O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado

Prólogo: A História de uma Rejeição

PRÓLOGO: A HISTÓRIA DE UMA

 

REJEIÇÃO

 

Basicamente, este volume reproduz o ensaio que redigi a pedido do professor Pio Zirimu, então diretor do colóquio do Segundo Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas, realizado em Lagos, Nigéria, entre 15 de janeiro e 12 de fevereiro de 1977. O trabalho deveria ser apresentado como conferência pública na série que constituiu um dos pontos altos no desenrolar do colóquio. Este projeto não se concretizou porque o documento foi rejeitado pelo establishment, segundo a expressão do próprio professor Zirimu em carta que me escreveu em 15 de dezembro de 1976, apenas quinze dias antes de sua morte. Alguns excertos desta carta foram transcritos à página In Memoriam, onde rendo homenagem a este scholar e irmão falecido antes que pudesse assistir à abertura do colóquio, cuja organização lhe consumiu anos de trabalho incansável.

Gostaria de relatar, ainda que resumidamente, a história da recusa do meu trabalho, evento que certamente permanecerá como um capítulo escuso suspenso sobre a cabeça dos responsáveis, especialmente porque os motivos da rejeição continuam ocultos pelo véu do segredo oficial e do mistério.

A imprensa da Nigéria permaneceu solidária com meu protesto e com minha inútil tentativa em desvelar o “mistério”. O Sunday Times, edição dominical do Daily Times, um dos mais importantes diários do país, iniciou a divulgação da ocorrência publicando ampla reportagem de primeira página a 23 de janeiro de 1977, sob o título-manchete “Professor Explode”, assinado por Achike Chuks Okafo. Na primeira edição, à página treze, aparece ainda breve entrevista com o autor, intitulada: “The Blackman’s Burden in Brazil” (O Fardo do Negro no Brasil).

Ao fim do artigo sobre a rejeição de “Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality?, o Sunday Times publicou breve resposta do coronel Ahmadu Ali, ministro da Educação da Nigéria e presidente do colóquio, quando o repórter tentou conseguir uma explicação do acontecido. Inicialmente, o coronel Ali advertiu ainda não se encontrar à frente do colóquio quando se fez a seleção dos trabalhos: só fora nomeado para a função no fim de dezembro. Entretanto, o coronel Ali mencionou as três razões que poderiam causar a recusa de qualquer contribuição, nenhuma das quais se aplicava ao caso, conforme se verificará mais adiante.

Nesta altura dos acontecimentos, o assunto se havia tornado de domínio público e me encontrei assim obrigado a insistir numa resposta que explicasse e/ou justificasse a exclusão do meu trabalho. Escolhi o caminho de uma

 

Carta Aberta a S. Excia. Coronel Ahmadu Ali,

Presidente do Comitê do Colóquio

 

Senhor Presidente:

 

Ontem, 23 de janeiro de 1977, o Sunday Times publicou uma reportagem relacionada à rejeição do meu trabalho “Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality?, o qual foi escrito a pedido do diretor do colóquio, o falecido professor Pio Zirimu. No fim do artigo, respondendo ao repórter, S. Excia. coronel Ahmadu Ali, presidente do Comitê do colóquio e ministro da Educação da Nigéria, apresentou três razões para a rejeição de qualquer trabalho pelo Comitê. Transcrevo da reportagem:

1. Coronel Ali “não estava consciente da rejeição de nenhum trabalho, exceto

aqueles que se atrasaram no prazo exigido para a submissão”.

2. “Coronel Ali disse ser provável que alguns trabalhos pudessem ter sido

recusados por não serem estritamente acadêmicos, ou então

3. Procurarem usar o fórum de discussão para propagar crenças ideológicas

(Sunday Times, 23 de janeiro de 1977, p. 11).

 

É óbvio que a rejeição do meu trabalho não se incluiu na primeira razão, desde que

o ensaio foi escrito dentro do estrito prazo estabelecido pelo Diretor do colóquio, fato que está claramente manifesto na carta que o falecido professor Zirimu escreveu ao autor em 15 de dezembro de 1976.

Quanto ao segundo item citado por S. Excia. coronel Ali, eu estou plenamente

convencido que o trabalho cumpre cabalmente as normas acadêmicas e as exigências do rigor científico; entretanto, o estudo não se imerge naquele vazio jogo escolástico que S. Excia. o general Obasanjo, Chefe de Estado da Nigéria e Grande Patrono do Festac, tão sabidamente condenou no discurso inaugural do colóquio:

 

Eu deixo vocês na esperança de que o escolasticismo estéril que frequentemente afoga a criatividade seja mantido sob reserva, e que um esforço positivo será feito para relacionar sua investigação às nossas condições sociopolíticas e econômicas.

