O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado
XI. Sincretismo ou Folclorização?
XI. SINCRETISMO OU
FOLCLORIZAÇÃO?
A fertilidade racionalizadora do racismo brasileiro não tem limites: é dinâmica, polifacética e capaz das manipulações mais surpreendentes. No rol dessas últimas figuras o chamado “sincretismo religioso”. Segundo a imagem que este mito pretende transmitir, as religiões africanas, ao se encontrarem no Brasil com a religião católica, ter-se-iam amalgamado ou se fundido naturalmente, intercambiando influências de igual para igual, num clima de fraterna compreensão recíproca. Entre outros, Roger Bastide demonstrou exaustivamente o contrário; que longe de resultar de troca livre e de opção aberta, o sincretismo católico-africano decorre da necessidade que o africano e seu descendente teve de proteger suas crenças religiosas contra as investidas destruidoras da sociedade dominante. As religiões africanas, efetivamente postas fora da lei pelo Brasil oficial, só puderam ser preservadas através do recurso da sincretização. O catolicismo, como a religião oficial do Estado, mantinha o monopólio da prática religiosa. Os escravos se viram assim forçados a cultuar, aparentemente, os deuses estranhos, mas sob o nome dos santos católicos guardaram, no coração aquecido pelo fogo de Xangô, suas verdadeiras divindades: os orixás. Bastide nos diz que o “sincretismo é simplesmente uma máscara posta
sobre os deuses negros para benefício dos brancos” [135]. Os negros fizeram uma inversão na fórmula e sacaram dela resultado positivo à preservação e continuidade da sua religião. Tem sido o sincretismo mais outra técnica de resistência cultural afro-brasileira do que qualquer das explicações “científicas” propagadas com fito domesticador. Estas ignoram a exigência prévia, para a ocorrência de um efetivo sincretismo, das condições que assegurem a espontaneidade e liberdade daqueles que fazem intercâmbio. Como é que poderia uma religião oficial, locupletada no poder, misturar-se num mesmo plano de igualdade, com a religião do africano escravizado que se achava não só marginalizada e perseguida, mas até destituída da sua qualidade fundamental de religião? Somente na base flagrantemente violenta de imposição forçada poderia ter sucesso o sincretismo das religiões africanas com o catolicismo. Isto foi o que realmente aconteceu, e os testemunhos documentando este fato são muitos. Para manter uma completa submissão do africano, o sistema escravista necessitava acorrentar não apenas o corpo físico do escravo, mas também seu espírito. Para atingir este objetivo se batizava compulsoriamente o africano escravizado, e a Igreja Católica exercia sua catequese e proselitismo à sombra do poder armado. Mudam-se os tempos, mas não o tratamento dispensado ao negro pela sociedade brasileira: hoje, em vez do batismo compulsório, temos a “democracia racial” compulsória, cujos mandamentos são impostos pela ameaça policial, pela Lei de Segurança Nacional, e todo um cortejo de instrumentos legais e ilegais para amedrontar e dissuadir aqueles que não querem rezar pelo catecismo oficial…
Só mereceu o nome de sincretismo o fenômeno que envolveu as culturas africanas entre si, e entre elas e a religião dos índios brasileiros. Na Bahia, há candomblé de várias origens; o candomblé de origem angolana e congolesa usa, por empréstimo, elementos rituais e de organização sacerdotal do culto iorubá. Entretanto, com Bastide observamos que os espíritos bantos ainda continuam preservados
em correspondência direta com as deidades iorubás, igualmente como se houvesse algum dicionário que sancionasse uma recíproca transferência entre uma e outra religião. Assim, Xangô, o deus-trovão iorubá, é identificado pelos angolanos com Zaze, Kibuko-Kiassubangango; e pelos congoleses como Kanbaranguanje. Identicamente o deus iorubá da medicina e da cura é identificado pelos angolanos como Camungo, Cajanja, e pelos congoleses como Quingongo. Entre os bantos Oxumaré, o arco-íris, torna-se Angorô, e Oxalá, o deus-céu, Cassumbeca, enquanto
Exu reaparece como o angolano Aluvia e o congolês Bombonjira [136].
