O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado
XIV. Uma Reação Contra o Embranquecimento: O Teatro
XIV. UMA REAÇÃO CONTRA O
EMBRANQUECIMENTO: O TEATRO
EXPERIMENTAL DO NEGRO
Minha consciência negra não se
oferece como uma carência. Ela é.
Frantz Fanon
Para confrontar o desafio implícito na situação descrita nas páginas
precedentes, fundamos em 1944, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental
do Negro– TEN, com os seguintes objetivos básicos: a. resgatar os valores
da cultura africana, marginalizados por preconceito à mera condição
folclórica, pitoresca ou insignificante; b. através de uma pedagogia
estruturada no trabalho de arte e cultura, tentar educar a classe dominante
“branca”, recuperando-a da perversão etnocentrista de se autoconsiderar
superiormente europeia, cristã, branca, latina e ocidental; c. erradicar dos
palcos brasileiros o ator branco maquilado de preto, norma tradicional
quando a personagem negra exigia qualidade dramática do intérprete; d.
tornar impossível o costume de usar o ator negro em papéis grotescos ou
estereotipados: como moleques levando cascudos, ou carregando bandejas,
negras lavando roupa ou esfregando o chão, mulatinhas se requebrando,
domesticados Pais Joões e lacrimogêneas Mães Pretas; e. desmascarar como
inautêntica e absolutamente inútil a pseudocientífica literatura que a
pretexto de estudo sério focalizava o negro, salvo raríssimas exceções,
como um exercício esteticista ou diversionista: eram ensaios apenas
acadêmicos, puramente descritivos, tratando de história, etnografia,
antropologia, sociologia, psiquiatria, e assim por diante, cujos interesses estavam muito distantes dos problemas dinâmicos que emergiam do
contexto racista da nossa sociedade.
O Teatro Experimental do Negro– TEN iniciou sua tarefa histórica e revolucionária convocando para seus quadros pessoas originárias das classes mais sofridas pela discriminação: os favelados, as empregadas domésticas, os operários desqualificados, os frequentadores dos terreiros. Com essa riqueza humana, o TEN educou, formou e apresentou os primeiros intérpretes dramáticos da raça negra – atores e atrizes – do teatro brasileiro. Seguindo esta orientação, o TEN inspirou e estimulou a criação de uma literatura dramática baseada na experiência afro-brasileira, dando ao negro a oportunidade de surgir como personagem-herói, o que até então não se verificara, salvo os raros exemplos mencionados do negro como figura estereotipada (como ocorria em peças como Mãe e Demônio Familiar, ambas de José de Alencar). Em sua antologia, Dramas Para Negros e Prólogo Para Brancos, o TEN documenta essa fase pioneira da nossa dramaturgia. Não separávamos nossa atuação no palco dos acontecimentos político-sociais de interesse para os descendentes africanos. Por isso, o TEN promoveu, entre outros certames, a Convenção Nacional do Negro (São Paulo e Rio de Janeiro, 1945-1946) e o 1o Congresso do Negro Brasileiro (Rio de Janeiro, 1950). Diversos trabalhos apresentados a este congresso, por escrito ou em forma oral, estão reunidos no volume O Negro Revoltado.
Extensa e profunda foi a influência que o TEN exerceu, tanto no setor propriamente teatral como, de maneira geral, na sociedade brasileira; um documentário a respeito se acha publicado no livro Teatro Experimental do Negro: Testemunhos. Na introdução deste volume o escritor Efraím Tomás Bó sublinha a perspectiva negra de concepção do mundo, a qual nada tem a ver com a visão arcaica. Trata-se, para Bó, de uma cosmovisão antiga e atual: “o negro, negro que é, tem olhos e ouvidos e consciência para perceber o mundo e qualificá-lo, reinterpretando-o com seus calejados olhos
e ouvidos negros de hoje” [171].
Em sua importante obra sob o título Introdução Crítica à Sociologia Brasileira, Guerreiro Ramos escreve:
O Teatro Experimental do Negro foi, no Brasil, o primeiro a denunciar a alienação da antropologia e da sociologia nacional, focalizando os povos de cor à luz do pitoresco, ou do histórico puramente, como se se tratasse de elemento estático ou mumificado. Esta denúncia é um leitmotiv de todas as realizações do TEN, entre as quais seu
Jornal Quilombo, a Conferência Nacional do Negro (1949), e o Primeiro Congresso
do Negro Brasileiro, realizado em 1950. [172]
Fiel à sua orientação pragmática e dinâmica, o TEN evitou sempre adquirir a forma anquilosada e imobilista de uma instituição acadêmica. A estabilidade burocrática não constituía o seu alvo. O TEN atuou sem descanso como um fermento provocativo, uma aventura da experimentação criativa, propondo caminhos inéditos ao futuro do negro, ao desenvolvimento da cultura brasileira. Para atingir esses objetivos, o TEN se desdobrava em várias frentes: tanto denunciava as formas de racismo sutis e ostensivas, como resistia à opressão cultural da brancura; procurou instalar mecanismos de apoio psicológico para que o negro pudesse dar um salto qualitativo para além do complexo de inferioridade a que o submetia o complexo de superioridade da sociedade que o condicionava. Foi assim que o TEN instaurou o processo dessa revisão de conceitos e atitudes, visando à liberação espiritual e social da comunidade afro-brasileira. Processo que está na sua etapa inicial, convocando a conjugação do esforço coletivo da presente e das futuras gerações do negro brasileiro.
