Menores em tempo de maioridade
V. Estigma – na maioridade, a marca de “menor” permanece
V. Estigma – na maioridade, a marca
de “menor” permanece
A experiência de discriminação e a marca do estigma que o ex-aluno sofre ao sair do internato, já vivenciada por ele na relação com os funcionários, como também quando participa de alguma atividade, como por exemplo, a escola da comunidade. Na instituição total, onde, sabemos, o atendimento não visa o aluno na sua singularidade, mas sim a “massa” , ou agrupamento humano, todos os alunos são sempre responsabilizados pela ação cometida por um deles. Generalizar a falta cometida, dar “castigo geral”, ou bater arbitrariamente faz parte do cotidiano institucional.
– Eles (funcionários da FUNABEM) não conversam com a
gente, se conversassem... É como eles falam, a gente não
presta. Tudo bem. (quem fala?) Todo mundo lá, isso é geral.
Eles acham que se rouba uma coisa aqui, todos eles tem que
pagar. Por exemplo, ninguém presta; para eles ninguém presta.
(Evando, 20 anos).
Dentro do internato já existe uma expectativa de que os internos serão marginais como exemplifica Marcelo:
– Eu cheguei e falei: eu sou assim porque ... Eles falavam: vê
se você quando sair fora, você não vai saber trabalhar, você vai
querer ser bandido ... Vê na sua cara, você nunca ri, só fica
com essa cara de mau.
Marcelo se defende e se sente mal compreendido pelos funcionários:
Eu cheguei e falei: eu sou assim porque tenho um problema,
você não sabe qual é o meu problema. Então não fala pela
boca a fora não. Pensa primeiro no que vocês vão falar.
(Marcelo, 18 anos).
Entre os entrevistados foram raros aqueles alunos que tiveram a oportunidade de estudar fora do internato, em escola pública. Dentre esses, encontramos uma moça que fala sobre como percebeu a discriminação no colégio público, feita pelas professoras. É interessante observar que a discriminação era sobretudo sentida por estarem num local distinto do internato, onde havia uma expectativa de serem percebidas como pessoas singulares, mas na verdade eram discriminadas como uma massa homogênea, tratamento semelhante ao recebido no internato:
– Eu não gostava quando eles generalizavam, não chamavam a
gente pelo nome. Quando queria falava: ‘aquela do asilo que é
assim, que é assado’. Eu me lembro disto, eu não gostava.
(Elisa, 19 anos).
Os entrevistados, com rara exceção, narram as dificuldades que sofrem ao sair do internato devido ao estigma social que recai sobre aqueles que passaram pelas escolas da FUNABEM. Ter sido aluno da FUNABEM significa com frequência ser “marginal”. Este estigma dificulta enormemente sua inserção social e a realização de novos relacionamentos, como também a obtenção de emprego. Não chega a impossibilitar a chance de conseguir trabalho, mas com frequência são acusados e responsabilizados por pequenos roubos no ambiente de trabalho. A obtenção de emprego se toma menos complicada quando eles omitem a informação, como muitos preferem, ou quando há alguma intermediação entre o empregador e o emprego – papel ocupado por exemplo pela CAP da FUNABEM.
– É o que eu tava te falando – por causa de um todos pagam.
Se a gente chegar num lugar, perguntam: ‘Ah, você foi de
onde?’ E a gente não pode dizer que é da FUNABEM. Acontece
o seguinte: a pessoa fica olhando para a gente assim meio
esquisita. Porque muita gente rouba tudo ali que acontece é
FUNABEM, FUNABEM, FUNABEM. (Evando, 20 anos).
– Acho que a maioria das pessoas acha que todo mundo do
colégio interno é assim, é ruim. E aí tratam a gente, acha que a
gente é ladrona, sei lá, entendeu. (...) Mas também se
acontecesse alguma coisa ali no meio, algum roubo, alguma
coisa, se eu tivesse, eu acho que iam achar que fui eu,
entendeu? Porque eu acho que eles pensam que colégio
interno é lugar de ladrão. Então eu tinha muito medo disso e
acho que eu me afastava também das pessoas. (chora). (Maria,
31 anos).
– Eu tinha medo de dizer para as pessoas e as pessoas assim
me rejeitar por causa disso. ‘Ih, ela é da FUNABEM, estudou na
FUNABEM’, né. Porque as pessoas têm ideia de que passou
por lá, quem era mau elemento, entendeu? Quintino é um lugar
de aluno mau elemento, né? (Adelaide, 35 anos).
Devido ao preconceito e discriminação a maioria prefere não falar que foi aluno interno na FUNABEM. Alguns, entretanto, mesmo tendo noção clara da discriminação que sofrem, afirmam sua condição de ex-internos da FUNABEM, pois esta marca faz parte de sua identidade. Para esses, a passagem pelo internato é parte fundamental de suas vidas e não pode ser negada.
