Menores em tempo de maioridade
– Transferência
A transferência de internato é uma das situações percebidas pelos ex-internos como tendo trazido sofrimento. Como se expõe em outro estudo (Altoé, 1990), a transferência é realizada sem maiores cuidados e avisos àqueles que vão ser transferidos. Os internos são chamados e colocados num ônibus, sem que inclusive os seus pais sejam avisados. Perdem os laços de amizade com funcionários amigos e mesmo com irmãos. A transferência só não é vista como negativa quando eles podem compreender seu mecanismo e sabem para que escola seguem. Este exemplo é singular e se refere a um conjunto de escolas situadas no mesmo terreno. Consideramos que a transferência vem reforçar no interno o sentimento de descaso das autoridades institucionais, desconsideração e desrespeito pela sua pessoa. São manipulados conforme a necessidade do funcionamento organizacional.
– Não perguntavam nada. Eles escolhiam assim, pegava a lista
e por exemplo, se meu nome tivesse nessa lista, eu ia de bobo
com eles, ia transferido. Eles não separava os alunos, pegava
um montão assim e chamava fulano, fulano. [Nessas
transferências você perdeu o contato com os seus irmãos ou ...]
– Ah, perdi. Eu fiquei 5 anos sem ver os meus irmãos. Foi
esquisito a pampa! Você se sentir isolado, só ver aquele monte
de garotinho, tudo pequenininho assim ... (Benedito, 39 anos).
– Lá no colégio acontecia muito isso de transferir. O papel
nosso ia todo pro outro colégio. E quando você chegava no
outro colégio, se você analisar bem, o colégio interno é tipo
uma cadeia. A pessoa chega num presídio, todo mundo te olha
diferente. Te bota lá dentro e diz: isso, isso e isso. O inspetor ao
invés de apresentar o aluno, apresentar assim pra conversar,
mostrar a instalação do colégio, não! Chegava, jogava o aluno
lá dentro! (Haroldo, 20 anos).
Esse funcionamento institucional de muita mudança de internato nos parece não se justificar organizacionalmente. A única justificativa possível é impedir a criança e adolescente de criar laços de amizade, desenvolver relações afetivas e se situar no mundo. É frequente que sejam transferidos a cada ano ou a cada dois anos.
– O que você achava dessas transferências?
– Eu achava muito assim, um sentimento, uma saudade que
tive da escola. Os amigos que tive, os colegas que tive também.
Eu quando fui transferido, eu chorei, de uma escola que eu
gostei mais que era Caxambu, em Minas. Eu chorei porque era
uma escola que eu gostei. Eu não vou dizer, eu sou uma
pessoa assim, que eu senti uma escola ruim. Eu não gostei
não. Não, eu não, eu sempre gostei de uma escola e sempre
quando fui transferido eu sempre deixei a saudade, eu deixei
uma alegria com todo mundo”. (Claudionor, 20 anos).
– E você sentiu muito essa transferência?
– Senti porque a gente tá acostumado num colégio. É a mesma
coisa você está acostumada a morar num certo lugar – você já
conhece o ambiente, já sabe a malícia daquele bairro todinho,
né! Então depois, quando você se muda dali e vai para outro
até você se firmar, fazer conhecimento com o pessoal, você
sente a distância do pessoal, você não conhece ninguém, então
você não pode puxar um assunto com uma pessoa se você não
conhece. Então eu sentia muito, mas procurava sempre fazer
aquela amizade porque a gente reencontrava velhos amigos
que já passaram pelos mesmos colégios que já passamos.
(Juliano, 18 anos).
– Eu achei que uma transferência é uma coisa assim que ...
Acho que eles fazem assim porque eles vão tentando mostrar
aos alunos que não só existe aquela escola que ... porque às
vezes, o ‘cara’ se amarra na escola. Gosta da escola, ele pensa
que aquilo nunca vai acabar para ele entendeu? Aí vão sempre
transferindo para o ‘cara’ conhecer, vai conhecendo outras pela
frente, entendeu? Aí o ‘cara’ vai desenvolvendo a mente, vai ver
que não vai ficar sempre num lugar só, entendeu? É isso que
eu penso.
– Assim que você viveu isso?
– É, vivi, estou vivendo. (Ricardo, 18 anos).