Com efeito, a geração atual dos jovens descendentes de africanos está demonstrando um promissor espírito rebelde. Apesar das difíceis condições vigentes no Brasil, impostas pela ditadura militar desde 1964, com a supressão das liberdades públicas e das garantias dos direitos individuais e humanos, há tentativas que denunciam a inquietude dos jovens na procura de um caminho válido. E isto se torna mais difícil por causa do ambiente verificável no país, vazio de esperança e cheio de confusão. Essas realidades tornam compreensível o fenômeno que se verifica nas grandes cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, onde a juventude negra canaliza suas ansiedades para movimentos como estes intitulados de “Black Mad”
ou de “Soul” [173] , utilizando a música, a dança, o vestuário, o corte do cabelo e outros símbolos como demonstrativos de inconformismo e confrontação. E também para evadir do sentimento de frustração, mesmo ao custo de recorrer a modelos alienados, cuja origem ostensiva são os estilos cultivados pelos negros dos Estados Unidos. Quem pode adivinhar se essa iniciativa, aparentemente equivocada, não se transformará num movimento de tomada de consciência e de uma afirmação original afro-brasileira?
Porém nem toda a geração jovem está comprometida nesse tipo de atividades. Boa parte dela possui uma nítida consciência de suas responsabilidades diante das condições de penúria, marginalização e desprezo vigorantes para os afro-brasileiros de modo geral. Este é o caso do grupo baiano que tenta articular um instrumento que ajude seus irmãos negros atingidos pelos conceitos negativos à sua dignidade de ser humano e às suas possibilidades como protagonista histórico capaz de contribuir para a história e a cultura do seu povo. Ameaçados pela doutrinação e pelo paternalismo do branco, alguns negros na Cidade do Salvador se reuniram e fundaram o Núcleo Cultural Afro-Brasileiro. Lançaram manifesto parcialmente publicado na Tribuna da Bahia, , definindo que “o preconceito não é econômico, como muita gente afirma, pois até nas classes mais baixas
os brancos discriminam os pretos de igual posição econômica” [174].
O Núcleopromoveu um seminário sobre o Negro nas Ciências Sociais, durante o qual examinou os fatores e os produtos da ideologia da branquificação coerciva. No documento resultante desse encontro, os participantes põem em relevo que
vítima dessa ideologia, o negro não assume a sua negritude, negando-se a si próprio e arriscando-se a sofrer vários problemas psicológicos, ao negar sua própria essência, ao querer imitar gestos, atitudes e até mesmo frequentar salões de beleza a fim de espichar o cabelo para assim branquear-se
Resumindo tudo o que foi apresentado, debatido e examinado pelos seminaristas, o manifesto divulgou com absoluta propriedade a seguinte conclusão: “Este terrível condicionamento psicológico marca o negro para o resto da vida, conduzindo-o a uma situação de pária social, através de sua autorejeição.”
