Menores em tempo de maioridade
2. “Influências recebidas”
Veremos agora algumas justificativas encontradas pelos ex-internos, para a entrada no mundo marginal. A maioria dos ex-internos justifica o encaminhamento para a marginalidade, a partir de uma visão individualista da questão. Assim, a escolha desse tipo de vida é sempre uma opção individual sem levar em conta um conjunto de fatores concorrentes. Essa visão individualista faz parte de uma ideia de culpabilização do indivíduo inculcada pelas autoridades institucionais do internato. Com esta ideia, o indivíduo é culpado por estar na marginal idade, retirando-se qualquer responsabilidade do internato e atribuindo a este uma representação de lugar “bom” onde é oferecido ao interno a oportunidade de estudar e se profissionalizar. Dessa forma é considerado que aqueles que não são capazes de aproveitar do que o internato oferece é porque já carregam em si a tendência a se tomarem um marginal. A eficácia dessa inculcação pode ser observada na fala a seguir.
– Muita gente da minha época fez muita besteira, depois que
saiu de lá. Mas eu acho que por desequilíbrio da própria família,
porque o colégio deu o que ele pôde, quer dizer, ele deu o
máximo que ele pôde, pegou quem tinha condições de pegar,
né (Adelaide, 35 anos).
Um outro fator considerado importante consiste nas influências recebidas de amigos de rua ou de internato, que já estão tendo uma prática de vida considerada marginal. Novamente a responsabilidade recai sobre o indivíduo que não sendo “forte” o bastante para resistir, também é levado a se tomar um marginal:
– Assim, o que me levou, talvez, a enveredar no crime foi uma
influência da... Eu vi coisa, sinceramente, porque ali eu vi
coisas muito desagradáveis, de pessoas fumando maconha,
homem fazendo o outro de mulher. Então, ali, eu vivi em meio
muito promíscuo – a vida nesse colégio interno. Mais não foi só
o colégio interno. Foram as influências, quando eu cheguei
onde eu morava, de ver os rapazes novos com relógio, cordões,
e eu me deixar levar por aquilo. (Henrique, 33 anos, detento).
Outra justificativa encontrada é a do “pulo do gato”. Nela ninguém consegue sobreviver percebendo um salário mínimo, tendo como saída para esta equação salarial a prática de pequenos furtos que vem contribuir para a economia doméstica e para a aquisição de bens de consumo. Talvez esta justificativa fuja um pouco da visão individualista na medida em que, nela, o indivíduo não é responsabilizado por ter uma vida marginal.
– Então com 40 mil e 800 cruzados (salário mínimo na época),
como vive uma pessoa lá fora, como vai sobreviver, ainda mais
sendo chefe da família. Não vou dizer, nem muito um casal com
dois filhos. Com 40 mil não vai conseguir grande coisa, é onde
é que, as vezes, a pessoa tem que dar o pulo do gato, certo!
Então, de um jeito ou de outro, tem que arranjar qualquer coisa
por fora pra poder ajudar. Aí a gente é o seguinte né... Eu
trabalhar, eu trabalhava! Mas às vezes, a pessoa vê condição
de arrumar um dinheiro, as vezes, mais fácil, a pessoa não vai
se sacrificar tanto, certo? Apesar de hoje em dia eu tô, como se
diz, eu tou sofrendo na carne, né as responsabilidades do que
eu fiz, os atos que eu pratiquei, mas tá tudo certo, pelo menos
já deu para eu sentir o outro lado da vida. Mas eu acredito
devido esse acontecimento, que eu tive que dar o pulo do gato
porque com o salário mínimo não dá pra bancar um chefe de
família lá fora (Daniel, 29 anos, detento).
Outro fator, considerado por eles, como responsável pela entrada no mundo da marginalidade, é a falta de apoio familiar. A relação que é estabelecida entre os ex-internos e a família é marcada por conflitos existindo a vivência de sentimentos hostis em relação aos parentes que os abandonaram no internato e não os apoiaram quando foram desligados deste.
– O que eu fiz pra mim vir preso? Eu não encontrei apoio de
ninguém, de pessoa nenhuma, quando eu achei o meu pai e a
minha mãe eles deram uma casa pra mim morar e depois eles