Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 25 de 33

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Menores em tempo de maioridade

3. Apoio familiar

que teve tanto filho já que não podia criar? Eu lembro que a

impressão que eu tinha era assim – de que ela tinha filho e

largava lá e aí ficava livre. Aí, arrumava mais. Eu tenho uma

irmã agora que não deve ter nem um ano e é capaz dela

colocar lá também neste asilo.

Porque não fiquei tão revoltada com a separação, porque fez

bem, entendeu? Porque se não fosse assim, eu acho que

poderia ser pior. Ah, porque a vida que a minha mãe leva não é

nenhuma maravilha. Ela tá com três filhos pequenos agora com

ela, financeiramente não está bem. Eu não queria ter ficado

com ela.

Acreditamos que um estudo mais aprofundado sobre esta questão poderá mostrar com mais clareza a dor e os reflexos psicológicos que causam no indivíduo a separação dos pais. Acreditamos que a negação do abandono aqui analisada é uma forma de lidar com os

sentimentos dolorosos advindos do abandono 17 .

 

3. Apoio familiar

Para o ex-interno, a família representa o ponto principal de apoio e referência. A ligação afetiva com a família, mesmo que deteriorada, propicia-lhe moradia e alimentação possibilitando, assim, condições para que possa se deslocar na cidade em busca de trabalho. Além disto, a rede de relações sociais que a família mantém, facilita a entrada deste jovem no mundo do trabalho.

– Aí teve problema de emprego. Aí comecei correndo daqui,

correndo dali, mas eu já sabendo que a minha mãe trabalha de

empregada doméstica e o patrão dela arrumou um trabalho

para mim. Quer dizer, eu tava correndo atrás de trabalho, certo!

Agora, tava certo em vista da minha mãe que arrumou, né

(Heraldo, 20 anos).

Quando o ex-interno vive o afastamento familiar durante a internação de forma muito dolorosa, o retorno à família, no desligamento, torna-se muito difícil. Para este jovem, os familiares são vistos como pessoas interesseiras, que nada têm a lhes oferecer e que querem conduzir sua vida.

– A única coisa que eu tenho medo se eu fosse procurar (a

família) é deles quererem interferir na minha vida. Atrapalhar

tudo, no meu trabalho. Achar que a gente tem a obrigação de

ajudar em casa, se é que nunca me ajudaram, nunca me deram

apoio (Edvaldo, 26 anos).

O que pudemos perceber e que coincide com o estudo de Valadares, 1985, é que a volta à casa é vista como uma atitude interesseira dos pais, em especial da mãe. O ex-interno acredita que sua vida está se encaminhando razoavelmente e que seus familiares só estariam interessados em explorá-lo.

O jovem órfão, por não dispor de qualquer referência familiar, e aquele que por algum motivo não volta para a casa dos pais, é encaminhado para uma pensão, custeada pela FUNABEM durante três meses. Este tempo, como vimos anteriormente (ver Desligamento), é considerado suficiente para que o ex-interno possa se movimentar e conseguir um emprego, que lhe possibilite pagar aluguel, alimentação e transporte. Porém, este jovem considera que a pensão não consegue desempenhar o papel da família, na medida em que se encontra completamente desprotegido, sem ter quem o apoie e oriente. O ex-interno, então, se dá conta do seu total abandono. É um momento muito difícil para ele e de enorme sofrimento.

– Todo o pessoal da FUNABEM que não tem familiares vai para

uma pensão e fica ali de graça durante 3 meses, que é o prazo

pra você pagar o aluguel. Muitas pessoas tão nessa bola de

fogo, até hoje não conseguiu trabalho e tá morando na rua

(Ronaldo, 20 anos).

A instituição inculca nos internos uma mensagem ambígua sobre sua família. O que pudemos observar é que no internato é veiculada uma desvalorização da família, por parte dos funcionários, considerando-a incapaz. Esta incapacidade é justificada pela internação e abandono dos filhos.

– Eu me lembro de uma coisa que falavam lá (internato) e que

marcou, né. Eles falavam muito que a família que a gente tinha,

só tinha que aceitar porque não tinha mais jeito, o importante

era a família que a gente ia construir. Isso foi uma coisa que

ficou forte (Eliza, 19 anos).

Apesar de, durante toda a fase de internação, a mensagem institucional que é passada ao jovem ser de desvalorização de sua família, na fase do desligamento, esta mesma família, ou qualquer relação de parentesco é valorizada. O contexto, portanto, no qual ela é valorizada, refere-se muito mais às necessidades organizacionais, como já indicamos. Face ao desligamento, a família se torna o único ponto de apoio na vida social, ponto de referência este, tão desvalorizado pelas autoridades institucionais até então. O interno se vê, portanto, tendo que mudar a representação inculcada pela instituição. Frente à pressão de ter que se desligar, ele valoriza e anseia pelo reencontro familiar. Este reencontro, entretanto, quase sempre se dá em meio a muitos conflitos, como indicamos anteriormente, e enfatizamos aqui, por mais um agravante que é esta mensagem contraditória, que a instituição utiliza conforme os objetivos que quer alcançar.

Após o desligamento, alguns ex-internos se empenham na busca da família de origem que nunca conheceram. Outros, veem a constituição de sua própria família como uma forma possível de inserção social. Esses dois caminhos, encontrados por esses jovens, denotam a importância que a família desempenha em suas vidas.

É comum aos ex-internos a idealização da família de procriação. Eles acreditam que esta família lhe dará o tão sonhado afeto, e que só serão capazes de formar uma família quando se encontrarem em condições reais de darem aos filhos tudo que sempre desejaram e não puderam ter. A ideia de internação de um filho é inadmissível e rechaçada como uma tentativa de evitar que sua história familiar se repita.