Menores em tempo de maioridade
2. Interpretação dissonante das normas inculcadas
2. Interpretação dissonante das normas
inculcadas
Dentro da representação dos ex-internos encontramos um paradoxo importante. Se eles percebem a instituição como positiva, entretanto, sem exceção, eles afirmam que não colocariam seu filho no internato. Mesmo que não consigam tecer argumentos para tal afirmação, é sempre carregada de emoção, silêncio ou choro. Outros enfatizam a falta de carinho dos funcionários e a ausência dos pais, como fatores que os fizeram sofrer muito. E assim se referem ao tempo do internato como uma fase da vida da qual não querem pensar, preferem esquecer. Nessas horas é como que se surpreendessem de estarem falando sobre suas próprias vidas e muitos comentaram que era a primeira vez que assim falavam. Neste sentido, ficamos com a impressão que é uma experiência de vida que fica reprimida sem chances de maiores elaborações por parte de cada indivíduo. Ele tem que “tocar a vida prá frente”, sem olhar para trás, porque não há o que rever. E “tocar para frente”, significa para muitos algum lugar sem rumo; para outros, é pensar o futuro dentro das perspectivas de trabalho que têm no momento, e para alguns poucos existe a possibilidade de estudar, de mudar de trabalho, de ter algum projeto para o futuro.
Várias situações são percebidas pelo ex-interno como experiência negativa. A principal queixa é a falta de carinho, a falta de conversa e diálogo com os funcionários dos estabelecimentos. Em oposição ao carinho e atenção, falam das ordens arbitrárias e “absurdas” que recebiam e tinham que executar. Reclamam não só da falta de liberdade para conversar com os funcionários, como com os colegas em momentos de reunião natural, por exemplo, nas horas de refeições. O que chamam de “regime caxiado” é uma forma de resumir todos estes constrangimentos artificiais e desnecessários ao funcionamento institucional.
O atendimento massificado, a desconsideração pela individualidade de cada interno, o uso de uniforme, a impossibilidade de fazer qualquer tipo de escolha, ter que viver a rotina e a “igualdade” entre os colegas dentro de regras bem definidas e rígidas – tudo isto é percebido como marcas negativas da vida no internato. A festa de aniversariante do mês também era vivida como parte dos rituais de grupo e não como uma comemoração de uma data única que marca sua existência.
– Marcou porque (chora) você tinha que ser o tempo todo igual
a todo mundo, né? Porque era muita gente, era aquela
massificação só, tinha que ser igual, tinha um monte de regras.
Você não podia dizer que não gostava de um legume. “Todo
mundo comeu, todo mundo tem que comer! “Essas coisinhas
pequenas assim. Roupa, todo mundo igualzinho. Você não
podia escolher a roupa que você queria usar. Todo mundo de
roupa igualzinha, uniforme o dia inteiro. (Eliza, 19 anos).
A falta de diálogo, de serem reconhecidos como pessoa, e não considerados como um número ou “presidiários”, marca a maioria dos indivíduos. Este sofrimento enorme, que muitos nem sequer identificam sua origem, massacra os mais sensíveis, ou aqueles que encontram menos possibilidade de se situarem nessa experiência, e nos parece marcar o indivíduo para sempre.
– O que eu acrescentei a mim de bom, foi eu mesmo, porque
não tinha ninguém para me orientar. As coisas boas eu aprendi
mais foi depois que eu vim para cá (no trabalho). Porque lá, eu
sabia que não podia fazer isso, isso, isso e aquilo, porque ia se
dar mal. Porque veja você, diálogo assim, conversar na escola
assim, eu não conversei não. Com ninguém, eles não
conversam, eles visam o Colégio Interno muito como se fosse
um presidiário, sabe, não tem ninguém para conversar. Porque – Transferência
o pessoal fica ali preso; vai sair dali quando não tiver nada para
fazer, vai fazer besteira. A tendência é piorar (Luis Carlos, 24
anos).
As poucas referências que surgiram em relação ao trabalho dos técnicos – assistente social e psicólogo – foram referências de descaso, desatenção e de um trabalho voltado para o funcionamento organizacional e não para o benefício do interno.
A disciplina, o castigo, a violência física (como veremos com mais detalhes adiante) e o ócio também são representações de situações negativas e de sofrimento. A referência ao ócio – “mofei muito lá” – nos falado pouco que ganharam com a experiência do internato e do tempo perdido sem estudar, trabalhar ou aprender a ter autonomia.
O furto de roupas pessoais ou de cama, como também de objetos por parte dos colegas, e considerado sem solução no funcionamento institucional, também é visto como uma situação geradora de conflitos.
– Eu tinha muitos amigos, tinha também um amigo que não
gostava da gente e toda hora brigava, queria tomar as nossas
coisas e eu não deixava. Porque o colégio interno é a lei do
cão. Se a senhora tiver um negócio desse aqui, e outro pedir
para ver, e a senhora deixar, perde, toma e se não tiver
disposição para reagir, para tomar aquilo que é seu, não deixar
eles tomar, perde tudo, fica só de short. Igual eu vi muitos
alunos lá perder tudo, a visita deles vinha, trazia aquela bolsa
de compras pra ele, biscoito, leite, coisa de alimento, então, os
alunos mais pobres tomavam as coisas deles. De mim eles não
tomavam porque eu era um sarna invocado, eu era um sarna
invocado. (Benedito, 39 anos).
A seguir vamos falar de algumas referências que foram muito enfatizadas em vários depoimentos como uma representação crítica do internato: a transferência, a disciplina, a violência física, o castigo e a violência sexual.