Menores em tempo de maioridade

Sônia Altoé · Capítulo 24 de 33

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Menores em tempo de maioridade

2. Negação do abandono

– Até nisso tem a diferença. Além do mais o pessoal que não

tem família ... Quando a pessoa tem família e xinga, faz alguma

coisa, aí a pessoa diz, ‘oh: Eu tenho a minha casa! Quer dizer,

a pessoa fala assim, eu tenho casa, cara (funcionário), eu tô

aqui porque eu quero, não é por causa disso não, é por causa

de estudo que eu estou aqui, e não por causa de comida não,

se eu tiver de ir pra casa hoje, eu vô hoje. Quer dizer , a pessoa

tem a defesa e os outros não tem. Eles tem que abaixar a

cabeça e andar. Quer dizer, a pessoa nunca que vai ser normal,

a pessoa que leva vida, leva um tapa sempre assim desse jeito,

nunca vai ser normal dentro do colégio (Heraldo, 20 anos).

O que se observa através dos relatos é que nos casos onde há um bom relacionamento entre interno e família, há formação de jovens críticos e capazes de pensar sobre as regras institucionais. Podemos considerar que este seja um dos motivos pelos quais não interessa ao internato que a família, já marginalizada socialmente, se faça presente. Observa-se, no funcionamento institucional, uma negação da existência da família e uma tentativa de assumir o seu papel, através da formação de um vínculo maior entre o aluno e a instituição. O internato passa, quase que exclusivamente, a representar a vida para o jovem, na medida em que nada mais lhe resta a não ser as vivências, enquanto aluno de colégio interno.

 

2. Negação do abandono

É comum que, na fala do ex-interno, a figura da mãe represente a família. Ela é considerada o símbolo de afeto e o contato familiar, mesmo que precário, transmite segurança e a possibilidade de obtenção de um apoio.

É comum o ex-interno viver a separação da mãe como um abandono. Este sentimento encontrado nos órfãos, e também nos que têm família, expressa, sobretudo, a dificuldade de compreender porque fôra afastado do convívio familiar. Ao mesmo tempo, ele entende o abandono como uma rejeição levando-o a perceber a figura materna como uma “estranha” e de quem ele nada pode esperar.

Os ex-internos que de fato são abandonados, isto é, aqueles que não têm qualquer referência familiar, empenham-se na busca de uma família, que consideraremos posteriormente como imaginária. Ao que nos parece, a família é preservada pelo ex-interno como forma de negação do abandono por ele vivenciado.

Entretanto, para o ex-interno, cujo contato familiar foi preservado, a separação é percebida como uma “falta irreparável”. Para este jovem, o internato não consegue jamais substituir a família, no que ela representa de afeto e carinho.

Veremos a seguir que o ex-interno, não sendo capaz de suportar o peso do abandono, busca em sua história familiar justificativas várias para tal atitude dos pais.

O ex-interno, mesmo aquele que é órfão, acredita que sua família pretendeu com a internação proporcionar-lhe um tipo de vida, que não teria acesso se permanecesse junto a ela. Assim, alguns consideram que ter sido internado foi a “melhor coisa” que lhes aconteceu. Contudo, esses mesmos jovens também criticam a internação ao perceberem que no internato não encontraram o que supõem que a família possa oferecer, ou seja, uma relação afetiva. Esses jovens se mostram insatisfeitos com a separação e acreditam que os pais deveriam ser mais cuidadosos para não abandonarem os filhos.

Eliza, jovem de 19 anos, interna aos 4 anos de idade e que manteve um contato familiar precário, manifesta em seu relato a ambivalência acima explicitada:

– Bom, é que se você (mãe) botou no mundo não pode largar

assim, pelo menos isso eu penso em não fazer. Porque era

uma situação esquisita para mim. Pôxa, se ela colocou a gente

ali porque não podia criar, para quê que teve mais filhos? Por