Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 18 de 33

Páginas do PDF

Menores em tempo de maioridade

– Homologia das Estruturas das Instituições Totais

c) Temos algumas indicações que, apesar de serem dados ainda pouco organizados, nos mostram como o indivíduo é tratado como “louco” quando expressa seu sofrimento pelo confinamento ao qual é submetido ainda criança, ou faz reivindicação e se revolta frontalmente com as autoridades institucionais. O livro autobiográfico de Collen oferece dados ricos neste sentido (Collen, 1987).

Pela delimitação de nosso estudo atual, não nos cabe aqui fazer maiores considerações sobre estas graves questões que levantamos, mas faremos considerações que corroboram para esses indicadores acima citados, analisando a vida das pessoas que saem dos internatos.

No nosso estudo sobre o encaminhamento na sociedade de jovens que viveram em internatos tivemos a oportunidade de entrevistar aqueles que participam ou participaram das Forças Armadas e aqueles que estão na prisão. Tivemos informações sobre a existência de outros que estão em hospitais ou colônias psiquiátricas, mas que por dificuldades inerentes às condições de pesquisa não chegamos a explorar estas situações. Assim, falaremos aqui especificamente das homologias das representações das estruturas das instituições totais considerando o internato, a penitenciária e as Forças Armadas.

– Homologia das Estruturas das Instituições Totais

A homologia das estruturas do internato e do quartel é tão marcante que os entrevistados ao falarem dessas instituições, muitas vezes, no minavam uma pela outra, nem sempre percebendo o lapso que haviam cometido. Uma das primeiras características que se dão conta, no que se refere às semelhanças do internato com o quartel e com a prisão, diz respeito à estrutura hierárquica. A percepção parcial ou global desta estrutura lhes permite considerar que se trata do mesmo tipo de instituição total vivenciada no internato. Desta forma a situação nova que se lhes apresentava era identificada com a anterior, fazendo com que rapidamente pudessem saber como lidar com a situação. Vejamos nos primeiros exemplos o quartel e no último, a prisão:

– Fiquei em casa esperando passar o tempo. Aí veio o quartel,

carreira militar; tentei pensando que era uma coisa nova. Mas

nada novo. Era a mesma coisa. Pelo que eu pude ver da vida

militar para a vida do colégio, onde eu estava, era bastante

parecido. Na disciplina, na maneira como eles tratavam a gente,

é parecidíssimo. Tanto é que eu conversei com o Heraldo uma

vez, ele também serviu, aí a gente fomos juntando as peças pra

ver o que dava. Aí fizemos uma brincadeirinha: botou cabos no

lugar de monitores, sargento no lugar de inspetores, e botava o

chefe de disciplina no lugar do comandante da companhia. Fica

parecidíssimo mesmo! E o coronel no lugar do diretor. No caso,

o (diretor) que tinha aquelas formaturas, que ele falava aos

domingos. Sempre faziam isso com a gente lá! E tinha o

general que a gente pode colocar no lugar da (provedora).

Tinha a banda, tinha aquele negócio todo, chegava o general

num carro preto, tinha tudo isso lá, parecido assim. Os alunos

era os soldados, ficavam lá pra o que der e vier. Aí quer dizer,

eu não achei muita diferença não, eu não gostei não! Era

bastante parecido com o colégio interno, sinceramente eu não

gostava do colégio interno. Tava enjoado daquela vida!

Imaginava passar a vida toda no mesmo esquema.

(Você se adaptou bem ao sistema do quartel?)

– Pra mim foi fácil, porque eu já vinha antes de uma vida

parecida. Então o pessoal até estranhava ‘pô parece até que

você já é velho aqui dentro’. É, o pessoal falava pra mim,

parece que você já tem mais de não sei quantos anos de

quartel, porque eu sempre me saí bem, me safava bem das

situações, aí comecei a ver que era parecido demais; que eles

queriam fazer o mesmo no colégio interno, de preferência a

Escola Rodolfo Fuks, principalmente né, era tomar a escola

como um quartel. É, eles queriam torná-la um quartel. (Mauro,

26 anos).

