Menores em tempo de maioridade
X. Futuro – possível?
Levando em consideração o funcionamento do internato como instituição total e todo o sofrimento que causa aos internos, faremos aqui algumas observações sobre as representações dos ex-internos acerca de seus “projetos de vida”.
E para que se possa pensar em futuro, torna-se necessário correlacionar as noções de tempo e espaço. A monotonia e a mesmice contidas no funcionamento cotidiano dos internatos, por si só, já nos indicam dificuldades que esses indivíduos poderão ter ao fazer seus projetos.
Como bem mostram os estudos sobre o internato (Guirado, 1986; Valadares, 1985; Altoé, 1990) o indivíduo institucionalizado é cerceado tanto na sua liberdade do uso do tempo, como do espaço.
É comum perceber na fala do ex-interno uma falta de esperança e de opções que o permita fazer planos concretos para o futuro próximo.
Dentre os jovens entrevistados encontramos alguns que não conseguiram expressar qualquer “projeto de vida”. Os jovens que logram fazer tais projetos são aqueles que têm assegurado um mínimo de infra-estrutura necessária à sobrevivência. São aqueles que retomaram à família, ou que conseguiram um emprego que lhes assegure moradia, alimentação e gastos com transportes. Assim, nos permitimos fazer uma consideração, talvez óbvia, de que somente conseguindo uma segurança mínima de sobrevivência e inserção social o ex-interno é capaz de “sonhar”, fazer “projetos de vida” e se empenhar na busca da realização dos mesmos.
Trataremos aqui das seguintes representações que o ex-interno faz sobre futuro: desesperança e descrédito na capacidade individual; possibilidade de esquecer o passado e mudar de vida; compra da casa própria, trabalho e constituição da própria família; ingresso nas Forças Armadas.
Para os ex-internos, a ideia de futuro não inclui projetos e sonhos mas expressa, sobretudo, a necessidade de trabalhar para garantir a sobrevivência imediata.
– O meu ideal é esse aí, pagar o meu quarto e continuar
curtindo as minhas praias, sábado, domingo. Não procurar
muita coisa. Eu fui criado, eu vim no mundo pra não esquentar
a cabeça. Eu não tenho ambição na vida. Não quero ter
ambição (Cesar, 30 anos).
Este pensamento parece revelar uma marca comum a quase todos os jovens que viveram muitos anos internados, especificamente, pela relação impessoal e atitude incrédula do inspetor quanto ao futuro dos internos. Desta forma, podemos perceber que a instituição é eficiente nos seus métodos de inculcação, de tal forma que os ex-internos se percebem sem qualidades ou atributos, valorizados pela sociedade, que lhes permitam realizar algum sonho.
Outros, embora apresentem dificuldade de elaborar ideias, conseguem pensar no futuro como algo imediato, isto é, alguma coisa que eles podem fazer a partir do que aprenderam quando ainda se encontravam nos internatos. Para eles, a capacidade individual e o conhecimento da tarefa é que vai determinar a concretização do seu sonho.
– O que você pensa da tua vida, o que você espera da tua
vida?
– Eu espero que a assistente social faça um clube de natação.
Porque na EMA (escola da FUNABEM) eu fazia natação, eu
tirava primeiro lugar no nado livre. (José, 19 anos – albergado
da Associação Irmão Esperança).
Aqueles que conseguem fazer planos, privilegiam a construção da casa própria, o emprego e a constituição de sua família, como forma de levar uma “vida normal”, ou seja, ser cidadão como os outros. A família, o trabalho e a moradia são valorizados por nossa sociedade e reconhecidos como fundamentais para uma inserção social adequada do indivíduo.
A constituição da própria família é um sonho acalentado, sob a condição de primeiro conseguir ter uma vida organizada e estruturada, além de condições financeiras adequadas para tal.
A primeira coisa que o ex-interno pretende ter assegurado, através de um emprego, é o seu sustento. É, também, através do trabalho que acreditam ser possível adquirir uma casa, bem como, bens de consumo. Aqueles que se sentem seguros no trabalho que realizam expressam, sobretudo, projetos de mudança de cargo ou a realização de trabalhos mais satisfatórios. O estudo é por eles considerado como uma forma eficaz de atingir tais condições. O crescimento profissional é também associado a conclusão do segundo grau, realização de cursos que forneçam uma maior especialização, bem como, ingresso na universidade.
–... Eu quero fazer o vestibular, ir até a faculdade. Eu sempre
quis ser laboratorista, porque eu fiz um curso de auxiliar de
patologia clínica, então eu queria seguir essa carreira. Aqui
mesmo (Eletrobrás) tem opção de eu trabalhar nisso, não tem
ninguém formado... (Ronaldo, 20 anos – trabalha como
contínuo na Eletrobrás).
Evidencia-se, no relato dos ex-internos detentos o “sonho” de que o futuro seja completamente diferente da vida que levaram até então. É comum a preocupação de esquecer o passado e há o desejo de não retomar à comunidade de origem, onde a rede de relações sociais certamente propiciaria o retomo à conduta anti-social. Desta forma eles desejam mudar de Estado ou de bairro, buscando maiores chances de conseguir um emprego e consequentemente mudar de vida.
O “sonho” de ingressar nas Forças Armadas é comum a quase todos os ex-internos. Este ideal é inculcado desde a infância pelas autoridades institucionais (Altoé, 1990). Não se trata, portanto, de um ideal que o indivíduo constrói para si, mas sim, de um ideal institucional.
De qualquer forma, o que se observa é que eles falam desse sonho acalentado, mas que não foi possível sequer a tentativa de realizá-lo. Aqueles que ingressam nas Forças Armadas, em geral, o fazem durante ou logo após o desligamento do internato.
Consideramos estas reflexões sobre a possibilidade de “sonho” ou planejar “projetos de vida” importantes de serem esboçadas neste trabalho, devido a frequência, surpreendente para nós, de como o ex-interno expressou apatia e desesperança em relação ao seu futuro próximo.