Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 13 de 33

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Menores em tempo de maioridade

– Transferência

A transferência de internato é uma das situações percebidas pelos ex-internos como tendo trazido sofrimento. Como se expõe em outro estudo (Altoé, 1990), a transferência é realizada sem maiores cuidados e avisos àqueles que vão ser transferidos. Os internos são chamados e colocados num ônibus, sem que inclusive os seus pais sejam avisados. Perdem os laços de amizade com funcionários amigos e mesmo com irmãos. A transferência só não é vista como negativa quando eles podem compreender seu mecanismo e sabem para que escola seguem. Este exemplo é singular e se refere a um conjunto de escolas situadas no mesmo terreno. Consideramos que a transferência vem reforçar no interno o sentimento de descaso das autoridades institucionais, desconsideração e desrespeito pela sua pessoa. São manipulados conforme a necessidade do funcionamento organizacional.

– Não perguntavam nada. Eles escolhiam assim, pegava a lista

e por exemplo, se meu nome tivesse nessa lista, eu ia de bobo

com eles, ia transferido. Eles não separava os alunos, pegava

um montão assim e chamava fulano, fulano. [Nessas

transferências você perdeu o contato com os seus irmãos ou ...]

– Ah, perdi. Eu fiquei 5 anos sem ver os meus irmãos. Foi

esquisito a pampa! Você se sentir isolado, só ver aquele monte

de garotinho, tudo pequenininho assim ... (Benedito, 39 anos).

– Lá no colégio acontecia muito isso de transferir. O papel

nosso ia todo pro outro colégio. E quando você chegava no

outro colégio, se você analisar bem, o colégio interno é tipo

uma cadeia. A pessoa chega num presídio, todo mundo te olha

diferente. Te bota lá dentro e diz: isso, isso e isso. O inspetor ao

invés de apresentar o aluno, apresentar assim pra conversar,

mostrar a instalação do colégio, não! Chegava, jogava o aluno

lá dentro! (Haroldo, 20 anos).

Esse funcionamento institucional de muita mudança de internato nos parece não se justificar organizacionalmente. A única justificativa possível é impedir a criança e adolescente de criar laços de amizade, desenvolver relações afetivas e se situar no mundo. É frequente que sejam transferidos a cada ano ou a cada dois anos.

– O que você achava dessas transferências?

– Eu achava muito assim, um sentimento, uma saudade que

tive da escola. Os amigos que tive, os colegas que tive também.

Eu quando fui transferido, eu chorei, de uma escola que eu

gostei mais que era Caxambu, em Minas. Eu chorei porque era

uma escola que eu gostei. Eu não vou dizer, eu sou uma

pessoa assim, que eu senti uma escola ruim. Eu não gostei

não. Não, eu não, eu sempre gostei de uma escola e sempre

quando fui transferido eu sempre deixei a saudade, eu deixei

uma alegria com todo mundo”. (Claudionor, 20 anos).

– E você sentiu muito essa transferência?

– Senti porque a gente tá acostumado num colégio. É a mesma

coisa você está acostumada a morar num certo lugar – você já

conhece o ambiente, já sabe a malícia daquele bairro todinho,

né! Então depois, quando você se muda dali e vai para outro

até você se firmar, fazer conhecimento com o pessoal, você

sente a distância do pessoal, você não conhece ninguém, então

você não pode puxar um assunto com uma pessoa se você não

conhece. Então eu sentia muito, mas procurava sempre fazer

aquela amizade porque a gente reencontrava velhos amigos

que já passaram pelos mesmos colégios que já passamos.

(Juliano, 18 anos).

– Eu achei que uma transferência é uma coisa assim que ...

Acho que eles fazem assim porque eles vão tentando mostrar

aos alunos que não só existe aquela escola que ... porque às

vezes, o ‘cara’ se amarra na escola. Gosta da escola, ele pensa

que aquilo nunca vai acabar para ele entendeu? Aí vão sempre

transferindo para o ‘cara’ conhecer, vai conhecendo outras pela

frente, entendeu? Aí o ‘cara’ vai desenvolvendo a mente, vai ver

que não vai ficar sempre num lugar só, entendeu? É isso que

eu penso.

– Assim que você viveu isso?

– É, vivi, estou vivendo. (Ricardo, 18 anos).