Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 30 de 33

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Menores em tempo de maioridade

3. Perigos da chamada “vida do crime”

exigiram que eu tinha que pagar luz, aluguel, esse negócio

todo. Aí eu me revoltei com aquilo. Aí saí de casa e entrei em

cana, tô até agora em cana. Fui obrigado a roubar não por

esporte, por necessidade (Benedito, 39 anos, detento).

Apesar de colocarem a responsabilidade na falta de apoio familiar, eles preservam todo o contato possível com a família, chegando a representá-la da maneira idealizada. Os detentos, em especial, valorizam a família, tanto a de origem, quanto a de procriação e a consideram como mediador entre a prisão e o mundo social.

– É, e tô até agora preso. E agora o meu pai, a minha mãe vem

me visitar de vez em quando. Arrumei uma mulher, a mulher

também me dá um apoio fora de série. Quer dizer, eu tenho

duas filhas e eu tô querendo sair daqui agora e a minha opção

é trabalhar (Benedito, 39 anos, detento).

 

3. Perigos da chamada “vida do crime”

A marginalidade leva o indivíduo a viver situações que o colocam frente a vários perigos, inclusive a perda de sua vida. Vários ex-internos relatam a perda de amigos do colégio interno, em combate com a polícia ou em disputa entre marginais.

– Era ex-aluno da FUNABEM. Eles foram roubar um objeto e aí

roubaram uma velhinha. Velhinha de idade, né? Roubaram e

chegou uma pessoa, acho que foi o pessoal do Morro do Saçu.

Deram tiro neles, pra matar mesmo e pegaram. Um pegou aqui

e outro na cabeça. (Claudionor, 20 anos).

Para os ex-internos, ser um marginal, como aqueles divulgados pela imprensa, implica em ter uma vivência distinta da que tiveram no internato. Podemos pensar, então, que as mortes dos ex-internos se devem ao fato de que esses jovens não possuem uma vivência do mundo marginal, que lhes possibilite conhecer as regras estabeleci das entre o mundo do crime e a polícia. Esse desconhecimento das leis da marginalidade coloca-os frente a um mundo no qual uma atitude considerada errada pode, inclusive, significar a sua morte.

– Eles pensam em ser um grande marginal tipo Escadinha,

esses caras. Ser dono de boca de fumo, mas só que eles são

muito jovens, cara novo. Eles pensam que a vida ...Escadinha,

essas pessoas, eles pensam que entraram assim... de patada,

saíram dando patadas em todo mundo. Foram os caras que

souberam usar a cabeça, então, para entrar nessa vida, tem

que usar a cabeça. Se não usar a cabeça na primeira entrada

de perna que ele der, ele escorrega, cai, entendeu? Morre. Dá

adeus ao mundo (Ricardo, 18 anos).

Uma outra experiência que os coloca também frente à morte é a prestação de informações à polícia. Neste serviço, o ex-interno é utilizado como a1caguete que se infiltra no tráfico de drogas para conseguir informações que levem a polícia à apreensão de drogas e à prisão de traficantes. O indivíduo que presta este tipo de serviço é mais conhecido como “X-9” ou “peito-de-aço”, pois num confronto entre polícia e traficante, eles se colocam à frente sendo os primeiros a morrer. Assim, de acordo com Foucault (1981, p. 132), a polícia estrategicamente utiliza um contingente de ex-alunos, fazendo-os viver a ilusão de serem policiais, sonho da grande maioria deles, quando na verdade apenas servem à polícia sendo expostos em demasia e, portanto, facilmente eliminados. A polícia estabelece com estes “X-9” um jogo perverso que invariavelmente leva-os a morte.

– Prestam serviços. Muitos deles morrem, morrem porque são

obrigados a interferir na bandidagem que é o Rio de Janeiro,

hoje em dia, né? Então quando eles voltam no local a polícia

coloca eles com ‘peito-de-aço’. Quando ele tá na blitz é como

se fosse um detetive, ele tem que se infiltrar na bandidagem.

Vai lá, compra um bagulho ... Aí quando vai ter a blitz, então

eles que entram na frente. Os bandidos geralmente metem fogo

neles, são os primeiros mortos (César, 30 anos).

A vida marginal é marcada por confrontos entre marginais e a polícia. Nesses confrontos existe a possibilidade dos marginais serem mortos ou presos ficando então confinados num presídio onde os riscos por vezes são maiores do que na vida social. No decorrer da pesquisa tivemos acesso à penitenciária “Milton Dias” onde foram realizadas algumas entrevistas com ex-internos

detentos 23 . Eles relataram que a vida na prisão é bastante tensa e a preocupação em estar vivo é constante. Assim a vida na prisão – local onde os detentos deveriam estar protegidos – é tão arriscada quanto a de um marginal que se encontra em liberdade, só que na prisão não há muitas opções de se preservar a vida. Especialmente no período em que realizamos as entrevistas, na penitenciária havia um clima de forte tensão devido a transferência de determinados detentos, que fazem parte da Falange Vermelha, para um presídio

de segurança máxima 24 .

– Eu também tô isolado, certo? No momento comesse

movimento, eu me senti um pouco oprimido. Eu senti também

certas pessoas cabulosas rondando a porta do meu cubículo.

Eu senti a morte de perto. Então eu senti que, às vezes, eu

posso morrer de uma hora pra outra e se eu puder preservar

um pouco mais a vida, tem que preservar (Daniel, 29 anos,

detento).

A passagem do ex-aluno para a marginalidade, como já foi visto anteriormente, se dá a partir de várias tentativas fracassadas de inserção social através do trabalho. A marginalidade, então, é a maneira encontrada por eles para sobreviver. Contudo, a vida marginal não é tolerada no meio social, sendo necessário de algum modo conter esses indivíduos dentro de um controle social. Assim, é exigido do Estado o controle desses indivíduos e é através do poder judiciário e da polícia que se tenta contê-los e organizá-los. A prisão surge, então, como a instituição tutelar que isola, controla e que pretende devolver esses indivíduos “recuperados” à vida social. É interessante notar que, no caso dos ex-alunos detentos, a prisão toma-se seu segundo tutor, na medida em que o internato também funciona como uma instituição tutelar. Assim, para aqueles ex-alunos que descrevem uma trajetória de vida passando pelo internato, pela polícia e pela prisão, observa-se que o predomínio do poder e tutela do Estado no controle de suas vidas é total.

 

21 Escola de Infratores da FUNABEM situada no Rio de Janeiro.

22 Todos esses entrevistados a que nos referimos são pessoas com as quais estabelecemos conhecimento com o objetivo de realizar a entrevista, não havendo um relacionamento anterior entre pesquisador – entrevistado.

23 O recente censo penitenciário realizado no Rio de Janeiro pelas Secretarias de Justiça e Planejamento com a participação do IBGE revela que dos 8672 presos do Estado, 21 % (1821) são egressos da FUNABEM.

24 A Falange Vermelha é uma organização que é acusada de controlar grande parte do tráfico de drogas do Rio de Janeiro. Na época da realização das entrevistas ocorreram várias mortes na penitenciária sendo, inclusive, adiado por diversas vezes nosso comparecimento ao Complexo Frei Caneca. Todos os entrevistados relataram que estavam no “seguro” – local da penitenciária onde os detentos ficam sob uma maior segurança.