O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado

Capítulo 12

O representante permanente do governo brasileiro junto ao Festac, que é também um desses cientistas, merece atenção especial como expressivo exemplo de pesquisa estéril. Estudando o estado de transe na religião afro-brasileira, o dr. George Alakija insiste no uso de rótulos e expressões pejorativas, cunhadas pelo eurocentrismo para descrever essas religiões, tais como “cultos primitivos” (p. 8), “religião animista” (p. 8), ou “aparência mágico-primitiva” (p. 9).

O dr. Alakija, psiquiatra, preocupa-se primariamente com o cavalo, o sacerdote afro-brasileiro que entra no estado de transe religioso para receber o orixá. Segundo critério de verdadeira ciência europeia, quando se defronta com uma cultura que ela não compreende, dr. Alakija esquematiza sua interrogação central: “O que podemos dizer sobre os ‘cavalos’? São eles sujeitos à histeria ou a similares formas de desequilíbrio, cujo estado patológico é solo fértil para germinação do complexo fenomenal? Estão eles engajados em mistificação?”

Essas questões já foram tratadas e respondidas muito antes por Roger Bastide, especialista da Sorbonne e iniciado no candomblé, com responsabilidade no culto de Xangô. Bastide expõe o valor da “tese sociológica, oposta à tese patológica: o que torna a crise violenta não é o terreno neuropático constituído pelo indivíduo no qual ela explode, mas o

modelo mitológico fornecido pela sociedade ao individuo” [12].

Nosso dr. Alakija, não convencido com tais refutações, prefere se entreter no terreno patológico. Suas conclusões classificam o transe espiritual como um estado sofrônico que “não pode ser classificado nem como normal nem como patológico” (p. 4).

O cientista tenta aproximar-se da questão central por ele levantada através da aplicação dos conceitos da sofrologia, segundo ele, “uma nova disciplina cientifica originada em Madri em 1960” (p. 3). Com estes instrumentos, o dr. Alakija analisa o estado de possessão mística. Uma vez mais, a patente aplicação de perspectivas europeias para fenômeno puramente africano e/ou afro-brasileiro, e a monótona repetição do comportamento científico domesticador que floresceu a partir da Europa e dos Estados Unidos desde o século passado.

Nesse aspecto, o dr. Alakija dá continuidade a uma verdadeiramente curiosa linha da “ciência” brasileira: o interesse de quase um século demonstrado pelos psiquiatras no estudo das religiões afro-brasileiras. Foi Nina Rodrigues o ponto inicial do estudo psiquiátrico classificador do êxtase místico ao nível da histeria, ou manifestação patológica. Arthur Ramos, outro psiquiatra, foi discípulo de Nina Rodrigues e o seu continuador. Atualmente, René Ribeiro e George Alakija corporificam essa tendência que, parece, vai-se tornando uma tradição na psiquiatria brasileira. Deixo o leitor tirar sua própria conclusão do fato, repleto de implicações, de que no Brasil, uma das qualificações para o estudo do negro e das religiões afro-brasileiras, é ser um especialista em psiquiatria…

A tese de Nina Rodrigues, classificando o êxtase religioso como patológico, segundo Alakija (p. 10), baseia-se na Escola Salpetrière, de Paris, famosa na passagem do século XIX para o XX, e inclui a influência dos trabalhos dos doutores Janet e Charcot. O dr. Alakija, trocando Paris por Madri, tem certamente dado um salto radical a partir das santificadas lições de Rodrigues. Entretanto, ele toma precauções para não cair em superentusiasmos de avaliação. Ele conclui assim: “Hoje em dia, não pode haver dúvidas de que as pessoas que recebam tais possessões são mentalmente saudáveis”, mas rapidamente acrescenta na mesma frase, cuidando-se de exageros, “[…] embora isso não impossibilite que num ou noutro grupo possa haver indivíduos que apresentem evidentes anomalias patológicas” (p. 10).

Entretanto, não devemos temer o pior. O dr. Alakija fez o exame mental em quinze pessoas, dez “cavalos” de candomblé e cinco médiuns do espiritismo kardecista. Os resultados quanto a “nível de inteligência” e “conhecimento geral” não são terrivelmente desfavoráveis à linha de pensamento estabelecida e sacralizada por Nina Rodrigues:

 

EXAME MENTAL*

 

N Normal Ab Anormal P Presente

A Ausente P Pobre L Baixo

R Rico H Alto S Satisfatório

NÚMERO 1 2 3

Sexo F M F

Geral N N N

Comportamento N N N

Fala N N N

Humor N N N

Ilusões A A A

Falsas interpretações A A A

Distúrbios de percepção A A A

Fenômeno compulsivo A A A

Orientação N N N

Memória N N N

Atenção e concentração S S S

Nível de inteligência L L L

Conhecimento geral P P P

 

