Menores em tempo de maioridade
VI. Moradia – soluções temporárias
A questão da moradia é um ponto importante para o ex-interno e se revela como uma das principais dificuldades que encontram no ato do desligamento. Ter um lugar para morar representa para o ex-interno estar protegido dos perigos da rua, ter assegurado a posse de seus objetos e ter também sua individualidade preservada. Dessa forma a moradia é um passo importante para o encaminhamento na vida social e permite ao ex-interno mobilizar mais energia para o seu ingresso no mercado de trabalho. Contudo, conseguir um local para morar representa uma tarefa, por vezes, bastante complicada, uma vez que, tendo vivido até então longe do convívio social, suas opções são restritas.
A volta à família surge como a primeira alternativa para solucionar
esta questão, contudo esse retorno é conflituoso para ambos 14.
Alguns ex-internos 15 se mostraram desapontados quando, ao retomarem para suas famílias, encontraram condições de moradia e alimentação adversas das que tinham no internato. Na maioria das vezes a família não pode oferecer o mesmo padrão de alimentação e de moradia que o internato oferecia.
– E, minha mãe morava num quarto, né? E pessoas num quarto
era esquisito, feio (chora), muito feio. Num quarto ... Parecia
que a gente morava no sub-solo, eu não sei. Parecia um lugar
... sabe quando você passa na rua e vê aqueles buraquinhos?
Era um lugar assim, muito feio. (Maria, 31 anos).
Os ex-internos que ao se desligarem do internato não retomam a sua família, seja porque foram abandonados no internato, ou porque não conseguiram manter o vínculo familiar devido às imposições do funcionamento institucional que afasta o aluno do convívio familiar, ticam sem muitas opções para solucionar a questão da moradia.
A FUNABEM, questionada pela ASSEAF e pelos próprios ex-internos que voltavam aos estabelecimentos ou arredores, tentou criar alternativas para solucionar a questão da moradia. A primeira alternativa proposta foi manter convênios com pensões para onde foram enviados os ex-internos. Estas pensões eram custeadas pela FUNABEM por um período de três meses – tempo que os técnicos acharam necessário para o ex-interno se situar no mundo; passado esse período o ex-interno era obrigado a deixar a pensão. Contudo, o resultado desses convênios não foi satisfatório, segundo informação de funcionários da FUNABEM, levando-os a procurar outras alternativas.
O encaminhamento do ex-interno à Associação Irmão Esperança foi uma outra alternativa encontrada pela FUNABEM. É importante ressaltar que a Associação Irmão Esperança foi a única entidade encontrada que auxilia o ex-interno, tanto na questão da moradia, quanto na procura de um emprego. Ela assegura ao ex-interno um lugar onde ele pode dormir, se alimentar e guardar seus objetos dentro de uma rotina e de um funcionamento semelhantes aos do internato. Dessa maneira o ex-interno se sente mais seguro e mais situado, podendo ter um tempo maior para tentar se inserir no mercado de trabalho. O tempo de permanência na Associação Irmão Esperança é de seis meses e ultrapassado este período o jovem tem que encontrar outra moradia.
Essas duas propostas são soluções temporárias que não garantem ao ex-interno um tempo suficiente para que este tenha assegurados sua inserção social e o seu ingresso no mercado de trabalho.
O ingresso nas Forças Armadas pode representar também uma saída para a questão da moradia, na medida em que o quartel oferece à corporação a opção de residir no mesmo.
Uma outra solução encontrada pelo ex-interno é continuar morando e trabalhando nas dependências do internato. Através dos dados relatados nos depoimentos, observa-se que isto implica na manutenção de uma relação de dependência bastante conhecida por eles, como, também, manter-se submisso à ordem que rege a instituição, na qual é preciso estar sempre subserviente e cortês com as figuras de autoridade. Nesta situação, onde a moradia não está desvinculada do local de trabalho, o ex-interno permanece imobilizado e controlado por uma autoridade única que dita seu comportamento, tal qual sua vivência enquanto “menor”. Sua autonomia para reivindicar, discordar, ou mesmo mudar de emprego, se encontra atrelada à questão da moradia. Como podemos observar no depoimento de um jovem, que trabalha e reside num internato, sobre uma greve, da qual não participou, ocorrida no mesmo.