– Eu aconselharia aos pais e as mães não colocar o seu filho

no colégio interno. Porque colégio interno não procura assim,

vamos dizer, melhor instruir o garoto cá pra fora. Ele ensina um

regime pro garoto como se fosse um regime de quartel, é como

se diz o colégio interno é assim o aluno é o soldado, os

monitores são cabos, os inspetores são sargentos, o chefe de

disciplina no caso é o coronel, o subdiretor é o major né, e

assim vai e diretor é o comandante de todo mundo, tipo um

quartel, um regime, então, é como eu falei, o colégio interno

não prepara o garoto pra vida lá fora, ele instrui ali dentro o que

ele tem que fazer lá dentro, o que não pode saber, o horário de

café o horário do almoço da escola da oficina, só isso é sempre

aquela vida cotidiana, sabe a mesma coisa todo dia, todo dia

nunca tem assim uma variação, não tem uma reunião que

deveria te mostrar o que tá acontecendo aqui fora qual o

procedimento que nós temos que usar pra poder se sair melhor

na sociedade a maneira como a gente tem que agir porque,

olha só, eu fico olhando muitas coisas lá dentro, às vezes, você

quer fazer uma coisa mas não tem ninguém pra te dar aquele

empurrão, sabe. (João Carlos, 20 anos)

– Ajudou no ritmo de vivência, porque no colégio interno era

trabalhar e estudar; então quando eu cheguei na cadeia, o

colégio interno também é um sistema fechado – só que não tem

muros – então, ali eu vivi com outras pessoas, aprendi a

respeitar o direito de outras pessoas. Ao chegar aqui na cadeia

encontrei a mesma coisa, fui trabalhar e o rapaz falava”

monitor”. No colégio interno também tinha monitor, então eu fiz

uma relação; passei a viver aqui, como eu vivia lá. Falar pouco,

estudar e trabalhar. Então a partir dali, eu vivi bem,

aparentemente, porque quem vive na cadeia não vive bem ...

(Henrique, 33 anos).

A grande maioria dos ex-internos considera que gostaria de ter entrado para as Forças Armadas. Poucos são aqueles, entretanto, que conseguem realizar o sonho de ingressar e seguir carreira. Seja porque os próprios internos não se adaptam a vida do quartel, seja porque são dispensados pela instituição. Sobretudo na década de 1980, servir às Forças Armadas passou a ser uma fase de transição para o jovem ao sair do internato e se situar no mundo. Uma das diferenças importantes é que nesta nova experiência ele não é mais tratado como “menor”. É uma introdução institucionalizada no mundo adulto, onde ele não conta com a proteção que, enquanto “menor” tem direito.

O que se percebe, entretanto, é que o grande sonho de seguir as Forças Armadas não é para o interno uma entre outras opções. É muito mais um sonho inculcado pelos agentes institucionais, que consideram ser este um dos poucos caminhos existentes para o indivíduo seguir ao sair do internato. Muitos entram para servir o quartel e ao perceberem as semelhanças com a vida do internato, acabam desistindo do sonho acalentado. Servir o quartel é considerado, não só pelas autoridades institucionais, como uma fase de transição entre o internato e a vida fora dele, como também é assim percebido pelos alunos. É uma das vantagens vista pelos ex-internos como muita importante, é o novo documento, a nova identidade, que adquirem ao sair – o certificado de reservista passa a ser sua identidade e não mais o rótulo de ex-aluno da FUNABEM.

– A minha saída não foi direta, quer dizer, eu ia pra casa, eu

sabia a posição que eu queria, o que eu não queria, então optei

por um quartel, né. Então, eu sair do quartel, sair da FUNABEM

e ir pro quartel eu senti que, um ponto que eu acho que foi bom,

é eu senti que o colégio interno ele quer viver tipo um quartel,

sabe. Porque o que você vê dentro do colégio interno, é a

mesma coisa. Aqui no quartel, você humilha muito o outro. E

aqui você vai ter que fazer. Você é um cachorro! É isso! É a

mesma coisa, você é isso, aí xinga a pessoa. Então a mesma

coisa que acontece num quartel acontece num colégio interno,

que não podia acontecer. E eles falam assim, aí a gente entra

numa formatura num colégio interno, ‘vocês vão aprendê a

marchar porque quando for num quartel, você já sabe marchar’.

