Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 21 de 33

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Menores em tempo de maioridade

V. Estigma – na maioridade, a marca de “menor” permanece

V. Estigma – na maioridade, a marca

de “menor” permanece

 

A experiência de discriminação e a marca do estigma que o ex-aluno sofre ao sair do internato, já vivenciada por ele na relação com os funcionários, como também quando participa de alguma atividade, como por exemplo, a escola da comunidade. Na instituição total, onde, sabemos, o atendimento não visa o aluno na sua singularidade, mas sim a “massa” , ou agrupamento humano, todos os alunos são sempre responsabilizados pela ação cometida por um deles. Generalizar a falta cometida, dar “castigo geral”, ou bater arbitrariamente faz parte do cotidiano institucional.

– Eles (funcionários da FUNABEM) não conversam com a

gente, se conversassem... É como eles falam, a gente não

presta. Tudo bem. (quem fala?) Todo mundo lá, isso é geral.

Eles acham que se rouba uma coisa aqui, todos eles tem que

pagar. Por exemplo, ninguém presta; para eles ninguém presta.

(Evando, 20 anos).

Dentro do internato já existe uma expectativa de que os internos serão marginais como exemplifica Marcelo:

– Eu cheguei e falei: eu sou assim porque ... Eles falavam: vê

se você quando sair fora, você não vai saber trabalhar, você vai

querer ser bandido ... Vê na sua cara, você nunca ri, só fica

com essa cara de mau.

Marcelo se defende e se sente mal compreendido pelos funcionários:

Eu cheguei e falei: eu sou assim porque tenho um problema,

você não sabe qual é o meu problema. Então não fala pela

boca a fora não. Pensa primeiro no que vocês vão falar.

(Marcelo, 18 anos).

Entre os entrevistados foram raros aqueles alunos que tiveram a oportunidade de estudar fora do internato, em escola pública. Dentre esses, encontramos uma moça que fala sobre como percebeu a discriminação no colégio público, feita pelas professoras. É interessante observar que a discriminação era sobretudo sentida por estarem num local distinto do internato, onde havia uma expectativa de serem percebidas como pessoas singulares, mas na verdade eram discriminadas como uma massa homogênea, tratamento semelhante ao recebido no internato:

– Eu não gostava quando eles generalizavam, não chamavam a

gente pelo nome. Quando queria falava: ‘aquela do asilo que é

assim, que é assado’. Eu me lembro disto, eu não gostava.

(Elisa, 19 anos).

Os entrevistados, com rara exceção, narram as dificuldades que sofrem ao sair do internato devido ao estigma social que recai sobre aqueles que passaram pelas escolas da FUNABEM. Ter sido aluno da FUNABEM significa com frequência ser “marginal”. Este estigma dificulta enormemente sua inserção social e a realização de novos relacionamentos, como também a obtenção de emprego. Não chega a impossibilitar a chance de conseguir trabalho, mas com frequência são acusados e responsabilizados por pequenos roubos no ambiente de trabalho. A obtenção de emprego se toma menos complicada quando eles omitem a informação, como muitos preferem, ou quando há alguma intermediação entre o empregador e o emprego – papel ocupado por exemplo pela CAP da FUNABEM.

– É o que eu tava te falando – por causa de um todos pagam.

Se a gente chegar num lugar, perguntam: ‘Ah, você foi de

onde?’ E a gente não pode dizer que é da FUNABEM. Acontece

o seguinte: a pessoa fica olhando para a gente assim meio

esquisita. Porque muita gente rouba tudo ali que acontece é

FUNABEM, FUNABEM, FUNABEM. (Evando, 20 anos).

– Acho que a maioria das pessoas acha que todo mundo do

colégio interno é assim, é ruim. E aí tratam a gente, acha que a

gente é ladrona, sei lá, entendeu. (...) Mas também se

acontecesse alguma coisa ali no meio, algum roubo, alguma

coisa, se eu tivesse, eu acho que iam achar que fui eu,

entendeu? Porque eu acho que eles pensam que colégio

interno é lugar de ladrão. Então eu tinha muito medo disso e

acho que eu me afastava também das pessoas. (chora). (Maria,

31 anos).

– Eu tinha medo de dizer para as pessoas e as pessoas assim

me rejeitar por causa disso. ‘Ih, ela é da FUNABEM, estudou na

FUNABEM’, né. Porque as pessoas têm ideia de que passou

por lá, quem era mau elemento, entendeu? Quintino é um lugar

de aluno mau elemento, né? (Adelaide, 35 anos).

Devido ao preconceito e discriminação a maioria prefere não falar que foi aluno interno na FUNABEM. Alguns, entretanto, mesmo tendo noção clara da discriminação que sofrem, afirmam sua condição de ex-internos da FUNABEM, pois esta marca faz parte de sua identidade. Para esses, a passagem pelo internato é parte fundamental de suas vidas e não pode ser negada.

