O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado
XV. Conclusão
Na impossibilidade de apelar para a consciência brasileira, acreditamos que a consciência humana não poderá mais permanecer inerte, endossando a revoltante opressão e liquidação coletiva dos afro-brasileiros que estamos documentando nestas páginas, tanto mais eficaz quanto insidiosa, difusa e evasiva. Caracteriza-se o racismo brasileiro por uma aparência mutável, polivalente, que o torna único; entretanto, para enfrentá- lo, faz-se necessário travar a luta característica de todo e qualquer combate antirracista e antigenocida. Porque sua unicidade está só na superfície; seu objetivo último é a obliteração dos negros como entidade física e cultural. Tudo de conformidade com a observação de Florestan Fernandes: “Uma situação como esta envolve mais do que desigualdade social e pobreza insidiosa. Pressupõe que os indivíduos afetados não estão incluídos como grupo racial na ordem social existente como se não fossem seres humanos
nem cidadãos normais.” [175] (Grifos meus.)
Também Anani Dzidzienyo penetra fundo e vai até à essência mesma dessa ficção democrática e racial:
A posição do negro brasileiro num Brasil dominado pelos brancos difere daquela dos negros em sociedades similares em qualquer lugar somente na medida em que a ideologia brasileira de não discriminação – não refletindo a realidade e, aliás, camuflando-a – consegue sem tensão o mesmo resultado obtido pelas sociedades
abertamente racistas. [176]
Existem muitos outros elementos disponíveis para reforçar, se preciso fosse, a moldura e o conteúdo racista da “democracia racial”; porém, acredito na suficiência irreversível dos testemunhos reunidos na seqüência deste ensaio. Esta é a nossa contribuição na denúncia que, através dos anos e de várias formas e maneiras, tem confrontado a arrogância e a pretensiosidade racial da sociedade brasileira. O silêncio equivaleria ao endosso e aprovação desse criminoso genocídio perpetrado com iniquidade e patológico sadismo contra a população afro-brasileira. E nosso repúdio, nossa repulsa profunda e definitiva, engloba o inteiro complexo da sociedade brasileira estruturada pelos interesses racistas e capitalistas do colonialismo, até hoje vigentes, os quais vêm mantendo a raça negra em séculos de martírio e inexorável destruição.
Quando os africanos e seus descendentes ainda permaneciam escravizados no Brasil, e juridicamente não eram reconhecidos como seres humanos, não podiam utilizar-se da lei para se defender. Perfeitos condenados à morte civil, mereceram os cuidados de Joaquim Nabuco que se autoavocou o “mandato da raça negra” e assumiu a defesa jurídica dos escravos. Foi um gesto altruísta.
Atualmente, entretanto, os negros rejeitam qualquer tipo ou forma de “mandato” advogado por brancos em nosso nome – seja ele o mandato da casa dos representantes do capitalismo ou de qualquer ideologia, doutrina ou sistema que não reflita, de forma autêntica, os reclamos da experiência negra e africana; que não se ajuste aos objetivos humanísticos, políticos, econômicos e culturais que se radicam historicamente na estrutura comunal ou coletivista da tradição africana de organização da sociedade. O pensamento e a ação dos negros e africanos deverão proceder a uma atualização crítica e revolucionária dos valores especificamente seus, integrando, somando os valores de outras origens, selecionados segundo o critério da sua funcionalidade e apropriadamente reduzidos às necessidades da Revolução Africana. Devemos nós, africanos e seus descendentes, enfatizar nossa capacidade de agir no projeto deste mundo atual, o de modelar a civilização do futuro, aberta a todos os eventos e expressões da existência humana, livre de exploradores e explorados, o que resulta na impossibilidade de haver opressores e oprimidos de qualquer raça ou cor epidérmica. Não desejamos transferir para outros as responsabilidades que a história nos outorgou.