Embora a religião iorubá claramente predomine nesse contexto afro-brasileiro, a importância das religiões de outras procedências africanas não deve ser subestimada. O encontro das religiões africanas com a religião nativa dos indígenas manifesta-se nos terreiros de caboclos, onde o culto mistura os dois sistemas espirituais. Roger Bastide minuciosamente estabeleceu um quadro mostrando as deidades correspondentes entre oito grupos no Brasil: iorubá, fon, ketu, angola, congo, tapa, caboclo e cabinda.
Atualmente, pelo menos cinco grupos estão representados no culto afro-
brasileiro: banto, keto, ijesha, ewe e iorubá [137].
As diferenças que se notam nas expressões das religiões afro-brasileiras e em sua sincretização obedecem exigências culturais específicas oriundas das diferentes áreas geográficas: o culto afro-brasileiro prevalecente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e adjacências denomina-se macumba. Embora progressivamente a macumba assimile a religião indígena, a iorubá, elementos do catolicismo e do espiritismo kardecista, a influência banta permanece a mais ponderável. No estado do Rio Grande do Sul, a religião afro-brasileira próxima à macumba é o batuque. Enquanto no estado de Pernambuco, mais ligado ao candomblé, o culto denomina-se Xangô, no estado do Maranhão, com preponderante influência dos fon (Daomé, hoje Benin) é conhecido como tambor de minas.
Outra variação que ultimamente vem se expandindo com velocidade, sobretudo nos estados do sul, é a umbanda. A influência predominante é a banta, porém a composição inclui elementos de origem indígena, do espiritismo kardecista, hindu, chinesa, e outras menos significativas. Seu crescimento rápido é notado não só no Brasil, como também noutros países da América. As raízes africanas da umbanda são profundas e básicas.
Sincretismo entre diferentes religiões africanas e cultos dos índios brasileiros vem se constituindo em um processo de natureza inteiramente diferente daquele ocorrido com o catolicismo – a despeito da usual e artificial identificação de ambos os processos cometida por vários estudiosos. O professor Wande Abimbola, da Universidade de Ifé, bem conhecido internacionalmente como um expositor do corpo literário de Ifá, em seu relatório após visitar o Brasil assinala a diferença fundamental entre aquelas duas relações: “A religião tradicional africana não se considera, ao contrário do cristianismo, como o único caminho conduzindo à salvação. Os tradicionalistas africanos respeitam a fé dos outros como igualmente autêntica, e como uma experiência na qual eles mesmos podem tomar
parte.” [138]
A Igreja Católica, entretanto, não comete esse pecado, praticando tal tipo de coexistência pacífica. Citemos um exemplo para ilustrar: o bispo do estado do Espírito Santo, certa vez, após assistir a uma cerimônia banta chamada, na época, cabula, pronunciou uma sentença de anátema contra
ela [139]. Noutras ocasiões, o catolicismo se manifestou fortemente contra o fenômeno do sincretismo, taxando-o de uma forma herética ou manifestação de bárbaro paganismo. Assim considerada, a cerimônia da lavagem da Igreja do Bonfim esteve proibida durante longo tempo; os negros da Bahia estavam talvez reatando a continuidade de místicas celebrações à Obatalá, mas para as autoridades eclesiásticas tudo não passava de ritual pagão. E a lavagem só voltou a ser feita novamente quando os proibidores perceberam a inutilidade da medida que absolutamente não enfraquecia a fé dos crentes em seus orixás.