– ... período de greve eu não fiz isso porque, eu não participei
da greve por dois motivos: um pela minha faculdade e outro
porque eu resido aqui dentro. E eu tenho isso aqui como a
minha casa. Se eu entrasse em greve, eu tá contra as normas
da casa, contra a administração e, então, eles iam ter todos os
poderes de me pedir o quarto e eles me pedindo o quarto ...
rege no contrato que eles podem pedir e aí. .. Não aderi a greve
e eu não aderi a greve porque? Eu como, bebo, tenho toda
mordomia e aqui é a minha casa, quem me criou foi aqui dentro
e o cara que hoje é presidente, ele me deu a maior força, me
deu a maior oportunidade de sair do setor que eu estava, pra
uma posição melhor e ele só não me colocou melhor ainda
porque as barreiras existem e são muitas, entendeu?
(Fernando, 25 anos).
Morar no internato e pagar um aluguel simbólico é percebido, ao mesmo tempo, como oferecendo algumas vantagens importantes para tentar uma inserção social. Isto porque mesmo com o baixo salário percebido, ele pode custear seu estudo, lazer e ter acesso a bens de consumo. Assim, de alguma forma, a utilização do internato como local de moradia segura representa para o ex-interno a possibilidade de fazer planos para o seu futuro. Em troca dessas vantagens é notório que o ex-interno percebe a restrição de sua autonomia e liberdade. Entretanto, parecem não se ressentirem desta limitação, possivelmente pelo aprendizado anterior, enquanto “menores”.
– E como é que é para você, continuar morando aqui? Desde
que você foi desligado, você veio pra cá, depois foi pra
Aeronáutica, mas continuou com um quarto aqui e até hoje.
– É, mas olha bem! Eu gostaria na época, desde que saí da
Aeronáutica, alugar um quarto para mim, e já começar a ter
uma vida. Mas, de repente, eu pensei: eu posso continuar aqui
... , mas eu pago esse quarto né! É uma micharia, mas pago.
Então, à princípio, eu comecei, quer dizer, eu comecei, com o
salário a comprar coisas pra mim né? Você começa a ter uma
visão melhor, começa a comprar roupa, tudo que você sempre
quis e nunca pôde ter e dar um conforto melhor pra você em
termos de sair conhecer lugares que você nunca teve
oportunidade de conhecer. (Fernando, 25 anos).
Morar nas dependências do internato é um recurso utilizado principalmente por aqueles que não têm família e por aqueles que
têm parentes trabalhando e morando no local 16 .
Pagar o aluguel de um quarto ou de uma casa significa para a maioria dos ex-alunos o dispêndio de grande parte de seus salários, o que, muitas vezes, é incompatível com o salário percebido. Para muitos o sonho da casa própria só pode ser realizado na compra de um barraco na favela. Mas a favela é vista por eles como local inapropriado onde se entra em contato com o mundo marginal. Esta representação dominante e estigmatizante da favela como um lugar marginal é entendida, segundo DaMatta (1983, p. 74), pela falta de limites nitidamente demarcados entre a casa e a ma – local marginal e com representações opostas.
– Aí nessas alturas nós já estávamos com a ... não tava parado
de todo, tava com a situação financeira mais ou menos e deu
pra gente comprar uma casa pra gente, mas só que essa casa
era no morro. E como todo morro, que o morro sempre traz mau
fluido, né. Todo morro traz mau fluido, aí foi aonde nós fomos
morar no morro.
...Porque no morro todo mundo tá vendo todo mundo, tá vendo
os passos do outro que é um vigiando o outro. E
desencambestamos, né saímos por aí afora. (Daniel, 29 anos,
detento).
Para os ex-internos a rua é representada como local do desconhecido, do perigo e da marginal idade. Contudo a ma pode servir como moradia temporária quando foram esgotadas todas as outras alternativas.
– (Moram) no Bobs, por ali, na Barão de Ipanema, no Aterro, já
cansei de ver. Quando conversei com eles, eles me disseram
que não têm lugar, não têm para onde ir. Poxa, o cara não tem
nada, não tem pai, não tem onde morar, o cara vai pra onde?
Vai para a rua. Uma coisa que eu digo, que quem tem apoio
depois, aquele negócio, se você tem 18 anos e chegou a tua
hora de ir embora, o cara não tem onde morar, ele vai para
onde, tá? É isso. Outros, tão bem de vida, tem a mãe deles, são
militares. (Luis Carlos, 24 anos).
14 Ver Família.
15 Os indivíduos que expressam esse desapontamento são aqueles que viveram em internatos modelo.
16 Esta opção se apresenta principalmente nos internatos de caráter filantrópico e conveniados com a FUNABEM. 70