– Eu tenho que falar que fui aluno da FUNABEM. Eu não vou
saber conversar com a senhora sem dizer que eu fui aluno da
FUNABEM. (César, 30 anos).
A discriminação, dificuldade de aceitação do ex-aluno, ocorre também nas Forças Armadas. Até o início da década de 1980, os alunos da FUNABEM ingressavam nas Forças Armadas em grande número. A própria FUNABEM se encarregava de encaminhá-los quando completavam idade limite de permanência nos internatos. Havia interesse em ambas as instituições que tal procedimento ocorresse. Mas a entrada dos ex-alunos não passava desapercebida pelas pessoas existentes nestas instituições:
– Na própria Marinha mesmo, eu tenho um irmão, ele que é
sargento, ele deparou muito com essa situação. Quando o
ônibus da FUNABEM levou eles até a Marinha, a primeira coisa
que disseram foi ‘guardem tudo, recolhe as carteiras que
chegou os ladrões’. Quer dizer, eles já tem o pessoal da FUN
ABEM como ladrões. Mesmo em Marinha, isso lá também no
Exército quando eu cheguei foi a mesma coisa. Geralmente se
sumisse alguma coisa já iam perguntando – ‘tem alguém da
FUNABEM aí?’ Era até engraçada a coisa, mas era a realidade.
(João, 31 anos).
Segundo depoimento do vice-presidente da ASSEAF, esta “transferência direta” dos alunos da FUNABEM para as Forças Armadas sem que o aluno passasse pelo “confronto de reintegração”, na medida em que “trocava uma instituição por outra” diminuiu consideravelmente a partir de 1982. Segundo o vice-presidente da ASSEAF, a análise feita pela Associação é de que, nesta década, as Forças Armadas não tinham mais necessidade de um grande contingente e os ex-alunos foram os primeiros a serem afetados pela medida.
O estigma de ex-aluno é percebido mesmo por aqueles que encontram apoio familiar ou institucional para ingressarem no mundo do trabalho, ou na escola pública, dando prosseguimento aos seus estudos. É na relação pessoal que surge causando dificuldades na aceitação de sua pessoa. A reação dos ex-internos é de omitir tal marca para se protegerem. Só após considerarem que são aceitos pelos seus atributos pessoais (identidade social real, segundo Goffman), podem então revelar sua experiência de colégio interno (o que caracterizaria sua identidade social virtual, Goffman, 1975, p. 12).
– ... Tanto que eu falei com D. Sônia, levei D. Sônia pra fazer
um debate sobre o menor abandonado num colégio, que eu
faço parte do grêmio no colégio. Eu tinha que apresentar
alguma coisa naquela semana, aí eu pedi a D. Sônia pra
apresentar. Então eu falei com ela pra não botar aquela posição
que eu era aluno, ex-aluno, não por vergonha, não por isso,
mas pelo motivo que as pessoas, às vezes, vê os alunos da
FUNABEM, mas vê assim, ou um bom aluno, ou um mal aluno,
se ele não ficar com pena de você. Porque às vezes a pessoa
fala assim: ‘não tenho pai’. Você fala assim: ‘é normal não ter
pai, é normal você não ter vó, não ter tia’. Mas a pessoa quando
te vê na FUNABEM, vai ter pena de você demais. Ou assim,
receio de você. Um dos dois né. Vai ter um dos dois pra você.
Então por isso eu pedi pra ela não tocar, não colocar pros
outros que eu vim, que era aluno, ex-aluno, nada disso. Eu
expliquei a ela pra não botar isso, não é por vergonha do
colégio que eu passei, mas sim pela mentalidade das pessoas
que vão aceitar, da maneira que as pessoas vão aceitar. (...)
“Tanto que quando eu vou, pra qualquer lugar que eu vou, não
falo que sou ex-aluno. Assim, ao passar do tempo que a gente
vai conversando e a pessoa já conhece a minha personalidade,
aí sabe o que eu sou mesmo, aí eu falo. Pô, como você é uma
cara assim, você foi. Aí eu digo, ‘não, eu fui mas ...’ ‘mas você
cara, você ...’ Você não pode ficarem exposição primeiro. Ou
você vai achar que é bom demais ou vai te achar pelo menos
alguma coisa diferente. (Heraldo, 20 anos).
Uma das defesas mais simples utilizadas para evitar a discriminação e a consequente rejeição é a omissão da informação, ou a criação de uma nova história pessoal. Um outro recurso ainda utilizado é retirar toda a marca registrada em documentos pessoais. Para isto dois artifícios são utilizados. Fazer um curso supletivo para que seu diploma não conste o nome da FUNABEM, ou tirar o certificado de reservista das Forças Armadas. É importante que, na busca de emprego, os documentos apresentados não tenham o carimbo da FUNABEM, que significa uma carta de apresentação desfavorável na competição com outros candidatos. Tendo um documento novo para se apresentar não mais precisam fazer uso de seus documentos anteriores e, assim, tentam escapar ao estigma que lhes diminui a possibilidade de inserção social.