Uma recente amostra da “abertura” católica ao sincretismo teve lugar em São Paulo, há cerca de dois anos, quando a Secretaria de Turismo instituiu o Dia de Oxossi e o Dia de Ogum. O arcebispo de São Paulo, em coro com O Estado de S. Paulo, denunciou a iniciativa como profundamente atentatória ao espírito cristão, não poupando palavras de desprezo às religiões africanas. Mesmo em se tratando, como era o caso, de uma apropriação indébita dos deuses africanos pela indústria oficial do turismo…
Queremos registrar um derradeiro fato documentado pela Folha de S.Paulo a 13 de fevereiro de 1977, em reportagem intitulada: “Padre Não Quis Ver Xangô”. Resumindo os acontecimentos, a reportagem relata as providências tomadas pelos membros de um candomblé para a realização de uma missa, na Igreja do Rosário, edificada pelos escravos e seus descendentes no século passado. Pertenciam à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, instituição sobre cuja natureza fizemos referência no capítulo II. Um templo mais do que apropriado para a cerimônia projetada. Mas, apesar de sua antiga e profunda relação com a comunidade negra, o templo não estava disponível para aquela celebração, conforme divulgou a reportagem, que trazia o expressivo subtítulo “Proibida na Igreja, a Missa Foi Rezada no Terreiro”:
“Missa com iê-iê-iê pode, com candomblé não”. Assim o ogan do terreiro do Aché Ilé Obá, José da Silva, comentou ontem a decisão do padre Rubens de Azevedo, da igreja do Rosário, no largo do Paissandu, de não oficiar a missa em comemoração à inauguração do maior terreiro de candomblé do Brasil. Um pouco antes, ele havia recebido de volta os 190 cruzeiros pagos pela missa, que seria acompanhada por órgão e violinos. Imediatamente após a celebração da missa matinal, o padre Rubens se retirou da igreja, preocupado provavelmente com a advertência da Cúria Metropolitana de que ele teria que arcar com as consequências, caso a missa fosse realizada. O cancelamento da missa, entretanto, não impediu que os seguidores do candomblé se dirigissem para o largo do Paissandu, e, junto ao monumento da Mãe Preta, depositassem um ramalhete de rosas. Por advertência de um tenente do DSV, as filhas de santo, trajadas à maneira baiana, desistiram de entoar os cânticos da seita.
E a cerimônia ter-se-ia limitado a um discurso do vice-presidente da Confederação de Umbanda e Candomblé e ao repicar de alguns rojões, se o bispo da Igreja Católica Reunida não tivesse concordado em celebrar uma missa no terreiro que iria ser
inaugurado à noite, na Vila Fachini. [140]
Não só se negou a própria igreja da comunidade para o que seria uma prática “sincrética” como, além do mais, as pessoas que se dirigiram ao templo foram pela polícia proibidas de, ainda nas ruas, entoarem seus cânticos rituais – proibição que nunca é imposta aos celebrantes e participantes das missas ao ar livre e das procissões católicas que frequentemente se espalham em longos e cantantes desfiles pelas ruas das cidades de São Paulo e de todo o país.
O falso caráter deste chamado “sincretismo” pode ser também claramente percebido no tratamento desdenhoso dispensado às religiões africanas por seus supostos parceiros de sincretismo: os católicos brancos e os estudiosos. As concepções metafísicas da África, seus sistemas filosóficos, a estrutura de seus rituais e liturgias religiosos, nunca merecem o devido respeito e consideração como valores constitutivos da identidade do espírito nacional. E desprezando a cultura que os africanos trouxeram, os europeus reforçaram a teoria e a prática da rejeição étnica. Todos os objetivos do pensamento, da ciência, das instituições públicas e privadas, exibem-se como provas desta conclusão. Nada melhor para isso que invocar o pioneiro dos estudos afro-brasileiros, Nina Rodrigues, por causa do prestígio que ainda desfruta, a despeito da objeção de Guerreiro Ramos, que afirma: “Nina Rodrigues é, no plano da ciência social, uma nulidade, mesmo considerando-se a época em que viveu. Não há exemplo, no seu tempo, de tanta basbaquice e ingenuidade. […] sua obra, neste particular, é um
monumento de asneiras.” [141] Em seu livro Os Africanos no Brasil, Nina Rodrigues usa teorias do cientista europeu Lang a fim de caracterizar o africano como um selvagem. Desde o ponto de vista psicológico, afirma Rodrigues, “ele mostra uma consciência obscura”; de uma perspectiva
social, ele preservou concepções baseadas no “totemismo” [142]. A referência às leis “totêmicas” é só uma na miríade de expressões de desprezo, vigentes no dicionário da ciência de caráter imperialista. Há a tendência entre certos estudiosos e “cientistas” de rotular o candomblé como “fetichismo”, magia negra, superstição, animismo, e outras pejoratividades idênticas àquelas que mencionamos rapidamente em páginas anteriores dedicadas ao estudo do dr. George Alakija. É a linguagem de quem não compreende e desdenha. Incapazes de penetrar no sistema de pensamento por trás dos rituais, tentam destruir tudo. Isto com a ajuda do sistema de pensamento europeu ocidental que se tem imposto através da coerção, às vezes até com o emprego da força armada, entre outros recursos, o que significa um elemento deveras subversivo dentro do chamado processo de assimilação, aculturação e sincretismo.