Pra você vê a visão deles é preparar um aluno prum quartel. Aí

a gente pensa – os outros que nunca foi num quartel, não

aprende? Uma pessoa que nunca foi interno, quando chega lá

não aprende? Porque eu vou aprendê logo agora? Não tem

nada a ver! Tanto que a pessoa quando chega num quartel ele

já tá super saturado, porque já viveu uma vida de colégio

interno e chega lá vai ter outra vida presa. Tanto que você vê no

quartel, eu tive por certa parte, muita sorte, quer dizer, um

quartel bão, outras coisas facilitô mais pra mim lá dentro. Quer

dizer, eu tive facilidade, não fui aquele cara de ralar, fazer

aquelas coisas. Mas eu falei pra minha mãe – ‘eu fico no quartel

um ano e chega, prefiro trabalhar, viver a minha vida’. Porque

vivi 8 anos praticamente preso naquele regime e, depois passar

mais um tempo no quartel com aquele regime! Quer dizer, qual

vai ser a vida? A pessoa vai ficar super bitolada, né, não vai

aprender nada!

– (Então não foi opção sua ir pro quartel?)

– A opção em ir assim foi minha, mas eu fui mais pro quartel,

assim como se diz, você vai pro quartel servir porque assim

pelo menos você tem facilidade. Às vezes, na sociedade, você

tem uma instrução como quartel, você quer trabalhar numa

outra coisa, você tem certificado de primeira, então isso foi uma

das primeiras coisa, porque do contrário, eu não ia querer ver

um quartel nem pintado de ouro.

É interessante observar também na fala do entrevistado que a mesma contradição, que surge ao falarem do internato, insinua-se também ao falarem das Forças Armadas. Mesmo que falem do “sufoco” que viveram, falam da experiência como tendo sido “boa”. Poucos são aqueles que conseguem fazer uma formulação clara e crítica de quanto se sentiram atingidos pela violência institucional. O que se percebe é que esses que conseguem são, em geral, aqueles que logram reformular e transformar suas vidas dando a ela novos caminhos, sem seguir os já delineados pela instituição de “menores”.

– Nesse período que eu fique na aeronáutica, eu via tudo

branco, sabe, recebendo ordem. Pô, nessa mesma posição?

Não sei, vou esperar janeiro de 1983 e se eu não conseguir até

lá (ser promovido) eu peço baixa ... Então aconteceu um lance

engraçado porque eu prestei exame pra especialista ... Pra mim

era um passe pra minha vida. Eu passando pra especialista, eu

ia ficar dois anos na escola e ia fazer a escola de sargento da

aeronáutica. Puxa, uma glória! Com 22 anos, eu praticamente

estava formado. Era só estudar. Mas eu não passei. Aí aquilo

para mim foi uma desilusão. Teria a aeronáutica como um

sonho pra mim. Pedi baixa. Nesse período sabe, eu vivi uma

vida gostosa ali dentro, fiz muitas amizades. Fase, assim,

bonita! Aquela fase de amigos, passa a mesma dificuldade, o

mesmo sufoco sabe, as experiências negativas, tudo ali dentro,

né? Porque é uma barra a situação quando você é soldado!

Então pra mim foi ótimo, foi gostoso à bessa. Então pra mim

aquilo foi gratificante, mas não a ponto de me convencer a ficar

mais. Eu me convenci ali mesmo que eu não podia mais ficar,

não tinha mais condições de ficar ali. Aí eu passei a ter uma

visão bem mais ampla daqui de fora. Já estava mais solidário,

com a sociedade. Já sabia me definir, já tava com 19 ou 20

anos. (Fernando, 25 anos).

Tem também aqueles que, tendo vivido praticamente toda sua vida até os 18 anos dentro do internato, se adaptam ao regime disciplinar das Forças Armadas percebendo-o como mais liberal e onde os seus direitos individuais são mais respeitados.

– No quartel tenho uma vida de trabalho de 8:00 às 16:00h.

Tenho mais liberdade de falar apesar de que o quartel tem o

seu regime, então a gente tem que obedecer. Mas muita coisa a

gente procura dialogar com o chefe, com os nossos superiores

pra entrar em entendimento, porque se a gente discutir, não vai

levar ao caso. Mas lá eu tenho mais liberdade! Saio quando eu

quero alguma coisa. Eu vou lá e peço; se eles acharem que tá

no meu direito eles me dão; se achar não tá, eles não me dão.

Já no colégio interno não. Se eu pedir alguma coisa, eles achar