O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado

XIII. A Estética da Brancura nos Artistas Negros

XIII. A ESTÉTICA DA BRANCURA NOS

 

 

ARTISTAS NEGROS ACULTURADOS

 

Da exposição que estamos fazendo, podemos resumir uma definição simples e irrefutável: sem exceção, tudo o que sobrevive ou persiste da cultura africana e do africano como pessoa, no Brasil, é a despeito da cultura ocidental europeia dominante, do “branco” brasileiro, e da sociedade que, há quatro séculos, reina no país. Os africanos e seus descendentes, os verdadeiros edificadores da estrutura econômica nacional, são uns verdadeiros coagidos, forçados a alienar a própria identidade pela pressão social, se transformando, cultural e fisicamente, em brancos. Guerreiro Ramos, quem melhor apresentou os valores e o pensamento da estética negra no Brasil, nota que “A aculturação é tão insidiosa que ainda os espíritos mais generosos são por ela atingidos e, assim domesticados pela

brancura, quando imaginam o contrário” [155].

Os efeitos da aculturação se revelam num escritor como Raimundo Sousa Dantas, o único negro que exerceu um cargo de embaixador, em Gana, que se declara com orgulho um negro culturalmente branco – um homem

ocidental [156]. Diégues Jr., mulato, e membro do Conselho Federal de Cultura, há muitos anos diretor do Centro de Pesquisas Sociais Latino-Americano, órgão da Unesco, sediado no Rio de Janeiro, afirma sua identificação cultural branca no ensaio incluído no livro especialmente publicado pelo Ministério das Relações Exteriores, para o Festival Mundial de Artes Negras, em Dacar: “Nunca se enraizou no brasileiro filho dessas relações entre dois grupos étnicos, nenhum sentimento de preconceito de

cor, nenhum tipo de segregação.” [157]

Entre nós há inúmeros exemplos de negros e mulatos tão profundamente marcados por essa assimilação a ponto de manifestarem ódio à própria cor. Tentam exorcizar sua negrura usando os recursos da autoflagelação, mas só conseguem o autodesprezo. O etnógrafo Edison Carneiro foi um desses atormentados pela origem racial e certa vez desabafou: “a obra do que chamamos ‘civilização do Brasil’ foi exatamente a destruição das culturas particulares do negro e do índio”. Entretanto, esse mulato da Bahia completou o raciocínio demonstrando um admirável servilismo às classes dominantes quando disse que o fato de “ter rompido esses laços com África, embora por processos muitas vezes brutais, me parece uma aquisição válida

do povo brasileiro” [158]. (Grifos meus.)

No século passado, poetas de origem negra, como Domingos Caldas Barbosa (1738-1800) ou Manoel lnácio da Silva Alvarenga (1730-1800) seguiram modelos literários europeus, se distanciando completamente de suas raízes ancestrais africanas. O mesmo havia ocorrido com Gregório de Mattos (1633-1696), o famoso satírico “boca do inferno” que tão ferozmente ironizou os mulatos possuidores de amantes negras ou mestiças; seu ideal de beleza era a beleza branca. Mas, conforme também se conta, havia grande diferença entre a atitude literária e social e o comportamento na vida real do poeta: ele também possuiu amantes mulatas, as vítimas fáceis da exploração sexual, ontem e hoje. Ansiosos pela aceitação e o reconhecimento da sociedade vigente, ambicionando atingir os níveis mais elevados da hierarquia social, além de candidatos ao mundo literário, os intelectuais negros e mulatos se submetiam ao implacável processo de branquificação interior. Na música, o padre José Maurício se destaca; na pintura, Manuel da Cunha e, na poesia, Gonçalves Dias. Citamos esses poucos exemplos apenas para caracterizar o preço do imposto pago, pelos escritores e artistas de origem africana, ao precário direito de viver.

