Menores em tempo de maioridade
VII. Família
A família considerada neste trabalho é aquela onde a mãe é a figura central, sobretudo, por prover o sustento e dispensar cuidados necessários à casa e aos filhos. É comum que a mulher se encontre sozinha. Mesmo nos casos onde há a presença de um parceiro, não existe um compromisso no sentido de assumir responsabilidade para com a família. No nosso estudo, é comum encontrar a figura da mãe ocupando o lugar do “chefe de família”. Conforme Donzelot, neste contexto, a mulher pode ser considerada nutriz, ou seja, uma pessoa, que não é necessariamente a mãe e que cuida da higiene e saúde da criança, bem como promove as condições básicas de subsistência (Donzelot, 1986, p.34). E o que se observa é que a mulher não consegue suportar o papel de nutriz e recorre ao Estado, através da FUNABEM, para que seus filhos tenham asseguradas as condições básicas de sobrevivência e escolarização. Desta forma, consideramos que a FUNABEM, criada pelo Estado em 1964, pretendia, além dos estabelecimentos filantrópicos, através de seus próprios internatos, assumir o papel da família, considerando o “fracasso” do papel da nutriz junto aos seus filhos.
Sobre a família dos ex-internos entrevistados, abordaremos a seguir as seguintes questões: internação e perda dos laços afetivos; negação do abandono; importância do apoio familiar e a família imaginária.
1. Internação e perda dos laços afetivos
A família do ex-aluno é caracterizada pela presença da figura materna, ausência da figura paterna e por uma prole extensa (3 ou mais filhos) que, em geral, não é do mesmo progenitor. Essa família enfrenta no seu dia-a-dia problemas, tais como: condições de moradia precária, renda familiar insuficiente e instabilidade do vínculo empregatício dos pais. Desta forma, cria-se uma grande dificuldade para a família ter suas necessidades básicas atendidas. Diante desta configuração familiar e das dificuldades materiais encontradas para a subsistência, a família busca a internação dos filhos.
Um outro fator que justifica a internação, segundo o depoimento dos ex-internos, é a preocupação de que os filhos possam se tomar marginais. Para eles, o fato dos pais trabalharem fora e os deixarem em casa sozinhos muitas vezes, os leva a um afastamento das atividades passando a perambular pelas ruas e estabelecendo relações sociais que os mantêm em contato com setores de marginalidade.
Estudos já realizados mostram que as normas rígidas de funcionamento do internato propiciam um enfraquecimento dos laços afetivos (Altoé, Rizzini, 1984, p. III) e, muitas vezes, ocasionam a ruptura. Não há por parte das autoridades institucionais nenhuma preocupação, sequer, em manter os laços fraternos (cf. Altoé, 1990). Esta pesquisa confirma os estudos anteriores, como veremos a seguir.
Mauro e Justino são irmãos internos na mesma época, que foram separados já na triagem (local onde as crianças são recebidas), onde foram encaminhados para internatos diferentes, perdendo o contato que mantinham até então. Eles mostram, em seu relato, como esta prática faz com que, pelo menos circunstancialmente, eles percam as referências memorialísticas do grupo familiar e mesmo um do outro.
J – Nós só chegamos a nos conhecer ... com esse problema de
FUNABEM, teve uma época em que nós por termos ficado
afastados, nós até esquecíamos que tínhamos familiares.
M – Eu nem me lembrava mais como é que era ele.
J – Eu no caso, eu realmente não me lembrava. Eu cheguei a
encontrar com meu irmão. Foi por acaso. Nós estávamos no
centro de triagem, aí nós nos esbarramos, demos um tranco um
no outro. Aí nós nos olhamos assim, achávamos que nos
conhecíamos. Aí foi quando o Veríssimo (terceiro irmão)
perguntou o meu nome, quem era a minha mãe. Até que foi um
encontro bastante emocionante pra quem passou séculos
distante da família. Eu achei um fato interessante. (Justino, 17
anos; Mauro, 26 anos).
O que pudemos perceber é que esses jovens, por não terem família, vivenciam um intenso sofrimento e o abandono faz com que eles fiquem mais fragilizados frente às regras institucionais. Heraldo, ao comentar sobre atos de violência dentro do colégio, coloca tal questão afirmando que não ter família significa falta de proteção.
– Mas, geralmente, batia muito, acontecia muito na pessoa que
não tinha família. Aí, espancava mesmo, porque aí, com quem
o aluno vai falar? Ele não vai falar com ninguém. Acontecia dele
batê e de aluno ficá na enfermaria (Heraldo, 20 anos).
Com a internação, a família representa para o ex-interno o elo que o mantém vinculado ao mundo social mais amplo, proporcionando-lhe conhecimento da vida que se passa fora dos muros do estabelecimento. Este vínculo permite ao ex-interno discriminar o que lhe é ensinado pelos funcionários do internato.
– ... Aí eu discutia com ele (colega de internato) que não era
nada disso, eu tava lá em casa, via o que tava acontecendo, via
o que tava certo. Então eu falava: Não é nada disso, as coisas
não é assim não, como esses caras (funcionários) bota não.
(Heraldo, 20 anos).
Para o ex-interno, ter uma casa e uma família permite que ele obtenha conhecimentos acerca dos seus direitos.
– Aí eu deixei ele (inspetor) falar primeiro. Aí depois que ele
falou eu comecei, quer dizer, eu tinha família, eu sabia dos
meus direitos (Heraldo, 20 anos).
Esses jovens acreditam que a família também oferece subsídios para que eles possam se defender das constantes humilhações a que são submetidos dentro do internato.