– Eu tenho que falar que fui aluno da FUNABEM. Eu não vou

saber conversar com a senhora sem dizer que eu fui aluno da

FUNABEM. (César, 30 anos).

A discriminação, dificuldade de aceitação do ex-aluno, ocorre também nas Forças Armadas. Até o início da década de 1980, os alunos da FUNABEM ingressavam nas Forças Armadas em grande número. A própria FUNABEM se encarregava de encaminhá-los quando completavam idade limite de permanência nos internatos. Havia interesse em ambas as instituições que tal procedimento ocorresse. Mas a entrada dos ex-alunos não passava desapercebida pelas pessoas existentes nestas instituições:

– Na própria Marinha mesmo, eu tenho um irmão, ele que é

sargento, ele deparou muito com essa situação. Quando o

ônibus da FUNABEM levou eles até a Marinha, a primeira coisa

que disseram foi ‘guardem tudo, recolhe as carteiras que

chegou os ladrões’. Quer dizer, eles já tem o pessoal da FUN

ABEM como ladrões. Mesmo em Marinha, isso lá também no

Exército quando eu cheguei foi a mesma coisa. Geralmente se

sumisse alguma coisa já iam perguntando – ‘tem alguém da

FUNABEM aí?’ Era até engraçada a coisa, mas era a realidade.

(João, 31 anos).

Segundo depoimento do vice-presidente da ASSEAF, esta “transferência direta” dos alunos da FUNABEM para as Forças Armadas sem que o aluno passasse pelo “confronto de reintegração”, na medida em que “trocava uma instituição por outra” diminuiu consideravelmente a partir de 1982. Segundo o vice-presidente da ASSEAF, a análise feita pela Associação é de que, nesta década, as Forças Armadas não tinham mais necessidade de um grande contingente e os ex-alunos foram os primeiros a serem afetados pela medida.

O estigma de ex-aluno é percebido mesmo por aqueles que encontram apoio familiar ou institucional para ingressarem no mundo do trabalho, ou na escola pública, dando prosseguimento aos seus estudos. É na relação pessoal que surge causando dificuldades na aceitação de sua pessoa. A reação dos ex-internos é de omitir tal marca para se protegerem. Só após considerarem que são aceitos pelos seus atributos pessoais (identidade social real, segundo Goffman), podem então revelar sua experiência de colégio interno (o que caracterizaria sua identidade social virtual, Goffman, 1975, p. 12).

– ... Tanto que eu falei com D. Sônia, levei D. Sônia pra fazer

um debate sobre o menor abandonado num colégio, que eu

faço parte do grêmio no colégio. Eu tinha que apresentar

alguma coisa naquela semana, aí eu pedi a D. Sônia pra

apresentar. Então eu falei com ela pra não botar aquela posição

que eu era aluno, ex-aluno, não por vergonha, não por isso,

mas pelo motivo que as pessoas, às vezes, vê os alunos da

FUNABEM, mas vê assim, ou um bom aluno, ou um mal aluno,

se ele não ficar com pena de você. Porque às vezes a pessoa

fala assim: ‘não tenho pai’. Você fala assim: ‘é normal não ter

pai, é normal você não ter vó, não ter tia’. Mas a pessoa quando

te vê na FUNABEM, vai ter pena de você demais. Ou assim,

receio de você. Um dos dois né. Vai ter um dos dois pra você.

Então por isso eu pedi pra ela não tocar, não colocar pros

outros que eu vim, que era aluno, ex-aluno, nada disso. Eu

expliquei a ela pra não botar isso, não é por vergonha do

colégio que eu passei, mas sim pela mentalidade das pessoas

que vão aceitar, da maneira que as pessoas vão aceitar. (...)

“Tanto que quando eu vou, pra qualquer lugar que eu vou, não

falo que sou ex-aluno. Assim, ao passar do tempo que a gente

vai conversando e a pessoa já conhece a minha personalidade,

aí sabe o que eu sou mesmo, aí eu falo. Pô, como você é uma

cara assim, você foi. Aí eu digo, ‘não, eu fui mas ...’ ‘mas você

cara, você ...’ Você não pode ficarem exposição primeiro. Ou

você vai achar que é bom demais ou vai te achar pelo menos

alguma coisa diferente. (Heraldo, 20 anos).

Uma das defesas mais simples utilizadas para evitar a discriminação e a consequente rejeição é a omissão da informação, ou a criação de uma nova história pessoal. Um outro recurso ainda utilizado é retirar toda a marca registrada em documentos pessoais. Para isto dois artifícios são utilizados. Fazer um curso supletivo para que seu diploma não conste o nome da FUNABEM, ou tirar o certificado de reservista das Forças Armadas. É importante que, na busca de emprego, os documentos apresentados não tenham o carimbo da FUNABEM, que significa uma carta de apresentação desfavorável na competição com outros candidatos. Tendo um documento novo para se apresentar não mais precisam fazer uso de seus documentos anteriores e, assim, tentam escapar ao estigma que lhes diminui a possibilidade de inserção social.