Esta advertência contra o “escolasticismo estéril” foi, além do mais, uma das

 

razões que me levaram a propor, na sessão plenária do colóquio de sábado, dia 22 de janeiro de 1977, que esta bela mensagem fosse considerada como documento básico de trabalho, norma na preparação dos relatórios dos vários Grupos em que se dividiram os trabalhos do colóquio.

 

O terceiro ponto a ser considerado se refere à “propagação de crenças

ideológicas”. À página 72 do meu trabalho, já distribuído a vários membros do colóquio, inclusive ao presidente coronel Ali, podemos ler que:

 

Hoje, nós, os negros, rejeitamos qualquer tipo ou forma de “mandato” apresentado pelo homem branco em nosso nome – nem o mandato dos representantes do capitalismo nem de qualquer ideologia político-social, doutrina ou sistema que não seja uma autêntica expressão da experiência negra, assim como dos objetivos culturais, políticos, econômicos e humanísticos da Revolução Africana. Pensamento e ação negro-africanos baseados sobre os valores específicos da África negra, criticamente atualizados e/ou acrescidos de valores de outras origens, corretamente adaptados às necessidades e interesses africanos, devem tomar uma parte agressiva na configuração da civilização ecumênica do futuro. Uma civilização aberta a todos os acontecimentos da existência humana, sem exploradores e explorados, e completamente livre de opressores e oprimidos de qualquer raça ou cor epidérmica. Nós não desejamos transferir para outros a responsabilidade que a história colocou sobre os nossos ombros.

 

Não há, por isso, lugar para nenhuma dúvida quanto ao conteúdo ideológico

mencionado enfaticamente no meu trabalho; ele se encontra em pleno e límpido acordo com a ideologia advogada por S. Excia. o general Obasanjo em seu discurso de abertura deste colóquio:

 

Eu deixo vocês com um apelo: encontrem os caminhos e os meios de abrir os impulsos criativos que habilitem os negros individualmente, as nações negras, e as organizações de tais nações, a reconquistar o controle de seus destinos. Somente assim poderá nosso povo contribuir novamente com sua quota ao progresso humano e somente assim poderão eles obter sua justa parte dos recursos do mundo.

 

Ainda mais: a “ideologia” do meu documento está em completo e claro acordo com outro orador da mesma cerimônia de abertura, S. Excia. o presidente do colóquio, coronel Ahmadu Ali, quando disse: “Nós não podemos decepcionar os africanos e os povos negros… Os povos africanos e negros têm de ser reconhecidos como uma força com a qual o mundo tem de lidar.”

Em virtude do que acabamos de expor, não vislumbramos uma razão válida que

possa justificar a arbitrária exclusão do meu trabalho, exceto se existirem “razões de Estado” ou “razões ocultas”, restringindo a liberdade de criação acadêmica bem como a pesquisa e a discussão, o que, em caso afirmativo, constituiria inadmissível censura se chocando frontalmente com os objetivos básicos deste colóquio.

 

Lagos, Nigéria

24 de janeiro de 1977

 

Como única e sintomática resposta à leitura dessa Carta-Aberta no plenário do colóquio, o coronel Ali afirmou mais uma vez não se achar ainda no cargo quando ocorreu a seleção. E nenhuma outra resposta foi jamais conseguida das autoridades do Festac. Nenhuma justificativa, explicação ou esclarecimento se ofereceu ao autor, ao plenário do colóquio, ou ao povo da Nigéria que seguia os lances do caso através dos jornais.

O título de algumas notícias nos fornece uma idéia do clima que rodeava a questão:

 

1. Daily Sketch, importante diário nigeriano, a 26.1.1977: “The Black

Prof’s Paper” (O Trabalho do Professor Negro), página 5, assinado

por Segun Adelugba;

2. Nigerian Observer de 28.1.1977: “The Plight of Blacks in Brazil”

(A Desgraça dos Negros no Brasil), por Mike Ogbeide;

3. Nigerian Punch, em 29.1.1977: “Why Was My Paper Rejected? –

Nascimento Asks Colonel Ali” (Por que Meu Trabalho foi

Rejeitado? – Nascimento Pergunta ao coronel Ali), página 3, por

Nkunda A. Onum;

4. Daily Times, em 29.1.1977, “Ideology That Can Suit Our Cause”

(Ideologia Apropriada à Nossa Causa), por Bisi Adebiyi;

5. Sunday Tide, 30.01.77: “Nascimento Blasts Colloquium”

(Nascimento Arrasa o Colóquio), por Fubara David-West.