NÚMERO 4 5 6

Sexo F F F

Geral N N N

Comportamento N N N

Fala N N N

Humor N N N

Ilusões A A A

Falsas interpretações A A A

Distúrbios de percepção A A A

Fenômeno compulsivo A A A

Orientação N N N

Memória N N N

Atenção e concentração S S S

Nível de inteligência L L L

Conhecimento geral P P P

NÚMERO 7 8 9

 

Sexo F F F

Geral N N N

Comportamento N N N

Fala N N N

Humor N N N

Ilusões A A A

Falsas interpretações A A A

Distúrbios de percepção A A A

Fenômeno compulsivo A A A

Orientação N N N

Memória N N N

Atenção e concentração S S S

Nível de inteligência L L L

Conhecimento geral P P P

NÚMERO 10 11 12

Sexo F F F

Geral N N N

Comportamento N N N

Fala N N N

Humor N N N

Ilusões A A A

Falsas interpretações A A A

Distúrbios de percepção A A A

Fenômeno compulsivo A A A

Orientação N N N

Memória N N N

Atenção e concentração S S S

Nível de inteligência L L L

Conhecimento geral P P P

 

NÚMERO 13 14 15

Sexo F M F

Geral N N N

Comportamento N N N

Fala N N N

Humor N N N

Ilusões A A A

Falsas interpretações A A A

Distúrbios de percepção A A A

Fenômeno compulsivo A A A

Orientação N N N

Memória N N N

Atenção e concentração S S S

Nível de inteligência L L L

Conhecimento geral P P P * Tabela tomada diretamente da página 11 da monografia. No original, os símbolos para Ausente e Anormal são, respectivamente, Abs e Ab.

 

Desta breve amostra, podemos concluir da inequívoca identidade do dr. Alakija com a do pesquisador de visão distorcida revivendo nos dia de hoje aquela “perspectiva científica” adotada por Nina Rodrigues, no começo do século. Por coincidência, são ambos mulatos, baianos e psiquiatras. Coincidência que se nos afigura assaz curiosa e interessante…

Ainda um outro delegado oficial do Brasil: Antônio Vieira. Seu trabalho, intitulado “Caminho Vivencial de um Autor Afro-Brasileiro”, não foi distribuído no colóquio, assim não nos cabe comentá-lo aqui. Porém, assistimos ao pronunciamento que fez no Grupo de Trabalho I: um rápido comentário sobre sua própria poesia. Quem lê as poesias de Vieira fica impressionado com a nenhuma referência e engajamento do autor com a cultura, o espírito e os problemas dos descendentes africanos no Brasil. Enquanto ouvia Vieira falar, interiormente eu lamentava a ausência de poetas negros brasileiros do porte, por exemplo, de um Oswaldo Camargo ou um Eduardo de Oliveira, vozes fortes da cultura afro-brasileira e das aspirações negras, vozes vitais e não domesticadas pelo estabelecimento. Vozes evocadoras do espírito rebelde de um Solano Trindade ou da crítica sutil de um Lino Guedes, todos esses autênticos vates dos negros: da sua vida e da sua morte, das suas esperanças, das suas lutas por liberdade e dignidade.

 

* * *

 

Agora devo ser indulgente comigo mesmo e abrir um parêntese para evocar

e celebrar certas imagens nostálgicas do Festac. O colóquio revelou-se

acontecimento excitante e significativo. Esperemos a pronta divulgação dos

trabalhos apresentados e das resoluções tomadas para o conhecimento geral

de toda a família negro-africana. Devemos aguardar, principalmente,

resultados concretos. Entretanto, o que no colóquio se pensou, se discutiu,

se escreveu e se decidiu não deverá, esperemos, ficar encerrado nos

arquivos mais ou menos inacessíveis desse histórico encontro da

inteligência africana e negra de todas as partes do mundo.