Talvez nenhum outro exemplo de assimilação cultural e de pressão social seja tão expressivo e dramático como no caso do poeta negro João da Cruz e Sousa (1861-1897), segundo Roger Bastide “o mais admirável cantor do

seu povo” [159]. Com efeito, o profundo sofrimento na vida diária desse poeta e o conteúdo de sua obra literária, são simbólicos da condição de todo o povo negro do Brasil: a de totalmente “emparedado” pela estética da brancura. Cruz e Sousa evoca “Ó formas alvas, brancas,/ Formas claras/ De

luares, de neves, de neblinas!…” [160] Em outro trecho, o poeta lamenta:

 

então claramente, vejo e sinto, desiludido das Coisas, dos Homens e do Mundo, que o que eu supunha, embriagamento, arrebatamento de amor nas tuas asas, ó loira Águia Germânica! – nada mais foi que o sonambulismo de um sonho à beira dos rios marginados de resinosos alcentros em flor, na dolência da lua nebulosa e fria […].

[161]

Tentou Cruz e Sousa “uma nova e inédita interpretação visual da cor negra”, e ainda, conforme Roger Bastide, se teve sucesso, foi por ter

“pensado a noite como africano” [162]. A despeito da profunda aculturação que o marcava, há na poesia de Cruz e Sousa a presença difusa, mas identificável da África, ora no ritmo e na musicalidade dos versos, no espiritualismo que antes de corresponder a uma exigência do simbolismo, escola poética à qual se filiava, deixa transparecer uma herança étnico-cultural de impossível erradicação. No entanto, o que está exposto de forma concreta em sua obra são as normas, a inspiração, os símbolos de origem nórdica-europeia que caracterizavam o fenômeno explicado pela competência de Frantz Fanon:

 

Porque nenhuma outra solução resta para ele, o grupo social racializado tenta imitar o opressor e assim desracializar-se. A “raça inferior” nega a si mesma como uma raça diferente. Ela partilha com a “raça superior” as convicções, doutrinas e outras

atitudes a respeito dela mesma. [163]

 

Mas existiram aqueles que se recusaram a desaparecer e combateram a assimilação; entre estes se inscreve o nome de Luís Gama. Ex-escravo, tornou-se advogado para defender sua raça, tendo sido orador abolicionista famoso. Mas nos legou seu verso vingador, que não só canta a beleza negra, como vergasta os negros e mulatos que fogem da própria cor epidérmica e querem se fingir de brancos. Foi um precursor da poesia negra revolucionária do nosso tempo, e numa delas evoca a imagem de sua mãe, da qual foi separado quando tinha oito anos de idade, na Bahia, pelo aristocrata português, seu pai, que o vendera como escravo para um comprador de São Paulo, onde viveu até à morte. Nunca mais, desde a separação, Luís Gama tornou a ver sua mãe, que “Era a mais linda pretinha/

Da adusta Líbia rainha/ E no Brasil pobre escrava” [164].

O poeta castigou a perversão da sociedade brasileira, caracterizada por

Guerreiro Ramos como uma patologia social do “branco” brasileiro [165] e que se traduz na ansiedade mórbida de se tornar mais claro, alvo. Na sátira “Bodorrada”, fustiga Luís Gama:

 

Se os nobres desta terra empanturrados,

Em Guiné têm parentes enterrados,

E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,

Esquecem os negrinhos, seus patrícios,

Se mulatos de cor esbranquiçada,

Já se julgam de origem refinada,

E curvos à mania que os domina,

Desprezam a vovó que é preta-mina;

Não te espantes, leitor, da novidade,

Pois tudo no Brasil é raridade! [166]

 

Lima Barreto (1881-1922) foi outro que não se dobrou às imposições do meio. Como romancista, suas histórias focalizam em geral o ambiente nos subúrbios do Rio de Janeiro onde vive a maioria da gente negra. Personagens afro-brasileiros vivem nos seus livros, embora o autor não esteja preocupado em aprofundar o conhecimento e análise de sua herança cultural. Lima Barreto, diferentemente de Cruz e Sousa, desenvolveu sua obra numa linguagem viva, quase tão livre como o falar do povo, e desdenhou aqueles escritores que se autoencarceravam aos rigores gramaticais e estilísticos da língua portuguesa usada pelos acadêmicos do Brasil ou de além-mar. Como foi o caso de um Machado de Assis (1857-1913), outro notável fenômeno de assimilação cultural. Retratou em seus escritos principalmente o ambiente e pessoas da classe média, branca, com seus temas, interesses, personagens estranhos ao negro, ou onde este só poderia “infiltrar” como elemento decorativo. Machado de Assis, descendente de africano, fundador da Academia Brasileira de Letras, se obrigava a se exprimir num português acadêmico do melhor estilo; o reconhecimento e a ascensão social que perseguiu, impuseram a Machado um ônus cujo peso ele talvez nem sentisse… Não manteve apenas fidelidade aos padrões e estilos metropolitanos; a rendição de Machado foi tão extrema a ponto de transformá-lo num verdadeiro mestre que aperfeiçoou, enriqueceu e expandiu a língua portuguesa utilizada na criação artística tanto no Brasil quanto em Portugal.