Portanto,
CONSIDERANDO: A inviabilidade de uma imediata revolução de caráter verdadeiramente popular e democrática no Brasil, capaz de mudar radicalmente as estruturas de poder e dominação na economia, na política e na estrutura social; uma revolução que, transformando o “branco” brasileiro, venha a erradicar os fundamentos racistas da sua cultura;
CONSIDERANDO: que um dos objetivos deste colóquio, segundo seu diretor, é fazer “recomendações específicas para governos e líderes de comunidades nos campos da educação, arte e cultura, da ciência e tecnologia”;
CONSIDERANDO: a gravidade dos fatos documentados e expostos nas páginas deste ensaio;
CONSIDERANDO: a urgente necessidade de medidas práticas no sentido de preservar a população afro-brasileira da extinção;
CONSIDERANDO: que todas as formas de colonialismo e neocolonialismo devem ser proscritas, sejam de tipo territorial, econômico, político, cultural ou psicológico;
CONSIDERANDO: que este colóquio tem a precípua finalidade de apoiar e contribuir para a aceleração do corrente processo de libertação dos povos africanos e dos povos de descendência africana em qualquer parte do mundo;
Por meio deste, proponho: que este colóquio se dirija ao governo do Brasil e, como um gesto de colaboração, ofereça ao mesmo as seguintes recomendações sobre providências concretas a serem tomadas pelo dito governo; recomendações estas que submeto à aprovação da Assembleia Geral deste colóquio:
1. Este colóquio recomenda que o governo do Brasil permita e estimule
a livre e aberta discussão dos problemas dos descendentes de
africanos no país; e que encoraje e financie pesquisas sobre a
posição econômica, social e cultural ocupada pelos afro-brasileiros
dentro da sociedade brasileira, em todos os níveis;
2. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro localize e
publique documentos e outros fatos e informações possivelmente
existentes em arquivos privados, cartórios, arquivos de câmara
municipal de velhas cidades do interior, referentes ao tráfico
negreiro, à escravidão e à abolição; em resumo, qualquer dado que
possa ajudar a esclarecer e aprofundar a compreensão da experiência
do africano escravizado e de seus descendentes;
3. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro inclua quesitos
sobre raça ou etnia em todos os futuros censos demográficos; que
em toda informação que o dito governo divulgue, tanto para
consumo doméstico como internacional a respeito da composição
demográfica do país, não se omita o aspecto da origem racial/étnica;
4. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro inclua um ativo e
compulsório currículo sobre a história e as culturas dos povos
africanos, tanto aqueles do continente como os da diáspora; tal
currículo deve abranger todos os níveis do sistema educativo:
elementar, médio e superior;
5. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro tome medidas
ativas para promover o ensino e o uso prático de línguas africanas,
especialmente as línguas ki-swahili e iorubá; o mesmo em relação
aos sistemas religiosos africanos e seus fundamentos artísticos; que
o dito governo promova válidos programas de intercâmbio cultural
com as nações africanas;
6. Este colóquio recomenda que o governo do brasil estude e formule
compensações aos afro-brasileiros pelos séculos de escravização
criminosa e decênios de discriminação racial depois da abolição;
para esse fim se deverá drenar recursos financeiros e outros,
compulsoriamente originados da Agricultura, do Comércio e da
Indústria, setores que historicamente têm sido beneficiados com a
exploração do povo negro. Tais recursos constituirão um fundo
destinado à construção de moradias, que satisfaçam às exigências da
condição humana, em substituição às atuais habitações segregadas
onde vive a maioria dos afro-brasileiros: favelas, cortiços,
mocambos, porões, cabeças-de-porco, e assim por diante. O fundo
sustentaria também a distribuição de terras no interior do país para
os negros engajados na produção agropecuária;
7. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro remova os objetos
da arte afro-brasileira assim como os de sentido ritual encontrados
hoje em instituições de polícia, de psiquiatria, história e etnografia; e
que o dito governo estabeleça museus de arte com finalidade
dinâmica e pedagógica de valorização e respeito devidos à cultura
afro-brasileira; de preferência, tais museus se localizariam nos
estados com significativa população negra, tais como Bahia,
Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São
Paulo, Sergipe, Rio Grande do Sul;
8. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro conceda efetivo
apoio, material e financeiro, à existentes e futuras associações afro-
brasileiras com finalidade de pesquisa, informação e divulgação nos
setores de educação, arte, cultura e posição socioeconômica da
população afro-brasileira.
9. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro tome medidas
rigorosas e apropriadas para o efetivo cumprimento da lei Afonso
Arinos, fazendo cessar o papel burlesco que tem desempenhado até
agora;
10. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro tome ativas
providências, ajuste as realidades do país, para que de nenhuma
forma se permita ou possibilite a discriminação racial ou de cor no
emprego, garantindo a igualdade de oportunidade que atualmente
inexiste entre brancos, negros e outras nuanças étnicas.
11. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro exerça seu poder
através de uma justa política de redistribuição da renda, tornando
impraticável que, por causa da profunda desigualdade econômica
imperante, o afro-brasileiro seja discriminado, embora sutil e
indiretamente, em qualquer nível do sistema educativo, seja o
elementar, o médio ou o universitário.
12. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro estimule
ativamente o ingresso de negros no Instituto Rio Branco, órgão de
formação de diplomatas pertencente ao Ministério de Relações
Exteriores.
13. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro nomeie negros
para o cargo de embaixador e diplomata para as Nações Unidas e
junto aos Governos de outros países do mundo.
14. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro estimule a
formação de negros como oficiais superiores das Forças Armadas
(Exército, Marinha e Aeronáutica) com promoções no serviço ativo
até os postos de general, almirante, brigadeiro e marechal.
15. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro nomeie negros
para os altos escalões do Governo Federal em seus vários
ministérios e outras repartições do Executivo, incluindo órgãos
superiores como o Conselho Federal de Cultura, o Conselho Federal
de Educação, o Conselho de Segurança Nacional, o Tribunal de
Contas.
16. Este colóquio recomenda que o governo Brasileiro estimule e
encoraje a formação e o desenvolvimento de uma liderança política
negra, representando os interesses específicos da população afro-
brasileira no Senado Federal, na Câmara dos Deputados, nas
Assembleias Legislativas Estaduais e nas Câmaras Municipais; que
o dito governo nomeie negros para os cargos de juizes estaduais e
federais, inclusive para o Supremo Tribunal Federal, Superior
Tribunal Eleitoral, Superior Tribunal Militar, Superior Tribunal do
Trabalho e o Tribunal Federal de Recursos.
17. Este colóquio recomenda que o governo brasileiro concretize sua tão
proclamada “amizade” com a África independente e sua tão
frequentemente manifestada posição anticolonialista, dando efetivo
apoio diplomático e material aos legítimos movimentos de libertação
nacional de Zimbabwe, Namíbia e África do Sul.
Universidade de Ifé
Ilé-Ifé, Nigéria, 15 de novembro de 1976