Deste ângulo muito pessoal, e, confessemos, emocional, dificilmente poderia esquecer certas imagens que durante os trabalhos foram captadas por minha sensibilidade, gravadas na memória. Ó, meus irmãos e minhas irmãs! Como esquecer aquela comunicabilidade explosiva do dr. Maulana Ron Karenga, e a segura e discreta competência do dr. Ron Walters, ambos da comunidade negra dos Estados Unidos? E o primeiro encontro, a tanto tempo desejado, com o poeta Mário de Andrade, atualmente no Conselho Nacional de Cultura de Guiné-Bissau? E rever o artista e escritor Mário de Souza Clington, sempre sorrindo a própria inquietação? Não poderia esquecer a palavra brilhante do dr. Hussein M. Adam, da Somália, ou o reencontro com Kofi Awoonor, inescrutável novelista de Gana. E Keorapetse Kgositsile, empunhando a poesia bélica da libertação do seu país: a África do Sul… Foram todos estes momentos de intenso valor espiritual e humano. Porem houve mais: houve a comovente solidariedade de Leo W. Bertley, do Canadá, houve o homem do jazz Ted Joans, coberto com o pó, a poesia e o conhecimento histórico de Timbuktu. E o dr. Molefi K. Asante, aquele que derrete a invulnerável neve de Buffalo com o calor do seu espírito fraterno na luta.

Proclamo e celebro agora a única personalidade que realmente galvanizou a assembleia: a dramaturga de Quênia, dra. [Micere M. Githae] Mugo. Sua palavra bela e vibrante ecoará para sempre na lembrança de todos aqueles que a ouviram sob os aplausos tempestuosos dos delegados no colóquio.

E outros encontros aconteceram, outras alegrias emergiram dos corredores, dos salões, dos restaurantes, do imenso Teatro Nacional. E então, chegou a vez de acontecer Ernest Crichlow, o excelente pintor norte-americano, deslumbrado com a sabedoria de certo babalaô de Abeocutá; e aconteceu Ola Balogun carregando no calmo olhar inquieto todos os sonhos do cinema nigeriano; e houve, e aconteceram os brasileiros, o sax extraordinário de Paulo Moura; o “papo” transado em ritmo sutil-irônico de Gilberto Gil e Caetano Veloso; a ânsia trancada na seriedade de Rubem Confete…

E a irmã Thereza Santos! Sua presença me devolveu a emoção de lugares e tempos que se foram: o Rio de Janeiro do teatro negro. Peças e ensaios, a existência tecida em danças, poesia; e no canto e na lágrima, e na esperança forjávamos um lugar para a nossa gente nos palcos brasileiros. Agora você, Thereza Santos, orgulhosamente resgatou sua cidadania original: tornou-se cidadã de Angola e colabora na edificação do teatro revolucionário de sua nova e antiga pátria-mãe…

* * *

 

Antes da abertura do colóquio, revistas nigerianas me pediram para escrever

dois artigos relacionados à participação do Brasil no Festac ‘77. Ambos

estão incluídos neste volume: “Teatro Negro do Brasil: Uma Ausência

Ostensiva” (Anexo 2), artigo publicado em Afriscope, revista de Lagos,

edição especial dedicada ao Festac, janeiro de 1977; e “Arte Afro-

Brasileira: Um Espírito Libertador” (Anexo 3), escrita para o número

especial sobre o Festac da revista Ch’Indaba (antigamente Transição),

editada por Wole Soyinka.

O texto original deste volume, “Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality?, apresentado ao colóquio e rejeitado por meio dos procedimentos oficiosos dos poderes constituídos (descritos e documentados no livro Sitiado em Lagos), sofreu pequenas alterações. Foi revisto e acrescentadas novas informações, fatos e comentários.

Gostaria de expressar minha gratidão aos autores citados no texto deste livro, especialmente a Thomas E. Skidmore, Florestan Fernandes e Anani Dzidzienyo, pela fundamental contribuição de seus trabalhos. Também agradeço ao Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ifé, pelo convite como professor visitante e pelo apoio que me deu ao produzir uma primeira edição do presente ensaio em mimeógrafo, o que me propiciou a oportunidade de, ao participar do colóquio, distribuí-lo aos delegados. Minha profunda gratidão ao Daily Sketch por seu inequívoco e decisivo apoio durante todo o processo que resultou nesta segunda edição nigeriana do texto. Também estou em débito com Olabiyi Babalola Yai, meu colega, pelas fontes de informação que me forneceu. Meu abraço fraterno a Wole Soyinka, inteligência criativa da cultura revolucionaria da África, pela enérgica solidariedade demonstrada em todo o desdobramento do caso. Finalmente, meu profundo e emocionado agradecimento à minha mulher Elisa, não só pela tradução da edição em inglês e pela datilografia dos textos, mas, sobretudo, por sua total e estimulante participação nesta peripécia nada democrática de demolir mitos anti-históricos.

Em certo momento, na assembleia geral do colóquio, quando os delegados oficiais do Brasil tentavam me silenciar, levantei a voz e me identifiquei não como representante do Brasil, mas como um sobrevivente da República dos Palmares. É nesta qualidade que me reconheço e me confirmo neste trabalho.

 

A.N. (um quilombola dos Palmares)

Ilé-Ifé, 14 de março de 1977