Não é somente na esfera intelectual e artística que o fenômeno da domesticação se mostra enfático. Também no domínio popular. O folclore registra nestes versos singelos a tendência brasileira de obliterar a identidade do africano: “Quando io tava na minha terra/ io chamava

Capitão/ chega na terra di branco/ io me chama Pai João!” [167]

Como norma, o tratamento dispensado ao caráter negro na literatura brasileira é o de reduzi-lo à condição do estereótipo. No capítulo II, quando citamos Pierre Verger e Luís Viana Filho, mencionamos alguns desses lugares-comuns: a mãe preta aleitando os filhinhos dos senhores brancos, ninando-os para dormir, ou ensinando a eles as primeiras palavras no português estropiado. Com paciência e devoção, Roger Bastide investigou os inumeráveis estereótipos sobre o africano e seus descendentes na poesia,

na prosa e no folclore do país [168]. Fica-se surpreso com a violência manifestada em vários intelectuais brancos, e alguns negros e mulatos; os últimos, na busca de acesso à sociedade dominante, ou ao mundo das letras, não hesitaram em degradar a própria origem étnica. Bastide examinou a obra dos seguintes autores: Bernardo Guimarães, Gregório de Mattos, MeIlo Morais Filho, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar, Machado de Assis, Júlio Ribeiro, Aluízio de Azevedo, Adolfo Ferreira Caminha, e outros. Entre os estereótipos registrados por Bastide estão os seguintes:

 

o negro bom – estereótipo da submissão

o negro ruim – estereótipo da crueldade inata, sexualidade desenfreada, imundície,

preguiça e imoralidade

o africano – estereótipo da feiúra física, brutalidade crua, feitiçaria e superstição o crioulo – dissimulação, malícia, esperteza, selvageria o mulato livre – vaidade pretensiosa e ridícula

a mulata e a crioula – voluptuosidade

 

Este último estereótipo, o qual já vimos funcionando na “dança religiosa”

de Jorge Amado, com remelexos de quadris e sexo espumando, é uma das

mais perniciosas imagens, se considerarmos que o apelo da mulata ao

branco tem sido creditado como uma das provas irrefutáveis da

“democracia racial” no Brasil. Entretanto, a existência desse apelo, para

melhor ser dito, reflete uma prova inadmitida e não reconhecida da

exploração sexual da mulher negra e mulata. Prova mais uma condenável

agressão de caráter patológico que se torna monstruosa normalidade

praticada com a frequência e a tranquilidade rotineira dos acontecimentos

rituais de uma sociedade profundamente racista…

Jorge de Lima, mulato poeta, fornece outro ângulo do mesmo estereótipo no famoso poema “Essa Negra Fulô”. Vejamos, na transcrição de uns poucos versos, como a poesia focalizou a escrava negra cuja sensualidade rouba o senhor branco da sinhá:

 

O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa

O Sinhô disse: Fulô!

A vista se escureceu

que nem a negra Fulô.

 

O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção

de dentro dele pulou

nuinha a negra Fulô. [169]

 

Com todo o mapa dessa tradição literária diante dos olhos, Guerreiro Ramos, com a precisão que o caracteriza, concluiu: “o que importa assinalar é que se formou entre nós uma literatura, principalmente de caráter poético, que explora os motivos negros em termos reacionários, embora seus autores

sejam animados das melhores intenções” [170].