Menores em tempo de maioridade
– “Ladrão, Viado, Estudante ou Trabalhador”
que gosta de homem e gosta de mulher, entende? O Mauro foi
uma pessoa que eu tive relação com ele durante 6 anos. Eu
acabei com ele agora. Com ele foi por dinheiro. Ele me viciou
pelo dinheiro... Mas eu passei a gostar dele só que ele não
entendeu ... Pagava... Mas parei com ele porque ele já tem
cinquenta e poucos anos. Tem 54 e eu tenho 30. Em vez de ser
eu mais machão do que ele, ele é que tava ... Porque o lado de
tóxico dele. Ele faz as três coisas: fuma, bebe e transa. Quer
dizer, você que é um cara que só transa, você não tem
condições de pegar um cara desses. Você manter relação
sexual com ele, na hora a sua potência ... Você transa com o
cara, transa e na hora o cara não ... Eu resolvi parar com 30,
parar porque para mim, a família que existe, a minha mãe
morreu. (...) O Mauro nunca me ajudava em emprego, sempre
que fiquei desempregado, eu continuava transando com ele,
mas ele me explorava, ele aproveitava do meu fracasso; eu
ligava para ele, queria dinheiro, ele sabia que eu estava duro, aí
transava da forma dele, me dava grana, sempre aumentando o
dinheiro, pagando muito a mais que os outros caras. Porque
esses caras pagam mais. No caso, quando você tem uma
pessoa certa, eles pagam mais, eles te oferecem o sexo dele,
não o que você faz (...) Os alunos procura como Refugio, é
como eu falei, em termos de homossexualismo. Tudo hoje em
dia na vida do ser humano é um Refugio. Você procura um
Refugio para preencher um vazio. (Cesar, 30 anos).
– “Ladrão, Viado, Estudante ou Trabalhador”
A representação crítica e de sofrimento da experiência de vida nos internatos da FUNABEM é resumida de forma dramática por um dos entrevistados. Poucos entrevistados falaram sobre o uso de tóxico no internato. Aqueles que abordam esta questão, se referiram a ela como sendo uma prática comum e veiculada pelos colegas. Ele fala, em tom de revolta e sem esperança para o futuro, das pressões as quais um interno pode sofrer dentro dos internatos da FUNABEM e frente às quais não encontra qualquer possibilidade de escapatória ou fuga. Frente aos constrangimentos e violências, tanto dos inspetores como dos colegas, ele nos dá um retrato do desespero a que esta situação de intenção pode levar o indivíduo.
– FUNABEM, pô o cara tá lá, pô o cara tem que ser forte, tem
que ser forte mesmo! Porque lá, o cara sai de lá ladrão, ou o
cara sai viado. Ou o cara, sai estudante ou trabalhador. Porque
lá os cara faz força mesmo, insiste mesmo: aí fuma isso aí – um
baseado aí e tal. O cara vai, – ‘não tô afim’, diz. O cara tem que
ser forte mesmo, segurar mesmo porque se o cara fumar, a vida
dele acabou. Fumou a primeira vez, aí não tem não. Daquele
fumo que você me deu naquele dia. Chega dar um. Dali
começou a vida do cara. Acabou o trabalho, acabou o estudo,
agora só quer saber daquilo, só daquilo. Pô viado, é a mesma
coisa. Pô, se o cara for até lá, pô os cara vão começar a me
circular, ficar olhando aqui assim para ele. Pô, esse cara é tal,
esse cara é isso. Se ele deu mole pode crer, se ele deu bola,
dançou. Pô, agora eu entrei prá lá, entrei na minha. Briguei lá
umas cinco vezes só. Briguei na FUNABEM. Briguei por causa
de bola. Briguei só por causa de parada boba lá. (...) Castigo
era só cubículo. Um quarto escuro aqui assim. Botava o cara lá
e esquecia do cara (...) Fugir? Prá que? Eu ia pra onde ... O
negócio é enfrentar a barra do jeito que ela é. (...) (A relação
com os inspetores) Com alguns era boa. Eu já quase cometi
uma morte já. Então eu fui e pensei duas vezes. Não pô, nem
enfrentei a vida ainda, nem sou pai ainda, nem casei ainda,
porra já vou pra cadeia já. Vou deixar passar esta. Eu ia
cometer um crime lá na FUNABEM. Aí pensei duas vezes. Se
eu não penso, se ajo por instinto, que nem animal, hoje eu tava
aí preso por assassinato. Porque FUNABEM é foda. Se o
inspetor bater uma vez, assim, bateu uma vez, o cara deixou,
ele servou. Agora ele bateu o cara reagiu, aí tá ele já tica logo
na atividade, logo. Então pô, os coroas lá, pô, tá certo, pô, só
grande e tal, os cara vieram me bater. Pô eu falo: O ... acabou
já, pô, pô, eu grandão meu corpão apanhando. Pô, os cara me
bater na frente de molequinho aqui assim, passando a maior
vergonha, não! Eu não posso deixar os coroas vir assim em
dois, né. Vem em dois ou em três, os caras coroas assim 3. Considerações sobre a homologia das
grande, pô os coroas lá um só não vai dar, então eles vem em
dois e vem em três. Aí então um lá me agarrou lá. Aí eu pô, o
coroa magrinho, eu falei se eu pegar ele, eu vou matar ele. Pô,
então ele ficou me agarrando pela camisa, lá tal. Aí eu fiquei só
assim: ‘licença aí’ ... Aí veio outro, ‘segura esse cara aí, que
esse cara tá folgado prá caralho, esse cara tá metido pra
caramba’. Pô, aí veio de dois né, então tá, eles me agarraram,
me deram um. Pô, tinha um pedaço de ferro assim, eu fui assim
e falei se pegar esse ferro aqui, se eu roubar ele aqui assim eu
vou matar esse ou aquele ali. Então eu fui e falei: ‘Se vocês
quiser conversar, vocês vão ter que me largar e conversar’.
‘Não, tu vai pro cubículo agora! Pô se você acha que eu devo
entrar aqui, fica comendo comida sacaneada, fica brancão ali
dentro não. E eu não vou entrar ali dentro não. “Então a gente
te bota ali.’ Aí eu cheguei e disse: ‘tenta aí’. Eles vieram, fui e
peguei aqui assim, pô, peguei esse pedaço de ferro aqui, assim
pô, o coroa me deu a maior linha, assim pra mim acertar a
cabeça dele, quando eu ia acertar, eu pensei: pô, não, tô muito
novo pra cair na cadeia, não casei ainda, não aproveitei a vida
e já vou ficar preso. Eu fui e larguei o pau e eles foram e me
deram ideia. Dá ideia é conversar, pô, na moral, conversar
calmo. Eles queriam é, ‘não é nada disso e tal’. Aí aceitei a
ideia dele e fiquei numa boa. (Marcelo, 18 anos).
Todas essas violências, narradas acima, vividas no cotidiano do internato, sem que o ‘menor’ tenha direito a fazer queixa, denúncia ou escapar desse ambiente desumano, certamente marcam uns e outros mesmo que de forma diferente. O que podemos dizer na presente fase deste estudo, é que alguns, em geral, mas não necessariamente, aqueles que não têm qualquer referência familiar, são mais massacrados. Certamente os mais sensíveis e aqueles que não descobrem uma forma de conviver com esta violência, se revoltam, se confrontam e se expõem ainda mais ao “porrete” e aos atos arbitrários dos funcionários, muitas das vezes, com a cumplicidade das autoridades locais.