Outras tentativas de organizar a gente negra em torno de semelhantes propósitos discretamente desenvolvem seus esforços em vários estados do país. Mencionaremos o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, que reúne, no Rio de Janeiro, uma juventude seriamente dedicada ao projeto a que se propôs. Trata-se, sem dúvida, de um grupo que muito poderá contribuir numa mudança de qualidade no destino do negro, se perseverar e não desistir diante dos inumeráveis obstáculos que terá de enfrentar. Em São Paulo, onde existe uma muito ativa e politizada comunidade negra, funcionam a Casa da Cultura Afro-Brasileira, e as sete entidades que convocaram o Movimento Unificado Contra a Discriminação Racialao organizar o ato público realizado nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, dia 7 de julho 1978. São elas o Grupo Afro-Latino-América, Grupo de Atletas Negros, Associação Cultural Recreativa Brasil Jovem, Grupo de Artistas Negros, Afro-Latino-América (Rio de Janeiro), Associação Cristã Brasileira Beneficente, Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas. Manifestaram sua adesão ao ato público várias entidades da Bahia, como também do Rio de Janeiro, entre estas o Centro de Estudos Brasil-África (CEBA) e o G.R.A.N. Escola de Samba Quilombo. Em Porto Alegre (Rio Grande do Sul) atua o Grupo Palmares, liderado por alguns jovens egressos de universidades, além de outros grupos como, por exemplo, aquele que edita o jornal Tição. Em São Paulo, o poeta Oswaldo Camargo lidera o lançamento do periódico Abertura. Há muito esforço anônimo, muita luta negra espalhada pelo vasto território nacional. Mesmo sem uma ligação formal, todos esses grupos, pessoas, energias e realizações estão comprometidos, são cúmplices, numa mesma tarefa histórica que é a continuidade do processo de libertação da raça, estabelecido no Brasil pelos primeiros africanos que pisaram o chão do país. São os precursores desse esforço contemporâneo e tanto se denominaram quilombos e revoltas como se chamaram Zumbi, Chico-Rei (Minas Gerais, século XVIII), André Rebouças, José de Patrocínio, Luís Gama; o inesquecível herói da Revolta da Chibata, João Cândido; entre os mais recentes aí estão um Aguinaldo Camargo, Sebastião Rodrigues Alves e Fernando Góes. José Correia Leite foi co-fundador da Frente Negra Brasileira, em São Paulo, movimento cultural e político que empolgou as massas afro-brasileiras na década de 1930, floresceu e se espalhou por vários estados da Federação. Terminou fechado pela ditadura do Estado Novo, em 1937, que proibiu toda e qualquer atividade associativa no país.
Os participantes do ato público de julho de 1978 distribuíram a seguinte
CARTA ABERTA À POPULAÇÃO
CONTRA O RACISMO
Hoje estamos na rua numa campanha de denúncia!
Campanha contra a discriminação racial, contra a opressão policial, contra o
desemprego, o subemprego e a marginalização. Estamos nas ruas para denunciar as péssimas condições de vida da Comunidade Negra.
Hoje é um dia histórico. Um novo dia começa a surgir para o negro! Estamos saindo das salas de reuniões, das salas de conferências e estamos indo
para as ruas. Um novo passo foi dado na luta contra o racismo.
Os racistas do Clube de Regatas Tietê que se cubram, pois exigiremos justiça. Os
assassinos dos negros que se cuidem, pois a eles também exigiremos justiça!
O MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL foi criado para ser um
instrumento de luta da comunidade Negra. Este movimento deve ter como princípio básico o trabalho de denúncia permanente de todo ato de discriminação racial, a constante organização da comunidade para enfrentarmos todo e qualquer tipo de racismo. Todos nós sabemos o prejuízo social que causa o racismo. Quando uma pessoa não gosta de um negro é lamentável, mas quando toda uma sociedade assume atitudes racistas frente a um povo inteiro, ou se nega a enfrentar, aí então o resultado é trágico para nós negros:
Pais de família desempregados, filhos desamparados, sem assistência médica, sem
condições de proteção familiar, sem escolas e sem futuro. E é este racismo coletivo, este racismo institucionalizado, que dá origem a todo tipo de violência contra um povo inteiro. É este racismo institucionalizado que dá segurança para a prática de atos racistas como os que ocorreram no Clube Tietê, como o ato de violência policial que se abateu sobre Robson Silveira da Luz, no 44o Distrito Policial de Guaianazes, onde este negro, trabalhador, pai de família, foi torturado até a morte. No dia 19 de julho, Nilton Lourenço, mais um negro operário, foi assassinado por um policial no bairro da Lapa, revoltando toda a comunidade e o povo em geral.
Casos como estes são rotina em nosso país, que se diz democrático. E tais acontecimentos deixam mais evidente e reforçam a justiça de nossa luta,
nossa necessidade de mobilização.
É necessário buscar formas de organização. É preciso garantir que este movimento
seja um forte instrumento de luta permanente da comunidade, onde todos participem de verdade, definindo os caminhos do movimento. Por isto chamamos todos para engrossarem o MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL.
Portanto, propomos a criação de CENTROS DE LUTA DO MOVIMENTO UNIFICADO
CONTRA DISCRIMINAÇÃO RACIAL nos bairros, nas vilas, nas prisões, nos terreiros de candomblé, nos terreiros de umbanda, nos locais de trabalho, nas escolas de samba, nas igrejas, em todo o lugar onde o negro vive: CENTROS DE LUTA que promovam o debate, a informação, a conscientização e organização da comunidade negra, tornando-nos um movimento forte, ativo e combatente, levando o negro a participar em todos os setores da sociedade brasileira.
Convidamos aos setores democráticos da sociedade que nos apoiem, criando as
condições necessárias para criar uma verdadeira democracia racial.
– CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL!
– CONTRA A OPRESSÃO POLICIAL!
– PELA AMPLIAÇÃO DO MOVIMENTO!
– POR UMA AUTÊNTICA DEMOCRACIA RACIAL!
“Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial”