FUNABEM, mas a FUNABEM até hoje não

sabe de nada. Pra FUNABEM, isso foi uma coisa que me

marcou pessoalmente. Ex-aluno nenhum tem nada a dizer a

meu respeito. (...) Lá sempre teve isto. (...) Porque lá dá o termo

que eu não sei se posso usar aqui, é encubado. O cara é

homossexual, ou é viado, mas ninguém fica sabendo. É

encubado, no sentido de ninguém saber, ele é, mas não faz ...

Não, ele faz, mas perante as pessoas ele é um machão (...)

Muitos não fazem para ganhar dinheiro. Faziam porque

gostavam. (...) Então você saía para namorar e não pintava

uma namorada, você tinha um lado fraco da vida e aí se

prostituía. (...) Eu não fazia mais pelo dinheiro, eu fazia mais

pelo carinho, afeto, né? Eu conquistava o coração da pessoa, a

pessoa se aproveitava de mim, eu também me aproveitava e

tinha relação. (César, 30 anos).

Apesar de negar inicialmente que se prostitui por necessidade de dinheiro, mais adiante no seu depoimento, ele fornece dados claros que confirmam sua necessidade de ganhar dinheiro, além do prazer que ele possa tirar deste tipo de relação.

– Então aí eu comecei a trabalhar e continuei com o

homossexualismo e por infelicidade minha eu conheci o Mauro,

ali na Candelária. Eu trabalhando ali, ele parece até com o Ivon

Curi. Com ele eu tinha vontade, eu comecei com o

homossexualismo e passei a ser homem bissexual – o homem