 

Naturalmente, o comportamento da imprensa, revelando o interesse

tão vivo, ultrapassava os limites da mera curiosidade jornalística a respeito do meu trabalho: considero o fato mais como demonstração de interesse profundo pelo Brasil – o segundo maior país negro do mundo, superado em importância demográfica apenas pela própria

Nigéria. Ou talvez tal interesse emergisse da constante evidência da interação econômica com o Brasil que os nigerianos constatam permeando sua vida cotidiana; talvez por causa dos numerosos nigerianos que retornaram do cativeiro no Brasil e formaram um bem conhecido bairro brasileiro, em Lagos. Seja qual for a razão ou razões, o fato é que o interesse no tema das condições do negro no Brasil foi de tal natureza, que os nigerianos e sua imprensa permanecem atentos até mesmo após o encerramento do festival. Por exemplo, o Daily Sketch, em seu editorial de 14.2.1977, comentou sob o título “Festac was Grand, But…” (Festac Foi Grande, Porém…):

 

O colóquio, peça central do Festac, rejeitou o trabalho “Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality?, do professor Nascimento, um negro brasileiro, sem dar razões válidas para fazer isso. O falecido professor Pio Zirimu, o ugandiano diretor do colóquio, foi transcrito dizendo que o “trabalho do professor Nascimento tinha sido rejeitado pelo establishment; aparentemente porque ele foi considerado ofensivo para alguns governos ou interesses. Se isto for verdadeiro, então um grande ponto sobre o Festac tem sido ignorado: isto é, ele é mais um acontecimento de povos-para-povos que de governos-para-governos, mesmo que os contingentes nacionais possam ter sido patrocinados por seus respectivos governos (p. 3).

 

A 18.2.1977, o Daily Times publicou uma carta assinada por

Olalekan Ajia (Kuti Hall, Universidade de Ibadan), sob o título de “Shadow-Boxing at Colloquium” (Treinando Box no Colóquio) (p. 13), na qual o missivista condena a rejeição do estudo e a maneira sigilosa sob a qual os responsáveis esconderam as razões da decisão.

Pelos motivos salientados pelo Daily Sketch em seu editorial, isto é,

de que a conferência deveria ser um encontro de povos e indivíduos antes que de governos, este mesmo diário tomou a decisão de transmitir na íntegra, diretamente ao povo da Nigéria, a mensagem dos negros brasileiros contida no trabalho. Assim o Sketch publicou o ensaio, dividido em cinco capítulos, nos dias 11, 12, 14, 15 e 16 de fevereiro de 1977, sob o título geral de “The Nascimento Paper” (O Ensaio de Nascimento).

O interesse em torno do “caso” atingiu nível internacional,

atravessando as fronteiras da Nigéria. Um exemplo temos no jornalista português António de Figueiredo, que desde Lagos escreveu longo artigo intitulado “Brasil Festac’77”, publicado no Diário Popular, de

Lisboa, em 23.2.1977. Depois de se referir à minha entrevista ao Sunday Times como um “olho negro na imagem do Brasil”, o cronista prossegue colocando o dedo na ferida: “Significativamente, e com certo escândalo, a comunicação do professor Nascimento, ‘Democracia Racial’ no Brasil: Mito ou Realidade?, não foi aprovada…”

Prosseguindo seu raciocínio, o escritor começa a levantar a ponta do

véu encobrindo o segredo que envolvia a questão: “Altos interesses diplomáticos, diretamente ligados às crescentes relações brasileiro-nigerianas, levantaram-se e o professor Nascimento recebeu uma resposta de recusa.”

Figueiredo ajuda a iluminar as defesas encobertas da ideologia

brasileira: “a língua portuguesa e a longa tradição de censura sobre questões raciais têm contribuído para manter o Brasil ‘resguardado’ da atenção das correntes principais do pan-africanismo e negritude”. E então sabiamente adverte o escritor:

 

Mas que os nossos amigos brasileiros não se equivoquem acerca da validade da tese do professor Nascimento e aprendam com a experiência portuguesa. […] E embora o racismo entre português e brasileiro tenha a condição de pecado, o que é de fato é que se peca a todo momento.

 

Em forma de livro mimeografado, o trabalho foi editado pelo

Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ifé, e foi distribuído aos participantes do colóquio. Esta edição de duzentos exemplares provocou muita discussão e curiosidade. Uma manifestação do ativo interesse inspirado pelo volume se encontra na proposta de um delegado de Zâmbia ao Grupo de Trabalho IV: Civilização Negra e Consciência Histórica. (Os participantes do colóquio se dividiram em cinco grupos de trabalho a fim de facilitar a discussão tópica das teses apresentadas sob a rubrica de um dos dez subtemas. Entretanto, durante a primeira semana todos os coloquianos se reuniram diariamente, pela manhã, em sessão plenária, para assistir a uma série de conferências públicas, dedicando a parte da tarde aos trabalhos de grupo. Na segunda semana, quase todo dia houve sessões plenárias para discutir os relatórios de grupo e suas recomendações). Assim foi que o delegado de Zâmbia, a 26 de janeiro, propôs na reunião do Grupo IV que se tomasse em consideração, em suas